terça-feira, 28 de abril de 2009

Impressões e ideias

"Hume utiliza o termo ‘percepção’ para referir quaisquer conteúdos da mente (…). As percepções ocorrem quando o indivíduo observa, sente, recorda, sente, recorda, imagina, e assim por diante, sendo que o uso actual da palavra cobre um leque muito menos vasto de actividades mentais. Para Hume, existem dois tipos básicos de percepções: impressões e ideias.

impressão táctil mão a tocar bolo

As impressões constituem as experiências obtidas quando o indivíduo observa, sente, ama, odeia, deseja ou tem vontade de algo. Hume descreve este tipo de percepções como sendo mais ‘vívido’ do que as ideias, termo com que o filósofo parece querer afirmar que as impressões são mais claras e mais pormenorizadas do que as ideias. As ideias, por sua vez, são cópias das impressões. Trata-se dos objectos do pensamento humano quando os indivíduos recordam a sua experiência ou exercitam a sua imaginação. [Como se verá, no primeiro caso são ideias simples e no segundo são ideias complexas.]

Assim sendo, neste preciso momento, por exemplo, tenho uma impressão da minha caneta a movimentar-se pela página e de ouvir alguém a virar as páginas de um livro, atrás de mim, na biblioteca. Tenho, ainda, uma impressão da textura do papel a tocar na minha mão. Estas experiências sensoriais são vívidas (…). Mais tarde, enquanto estiver a escrever estas linhas no meu computador, lembrar-me-ei, sem dúvida, deste momento e recordarei as minhas impressões. Nessa altura, estarei a ter ideias e não impressões, ideias que não serão marcadas pela mesma vividez (ou vivacidade) que caracteriza as impressões que estou a sentir neste momento e das quais as ideias serão cópias.

(…) Segundo Hume, não existem ideias inatas, todas as ideias humanas são cópias de impressões. Por outras palavras, é impossível aos seres humanos ter uma ideia de algo que não tenham primeiro experimentado enquanto impressão.3 sereias

Como lidaria, então, Hume com a capacidade de um indivíduo imaginar uma montanha dourada [ou uma sereia] embora nunca tenha visto uma e, logo, nunca tenha tido a impressão de uma? A resposta baseia-se numa distinção entre ideias simples e ideias complexas. As ideias simples derivam [directamente] das impressões. (…) As ideias complexas são combinações de ideias simples. Deste modo, a ideia de uma montanha dourada nada mais é do que uma ideia complexa composta pelas ideias mais simples de ‘montanha’ e de ‘dourado’. E estas ideias simples derivam, em última análise, da experiência tida pelo indivíduo de montanhas e de objectos dourados.”

Nigel Warburton, “Grandes livros de filosofia”, Edições 70, Lisboa, 2001, pp. 98-99.

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