quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

A verdade, segundo Fernando Pessoa

Relatividade, de M. C. Escher


«Quantas coisas, que temos por certas ou justas, não são mais que os vestígios dos nossos sonhos, o sonambulismo da nossa incompreensão! Sabe acaso alguém o que é certo ou justo? Quantas coisas, que temos por belas, não são mais que o uso da época, a ficção do lugar e da hora? Quantas coisas, que temos por nossas, não são mais que aquilo de que somos perfeitos espelhos, ou invólucros transparentes, alheios no sangue à raça da sua natureza!
Quanto mais medito na capacidade, que temos, de nos enganar mais se me esvai entre os dedos lassos a areia fina das certezas desfeitas. (…)
Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de porque se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Ambos tinham toda a razão. Não era que um via uma coisa e o outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exatamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão.
Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.»

Fernando Pessoa [Bernardo Soares], Livro do Desassossego.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Amo a filosofia porque…

Mão com Esfera, de M. C. Escher (1935)

«A matemática não faz parte do mundo físico; faz parte da nossa representação da realidade. É um facto epistemicamente e ontologicamente objetivo que tenho cinco dedos nesta mão e cinco dedos nesta outra. Mas então surge a questão, o que é o cinco? Todos sabemos o que é um dedo, mas o que é o cinco? Amo a filosofia porque só em filosofia se permite que façamos perguntas como esta.»

John R. Searle, Da Realidade Física à Realidade Humana, Gradiva, Lisboa, 2020, pág. 44.

Desenho: Mão com Esfera, de M. C. Escher (1935).


segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

O medo é inimigo do pensamento

fake news André Carrilho

“Quando temos medo, não vemos com clareza. (…) O pensamento crítico é sempre difícil, mas é quase impossível quando estamos assustados. Não existe espaço para os factos quando a nossa mente está ocupada pelo medo.”

Hans Rosling (com Anna Rosling Rönnlund e Ola Rosling),

Factfulness - Dez razões pelas quais estamos errados acerca do mundo — e por que as coisas estão melhor do que pensamos,

Temas e Debates, Lisboa, 2019, pág. 113.

Cartoon de André Carrilho.


sábado, 5 de dezembro de 2020

Um filósofo que também viveu

Fotografia de Wolfgang Suschitzky Bertrand Russell discursando em 1962 (Committee of 100, ban-the-bomb movement)


«Bertrand Russell teve uma vida longa [1872-1970], e dedicou-se a muitíssimo mais do que a lógica e a filosofia, sendo por duas vezes candidato ao parlamento (em apoio do sufrágio feminino) e tendo feito campanhas a favor da paz e do desarmamento, tanto na Primeira Guerra Mundial, como nas últimas duas décadas de vida. Escreveu livros técnicos, mas também “populares”, fundou e durante um tempo dirigiu uma escola, foi colunista de um jornal durante vários anos, e ganhou o prémio Nobel da Literatura. A sua vida foi surpreendentemente ativa e vigorosa, sempre em defesa de causas liberais progressistas, e também radiante, devido à perspicácia, clareza e acuidade do seu espírito. 
Foi também, e por consequência, uma vida de controvérsia. O Trinity College de Cambridge tirou-lhe o emprego para o castigar devido à sua oposição à Primeira Guerra Mundial, e as suas atividades contra a guerra tiveram como resultado a prisão, tanto nessa altura como na última década de vida, neste caso devido à sua oposição às armas nucleares. Cedo na vida fez campanha a favor de perspetivas sensatas acerca do divórcio e da educação sexual; mais tarde, fez campanha contra a guerra do Vietname. Na verdade, quanto mais velho mais radical se tornava. Nos primeiros tempos de vida, era pedante (e dizia alegremente que o tinha sido), uma maneira de ser que herdara da avó austeramente moralista que o criou – a condessa Russell, viúva do antigo primeiro-ministro, conde Russell. A experiência libertou-lhe as atitudes. Casou várias vezes, e um dos seus livros mais controversos, Casamento e Moral, fez-lhe perder um emprego em Nova Iorque, em resultado de uma campanha de moralistas indignados – deixando-o quase indigente - , e quinze anos mais tarde valeu-lhe o prémio Nobel. Quando lhe foi atribuída a Ordem de Mérito, que é a distinção mais elevada possível no sistema britânico de honras, o rei Jorge VI disse-lhe, aquando da cerimónia: “Comportou-se de maneira que não seria de adotar em geral.” Ao que Russell respondeu que o que se faz depende do que se é: veja-se a diferença entre um carteiro e um rapaz traquina que toca a todas as campainhas da rua. O rei ficou sem resposta.»

A. C. Grayling, Uma História da Filosofia, Edições 70, Lisboa, 2020, pp. 399-400. 

Fotografia de Wolfgang Suschitzky: 

Bertrand Russell discursando em 1962 (Committee of 100, ban-the-bomb movement).


quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

O divino em nós

Dorothea Lange: Girl, Western Ireland (1954).

«Tal é a raça humana. De quantos animais conhecemos, é o único que tem uma parte de divino, pelo menos mais que os outros. Por consequência, devido a esse motivo, e porque a forma das suas partes externas é a mais bem conhecida, dele falaremos em primeiro lugar. Para começar, é o único que tem as partes naturais dispostas segundo a natureza: a parte superior está voltada para o cimo do universo, pois ele é o único ser ereto entre todos os animais.»

Aristóteles, As Partes dos Animais, 656 a, 

In Maria Helena da Rocha Pereira, Hélade, antologia da cultura grega, 5ª Edição, Coimbra, 1990, pp. 430-431.

Dorothea Lange: Girl, Western Ireland (1954).

domingo, 29 de novembro de 2020

Dois Humes

Roger Scruton, Breve História da Filosofia Moderna
«Podemos ler Hume de duas maneiras. Na primeira, vendo-o como um cético que defende, a partir de premissas empiristas, a ideia de que as convicções comuns quanto à possibilidade do conhecimento são indefensáveis. Na segunda, como o proponente da “filosofia natural” do homem, partindo de observações empíricas sobre a mente humana para concluir que esta foi inadequadamente compreendida pelos metafísicos. As duas leituras não são incompatíveis (…).
O “naturalismo” de Hume é newtoniano: Hume procura construir uma ciência da mente sem se basear em pressupostos infundados e apoiando-se apenas na observação. Percebemos implicitamente que rejeita as teorias dos metafísicos por não encontrar fundamento para elas. Ao mesmo tempo não gostava de passar por cético radical, pois o ceticismo radical é contranatura. Hume é um cético apenas naquela vertente moderada defendida no passado na Academia de Platão – um cético que procura refrear as pretensões da razão humana e recordar-nos da nossa natureza de seres passionais e governados pelo costume. Desse modo, quando chega a uma conclusão cética, Hume tende a dar um passo atrás, informando o leitor de que está apenas a discutir as operações da mente humana e não a criticar as crenças que espontaneamente surgem em nós. Contudo, o seu estilo irónico, e o quase impercetível piscar de olhos quando propõe as suas “soluções céticas” tornam difícil ter certezas quanto às suas intenções.» 

Roger Scruton, Breve História da Filosofia Moderna, Guerra & Paz, Lisboa, 2010, pág. 160.