sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009

Terá o determinista radical razão?

Fotografia do filme cinema Paraiso

(Fotografia do filme de Guiseppe Tornatore “Cinema Paraíso”.)

Determinista [radical]: Que sera sera. O que tiver de ser será. A vida é como um filme. Somos as criaturas que aparecem no ecrã. Pensamos que temos vontade própria. Afinal, estamos apenas a dar forma a acontecimentos predeterminados.”

Será mesmo assim?

Que objecções  podemos apresentar ao determinista radical?

Nota: A citação foi retirada do livro Ah, apanhei-te de Martin Gardner, Editora Gradiva, pág. 239.

quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009

Matriz do 2º teste de Filosofia do 10º ano (turmas B, D, E e F)

 Matriz 2º teste Filosofia 10º C09

Tema: Lógica – os instrumentos da actividade filosófica.

Dois exemplos de argumentos falaciosos a não seguir

Bandas desenhadas retiradas dos álbuns do FoxTrot de Bill Amend

terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

Matriz do 2º teste de Filosofia do 10º ano (turmas A e C)

Temas: Os instrumentos lógicos da actividade filosófica. O que é a Filosofia? – uma resposta inicial. O problema do livre-arbítrio.

Matriz do 2º teste do 10º ano s 09 10

domingo, 29 de Novembro de 2009

Elogios

Um elogio ao Dúvida Metódica, no muito elogiável O Livro de Areia.
Para comprovar, eis uma das excelentes sugestões musicais que o leitor poderá encontrar ao remexer na areia e virar as suas páginas:


(Excerto de String Quartet for Two Violins, Tenor and Bass, de John Marsh, 1784.)

sábado, 28 de Novembro de 2009

Matriz do 2º teste de Filosofia do 11º ano (turmas B, C e G)

Temas:  Lógica proposicional clássica. Argumentos cogentes e falácias informais.

Matriz do 2º teste do 11º ano 09 10 S

quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

Qual é a falácia?

lucro ou ambiente

Qual é a falácia? Porquê?

terça-feira, 24 de Novembro de 2009

Mais maravilhas do mundo de Alice: quando é que um argumento é cogente?

alice e o gato

(Este desenho é de Sir John Tenniel, autor das ilustrações que fizeram  parte da edição original.)

“- Que espécie de gente vive por aqui?

- Naquela direcção – disse o Gato, levantando a pata direita – vive um Chapeleiro, e naquela, uma Lebre de Março. Vai visitar o que quiseres, são ambos loucos.

- Mas eu não quero estar ao pé de gente louca – respondeu a Alice.

- Oh, não podes evitá-lo – disse o Gato. – Aqui todos são loucos. Eu sou louco. Tu és louca.

- Como é que sabes que sou louca? Perguntou a Alice.

- Tens de ser, de outro modo não estarias aqui.

Alice não achava que isso provasse coisa nenhuma (…).”

Lewis Carroll, Alice no país das maravilhas, tradução de Maria Filomena Duarte, Edições D. Quixote, Lisboa, 1988, págs. 66-67.

O argumento dedutivo presente no diálogo entre a Alice e o Gato pode ser formulado do seguinte modo: Todos os que estão aqui são loucos. Tu estás aqui. Logo, tu és louca.

Trata-se de um argumento dedutivo válido do ponto de vista formal, pois se admitirmos, por hipótese, a verdade das premissas, a conclusão que delas se extrai será necessariamente verdadeira.

Todavia, apesar de existir um nexo lógico entre premissas e conclusão, Alice considera que o argumento do Gato não prova nada.

Esse argumento é válido do ponto de vista formal. Mas será sólido? E cogente?

Nota: Em virtude do comentário do leitor Aires de Almeida - a quem agradeço - alterei o terceiro parágrafo do texto (que pode ser lido na caixa de comentários, bem como as razões da alteração introduzida).

domingo, 22 de Novembro de 2009

Os relógios loucos de Carroll

relógio

(A imagem foi tirada daqui.)

O matemático, Martin Gardner, no seu livro Ah, apanhei-te! (edições Gradiva) refere um paradoxo, formulado pelo autor da Alice no País das Maravilhas, chamado 'os relógios loucos de Carroll'.

Qual dos relógios regista o tempo mais fielmente? Um que se atrasa um minuto por dia ou um que não funciona?”

Lewis Carroll argumentou da seguinte maneira:

- o relógio que se atrasa um minuto por dia dá a hora exacta de dois em dois anos. O relógio parado está certo duas vezes em cada vinte e quatro horas. Por isso, o relógio parado regista melhor o tempo. Concorda?

Como determinou Carroll quantas vezes o relógio atrasado dava a hora certa?”

Uma explicação importante do autor do livro referido: “A palavra paradoxo possui diversos significados, mas uso-a aqui em sentido lato para designar quaisquer efeitos de tal modo em contradição com o senso comum e a intuição que provocam uma reacção imediata de surpresa e perplexidade.”

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

Em 2010: diversão, Lógica e Matemática

O autor do livro Alice no país das maravilhas, Lewis Carroll, chamava-se na verdade Charles Lutwidge Dodgson (1832-1898) e escreveu vários livros de matemática, por exemplo: Guia da Geometria Algébrica Elementar e As fórmulas da Trignometria elementar.

Eis uma sugestiva passagem do livro Alice no país das maravilhas:

« – Precisas de cortar o cabelo – disse o Chapeleiro.

Estivera a observar Alice com grande curiosidade e foi esta a primeira vez que falou.

- Devias aprender a não fazer comentários pessoais – disse a Alice com alguma severidade. – É uma grande falta de educação.

Ao ouvir isto, o Chapeleiro abriu muito os olhos, mas tudo o que disse foi:

Em que se parece um corvo e uma secretária?

“Finalmente vamos divertir-nos!” pensou a Alice. “Ainda bem que eles começaram a dizer adivinhas.”

- Queres saber qual é a resposta? - perguntou a Lebre de Março.

- Exactamente isso – disse a Alice.

- Nesse caso, deves explicar-te quando falas – continuou a Lebre de Março.

- É o que eu faço – apressou-se a responder a Alice. – Pelo menos, quando falo explico-me… É a mesma coisa…

-Não é a mesma coisa! – ripostou o Chapeleiro. – Podes muito bem dizer “Eu vejo o que como”, que não é a mesma coisa que “Eu como o que vejo”.

- Podias muito bem dizer “Eu gosto do que tenho”, que não é a mesma coisa que “Eu tenho o que gosto” – acrescentou a lebre de Março.»

As palavras trocadas entre a Alice e o Chapeleiro, no final deste diálogo, poderão ser explicadas a partir de algumas noções de Lógica dadas nas aulas. Mas para quem tiver curiosidade há mais…

Nota: A citação foi retirada do livro Alice no país das maravilhas, tradução de Maria Filomena Duarte, Edições D. Quixote, Lisboa, 1988, págs. 70-71.

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

Dias Mundiais disto e daquilo, incluindo da Filosofia

No próximo dia 19 de Novembro será o Dia Mundial da Filosofia. O objectivo é pôr toda a gente a pensar até ficarem com dor de cabeça.

Claro que a última parte da frase é uma brincadeira, pois filosofar não provoca dores de cabeça. Antes pelo contrário!

Como é sabido, há Dias Mundiais das mais diversas coisas. O Dúvida Metódica quer, no entanto, destacar dois deles:

O Dia Mundial da Erradicação da Fome, no próximo dia 31 de Novembro.

O Dia Mundial da Paz Mundial, no próximo dia 30 de Fevereiro.

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

A democracia pode estar a caminho de desaparecer?

Democracy1

“Os historiadores do futuro podem vir a determinar que a democracia terá sido um episódio de apenas um século. Esta é uma ideia (ou, talvez melhor, um prognóstico) triste, verdadeiramente perigosa, mas muito realista.”

Esta ideia será mesmo realista? Porquê?

Nota: A citação foi retirada do livro Grandes ideias perigosas, coordenação de John Brockman, da editora Tinta da China, Lisboa, 2008, pág. 348.

sábado, 14 de Novembro de 2009

A opinião da maioria

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Alegoria da Caverna: um desafio aos alunos do 11º ano

sombras (Fotografia encontrada na Internet, sem indicação do autor)

No primeiro dia de aulas deste ano lectivo, alguns dos meus alunos do 10º ano perguntaram-me se iríamos estudar a alegoria da caverna de Platão. Explicaram-me, então, que outros colegas (agora no 11º ano) lhes haviam falado das ideias defendidas nesse texto e isso lhes tinha parecido muito interessante.

Esta atitude, não muito vulgar em alunos do 10º ano, fez-me pensar que a motivação e a curiosidade suscitadas se deveram, talvez, à clareza das explicações e ao entusiasmo com que foram apresentadas pelos seus colegas do 11º.

Decidi, na altura, que antes de iniciar o estudo do texto de Platão (que será na próxima semana) solicitaria aos alunos - actualmente no 11º ano - a colaboração para explicarem aos colegas, de uma forma simples e motivadora, quais os problemas filosóficos abordados por Platão na alegoria da caverna e se podemos ganhar algo com a reflexão e discussão acerca deles.

Fica o desafio.

Para o aceitar não é necessário ser atrevido, basta pensar! E depois escrever um comentário aqui no Dúvida Metódica, neste post.

 

Nota: Podem escrever o comentário no Word e depois copiar e colar na caixa de comentários.

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Da vaidade das palavras

«Um retórico do passado dizia que o seu ofício era fazer que as coisas pequenas parecessem grandes e como tal fossem julgadas.

(…) Arquidamo (…) não terá ouvido sem espanto a resposta de Tucídides, ao qual perguntara quem era mais forte na luta, se Péricles, se ele: “Isso será difícil de verificar, pois quando o deito por terra, ele convence os espectadores que não caiu, e ganha”.

Os que, com os cosméticos, caracterizam e pintam as mulheres fazem menos mal, pois é coisa de pouca perda não as ver ao natural, ao passo que estes outros fazem tenção de enganar, não já os olhos mas o nosso juízo, e de abastardar e corromper a essência das coisas.»

Montaigne, Ensaios, antologia, tradução de Rui Bertrand Romão, Relógio de Água Editores, Lisboa, 1998, pág. 147.

domingo, 8 de Novembro de 2009

Uma reflexão filosófica sobre a morte voluntária

Press%20Améry[1]

Informação recebida do tradutor Pedro Panarra.

Novo blogue de Filosofia

Aires Almeida criou um blogue de Filosofia chamado questões básicas.  Destina-se prioritariamente  aos seus alunos da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, mas está aberto a todos os interessados. Apesar de ter apenas dois ou três dias de vida já tem posts e comentários interessantes e merecedores de atenção. Votos de boa sorte!

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Isto é um homem?

agimSulaj Albania, Maio 2009

Primo Levi, um judeu italiano deportado durante a Segunda Guerra Mundial para um campo de concentração alemão, descreveu e reflectiu, no livro Se isto é um homem, acerca do que acontece quando se submete os seres humanos a uma situação de fome e de sofrimento extremo:

“Fechem-se entre arames farpados milhares de indivíduos diferentes em idade, condição, origem, língua, cultura e hábitos, e obriguem-se, nesse lugar, a um regime de vida constante, controlável idêntico para todos e abaixo de todas as necessidades (…).

Não acreditamos na dedução mais fácil e óbvia: que o homem é fundamentalmente brutal, egoísta e estulto na sua maneira de actuar, quando todas as superestruturas civis lhe são tiradas (…). Julgamos pelo contrário, que, em relação a isso, nada se pode concluir, a não ser que diante das carências e do mal-estar físicos obsessivos, muitos hábitos e muitos instintos sociais ficam completamente silenciados.

(…) aqui a luta para sobreviver é sem remissão, porque cada um está desesperada e ferozmente só.”

É discutível se aquilo que os seres humanos adquirem ao longo do processo de socialização (nomeadamente algumas normas morais como não roubar, não mentir, não matar…) é um verniz que estala facilmente em situações de fome e medo, tornando impossível o altruísmo. Filósofos com uma visão pessimista da natureza humana, como Thomas Hobbes, pressupõem que sim. Outros, pelo contrário, defendem uma perspectiva mais optimista e consideram que não.

Seja como for, tal como mostra Primo Levi ao longo deste livro, há aqueles que se transformam em “animal-homem” (talvez a maioria) e outros cuja humanidade permanece intacta, mantendo a capacidade de praticar acções sem esperar nada em troca: fazer o bem pelo bem.

A propósito deste livro pode ler também aqui.

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

O mundo do homem feliz e o do homem infeliz serão diferentes?

Angel-Boligan-Mexico 2009

A forma como cada um de nós percepciona a realidade pode ser influenciada por diversos factores. Por exemplo: os conhecimentos anteriores, as experiências anteriores, a personalidade, a educação e as emoções.

Em relação ao papel desempenhado por estas últimas, Wittgenstein refere que “o mundo dum homem feliz é diferente do dum homem infeliz”. Mas será mesmo assim?

Terá este factor um peso tão decisivo? Se assim fosse como seria possível um conhecimento objectivo do mundo?

Nota: A citação foi retirada do Tratado Lógico-filosófico, Ed. Fundação Calouste Gulbenkian, tradução de M.S. Lourenço, Lisboa, 1987, pág.139.

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Onde está a conclusão?

Num argumento, palavras e expressões como “Pois” e “Dado que” normalmente indicam que a frase a seguir apresentada é uma premissa. Palavras e expressões como “Logo” e “Por conseguinte” normalmente indicam que a frase a seguir apresentada é a conclusão.

No entanto, a análise de argumentos não é uma tarefa automática que se possa fazer seguindo uma receita. É preciso pensar. No post “O que é um argumento?” foram analisadas diversas situações que demonstram essa necessidade de pensar quando se analisam argumentos e se tentam identificar as premissas e a conclusão. Eis outra situação.

winnie-the-pooh-beautiful-day As palavras e expressões que habitualmente funcionam como indicadores de premissa ou de conclusão podem, em certos contextos, ter outros sentidos.

Considere a esse respeito o seguinte argumento (que é apresentado de modo colectivo por várias personagens do livro infantil “Olha antes de saltar”, da série Winnie the Pooh, numa tentativa de convencer outra personagem a ser mais cuidadosa):

“- Tigre, deves ser mais cuidadoso quando andas a saltar e a pular pela floresta – disse o Coelho.
- Se caíres em cima de uma tartaruga ela esconde-se na carapaça – disse o Winnie.
- Se assustares uma doninha ela deita-te aquele líquido malcheiroso – acrescentou o Piglet.
- E se pisares um cardo magoas-te na pata – concluiu o Igor. Além disso, podes estragar o meu jantar.”

O narrador diz “concluiu o Igor”, mas isso não significa que o Igor tenha apresentado a conclusão do argumento desenvolvido pelas personagens. A conclusão foi apresentada pelo Coelho e é: “deves ser mais cuidadoso quando andas a saltar e a pular pela floresta”. Naquele contexto, dizer “concluiu o Igor” significa apenas que ele foi o último a falar – e ao fazê-lo apresentou duas razões a favor da conclusão e não a conclusão.

Outro exemplo. A palavra “Então” é um indicador de conclusão e pode em qualquer argumento substituir o “Logo” ou o “Portanto” sem alteração de sentido. Todavia, essa palavra surge em imensos argumentos sem ter a função de indicador de conclusão: é o caso dos argumentos que incluem proposições condicionais. Considere a esse respeito o seguinte argumento: "Se a liberdade de expressão é um direito dos cidadãos, então não deve existir censura. Ora, a liberdade de expressão é de facto um direito dos cidadãos. Logo, não deve existir censura.” Como é evidente, a conclusão do argumento é a frase que se encontra a seguir à palavra “Logo” e não a frase que se encontra a seguir à palavra “então” (que é a consequente da proposição condicional que constitui a primeira premissa do argumento – um Modus Ponens ou Afirmação do Antecedente).

Assim, para percebermos se, num argumento, uma frase é uma premissa ou uma conclusão temos de avaliar as relações entre as ideias (ou proposições) expressas por essa e pelas outras frases. Uma frase não é uma conclusão simplesmente porque é antecedida por uma palavra que normalmente funciona como indicador de conclusão, mas sim porque expressa ideias que – pretende o argumento – derivam das ideias que servem de premissas.

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

For sentimental reasons

O vídeo diz John Coltrane, mas devia dizer John Coltrane e Johnny Hartman. Saxofone e voz, respectivamente. Algumas imagens do vídeo são pirosas, mas na canção tudo é belo, a começar pelo título: "My one and only love".

Como as razões sentimentais são estritamente pessoais, o leitor do Dúvida Metódica fará o favor de – apenas desta vez - não perguntar “porquê?” e de se limitar a apreciar a beleza da música.

Mas, pensando bem, será verdade que as razões sentimentais são assim tão pessoais?

Entimema: conceito e exemplos

Um entimema é um argumento que contém pelo menos uma premissa não formulada, habitualmente designada por premissa implícita. Pode-se também dizer que se trata de uma premissa subentendida ou oculta. Por exemplo: no argumento “o Heitor é advogado, logo o Heitor tem formação universitária” a premissa implícita é “os advogados têm formação universitária”. Sem esta premissa o argumento não seria válido. (Há entimemas que continuam a ser argumentos inválidos mesmo após a explicitação das premissas subentendidas, pois encerram outras incorrecções.)

No dia-a-dia os entimemas são muito frequentes. Habitualmente, o que leva alguém a não explicitar todas as premissas de um argumento é o facto de considerar que se trata de algo tão óbvio que seria monótono e inútil fazer essa explicitação. Quem está por dentro do contexto em que decorre a argumentação em causa normalmente percebe quais são as ideias subentendidas.

Contudo, o que para uma pessoa é óbvio nem sempre é óbvio para as outras. Como isso pode suscitar confusões e incompreensões (nomeadamente na discussão de assuntos polémicos como sucede com a generalidade dos problemas filosóficos), é aconselhável explicitar as premissas implícitas. Essa explicitação torna os argumentos mais claros. Assim, “Descobrir as premissas implícitas das nossas ideias ou das ideias dos filósofos é uma parte importante do trabalho filosófico.” (Dicionário Escolar de Filosofia)

Lemon limão Exemplo de um entimema.

Há anos atrás eu e um amigo íamos a percorrer uma avenida de Lisboa (Av. Almirante Reis) quando vimos um homem a comprar um limão. Disse imediatamente ao meu amigo, como se fosse uma enorme evidência: “Ele está a comprar um limão, logo é drogado”. Como o meu amigo duvidou da conclusão (achando que o facto de uma pessoa comprar um limão não é razão suficiente para concluirmos que é drogada), vi-me obrigado a explicitar as várias razões (premissas) que não tinha formulado por as achar óbvias. Ei-las:

  • Normalmente as pessoas compram mais do que um limão, mas não seria prático um toxicodependente fazer isso.
  • O sumo de limão costuma ser usado para preparar doses de heroína.
  • Aquele indivíduo tinha um certo ar pálido e macilento que caracteriza muitos toxicodependentes.
  • Aquela zona era um lugar de passagem quase contínua de toxicodependentes que iam comprar droga ao bairro da Curraleira (que na época era uma conhecida zona de tráfico).

Perante essas razões adicionais que explicitei, o meu amigo ficou convencido: “Deves ter razão”.

No entanto, mesmo reforçada com essas razões a conclusão é apenas uma consequência provável (e não necessária) das premissas – como é característico dos argumentos não dedutivos.

Embora isso não fosse provável, podia suceder que as premissas fossem todas verdadeiras e a conclusão falsa. Por exemplo: o facto de só comprar um limão podia explicar-se pela circunstância de partir de férias no dia seguinte e não querer deixar em casa produtos perecíveis; o ar pálido e macilento podia dever-se a uma doença qualquer; etc.

domingo, 1 de Novembro de 2009

Métodos antiquados

Por muitas modernices tecnológicas que surjam na educação (blogues, por exemplo), há coisas que nunca mudam. Corrigir testes é uma delas, pois é algo que tem de ser feito da mesma maneira antiquada de sempre: com as mãos, os olhos e o cérebro. (A audição de boa música durante a correcção é uma "exigência" da actividade deste último: a mente.)

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

O que pode justificar o reconhecimento de direitos aos animais?


video

As qualidades que os seres humanos atribuem a alguns animais não humanos (a fidelidade dos cães, a beleza dos tigres, etc.) serão relevantes no que diz respeito ao reconhecimento dos seus direitos? Em caso afirmativo, significará isso que os animais que, por exemplo, não são fiéis nem belos, não têm direitos ou têm menos direitos que os outros?

Ou, pelo contrário, o reconhecimento de direitos aos animais não humanos deve ser feito independentemente da sua eventual relação com os seres humanos?

Estas questões pressupõem que se deve reconhecer direitos aos animais, mas será que se deve? Porquê?

Nota: Agradeço ao meu colega Luís Santos o envio do video.

O que é um argumento?


“Um argumento é um conjunto de proposições que utilizamos para justificar (provar, dar razão, suportar) algo. A proposição que queremos justificar tem o nome de conclusão; as proposições que pretendem apoiar a conclusão ou a justificam têm o nome de premissas.” (António Padrão, “Algumas noções de lógica”, www.criticanarede.com)

As premissas são as informações, os dados que à partida temos sobre um problema; a conclusão é uma consequência que, ao raciocinar, tiramos. Assim, a conclusão corresponde à nossa opinião sobre o problema, à nossa tese e as premissas são a maneira que temos de justificar a conclusão a que chegámos.

Um argumento possui uma conclusão e uma ou várias premissas.

Os argumentos são conjuntos de proposições, mas nem todos os conjuntos de proposições são argumentos. Um argumento é mais do que uma lista de proposições. Para se tratar de um argumento as proposições têm de estar organizadas de um modo tal que uma delas (a conclusão) se apresente como a consequência das outras (as premissas). Dito por outras palavras: as premissas devem apresentar-se como uma justificação ou apoio da conclusão. Essa relação existe no exemplo A mas não no B. Por isso, este não é um argumento.

Exemplo A: Hoje estou cansado e, dado que amanhã tenho muito que fazer, devo descansar. Por isso, não irei ao cinema.

Exemplo B: A Cecília é simpática e vive em Loulé. Além disso, a Cecília quer ir para a Universidade.

A expressão “Por isso” (usada em A) é um indicador de conclusão. Normalmente diz-nos que a frase a seguir apresentada constitui a conclusão. Há outras palavras e expressões que também têm esse papel: “Logo”, “Portanto”, “Consequentemente”, etc.

A expressão “dado que” (usada em A) é um indicador de premissa. Normalmente diz-nos que a frase a seguir apresentada constitui uma premissa. Há outras palavras e expressões que também têm esse papel: “Pois”, “Porque”, “Devido a”, etc.

Uma vez que num argumento a conclusão é uma consequência das premissas, a forma mais clara e explícita (a forma padrão ou a expressão canónica, como dizem os lógicos) de apresentar o argumento é apresentar primeiro as premissas e depois a conclusão – antepondo-lhe a palavra “Logo” para não restarem quaisquer dúvidas.

Todavia, no dia-a-dia as pessoas pensam e falam de modo mais livre e espontâneo e habitualmente não usam a expressão canónica dos lógicos. Assim, além dos argumentos em que a conclusão surge no final, podem-se encontrar argumentos em que a conclusão surge no início ou mesmo no meio.

Exemplo C: Todos os cidadãos com direito de voto devem votar, pois só votando poderão ter uma palavra a dizer nas decisões políticas. Ora, numa democracia os cidadãos devem ter uma palavra a dizer nas decisões políticas.

Exemplo D: Ler livros estimula a inteligência e melhora a capacidade de expressão, como tal deves ler livros. Além disso, os livros não são caros.

No exemplo C a conclusão é “Todos os cidadãos com direito de voto devem votar” e no exemplo D é “deves ler livros”. O que conta para uma frase ser a conclusão de um argumento não é a posição que nele ocupa, mas a relação que tem com as outras frases. As frases referidas constituem a conclusão dos seus argumentos pois derivam das outras frases, são consequências delas e são por elas justificadas.

No dia-a-dia também é frequente surgirem argumentos em que não existem indicadores de premissa nem de conclusão. É o que sucede no exemplo E, a seguir apresentado. A sua conclusão é “As guerras deviam acabar”, pelas razões referidas no parágrafo anterior.

Exemplo E: As guerras deviam acabar. Numa guerra morrem sempre inocentes e a morte de inocentes é uma grande injustiça.

Outra situação frequente é surgirem argumentos contendo uma ou mais premissas ocultas (implícitas, subentendidas). Esses argumentos chamam-se entimemas. Como essas premissas omitidas podem dar origem a confusões, ao reescrever o argumento para o expressar de modo canónico devemos explicitar tais premissas. No exemplo F, a seguir apresentado, a premissa oculta é: “As coisas que violam os direitos humanos devem ser proibidas”. Note que, se essa ideia não fosse subentendida, não se conseguiria justificar a conclusão – que é “A mutilação genital feminina devia ser proibida”.

Exemplo F: A mutilação genital feminina devia ser proibida, porque constitui uma violação dos direitos humanos.

Aplique os seus conhecimentos.

a) Diga se os exemplos a seguir apresentados constituem ou não argumentos.
b) Caso sejam argumentos, diga qual é a conclusão.
c) Caso possuam premissas ocultas, explicite quais são.

1. “Estava um cão no estábulo e, apesar de alguém lá ter estado e ter levado para lá um cavalo, o cão não ladrou. É óbvio que o visitante era alguém que o cão conhecia bem.” Sherlock Holmes, em A Aventura de Silver Blaze, de Conan Doyle.

2. Não podemos permitir o aborto porque é o assassínio de um inocente.

3. «[Depois do terrível ataque efectuado pelos orcs e por um troll] Aragorn levantou Frodo, que estava caído junto da parede, e dirigiu-se para a escada, a empurrar Merry e Pippin à sua frente. Os outros seguiram-nos. Mas Gimli teve de ser arrastado por Legolas; apesar do perigo, o anão parara junto do túmulo de Balin [seu primo], de cabeça baixa. Boromir puxou a porta oriental, a ranger nos gonzos.» J.R.R. Tolkien, O Senhor dos Anéis – A Irmandade do Anel, Publicações Europa-América, pág. 374.

4. Sócrates não era um Deus. Com efeito, os deuses são imortais, ao passo que Sócrates não era imortal.

5. A interrupção voluntária da gravidez resulta da liberdade de escolha, que é um direito democrático. Como tal, não deve ser penalizada.

6. “Um protão é uma infinitésima parte de um átomo, que em si próprio já é também uma coisa insubstancial. Os protões são tão pequenos que a porção de tinta usada para pôr a pinta neste i pode conter qualquer coisa como 500 000 000 000 protões, mais que do que o número de segundos em meio milhão de anos.” [Bill Bryson, Breve História de Quase Tudo, Quetzal Editores, pág. 25]

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

2 sugestões para a nova ministra da educação

1. Mudar o programa de Filosofia.

A proposta de programa apresentada pelo Centro para o Ensino da Filosofia e pela Sociedade Portuguesa de Filosofia (em Julho de 2000) seria – eventualmente com algumas alterações – uma boa alternativa. (Encontra essa proposta aqui.)

2. Reintroduzir o exame nacional de Filosofia no 11º ano, mas desta vez com carácter obrigatório.

Para que a existência de um exame nacional obrigatório a Filosofia melhorasse a qualidade do ensino e da aprendizagem, e não constituísse um desastre no que diz respeito às classificações, seria necessário que o exame só se começasse a realizar quatro anos após a entrada em vigor do novo programa (para haver dois anos de treino, um no 10º e outro no 11º). Seria também indispensável que, entretanto, se realizassem acções de formação com qualidade científica e pedagógica para a generalidade dos professores de Filosofia.

Claro que, para isso ser realizável, seria necessário que as políticas educativas, contrariamente ao que tem sucedido até à data, fossem pensadas e planeadas - e não improvisadas em cima do joelho, ao sabor das sondagens e das mais variadas pressões.

domingo, 25 de Outubro de 2009

Proposições contraditórias: análise de exemplos

Qual é contradição

Ao observarmos as duas tiras deste cartoon detectamos uma contradição no discurso e no comportamento do indivíduo, supostamente, crente. A Lógica permite-nos explicar com exactidão porquê.

Numa lógica binária, as proposições expressas em frases declarativas com sentido podem ter apenas dois valores de verdade: o verdadeiro ou o falso. Vamos imaginar, a propósito do cartoon, duas proposições universais defensáveis pelo indivíduo crente e as respectivas proposições particulares opostas.

Poderíamos formular, por exemplo em relação à primeira tira, o seguinte par de proposições:

1) Nenhuma pessoa deve respeitar o ponto de vista dos outros sobre a religião (proposição universal negativa).

    Algumas pessoas devem respeitar o ponto de vista dos outros sobre a religião (proposição particular afirmativa).

Quanto à segunda tira:

2) Todas as pessoas devem respeitar o ponto de vista dos outros sobre a religião (proposição universal afirmativa).

     Algumas pessoas não devem respeitar o ponto de vista dos outros sobre a religião (proposição particular negativa).

Em ambos os pares de proposições se considerarmos verdadeiras as proposições universais, as proposições particulares - diferentes quanto à qualidade (uma é afirmativa outra negativa) e quantidade (uma é universal e a outra particular) - serão necessariamente falsas e vice-versa.

É logicamente impossível, em cada par, ambas as proposições serem verdadeiras ou falsas – chamam-se, por isso, a cada um destes pares proposições contraditórias. Sabendo o valor de verdade de uma delas, podemos concluir, com certeza, o valor da proposição oposta: se um dos elementos do par for verdadeiro o outro será falso e reciprocamente.

Aristóteles demonstrou que no caso das proposições com uma estrutura (ou forma lógica) semelhante a 1) e 2) podemos determinar, independentemente do assunto das frases em causa (do conteúdo), o valor de verdade de uma das proposições do par, conhecendo o valor de verdade da outra.

Assim sendo, uma pessoa crente ao defender a intolerância (na 1ª tira) em relação a quem tem um ponto de vista religioso diferente do seu, está a negar a tolerância ou o respeito pelo ponto de vista religioso de quem quer que seja, incluindo o dela própria. Logo, não faz sentido (é contraditório) pedir ao ateu (na 2ª tira) tolerância ou respeito para com a religião.

O modo como se contradiz uma proposição singular difere das universais. Estas últimas referem-se a todos os elementos de um dado conjunto (tal como expressam os quantificadores: todos e nenhum), as singulares afirmam que um indivíduo específico possui ou não um determinado predicado. Por isso, a contraditória é obtida, simplesmente, com a introdução da palavra não. Se é verdade que “Torquemada foi um religioso intolerante”, então é falso que “Torquemada não foi um religioso intolerante” e vice-versa.

Na lógica proposicional clássica, por P entende-se uma variável substituível por qualquer frase que designe uma proposição simples (uma ideia ou pensamento ao qual se possa atribuir o valor de verdadeiro ou falso), uma proposição contraditória obtém-se negando a proposição inicial (não P). A negação é um operador verofuncional que aplicado às frases simples (expressam uma proposição apenas) ou compostas (expressam mais do que uma proposição) permite obter proposições com valores lógicos diferentes:

- Se P for verdadeira, então não P é falsa. Por exemplo: se a proposição “A Inquisição existiu” é verdadeira, a proposição “A Inquisição não existiu” é necessariamente falsa e vice-versa.

- Se P for falso, então não P é verdadeira. Por exemplo: se a proposição “Torquemada não foi inquisidor” é falsa, a proposição “Não é verdade que Torquemada não foi inquisidor” (o que é logicamente equivalente a dizer que “Torquemada foi inquisidor”, pois trata-se de uma dupla negação) é necessariamente verdadeira e vice-versa.

Nota: O último parágrafo destina-se mais aos alunos do 11º ano (que neste momento se encontram a estudar a lógica proposicional clássica) os anteriores aos alunos do 10º ano.

sábado, 24 de Outubro de 2009

A negação de proposições condicionais

A frase “Se a Yolanda estuda, então passa de ano” exprime uma proposição condicional. Esta é uma proposição composta de duas proposições mais simples ligadas pelo conector “Se… então” (ou outros equivalentes, como por exemplo “Caso”). Costuma chamar-se a estas “antecedente” e “consequente”. O que é dito na antecedente constitui uma condição suficiente relativamente àquilo que é dito na consequente. No caso do exemplo, a expressão “condição suficiente” significa que basta (= é suficiente) a Yolanda estudar para conseguir passar de ano. Pode-se também dizer que a antecedente implica a consequente.

Nega-se uma proposição condicional afirmando a antecedente e negando a consequente: “Yolanda estuda, mas não passa de ano”.

A negação de uma condicional não é outra proposição condicional, mas sim uma conjunção. Em vez de “mas” também se pode usar o conector “e”.

Porque é que uma condicional se nega desse modo? Para responder a esta questão é preciso perceber em que condições uma proposição condicional é verdadeira ou falsa.

Há quatro circunstâncias possíveis, que no caso do exemplo dado são:

1. Yolanda estuda e passa de ano.

2. Yolanda não estuda e não passa de ano.

3. Yolanda não estuda e passa de ano.

4. Yolanda estuda e não passa de ano.

(Nos livros de Lógica estas quatro circunstâncias não costumam ser apresentadas por esta ordem, mas optei por ela por ser a mais intuitiva.)

Em 1. a antecedente e a consequente são ambas verdadeiras. Nessa circunstância a condicional é obviamente verdadeira: verificou-se aquilo que nela está enunciado – estudar levou a Yolanda passar de ano. O facto da Yolanda ter estudado e o facto de ter passado de ano confirmam a veracidade da relação enunciada na condicional.

Em 2. a antecedente e a consequente são ambas falsas. Nessa circunstância a condicional continua a ser verdadeira. O facto da Yolanda não ter estudado e o facto de não ter passado de ano não anulam a veracidade da relação enunciada na condicional. Imagine que um professor tinha dito a Yolanda “Se estudas, então passas de ano” e que agora esta alegava que tinha sido enganada. O professor poderia responder: “O que eu te disse é verdadeiro. Se tivesses estudado, terias passado de ano.”

Em 3. a antecedente é falsa e a consequente é verdadeira. Nessa circunstância a condicional continua a ser verdadeira. Esta assegura que basta estudar para passar de ano, mas não diz que essa é a única maneira de passar de ano, não diz que não há outros factores que permitam passar (copiar ou ameaçar o professor, por exemplo). Por isso, o facto da Yolanda não ter estudado e o facto de ter passado de ano não anulam a veracidade da relação enunciada na condicional.

Em 4. a antecedente é verdadeira e a consequente é falsa. Nessa circunstância a condicional é falsa. Caso estude e não passe, a Yolanda já tem motivos para dizer ao tal professor que este disse uma falsidade. Este tinha assegurado que estudar era uma condição suficiente para a Yolanda passar, ou seja, que bastava ela estudar para passar. E isso não se verificou: uma coisa não levou à outra. Daí que, nessa circunstância, a condicional seja falsa.

Em síntese:

ANTECEDENTE

CONSEQUENTE

CONDICIONAL

Verdadeira

Verdadeira

Verdadeira

Falsa

Falsa

Verdadeira

Falsa

Verdadeira

Verdadeira

Verdadeira

Falsa

Falsa

Regressemos então à negação. Ao negar uma certa proposição obtemos uma outra proposição que tem necessariamente de possuir um valor de verdade diferente da proposição inicial. Se a proposição inicial é falsa a sua negação tem de ser verdadeira. Se a proposição inicial é verdadeira a sua negação tem de ser falsa. Não podem ser ambas verdadeiras nem ambas falsas. Ou seja: a proposição inicial e a sua negação têm de ser proposições contraditórias. Por exemplo: ao negarmos a proposição verdadeira “Florença é uma cidade italiana” obtemos a proposição falsa “Florença não é uma cidade italiana”.

Ao negar uma proposição condicional afirmamos a antecedente e negamos a consequente, pois isso equivale a dizer que a antecedente é verdadeira e a consequente é falsa – que, como vimos, é a única circunstância em que uma proposição condicional é falsa. Ao fazer isso estamos a mostrar que, contrariamente ao que tinha sido dito nessa proposição, a antecedente não é uma condição suficiente da consequente. Dito de modo mais coloquial: estamos a mostrar que uma coisa não leva à outra e que a relação enunciada na condicional não ocorre.

A conjunção entre a afirmação da antecedente e a negação da consequente de uma condicional (ou seja, a negação desta) constitui uma proposição que não pode ter o mesmo valor de verdade dessa proposição condicional. Caso seja falso que “Se a Yolanda estuda, então passa de ano” tem de ser verdadeiro que “Yolanda estuda, mas não passa de ano”. E vice-versa: Caso seja verdadeiro que “Se a Yolanda estuda, então passa de ano” tem de ser falso que “Yolanda estuda, mas não passa de ano”.

Se tentássemos negar a condicional de outro modo não conseguiríamos obter uma proposição contraditória com ela e por isso não se trataria de uma autêntica negação. Por exemplo: “Se a Yolanda estuda, então passa de ano” e “Yolanda não estuda e não passa de ano” podem ser, em certas circunstâncias, ambas verdadeiras ou ambas falsas.

(Alguns leitores poderão achar útil o post Condições necessárias e suficientes: análise de um exemplo. Tendo em conta que o mesmo foi escrito a pensar nos alunos do 11º ano, não aconselho a sua leitura aos alunos do 10º ano.)

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

O pensamento diminui a estranheza, ainda que não a anule

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Matriz do 1º Teste do 10º ano (turmas A e C)

Temas: O que é a Filosofia? – uma resposta inicial. Os instrumentos da actividade filosófica.

Matriz do 1º teste de Filosofia do 10 s 09 10

Matriz do 10º ano (turmas B, D, E e F)

 

ESCOLA SECUNDÁRIA DE PINHEIRO E ROSA

FILOSOFIA – 10ºANO                                                                                      Ano Lectivo: 2009-2010

Matriz do 1º Teste (Outubro)                                                                                  O Professor: Carlos Pires

 

Duração: 90 minutos.

Temas: Quais são as questões da Filosofia? O que é a filosofia? Lógica – os instrumentos da actividade filosófica.

Objectivos:

1. Conhecer a etimologia da palavra “filosofia”.

2. Conhecer a época e o lugar em que a filosofia surgiu.

3. Indicar os elementos centrais da filosofia: problemas, teorias e argumentos.

4. Conhecer exemplos de problemas filosóficos e distinguir problemas filosóficos de problemas não filosóficos.

5. Explicar e exemplificar o conceito de crença básica.

6. Mostrar em que medida a filosofia constitui uma reflexão acerca das nossas ideias e crenças mais básicas.

7. Mostrar em que medida a filosofia tem um carácter crítico e argumentativo.

8. Mostrar em que medida a filosofia é um estudo a priori ou conceptual.

9. Explicar em que medida, apesar do carácter conceptual da filosofia, as informações empíricas podem ter utilidade na reflexão filosófica.

10. Saber que as respostas dadas aos problemas filosóficos raramente são consensuais.

11. Conhecer argumentos a favor e contra a pena de morte.

12. Utilizar esses argumentos para justificar uma opinião pessoal acerca do carácter justo ou injusto da pena de morte.

13. Indicar o objecto de estudo da Lógica.

14. Explicar o que são proposições.

15. Analisar exemplos, distinguindo frases que expressam proposições de frases que não expressam proposições.

16. Conhecer exemplos de frases que expressem uma única proposição e de frases que expressem, cada uma delas, várias proposições.

17. Distinguir diferentes tipos de proposições: afirmativas e negativas; universais, particulares e singulares; disjuntivas e condicionais.

18. Analisar exemplos, identificando neles os diferentes tipos de proposições.

19. Reescrever frases para colocar as proposições na sua expressão canónica.

20. Explicar em que consiste a negação de uma proposição.

21. Explicar como se negam proposições universais, particulares e singulares (tanto afirmativas como negativas) e proposições condicionais.

22. Efectuar a negação de proposições apresentadas.

23. Explicar o que são proposições contraditórias.

24. Explicar a utilidade da negação na argumentação.

25. Explicar como se podem refutar proposições universais através de contra-exemplos.

26. Explicar o que é um argumento.

27. Analisar exemplos, distinguindo argumentos de não argumentos.

28. Analisar argumentos, distinguindo premissas e conclusão.

29. Conhecer indicadores de premissa e indicadores de conclusão.

Leituras obrigatórias no Manual: Da página 11 à página 14. Página 21.Da página 31 à página 37. Da página 42 à página 45.

Leituras aconselhadas no Manual: texto 4, página 27 e 28.

Leituras obrigatórias no blogue Dúvida Metódica: “Problemas filosóficos e problemas não filosóficos”, “Estudo da religião: a parte da Sociologia e a parte da Filosofia”, “O que é a Filosofia?” e “Identificação, classificação e negação de proposições”.

Leituras aconselhadas no blogue Dúvida Metódica: “Discutir ideias em vez de repetir frases”.

Bom Trabalho!

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Desenhos com areia: será isto arte?

Muitos desenhos de Kseniya Simonova são (na minha opinião) belos. A sua realização revela perícia (eu, por exemplo, não seria capaz de fazer nenhum deles). É manifesto que exprimem ideias e sentimentos da autora. Esta, ao fazê-los e apresentá-los publicamente, comunica a outras pessoas essas ideias e sentimentos. Tal comunicação desperta emoções nessas pessoas e - presumivelmente – leva-as a reflectir e a debater acerca dos temas dos desenhos.

Serão estas razões suficientes para considerar artístico o trabalho de Kseniya Simonova?

O facto dos desenhos com areia serem efémeros poderá ser considerado uma razão para não serem considerados obras de arte?

O facto da generalidade dos especialistas em arte e dos artistas reconhecidos como tal, ignorar habitualmente os desenhos com areia e não os incluir nas suas listas de formas de arte, será razão suficiente para alguém que deles goste não os considerar obras de arte?

domingo, 18 de Outubro de 2009

O tempo até pode ser relativo, mas a verdade não

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Do fotógrafo Fred Brommet, Jardim do Luxemburgo, Paris 1956.

A expressão “é relativo” refere, na linguagem corrente, algo que depende do ponto de vista de cada sujeito (ou seja: não é igual para todas as pessoas). Pode aplicar-se, por exemplo, ao modo como percepcionamos a passagem do tempo. Este não flui da mesma maneira em todas as situações, depende da perspectiva do observador: os cinquenta minutos de uma experiência agradável, parecem passar muito mais depressa que os dez minutos de uma experiência desagradável. Este facto é explicável, entre outras, por razões de natureza psicológica.

Daí que Einstein tenha dito, ironicamente, a propósito da teoria da relatividade que esta significa que se mede “o tempo de maneira diferente quando se está sentado sobre um fogão quente ou quando se tem num banco de jardim, uma bela rapariga sentada ao colo…”

Na filosofia, o relativismo foi formulado pela primeira vez por Protágoras ao dizer que “o homem é a medida de todas as coisas”. Tais palavras significam que a verdade depende do ponto de vista de cada um e que não existe, portanto, uma verdade objectiva e igual para todos. Esta teoria filosófica pode ser defendida a propósito do conhecimento em geral ou de uma área específica - por exemplo, a ética ou a estética. (Caso seja defendida a propósito do conhecimento em geral, tal teoria auto-refuta-se, pois afirma com pretensão de objectividade que não existe objectividade.)

É certamente verdade que  algumas crenças são relativas. Além de exemplos semelhantes ao referido no primeiro parágrafo, pode-se mencionar também algumas crenças que dependem de factores sociais e culturais. É o caso, por exemplo, dos hábitos ligados à alimentação. O carácter saboroso ou repugnante das larvas de bicho da seda (muito apreciadas na China e na Tailândia) não constitui uma verdade objectiva e igual para todos.

No entanto, isto não se passa com todas as crenças. A verdade das crenças científicas é independente de todo e qualquer factor cultural ou psicológico. E é argumentável que o mesmo sucede com pelo menos algumas crenças morais (por exemplo que a excisão e a discriminação racial são moralmente erradas).

Deste modo, ao pretendermos colocar um ponto final numa discussão (onde sobre o mesmo tópico existam interpretações opostas) dizendo, para calar o nosso interlocutor: “É relativo! É a tua opinião!” estamos a argumentar de um modo manifestamente errado. Quando se trata de analisar a verdade ou a falsidade de certas ideias é necessário distinguir a nossa convicção quanto a isso da própria verdade ou falsidade dessas ideias (que depende de algo exterior às nossas convicções).

Assim, não podemos confundir, como diz Stephen Law, «aquilo que é verdadeiro quanto à crença de uma pessoa com a verdade daquilo em que ela acredita. Pode ser verdadeiro que eu acredito que Paris é a capital da Alemanha. Isso não implica que “Paris é a capital da Alemanha” seja verdadeiro. Se assim fosse, eu transformaria qualquer afirmação em verdadeira se acreditasse nela, por exemplo: “Eu consigo voar”».

Portanto, uma crença só pode ser justificada se encontrarmos boas razões a favor da sua verdade. O essencial são as boas razões e não a força das convicções.

Notas:

A primeira citação foi retirada do livro, Nova Física divertida, de Carlos Fiolhais, Ed. Gradiva, pág.89.

A segunda foi retirada do livro, Filosofia, de Stephen Law, Editora Civilização, pág. 199.

sábado, 17 de Outubro de 2009

Matriz do 1º Teste do 11º ano (turmas B, C e G)

Temas: Argumentação e lógica formal. A lógica proposicional clássica.

Matriz 1º teste 11 S09 10

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Chet Baker: a passagem do tempo

 

Para ouvir outra versão de “Almost blue”, também de Chet Baker, clique aqui.

O Sopro sopra onde quer: homenagens a M. S. Lourenço

Em homenagem ao professor M. S. Lourenço (1936-2009), a Biblioteca Nacional organiza uma exposição intitulada: “O Sopro sopra onde quer”.

MOSTRA BIBLIOGRÁFICA | 12 a 31 Outubro | Sala de Referência da Biblioteca Nacional | Entrada livre.

“Esta exposição bibliográfico-documental pretende homenagear o escritor e tradutor, professor de Lógica e Filosofia da Matemática M. S. Lourenço, falecidoo_sopro_thumb no dia 1 de Agosto de 2009. A frase do título, o Sopro sopra onde quer, foi retirada do Evangelho segundo S. João (3, 8) e aparece citada sob a forma de mote por M. S. Lourenço ao longo do seu percurso intelectual. Centrando-se no início deste percurso, a exposição desenvolve-se sob o signo desta alusão bíblica (…).

A presente mostra cobre aproximadamente 10 anos, desde as primeiras experiências literárias de M. S. Lourenço e da colaboração no jornal Encontro até à saída de Portugal em 1965, para estudar Filosofia da Matemática em Oxford sob a orientação de Michael Dummett. A contextualização que se oferece das primeiras obras que assinou circunstancia a singularidade da sua criação intelectual.”

Para saber mais, veja AQUI.

Além disso, no dia 28 de Outubro às 18h30, na sala 5.2 da Faculdade de Letras (UL), será lançada a obra poético-literária reunida de M. S. Lourenço:
O Caminho dos Pisões
.

Participantes: Fernando Martinho, Miguel Tamen e João Dionísio.

Informação recebida dos organizadores.

terça-feira, 13 de Outubro de 2009

Discutir ideias em vez de repetir frases

Uma proposição é a ideia (ou pensamento) expressa por uma frase declarativa com sentido.

Frases diferentes podem exprimir a mesma proposição. Por exemplo, as três frases seguintes exprimem exactamente a mesma proposição: A pena de morte é moralmente errada. A pena de morte é incorrecta em termos morais. The death penalty is morally wrong.

Este não é um mero pormenor “técnico” e sem interesse filosófico. Pelo contrário. Na filosofia analisam-se e discutem-se proposições. Ou seja: analisam-se e discutem-se ideias e não as frases que as transmitem. Não é propriamente a frase escrita pelo filósofo X ou Y que interessa, mas sim a ideia por ela transmitida – será uma ideia verdadeira ou falsa?

Do mesmo modo, um aluno não se deve preocupar especialmente com a frase que o professor disse ainda há pouco e que ele não conseguiu escrever no caderno, mas sim com o que o professor queria dizer com essa frase; ou seja, com a proposição – que pode ser expressa através de outra frase diferente. O que esse professor, caso tenha um entendimento correcto da filosofia, esperará do aluno é que este compreenda a ideia e a discuta – e não que repita a sua frase tintim por tintim.

Formalização de proposições

Ficha de trabalho – 11º ano

Tema: Lógica proposicional (formalização de proposições e o âmbito dos operadores).

1. Considere as seguintes frases:

A. O Inverno é rigoroso em Bragança mas suave em Faro.

B. Tanto Tarantino como Woody Allen são realizadores de cinema.

C. Uma frase declarativa com sentido ou é verdadeira ou é falsa.

D. A Maria Albertina ou é casada ou é solteira.

E. Não há dogmas em Filosofia.

F. Quer Protágoras quer Górgias foram sofistas.

G. É impossível alcançar conhecimentos objectivos em Filosofia.

H. Não é verdade que o homem não é livre.

I. O Aristófanes estuda para o teste de Filosofia ou vê televisão.

J. O Aristófanes estuda para o teste de Filosofia mas não vê televisão.

K. Não é verdade que se possa estudar a ver televisão.

L. É falso que se possa estudar a ver televisão.

M. Sempre que o preço da gasolina diminui, o mercado de automóveis cresce.

N. Nem a Gertrudes nem o Ludovino estudaram para o teste de Filosofia.

O. Não recebemos salário se não tivermos emprego.

P. Quando negligenciarmos os trabalhos escolares, sofremos as consequências.

Q. Caso o meu raciocínio seja válido, não falharei o exercício.

R. Uma acção tem valor moral se, e somente se, for praticada por dever.

1.1. Reescreva, na expressão canónica, as frases apresentadas.

1.2. Identifique o operador ou operadores verofuncionais utilizados em cada uma delas.

1.3. Formalize as proposições expressas. Apresente a interpretação correspondente às variáveis proposicionais utilizadas em cada uma das alíneas.

1.4. Determine, utilizando tabelas de verdade, as condições de verdade das proposições expressas nas alíneas H, C e J.

1.5. Admita, no caso da alínea J, que a primeira proposição simples é verdadeira e a segunda falsa. Determine o valor de verdade da proposição composta, recorrendo a uma tabela de verdade.

2. Considere as seguintes frases:

A. Não é verdade que a Gertrudes e o Ludovino tenham estudado para o teste de Filosofia.

B. O Constantino namora e mentiu ou equivocou-se.

C. Não gostas de ler nem de escrever mas és inteligente.

D. É mentira que tu não trabalhaste e foste para a borga.

E. Ou há livre-arbítrio e a vida tem sentido ou não há livre-arbítrio e a moral é absurda (exemplo retirado do manual Criticamente da Porto Editora, pág. 74).

2.1. Formalize as proposições expressas nas alíneas anteriores.

2.2. Identifique o operador principal nas formas proposicionais que apresentou na resposta anterior.

2.3. A partir da análise do exemplo da alínea E, distinga forma proposicional simples de forma proposicional composta.

sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Examinar a vida: valerá a pena o esforço?

Uma vida examinada

"Uma vida não examinada pode não valer a pena ser vivida, mas examinar a minha é esgotante."

Este e outros cartoons da autora podem encontrar-se aqui.

Sócrates, um dos mais conhecidos filósofos gregos, foi condenado à morte em 399 (a.C.). Não escreveu nenhum livro. O que sabemos sobre ele deve-se, entre outros, ao testemunho do seu discípulo Platão. Nos diálogos que este escreveu Sócrates é uma figura central.

Na Apologia de Sócrates, Platão apresenta o discurso proferido em tribunal pelo seu mestre. Acusado, entre outras coisas, de “fazer do argumento fraco o argumento forte, ensinando os outros a fazerem como ele”, e corrompendo assim a juventude, Sócrates defendeu-se dizendo que nada mais fazia do que examinar-se a si próprio e aos outros com o objectivo de descobrir alguém mais sábio do que ele (que reconhecia nada saber sobre o bom, a virtude e o belo, por exemplo). Eis as suas palavras:

“Nada mais faço do que andar pelas ruas a persuadir-vos, jovens ou velhos, a cuidardes mais da alma que do corpo e das riquezas, de modo a que vos torneis homens excelentes.

Se, ao dizer isto, estou a corromper os jovens, mal vão as coisas. Mas, se alguém afirmar que eu digo mais do que isto, afirma falsidades (…).

Pois, se me matardes, sendo eu como sou, fareis mais mal a vós próprios do que a mim. Poderiam talvez matar-me, banir-me ou privar-me de direitos, pensando como outros que são estas coisas grandes males. Mas eu não penso assim. O que penso é que quem o fizer está a fazer a si próprio muito pior, por tentar matar injustamente um homem. Por isso, preciso muito mais de vos defender a vós do que de me defender a mim (…). Isto porque, se me matardes, não encontrareis com facilidade outro como eu que – para falar gracejando – se agarre à cidade como um moscardo a um cavalo forte e de bom sangue que, por causa do tamanho, precisa de ser despertado por um aguilhão (…).

E se eu disser que o maior bem que pode haver para um homem é, todos os dias, discorrer sobre a excelência e sobre outros temas acerca dos quais me ouvíeis dialogar, investigando-me a mim e aos outros. E se eu vos disser que uma vida sem pensar não é digna de ser vivida por um homem, ainda menos vos terei persuadido. É como digo, homens, não sois fáceis de convencer!”

Platão, A apologia de Sócrates, tradução de José Trindade Santos, 2ª Edição, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1990, pág. 85-87 e 94.

Terá Sócrates razão ao defender que uma vida sem pensar não é digna de ser vivida? Porquê?


domingo, 4 de Outubro de 2009

Equívocos acerca do senso comum

A caracterização do senso comum como sendo um conhecimento prático é frequente. Consta de muitos livros de Filosofia (e de Sociologia). Contudo, essa caracterização não é rigorosa.

Vermeer a laiteira milkmaid Um conhecimento prático é um saber-fazer, consiste no conhecimento de uma actividade. É verdade que o senso comum inclui inúmeros conhecimentos práticos, tais como saber cozinhar ou saber andar de bicicleta. No entanto, inclui também conhecimentos proposicionais, conhecimentos por contacto, superstições e outras crenças, que não são saberes práticos.

O conhecimento proposicional é, tal como o nome indica, o conhecimento de proposições. Também é conhecido por “saber que”. Por exemplo: saber que a lixívia debota a roupa, saber que (em Portugal) a pena máxima é 25 anos de prisão, saber que a cor do luto (em Portugal) é o preto, etc. O senso comum inclui inúmeros conhecimentos desse género, que não têm manifestamente um carácter prático.

O conhecimento por contacto é o conhecimento que temos de coisas, lugares, pessoas, etc. É um conhecimento directo e presencial. Por exemplo: conhecer as divisões de uma casa, conhecer pessoalmente um indivíduo, etc. O senso comum inclui inúmeros conhecimentos desse género, que não têm manifestamente um carácter prático.

Uma superstição é uma crença falsa e sem justificação plausível. Por exemplo: acreditar que as doenças são provocadas por espíritos malignos, acreditar que ver gatos pretos traz infelicidade, etc. O senso comum de muitas pessoas (mas talvez não de todas) inclui superstições. Tais crenças supersticiosas não têm obviamente carácter prático.

Por outro lado, o senso comum inclui também crenças que seria errado considerar superstições (convicções morais, políticas, sociais, etc., tais como: acreditar que se deve pagar as dívidas, acreditar que não se deve matar pessoas inocentes, etc.). Todavia, tais crenças também não são saberes práticos.

Por isso, o conhecimento prático é apenas uma parte do senso comum.

É igualmente frequente chamar-se conhecimento vulgar ao senso comum. Todavia, essa denominação não é rigorosa.

Os conhecimentos práticos, proposicionais e por contacto que fazem parte do senso comum podem ser designados de vulgares, uma vez que a sua aquisição não implica aprendizagens formais e elaboradas. Contudo, as superstições que fazem parte do senso comum não constituem conhecimentos vulgares. Não por não serem “vulgares” e implicarem aprendizagens formais e elaboradas, mas porque, sendo crenças falsas e injustificadas, não são sequer conhecimentos.

É duvidoso que muitas crenças do senso comum que não são supersticiosas constituam, ainda assim, conhecimentos, pois, embora não sejam falsas, a sua justificação adequada não se faz no âmbito do senso comum – mas sim da Filosofia e de ciências como a Psicologia ou a Economia.

A teoria filosófica que define o conhecimento como sendo uma crença verdadeira justificada presta-se a algumas objecções, pois provavelmente essas três condições não são suficientes para haver conhecimento e é necessário acrescentar uma ou mais condições para haver conhecimento. No entanto, não parece haver dúvidas que são condições necessárias. Pelo que as crenças do senso comum que são falsas ou injustificadas não são conhecimentos.

(Se as crenças do senso comum que são falsas ou injustificadas não fossem falsas nem injustificadas e pudessem ser consideradas conhecimentos, não seriam conhecimentos práticos, mas sim conhecimentos proposicionais.)

Por isso, apenas uma parte do senso comum constitui conhecimento.

Na imagem: A Leiteira (1658-60), de Johannes Vermeer.

sábado, 3 de Outubro de 2009

Identificação, classificação e negação de proposições

1.1 Dizer que as perguntas não têm valor de verdade significa que são falsas. Esta afirmação é verdadeira ou falsa? Porquê?

1.2 Se uma frase é declarativa, então tem valor de verdade. Esta afirmação é verdadeira ou falsa? Porquê?

1.3 Nem todas as frases declarativas são verdadeiras ou falsas. Esta afirmação é verdadeira ou falsa? Porquê?

1.4 Uma proposição é uma frase declarativa com sentido. Esta afirmação é verdadeira ou falsa? Porquê?

1.5 Frases declarativas diferentes podem expressar uma única proposição. Esta afirmação é verdadeira ou falsa? Porquê?

1.6 Uma frase declarativa só pode expressar uma proposição. Esta afirmação é verdadeira ou falsa? Porquê?

1. 7 Diga se as frases a seguir apresentadas exprimem ou não proposições.

A. A pena de morte é o castigo máximo que pode existir num sistema penal.

B. Existe pena de morte na Holanda?

C. Viva a vida!

D. Yolanda, vai ler aqueles textos sobre o problema da pena de morte.

E. Por favor, senhor juiz, não condene este homem à pena capital!

F. Que horror!

G. Juro que logo à tarde te explico porque é que o argumento da dissuasão não prova que a pena de morte é moralmente correcta.

H. Quem comete crimes muito graves merece um castigo muito severo.

I. A pena de morte é uma zona açucaradamente salgada e comprida, embora redonda e mais química que fria ou até verde.

2. Diga qual é o tipo das proposições expressas pelas seguintes frases:

A. Todos os crimes são puníveis com a pena de morte.

B. Nenhum crime é punível com a pena de morte.

C. Nem todos os criminosos são reabilitáveis.

D. Há julgamentos em que se cometem erros.

E. Sócrates foi condenado à pena capital.

F. O filósofo grego Sócrates não era culpado dos crimes de que foi acusado.

G. Se a pena de morte dissuade o crime, então o crime aumenta quando a pena de morte é abolida.

H. Certos políticos não cumprem as suas promessas.

I. Existem assassinos simpáticos.

J. Quase todos os caloiros aceitaram ser praxados.

K. Cada emigrante português é um caso especial.

L. Não há prisões à prova de fuga.

M. Caso não defendas a pena de morte és contra a segurança dos cidadãos.

3. Negue as proposições expressas nas alíneas A, B, C, D, E, F, G, L e M da pergunta 2.

sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

Num mundo melhor esta seria a Música Popular!

 

Hoje é o Dia Mundial da Música. Mesmo que não costume ouvir este género de música, experimente ouvir hoje. Sem preconceitos. Talvez descubra que gosta.

Como defender direitos humanos fundamentais

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Mafalda: 45 anos de humor e espírito crítico

MAFALDA maldita seja a liberdade de imprensa

A primeira história de Mafalda foi publicada a 29 de Setembro de 1964. Fez ontem 45 anos. Parabéns!

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

Qual é a utilidade do estudo da Lógica?

A resposta a esta questão só pode ser verdadeiramente compreendida depois de aplicarmos os conceitos lógicos na resolução de exercícios  e na própria argumentação filosófica. No entanto, faz sentido percebermos à partida o que podemos ganhar em filosofia (e na vida em geral) com o estudo da Lógica. Os autores deste texto explicam-nos isso de forma clara.

«A lógica estuda alguns aspectos da argumentação. A lógica permite-nos 1) distinguir os argumentos correctos dos incorrectos, 2) compreender por que razão uns são correctos e outros não, e 3) evitar cometer falácias ou sofismas na nossa argumentação. Uma falácia ou um sofisma é um argumento incorrecto que parece correcto. Um argumento correcto é um conjunto de afirmações organizadas de tal modo que uma delas (a conclusão) é apoiada pelas outras (as premissas). Num argumento incorrecto as premissas não apoiam a conclusão (...).

O papel da lógica torna-se manifesto quando compreendemos que os filósofos procuram, implícita ou explicitamente, argumentos sólidos e relevantes para defender as suas ideias. Mas para sabermos se um argumento é sólido e relevante precisamos de saber se é válido. E é a lógica que nos ajuda a saber se um dado argumento é ou não válido (...).

A lógica tem dois papéis na filosofia: clarificar o nosso pensamento e ajudar-nos a evitar erros de raciocínio. A filosofia é identificada por um conjunto de problemas. Os filósofos, ao longo da história, têm respondido a esses problemas, tentando solucioná-los. Para isso, apresentam teorias e argumentos.

Precisamos da lógica para avaliar criticamente os problemas da filosofia. Se alguém quiser reflectir sobre o problema filosófico de saber por que razão as ideias verdes não são salgadas, o melhor que temos a fazer é mostrar que esse é um falso problema. Para isso precisamos de argumentos.

Precisamos da lógica para avaliar criticamente as teorias dos filósofos. Será que uma dada teoria é plausível? Como poderemos defendê-la? Quais são os seus pontos fracos e quais são os seus pontos fortes? E porquê?

Precisamos da lógica para avaliar criticamente os argumentos dos filósofos. São esses argumentos sólidos? Ou são erros subtis de raciocínio? Ou baseiam-se em premissas tão discutíveis quanto as suas conclusões?

Assim, para que os nossos estudantes possam enfrentar os problemas da filosofia de forma criativa, têm de dominar os instrumentos críticos elementares que lhes permitirão formular com clareza os problemas, as teorias e os argumentos da filosofia, e que lhes permitirão adoptar uma postura crítica — defendendo as suas próprias ideias com argumentos. A arte da filosofia é a arte da fundamentação das nossas ideias em argumentos sólidos, criativos e inteligentes. Dominar essa arte é ter a capacidade de distinguir os argumentos com essas características daqueles que não as têm, e ter a capacidade para mudar de ideias quando somos incapazes de as defender com argumentos bem fundamentados. O pensamento logicamente disciplinado não inibe portanto a criatividade; pelo contrário, promove-a(...). A lógica ajuda-nos a pensar em diferentes possibilidades. Para determinarmos se um argumento é ou não válido temos de determinar se há algum modo de as premissas serem todas verdadeiras e a conclusão falsa. Uma falácia é precisamente um argumento que parece válido a uma pessoa sem formação lógica porque ela não é capaz de ver que é possível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa (ou seja, não é capaz de ver que a conclusão não é uma consequência lógica das premissas). O estudo da lógica contribui assim decisivamente para a criatividade filosófica, pois habitua o estudante a pensar em circunstâncias novas que de outro modo não teria em consideração.»

Desidério Murcho e Júlio Sameiro, Lógica – 11º Ano (clique aqui para aceder  ao texto completo, em pdf).

 

Filosofia

sábado, 26 de Setembro de 2009

Defesa do voto e crítica da abstenção

Amanhã há eleições legislativas em Portugal. Em diversas eleições passadas a percentagem de eleitores que se absteve foi elevada. Por exemplo: 35,7% nas últimas eleições legislativas e 63,5% nas últimas eleições para o Parlamento Europeu.

votar Na minha opinião, as pessoas que valorizam o facto de viverem num país democrático deviam votar sempre e nunca se abster. A existência de eleições livres é uma das principais diferenças entre uma democracia e uma ditadura. As pessoas que votam, além de escolherem quem vai exercer o poder, exprimem simultaneamente o seu apoio à democracia e à existência de eleições livres. Quem se abstém e não vota faz uma escolha que pode ser interpretada como uma rejeição da democracia ou, pelo menos, como indiferença perante o facto de viver numa democracia ou numa ditadura.

Algumas pessoas justificam o facto de se absterem nas eleições com a circunstância de discordarem de todos os candidatos. É perfeitamente possível, e até razoável (atendendo ao que se vê e ouve em muitas campanhas eleitorais), que um eleitor discorde de todos os candidatos. No entanto, a abstenção não é a melhor maneira de exprimir essa discordância. O voto em branco exprime de modo mais claro e inequívoco uma tal discordância, pois, contrariamente à abstenção, o voto em branco não pode ser confundido com a rejeição da democracia ou com a demissão cívica das pessoas que não vão votar porque preferem ir passear. Quem vota em branco está a dizer que recusa votar naquelas candidatos, mas que quer votar e que é favorável à existência de eleições e de democracia.

Tal não significa, porém, que (como sucede nalguns países) o voto deva ser obrigatório. Se existir uma qualquer sanção para quem não for votar, isso diminuirá o significado político do acto de votar. Este deixará de exprimir um apoio do eleitor à existência de eleições e de democracia. Mesmo as pessoas que rejeitam a democracia ou que lhe são indiferentes tenderão a ir votar para evitar a sanção, pelo que esse acto não poderá ser visto como uma escolha inteiramente livre – em que o cidadão, além de escolher quem exercerá o poder, manifesta o seu apoio ao regime democrático em que vive.

Seja quem for o vencedor das eleições de amanhã, seria bom que a percentagem da abstenção fosse baixa e que quase todos os 9,4 milhões de leitores (ver mais detalhes aqui) fossem votar. Se tal sucedesse seria a democracia que ganharia as eleições.

(A respeito deste assunto vale a pena espreitar aqui.)

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Como é que filosofamos?

cabeça_vazia

O cartoon, sem referência de autor, foi retirado deste sítio.

«Como é que filosofamos? É visivelmente apenas a partir do momento em que nos encontramos em diálogo com os filósofos. Isso implica debatermos com eles os problemas (...). Uma coisa é constatar e descrever as opiniões dos filósofos, outra completamente diferente é debater o que eles dizem.»

Martin Heidegger, Qu’est ce que la philosophie?, Gallimard.

sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

Em Filosofia estudamos “os problemas da vida”?

O filósofo Ludwig Wittgenstein Ludwig Wittgenstein (1889-1951).

O filósofo Ludwig Wittgenstein escreveu, num livro intitulado Tratado Lógico-filosófico, o seguinte:

“Sentimos que mesmo quando todas as possíveis questões da ciência fossem resolvidas os problemas da vida ficariam ainda por tocar.”(Ludwig Wittgenstein, Tratado Lógico-filosófico, tradução de M.S. Lourenço, Edição Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1987, pág. 141.)

Como é que se pode entender a expressão “problemas da vida”?

Será a afirmação de Wittgenstein verdadeira? Porquê?

 

quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

Problemas filosóficos e problemas não filosóficos

Um certo fenómeno pode ser estudado simultaneamente por diferentes disciplinas. A religião, por exemplo, interessa nomeadamente à Sociologia, à Psicologia, à História e à Filosofia. Todavia, isso não significa que estudem a mesma coisa. Os problemas de que se ocupa a Filosofia da Religião são muito diferentes dos problemas de que se ocupam os estudos sociológicos (ver o post Estudo da religião: a parte da Sociologia e a parte da Filosofia), históricos e psicológicos da religião. Contrariamente à Filosofia, nenhuma dessas disciplinas procura determinar se, por exemplo, a afirmação “Deus existe” é verdadeira ou falsa.

Outro exemplo possível é a pena de morte.

«Vamos considerar como as diferentes Ciências Sociais podem abordar o tema polémico da pena de morte. Os historiadores estariam interessados no desenvolvimento [nos EUA] da pena capital do período colonial até ao presente. Os economistas poderiam fazer uma pesquisa para comparar os custos das pessoas encarceradas durante toda a vida com as despesas dos recursos que ocorrem nos casos de pena de morte. Os psicólogos observariam os casos individuais e avaliariam o impacto da pena de morte na família da vítima e na do preso executado. Os cientistas políticos estudariam as diferentes posições assumidas pelos políticos eleitos e as implicações dessas posições nas suas campanhas para a reeleição.

E qual seria a abordagem dos sociólogos? Eles poderiam verificar [entre outros aspectos] como a raça e a etnia afectam o resultado dos casos de pena de morte. De acordo com um estudo publicado em 2003, 80% dos casos de pena de morte nos Estados Unidos envolvem vítimas de cor branca, apesar de apenas 50% de todas as vítimas de assassinato serem brancas. Parece que a raça da vítima influencia a decisão sobre se o réu será condenado à pena capital (...). Assim, o sistema de justiça criminal parece tender a impor penas mais pesadas quando as vítimas são brancas do que quando elas pertencem a uma das minorias.”

Richard T. Schaefer, Sociologia, 6ª edição, McGraw-Hill, São Paulo, 2006, pp. 6-7.

Por seu turno, os filósofos discutem se a pena de morte é justa ou injusta, ou seja, se é certa ou errada em termos morais.

Mas porque é que problemas como “será que Deus existe?” ou “a pena de morte é justa ou injusta” são filosóficos e, por exemplo, a relação entre a raça das vítimas e a aplicação da pena de morte não é um problema filosófico?

quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

Estudo da religião: a parte da Sociologia e a parte da Filosofia

O 1º e o 2º parágrafos do texto apresentam alguns dos aspectos que, no estudo da religião, interessam à Sociologia. O 3º parágrafo refere alguns dos aspectos que, nesse estudo, interessam à Filosofia.

«Em 2002, o Pew Center, uma empresa de opinião pública (…), perguntou a pessoas de 44 países em que medida a religião era importante para elas. Nos EUA 59 % disseram que a religião desempenhava um papel “muito importante” na sua vida. Esta percentagem é invulgarmente alta. Em Inglaterra, apenas 33 por cento disseram que a religião era importante. Noutros países, as percentagens foram as seguintes: 27% em Itália, 21 % na Alemanha, 12% no Japão e 11 % na França. No entanto, as percentagens relativamente à Bolívia, à Venezuela e ao México foram semelhantes à dos EUA, o que levou os analistas a concluir, de forma pouco generosa, que as atitudes norte-americanas “estão mais próximas das atitudes das pessoas das nações em vias de desenvolvimento do que das pessoas das nações desenvolvidas”.

Entretanto, na sondagem Gallup International Millenium Survey, perguntou-se a pessoas de 60 países se acreditavam em Deus. Apenas 45 % disseram acreditar num Deus “pessoal”, ao passo que outros 30 % disseram acreditar “numa espécie de espírito ou força vital”. A sondagem Gallup mostrou não só que a crença religiosa é mais forte nos mais velhos e nos que têm menos educação, mas também que o índice de crença é mais elevado na África Ocidental, onde predomina o Islão. Aí, 99 % acreditam num Deus pessoal. Nos EUA, 86 % têm essa crença, enquanto os europeus, conclui a sondagem, “são os mais agnósticos”. (…)

No entanto, não queremos apenas saber no que acreditam as pessoas – queremos saber se as crenças religiosas são verdadeiras. (…) Existirá alguma boa razão para acreditar que o mundo foi criado por uma divindade todo-poderosa? (…) Será possível apresentar boas razões que apoiem a crença em Deus?»

James Rachels, Problemas da Filosofia, tradução de Pedro Galvão, Gradiva, Lisboa, 2009, pp.27-29.

Se clicar no nome do livro e na imagem, poderá ler informações úteis sobre o mesmo.

james rachels problemas da filosofia