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domingo, 9 de agosto de 2020

Falsa dicotomia

Falso dilema estás connosco ou estás contra nós

«Uma falsa dicotomia [ou falso dilema] é uma perspetiva enganadora das alternativas disponíveis. Ocorre quando alguém apresenta uma dicotomia de tal modo que parece haver apenas duas alternativas quando na verdade há mais.

Por exemplo, na maioria dos contextos, a expressão “se não estás connosco, estás contra nós” [logicamente equivalente a “estás connosco ou estás contra nós”] é uma falsa dicotomia, visto que ignora uma terceira possibilidade (ser totalmente indiferente ao grupo em causa) e também uma quarta: a de não ter ainda não ter decidido *. (…)

As falsas dicotomias podem apresentar-se acidental ou deliberadamente (talvez isto seja também uma falsa dicotomia). Quando são acidentais, resultam de uma avaliação imprecisa das posições disponíveis; quando deliberadas são uma forma de sofística.»

Nigel Warburton, Pensar de A a Z, Editorial Bizâncio, Lisboa, 2012, pp. 147-148 (tradução de Vítor Guerreiro).

 * No cartoon é apresentada uma quinta possibilidade, de resto muito plausível.

 Fonte do cartoon: PhilosophyMatters

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Se há progresso moral, o relativismo é falso

Se o relativismo cultural fosse verdadeiro, não faria sentido falar de progresso moral.

Por exemplo: o facto de as mulheres há décadas atrás não poderem votar e hoje já poderem (em muitos países) é habitualmente visto como um mudança positiva, como um progresso. Ver essa mudança como um progresso parece ser algo muito plausível e sensato. Mas isso implica uma comparação entre os padrões culturais atuais e os padrões culturais de épocas anteriores (que eram aceites pela grande maioria das pessoas) e a afirmação de que, pelo menos nesse aspeto, as sociedades atuais são melhores que as sociedades do passado. Ora, segundo o relativismo cultural, esses juízos transculturais não são – supostamente - possíveis (pois quando tentamos fazê-los limitamo-nos a exprimir a nossa própria cultura) 1.

Há vários outros exemplos semelhantes: a escravatura, os direitos das crianças, etc.

Como esses exemplos mostram, temos boas razões para falar da existência de progresso moral. Por isso, o relativismo cultural muito provavelmente não é verdadeiro.

cartoon crítico ds sufragists

Harry Grant Dart, "Why Not Go the Limit?", na revista Puck, em 1908.

O cartoon é uma paródia do movimento sufragista, ou seja, das pessoas que defendiam o direito das mulheres votarem2. O desenho é bom, mas incorre claramente na falácia da derrapagem (também conhecida por bola de neve ou declive escorregadio).

1 James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, tradução de F. J. Azevedo Gonçalves, Lisboa, 2004, Colecção Filosofia Aberta, Edições Gradiva, pp.41-42.

2 The Appendix.

domingo, 25 de novembro de 2012

Autoridade acidental

Uma das condições para um argumento de autoridade ser válido é a autoridade referida ser competente no assunto em causa. Ora, Steven Pinker é de facto especialista naquele assunto, mas, como é óbvio, isso nada tem a ver com o seu nome próprio. :)

steves argumento de autoridade

Cartoon de Kipper Williams

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Um anúncio contra o racismo

Eis o trabalho que as alunas, Catarina Bárbara e Maria Bumbuk, do 11º F fizeram sobre um anúncio publicitário.

Vale a pena ver e ler!

O racismo corresponde a um preconceito e conduz a atitudes discriminatórias. Este anúncio pretende levar as pessoas a repensar algumas das suas ideias e a compreender os efeitos negativos que estas podem ter nos outros e em si próprias. No anúncio vemos uma rapariga a aplicar, ao espelho, um creme (Racism) aparentemente para lhe fazer bem à “pele” e ficar mais bela.

No entanto, os efeitos produzidos são o contrário dos desejados, pois com o passar dos dias a rapariga apresenta olheiras, alergia, vermelhidão e borbulhas e começa a ter feridas, chegando a ficar com a cara completamente desfigurada. Assim, apesar deste “creme” a ir desfigurando, ela continua a aplicá-lo, sem se aperceber do mal que este lhe faz. O mesmo se passa com as pessoas com ideias racistas, também elas não se apercebem que ao discriminarem os outros de forma repetida, esses atos acabam por lhes moldar o carácter transformando-as em pessoas “feias” (moralmente desprezíveis). Trata-se, portanto, de um argumento por analogia. Neste caso é um argumento fraco porque a fealdade física e moral não são comparáveis, as diferenças são maiores que as semelhanças.

Os argumentos implícitos no vídeo podem expressar-se do seguinte modo:

Modus ponens

Se és racista, então vais ficar feio.

És racista.

Logo, ficaste feio.

Modus tollens

Se és racista, então vais ficar feio.

Não ficaste feio.

Logo, não és racista.

A principal mensagem transmitida ao espectador é que não devemos ser racistas.  O termo “feio” é utilizado em sentido moral: é algo condenável por ser contrário ao bem e ao dever. Na prática, o racismo deixa marcas, bastante más até, especialmente na vítima, mas também no indivíduo que tem este tipo de atitudes, pois ele em vez de se tornar uma pessoa melhor, regride, tornando-se irreconhecível para si próprio, tal acontece à rapariga do anúncio.

Neste vídeo utilizam-se, de forma implícita,  falácias informais (argumentos em que as premissas não sustentam a conclusão - em virtude do seu conteúdo e/ou da sua forma - embora isso não pareça acontecer). Exemplos:

- Apelo às consequências: o autor para mostrar que uma crença (o racismo) é falsa aponta as consequências desagradáveis que advirão em sua defesa (o facto das pessoas ficarem feias (ou seja moralmente desfiguradas, com dificuldade em se reconhecerem a si próprias).

- Ataque pessoal: em vez de se apresentarem razões para justificar porque motivo esta é uma crença falsa, ataca-se as pessoas racistas dizendo que elas são feias. Quando o que importava era demonstrar que o racismo não tem qualquer fundamento racional.

A nosso ver, este anúncio é apelativo e faz as pessoas (algumas pelo menos) repensarem as suas atitudes. Este anúncio não foi feito para promover um tipo de alimento, uma marca, ou outros objectos, mas sim para despertar as pessoas: aquelas que ainda permanecem na ignorância, pensando que certos indivíduos são superiores a outros devido às suas características físicas. Recentes investigações provam que a “raça” é um conceito inventado. A noção de “raça” não possui qualquer fundamento biológico. Não existe nenhuma prova científica da existência de raças diferentes. A biologia só identificou uma raça: A RAÇA HUMANA.

Catarina Bárbara e Maria Bumbuk

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Resulta mesmo?

tigre

Uma mulher saía para o alpendre de casa todas as manhãs e exclamava:

- Que os deuses protejam esta casa! Que os deuses protejam esta casa!

Uma vizinha, após ouvir essas palavras muitas vezes, resolveu um dia perguntar-lhe:

- Para que é aquilo? Não há um único tigre num raio de mil quilómetros.

- Estás a ver? Resulta! – respondeu a mulher.

Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco entram num Bar..., Dom Quixote, Lisboa, 2008, pág. 54 (adaptado).

Qual é a falácia?

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Argumentos contra o ateísmo

As alunas do 11º C, Catarina Perez, Inês Pedro e Rute Rita (a quem agradeço o envio da imagem), analisaram e discutiram na aula - a propósito da utilização das falácias na publicidade - um interessante cartaz contra o ateísmo.

Deixo, então, um desafio ao leitor: descobrir, tal como estas alunas fizeram, quais são os argumentos falaciosos utilizados neste cartaz publicitário.

Para defender a tese em causa haverá outras formas de argumentar mais persuasivas? Porquê?

image

domingo, 23 de janeiro de 2011

Criticar não é o mesmo que arrotar

Discutir

A falácia ad hominem (atacar pessoalmente os indivíduos de quem discordamos em vez de discutir as suas ideias, aludindo a aspectos pessoais irrelevantes para o argumento) é frequente, nomeadamente na política e na vida profissional. Mas, felizmente, a sua utilização é muitas vezes denunciada.

Contudo, essa denúncia nem sempre é justificada. Algumas pessoas, incomodadas com o facto de alguém questionar as suas ideias, declaram-se ofendidas na sua honra. Confundem as críticas com insultos e consideram como um ataque pessoal o desafio que lhes foi feito para debater e argumentar.

Por vezes essa atitude constitui apenas uma fuga oportunista ao trabalho de argumentar e à possibilidade de refutação. Mas outras vezes é sincera: as pessoas sentem-se mesmo atacadas pessoalmente e ficam mesmo aborrecidas.

Sincera ou não, essa atitude é favorecida por uma tradição cultural como a portuguesa, onde a discussão e a crítica não são vistas como tentativas de chegar à verdade e à clareza, mas sim como algo negativo e desagradável. Por isso, em Portugal quando alguém – por exemplo numa reunião de professores – apresenta uma objecção ao que foi dito é frequente instalar-se algum mal-estar: a pessoa cuja opinião foi criticada manifesta incómodo e este é partilhado por muitos dos ouvintes. Como se discordar de modo claro e frontal fosse indelicado e tão socialmente inadequado como arrotar ruidosamente.

Claro que nesses ambientes se admite que as pessoas não estejam de acordo. Contudo, considera-se que o desacordo não deve ser expresso através de um frontal “a tua opinião é falsa: X não é Y”, mas sim através de frases mais relativistas e capazes de tornar o desacordo inócuo: “na minha perspectiva X não é Y, mas é só a minha opinião, a minha maneira de ver, eu respeito todas as opiniões”. A cantilena repetitiva do “na minha perspectiva” destina-se a tornar claro que não se está a contestar a outra opinião e que se considera todas as opiniões legítimas e respeitáveis – já que, supostamente, tudo é uma questão de perspectiva. Parece que assim ninguém se sente pessoalmente atacado.

Infelizmente, esse procedimento não exclui apenas a falácia ad hominem, mas também a possibilidade de debater realmente ideias.

Escusado será dizer que criticar os comportamentos ou a competência (por exemplo profissional) de alguém sem ser acusado de estar a praticar um ataque pessoal é ainda mais difícil do que quando se tenta apenas discutir ideias.

sábado, 22 de janeiro de 2011

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Falácias e palhaçadas

palhaços

Pretender que uma teoria económica é falsa apenas porque o seu autor está envolvido num caso de corrupção é falacioso. Trata-se da falácia ad hominem. Esta consiste num ataque pessoal injustificado. Em vez de discutir as próprias ideias, tenta-se refutá-las atacando características pessoais do seu autor que são irrelevantes para o caso. Regressando ao exemplo, não é plausível que a honestidade ou desonestidade de um economista tenha relação directa com a verdade ou falsidade das suas teorias.

Para haver falácia os aspectos pessoais visados têm de ser irrelevantes. Caso sejam relevantes o argumento é válido. Duvidar do testemunho de um indivíduo alegando que é alcoólico e passa o dia embriagado pode não ser falacioso, pois sabe-se que o álcool perturba a percepção e por isso o seu alcoolismo poderá ser uma característica pessoal relevante para o caso.

Quando apreciamos as afirmações e as acções dos políticos, a consideração de algumas características pessoais é frequentemente relevante e não falaciosa. Por exemplo: a eventual homossexualidade de um ministro é irrelevante para a avaliação das suas decisões financeiras, mas torna-se relevante na avaliação da sua actuação política caso ele defenda publicamente a discriminação dos homossexuais. A natureza da actividade política, nomeadamente o enorme impacto que tem na vida dos cidadãos, faz com que seja relevante estes conhecerem eventuais incoerências entre o discurso e a prática dos detentores de cargos políticos.

Vem isto a propósito do facto de alguns governantes (em Portugal e noutros países, como por exemplo a Grécia) andarem actualmente a exigir sacrifícios aos cidadãos: aumentos de impostos, cortes salariais, etc. Pedem também às pessoas para aceitar esses sacrifícios sem protestar, apelando ao seu patriotismo e sentido de cidadania. Creio que, ao avaliar esse pedido, é relevante ter em conta, não apenas as dificuldades económicas actuais, mas também a prática seguida por esses governantes nos últimos anos no que diz respeito à utilização dos dinheiros do Estado, pois há indícios e até provas de que essa gestão foi pouco rigorosa e pouco competente - e, nalguns casos, fraudulenta. Confrontar as actuais afirmações desses governantes com aquilo que têm feito não constitui, portanto, uma falácia ad hominem.

Quando faço essa confrontação lembro-me logo da história dos palhaços que, poucos minutos depois do seu número, regressaram ao palco gritando: “Fogo! Fogo! Há um incêndio! Fujam!” Os espectadores, julgando tratar-se de mais uma palhaçada, riram em vez de fugir. Resultado: no incêndio morreram diversas pessoas e várias outras ficaram feridas.

quinta-feira, 4 de março de 2010

O mal deve-se a Deus ou ao homem?





Deus existe? Em resposta a esta questão filosófica já foram apresentados inúmeros argumentos. Um deles relaciona-se com inegável existência do mal no mundo. Não só os seres humanos praticam, de forma voluntária, actos imorais que provocam sofrimento (mal moral) como há catástrofes naturais e doenças (mal natural), por exemplo.
Como é, então, possível compatibilizar a existência do mal com a perfeição do criador? Isto é: como pode Deus, entendido nas religiões teístas como um ser sumamente bom, que sabe tudo (omnisciente) e pode tudo (omnipotente), permitir que o mal exista? Ou será que Deus não existe?
Os teístas tentam refutar este argumento dizendo que Deus dotou os seres humanos de livre-arbítrio: podemos escolher praticar acções boas ou más e, portanto, somos moralmente responsáveis pelas consequências dos nossos actos. Mas será que o livre-arbítrio existe mesmo? E, supondo que existe, como se explica, então, o mal natural?
No vídeo, o aluno baseia-se numa analogia com o que acontece nalguns fenómenos naturais para explicar a existência do mal. Será um bom argumento? Ou constituirá antes uma falácia informal, designada por falsa analogia?
Nota: Agradeço aos meus alunos André Wallace, Cristina Soares e João Manhita o facto de me terem dado a conhecer este vídeo.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O que é a ideologia?

A invenção da ideologia 2Por vezes lamenta-se que haja cada vez menos ideologia na política, substituída pelo pragmatismo e pela mera defesa dos interessas próprios – subentendendo-se, portanto, que a ideologia é uma coisa boa.

Muitas outras vezes a palavra é utilizada num sentido claramente negativo, como quando se diz “George Orwell não é um escritor ideológico” (aqui) ou “O ‘eduquês’ é uma ideologia pedagógica que promove a desigualdade social”.

No primeiro caso considera-se que uma ideologia é um conjunto de ideais e princípios, ou seja, ideias acerca do modo como as coisas deveriam ser, nomeadamente na política. Por exemplo: o socialismo e o liberalismo são ideologias políticas. Dito por outras palavras: “qualquer sistema abrangente de crenças, categorias e maneiras de pensar que possa constituir o fundamento de projectos de acção política e social é uma ideologia: um esquema conceptual com uma aplicação prática.” (Simon Blackburn, Dicionário de Filosofia, Gradiva, Lisboa, 1997, pág. 219.)

No segundo caso considera-se que uma ideologia é um conjunto de preconceitos, de ideias anteriores à experiência e à análise crítica e racional e que, nas palavras de Simon Blackburn, funcionam como “uma espécie de óculos que distorcem e dissimulam” a realidade. Nessa acepção, a ideologia leva a ajustar os factos à teoria e não a teoria aos factos, ou seja, é uma maneira de pensar que deturpa e ilude.

Para explicar de modo mais completo a relação entre as duas utilizações da palavra seria necessário invocar as ideias de Karl Marx e de Friedrich Engels. Em vez disso, faço apenas notar que nem sempre é óbvio se estamos perante a ideologia no primeiro ou no segundo sentido.

Sucede por vezes que os adversários de uma ideologia no primeiro sentido (por exemplo, alguns socialistas quando criticam o liberalismo ou alguns liberais quando criticam o socialismo) a tentam reduzir ao segundo sentido (incorrendo por isso na falácia do homem de palha).

Por vezes são os próprios defensores de uma ideologia a fazer essa redução do primeiro ao segundo sentido: agarram-se tão cega e teimosamente aos seus ideais que estes se tornam meros preconceitos - ideias cristalizadas incapazes de explicar o mundo e as suas mudanças, repetidas com convicção e paixão mas de modo acrítico.

Wiley Miller, neste genial cartoon (“A invenção da ideologia”, tirado daqui), refere-se claramente à ideologia no segundo sentido. A legenda poderia ser: “A marca segura de ideologia, tanto na ciência e filosofia como na política, é a negação de factos óbvios.” (Colin McGinn, Como se faz um filósofo, Bizâncio, Lisboa, 2007, pág. 63.)

Agora que, em Portugal, se aproximam dois actos eleitorais bastante importantes, talvez valha a pena pensar na distinção entre a ideologia como conjunto de ideais e princípios e a ideologia como conjunto de preconceitos. Basta folhear os jornais ou ligar a TV para perceber que há muitos factos óbvios que andam a ser negados. Em nome de elevados ideais e princípios, claro.

Se clicar no nome dos livros poderá obter mais informações acerca deles.

sábado, 7 de março de 2009

O Deco não percebe nada de Epistemologia

O futebolista Deco é protagonista num anúncio publicitário a um site de apostas desportivas – a que chamarei Y (para não me tornar colega do Deco na campanha publicitária).

Nesse anúncio, Deco faz duas perguntas aos leitores: “Sabe qual vai ser o resultado do Sporting-Paços de Ferreira? Porque não põe os seus conhecimentos à prova no site Y?”

De acordo com a chamada definição tradicional de conhecimento, este implica necessariamente três condições (e discute-se se não implicará também uma quarta condição): crença, verdade e justificação. Se essas condições forem de facto necessárias (e provavelmente são: o que se discute é se – as três juntas - são suficientes), as perguntas do futebolista não fazem qualquer sentido. Nenhum leitor do anúncio, nem aliás nenhum outro ser humano, pode possuir o conhecimento referido por Deco. Porque...

Teste a sua compreensão desse tema respondendo a esta pergunta simples: porquê?

Se não receasse abusar da paciência dos leitores do Dúvida Metódica (sobretudo dos que são também alunos), faria ainda outra pergunta: haverá alguma falácia no anúncio? Qual (ou quais)?


domingo, 25 de janeiro de 2009

Ligações políticas

Todos os anos verifico que a grande maioria dos meus alunos acha a política uma grande chatice. Acreditam também que é algo que pouco ou nada tem a ver com eles.
Por outro lado, ninguém lhes tira da cabeça que os políticos são todos mentirosos e corruptos. A análise lógica e filosófica de falácias indutivas como a generalização precipitada e a amostra tendenciosa diminui drasticamente o número de alunos dispostos a dizer “Todos os X são ladrões” ou “Todos os Y traficam droga”. Mas os recursos da Lógica revelam-se sempre insuficientes para convencer esses alunos a serem mais cuidadosos com as generalizações acerca dos políticos.
É preciso reconhecer que as figuras tristes que muitos políticos costumam fazer, nomeadamente na televisão, não ajudam esses alunos (nem muitos outros portugueses) a desfazer os seus preconceitos. Nas aulas de Filosofia aprendem que o argumento ad Hominem e a falácia do Homem de Palha são característicos da chamada persuasão irracional ou manipulação, mas quase todos os dias vêem alguns políticos a atacarem-se pessoalmente e a distorcerem as ideias uns dos outros, sem se preocuparem minimamente com a validade dos seus argumentos nem com a verdade das suas afirmações.
Para tentar mostrar que o argumento “alguns políticos são corruptos, mentirosos e manipuladores, logo todos os políticos são corruptos, mentirosos e manipuladores” é falacioso e que a sua conclusão é falsa, o Dúvida Metódica passará a incluir algumas “Ligações políticas”.
Numa sociedade democrática o confronto racional de ideias diferentes é salutar e útil. Por isso, das “Ligações políticas” constarão – além do velho e pouco alinhado Abrupto – 2 blogues de esquerda (Arrastão e Rui Tavares) e 2 blogues de direita (Blasfémias e O cachimbo de Magritte).
Boas leituras. E votos de pouca manipulação.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Fiz greve e fui trabalhar

1. Fiz greve. Motivo: o governo está a tentar impôr um sistema de avaliação comprovadamente absurdo e por motivos meramente eleitorais não reconhece que tem de suspendê-lo. Parece que dar o braço a torcer custa votos.
2. Dei as aulas (mas pedi às funcionárias para registarem a minha falta e disse ao PCE para me pôr na "lista" dos grevistas).
Motivo: tinha 2 testes marcados e seria complicado marcá-los para outro dia (segunda-feira é feriado outra vez), para não falar na complicação que seria corrigi-los a tempo e horas.
3. Como articular de modo coerente o ponto 1. e o ponto 2.? Deixo a resposta ao critério e à imaginação dos leitores.
Só peço que os leitores, ao reflectirem sobre o caso, se lembrem das insinuações que o governo tem feito sobre todos os professores: estavam habituados a ter privilégios e não querem trabalhar, não querem ser avaliados...
Já agora, se algum leitor conhecer membros do governo talvez lhes possa explicar em que consiste a falácia da generalização precipitada.
E, se tiver oportunidade, aproveite para lhes dizer que, pelo menos neste caso, não dar o braço a torcer talvez custe ainda mais votos do que dar o braço a torcer .

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Matriz do 2º teste do 11º (turmas B, D, E e F)


Ficha de revisão: identificação de argumentos não dedutivos

Os argumentos presentes nos exemplos a seguir apresentados são argumentos não dedutivos: generalizações, previsões, argumentos por analogia e argumentos de autoridade. Identifique-os e diga se são válidos ou inválidos.

A. Os seres humanos que existem actualmente (e também os que já existiram) são incapazes de respirar (de modo natural, sem usar aparelhos) debaixo de água. Por consequência, pode-se dizer que pelo menos as próximas gerações de seres humanos não conseguirão respirar naturalmente debaixo de água.

B. Os seres humanos e os chimpanzés têm muitas semelhanças de carácter biológico: são mamíferos, primatas, partilham noventa e tal por cento dos genes, muitas das suas estruturas cerebrais são parecidas, etc. Os seres humanos, quando são alvo de choques eléctricos, sentem dor e medo. Pode-se, portanto, afirmar que os chimpanzés quando apanham choques eléctricos sentem dor e medo.

C. Os seres humanos e os gorilas têm muitas semelhanças biológicas e comportamentais: são mamíferos (as mães aleitam os filhos), primatas, partilham noventa e tal por cento dos genes, muitas das suas estruturas cerebrais são parecidas, pegam nos filhos ao colo, etc. Os seres humanos sofrem quando são separados dos pais e dos filhos. Pode-se, portanto, afirmar que os gorilas sofrem quando são separados dos pais e dos filhos.

D. Os seres humanos que existem actualmente (e também os que já existiram) são incapazes de respirar (de modo natural, sem usar aparelhos) debaixo de água. Consequentemente, nenhum ser humano poderá jamais respirar naturalmente debaixo de água.

E. Diversas equipas de astrónomos declaram ter observado (de modo indirecto) planetas fora do Sistema Solar. Como tal, podemos afirmar que existem planetas fora do Sistema Solar.

F. Quando o filho lhe perguntou se há pássaros com mais ou menos de duas patas, o Sr. Leopoldo respondeu: “Já vi muitos milhares de pássaros e todos tinham duas patas; por isso, os pássaros só podem ter duas patas.”

G. Tal como Luís de Camões, João Miguel Fernandes Jorge (que tem – neste ano de 2007 – mais ou menos 50 anos) é um bom poeta, uma pessoa inteligente e dotada de espírito crítico. E, à semelhança do autor d’ Os Lusíadas, é português, culto e bem informado. Ora, João Miguel Fernandes Jorge sabe navegar na Internet. Por isso, Luís de Camões também sabia navegar na Internet.

H. David Hume foi passar férias a Florença, na Itália. Após 30 minutos de passeio nas belas ruas de Florença, já tinha visto 17 automobilistas realizarem manobras perigosas. Face a isso, David Hume disse à esposa: “Restam poucas dúvidas que os italianos são maus condutores.”

I. Tenho sete irmãos mais velhos. Os professores de Filosofia dos meus irmãos gostavam de uma banda desenhada chamada Zits. Por isso, aposto que, quando for para o 10º ano, terei um professor de Filosofia que gosta dos livros da série Zits.

J. Nas lojas onde compro materiais para desportos radicais e nas lojas onde compro livros e discos, já fui várias vezes atendido por empregados de bigode que se enganaram nos trocos. Parece-me, por isso, que as pessoas de bigode não sabem fazer contas.


K. Péricles, abanando a cabeça e gesticulando (tinha a cara vermelha e parecia zangado) disse ao seu amigo Diógenes: “Não e não! Não concordo consigo, ó Diógenes! O futebol é um jogo belo e interessante, porque… Enfim! Repare que inúmeros intelectuais e artistas gostam de futebol. Ponha os olhos, por exemplo, no Camilo José Cela, vencedor do prémio Nobel da Literatura – veja bem! Ele adorava futebol… Até escreveu umas histórias, uns contos, com futebol pelo meio.”