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domingo, 28 de julho de 2024

Animais que fazem surf: filósofos, golfinhos…

«Muitos dos meus melhores momentos no surf têm mais que ver com a experiência do esplendor e do poder das ondas do que com a minha aptidão para as surfar. De facto, aquando do meu momento mais mágico de surf, não estava sequer numa onda. Na baía de Byron, a ponta mais a leste da Austrália, estava a remar em direção às ondas. O Sol brilhava, o mar era azul e eu estava ciente dos milhares de milhas do oceano Pacífico, que se estende sem nenhuma interrupção até à costa do Chile.

Um impulso de energia gerado nessa vasta extensão de água aproximou-se de uma linha submersa de rochas e levantou-se à minha frente num paredão verde. Quando a onda começou a quebrar-se, um golfinho saltou à sua frente, saindo completamente da água.

Foi um momento sublime, mas não tão raro como isso. Como muitos dos meus colegas surfistas sabem, somos o único animal que joga ténis ou futebol, mas não o único que gosta de surfar.»

Peter Singer, Ética no Mundo Real, Edições 70, Lisboa, 2024, págs. 423-424.

 


Fotografia: Kalbarri, na Austrália, de Matt Hutton. 

domingo, 4 de janeiro de 2015

Os preconceitos dos filósofos

maquiavel acerca dos preconceitos

 

«A filosofia deve pôr em questão os pressupostos básicos da época. Creio que pensar crítica e cuidadosamente naquilo que a maioria das pessoas tem por garantido é a tarefa principal da filosofia – é esta a tarefa que faz da filosofia uma actividade valiosa. Lamentavelmente, a filosofia nem sempre está à altura do seu papel histórico. Os filósofos são seres humanos e estão sujeitos a todos os preconceitos da sociedade a que pertencem. Por vezes conseguem libertar-se da ideologia prevalecente; com maior frequência, tornam-se os seus defensores mais sofisticados.

[Um exemplo disso é o especismo na filosofia contemporânea, ou seja, a ideia de que a espécie humana merece sempre um tratamento privilegiado relativamente às outras espécies animais.] Neste caso, a filosofia, como hoje é praticada nas universidades, não desafia os preconceitos sobre as nossas relações com as outras espécies. Através do que escrevem, os filósofos que se ocupam de problemas relacionados com a questão mostram que aceitam os mesmos pressupostos dogmáticos que a maior parte dos outros seres humanos, e aquilo que dizem contribuem para reforçar no leitor os seus confortáveis hábitos especistas.»

Peter Singer, “Todos os animais são iguais”, in Os animais têm direitos? – Perspectivas e Argumentos, organizado e traduzido por Pedro Galvão, Dinalivro, Lisboa, 2011, pp. 40-41.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Seria correto fazer uma guerra para salvar uma aldeia?

Homem chora com o cadáver do filho nos braços na Síria

As “Nações Unidas, no limite das suas capacidades, deveriam autorizar a intervenção [militar noutros países] que impeça que se cometam crimes contra a humanidade, nos casos em que se pode esperar razoavelmente que isso não provoque um mal maior do que o que evita. Isto aponta não só para um direito de intervir como, nas circunstâncias apropriadas, um dever de intervir.”

Peter Singer, Um Só Mundo: A Ética da Globalização, Gradiva, Lisboa, 2004, pp. 199-200.

Ao explicar a necessidade da intervenção não fazer mais mal que bem, Peter Singer cita (pág. 192) estas palavras (de Michael Doyle): “não faz sentido moral salvar uma aldeia e iniciar a Terceira Guerra Mundial”.

Quando se fala da possibilidade de uma intervenção militar na Síria deve-se, portanto, considerar as graves violações dos direitos humanos perpetradas pelo governo sírio, mas também as consequências prováveis dessa intervenção, nomeadamente no que diz respeito ao número de mortos e feridos. Existe ou não o risco dessas consequência serem ainda piores que as atrocidades de Bashar al-Assad?

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Viver uma vida ética

help«Há ainda alguma coisa pela qual viver? Haverá algo a que valha a pena dedicarmo-nos, além do dinheiro, do amor e da atenção da família? (…) A resposta é que podemos viver uma vida ética. Ao fazê-lo, passaremos a integrar uma vasta tradição que atravessa culturas. Além disso, descobriremos que viver uma vida ética não constitui um sacrifício pessoal, mas uma realização pessoal.»

Peter Singer, Como havemos de viver?, Dinalivro, Lisboa, 2006, pág. 13.

Mas em que consiste viver uma vida ética?

quinta-feira, 30 de junho de 2011

'A vida que podemos salvar': o dever de ajudar as pessoas muito pobres

A vida que podemos salvar – Agir agora para pôr fim à pobreza no mundo, de Peter Singer Peter Singer, A vida que podemos salvar – Agir agora para pôr fim à pobreza no mundo, Gradiva, Lisboa, 2011.

Imagine que a caminho do trabalho vê uma criança prestes a afogar-se num pequeno lago, com 20 cm de profundidade. Salvá-la não implica nenhum risco de vida, mas molhará as calças e os sapatos e chegará atrasado ao trabalho. O que deve fazer? ‘Salvar a criança’, respondem quase todas as pessoas.

Mas, se é assim, porque é que essas pessoas não ajudam os “quase 10 milhões de crianças com menos de cinco anos de idade que morrem todos os anos com causas relacionadas com a pobreza”? Se estão dispostas a ajudar indivíduos cujas dificuldades presenciam porque não ajudam também indivíduos cujas dificuldades não presenciam mas sabem ser reais?

Algumas pessoas ajudam, mas Peter Singer defende, em A vida que podemos salvar – Agir agora para pôr fim à pobreza no mundo, que muitas mais deveriam ajudar. No Prefácio, afirma que escreveu o livro com dois objectivos principais. Primeiro, “pensar acerca das nossas obrigações perante pessoas que não conseguem sair da pobreza extrema”. Segundo, “convencê-lo [ao leitor] a fazer a escolha de dar mais do seu rendimento para ajudar os pobres”, fazendo por exemplo doações a organizações empenhadas no combate à pobreza.

Peter Singer defende que temos o dever moral de ajudar pessoas vítimas de pobreza extrema, mesmo que não as conheçamos, pois podemos fazê-lo sem sacrificar o nosso bem-estar, bastando diminuir um pouco o consumo que fazemos de produtos desnecessários. Ao longo do livro apresenta e discute diversos argumentos para justificar essas ideias. Terá razão?

Bem, ainda vou no primeiro capítulo… Seja como for, o livro merece ser lido e discutido.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Argumentos contra o aborto

1. O argumento da humanidade do feto.

«Admitamos que é errado abortar no caso de o feto possuir o direito à vida. Será que o feto tem esse direito?

Um argumento contra o aborto baseado no direito à vida do feto muito frequente é o seguinte:

(1) Matar um ser humano inocente é moralmente errado.
(2) O feto é um ser humano inocente.
Logo, matar um feto humano é moralmente errado.

Peter Singer, no livro Ética Prática, chamou a atenção para a forma como a ambiguidade da expressão “ser humano” afecta o argumento. A expressão “ser humano” pode ser interpretada em dois sentidos muito diferentes, embora à primeira vista isso passe despercebido. Podemos utilizar para significar pessoa e utilizá-la para significar membro da espécie Homo sapiens. A ambiguidade é decisiva para avaliar o argumento.

Pertencer à espécie Homo sapiens é um facto estritamente biológico: significa no essencial, que um indivíduo tem certo genoma, isto é, um certo código genético contendo instruções para o desenvolvimento do organismo que o tornam distinto de outras espécies. Mas ser uma pessoa é um facto psicológico: implica um indivíduo racional e consciente de si, alguém que tem consciência de perdurar ao longo do tempo como um ser dotado de identidade própria, dotado de reflexão e de projectos para o seu futuro.”»

Pertencer à espécie Homo sapiens confere ao feto um estatuto especial, diferente dos seres vivos que pertencem a outras espécies?

Podemos dizer que o feto é uma pessoa e, por isso, tem o mesmo direito à vida que as pessoas já existentes?

2. O argumento da potencialidade.

Pode-se «defender que o feto tem direito à vida, uma vez que, embora não seja ainda uma pessoa, é claramente uma pessoa em potência. (...)

Ou seja:

(1) Todas as pessoas inocentes têm direito à vida.
(2) Os fetos são pessoas potenciais.
(3) Ter potencialmente um direito implica tê-lo de facto.
Logo, os fetos têm direito à vida.»

Mas será a terceira premissa verdadeira?

3. O argumento de um futuro como o nosso.

Don Marquis(…) em vez de discutir o direito à vida do feto a partir da identificação de uma propriedade psicológica (como ser pessoa) que lhe conferia esse direito, Marquis parte da ideia que tirar a vida a um ser humano adulto é, em princípio, moralmente errado; em seguida tenta responder à seguinte questão: porque é errado matar um ser humano adulto?

A estratégia de Marquis é simples. Nós assumimos que um ser humano adulto possui direito à vida. Uma vez identificada a característica em virtude da qual um adulto tem esse direito, basta determinar se o feto (ou recém-nascido) tem igualmente essa propriedade. Em caso afirmativo, o feto possui direito à vida; se não, não.

A resposta de Marquis a esta questão é surpreendentemente simples, mas rica em consequências. Matar um homem adulto é, em princípio, moralmente errado porque priva a pessoa de um futuro com valor (…).

A tese de Marquis é que um indivíduo possuir um futuro com valor significa que valoriza agora o conjunto de experiências pessoais nele contidas ou virá a fazê-lo mais tarde.

Esta proposta é bastante plausível. Embora ter um futuro seja estar na posse de algo que ainda não se concretizou (como ser uma pessoa em potência), ter um futuro com valor é algo que o feto já tem efectivamente em qualquer estádio do seu desenvolvimento; não é algo que apenas possua apenas potencialmente.

O argumento de Marquis a favor da imoralidade do aborto é o seguinte:

(1) Se um indivíduo tem um futuro com valor, então possui o direito à vida.
(2) O feto tem um futuro com valor.
(3) O aborto provoca a morte do feto.
Logo, o aborto é moralmente errado.»

Estes excertos foram retirados  (e adaptados) do manual Logos, da autoria de Paulo Ruas e António Lopes, Editora Santilla, Constância, pp 187-199.

sábado, 15 de maio de 2010

Imoral não quer dizer sexual

Segundo os jornais, uma professora posou nua para uma revista erótica. A Câmara Municipal de Mirandela afastou-a das actividades lectivas e colocou-a a trabalhar no Arquivo Municipal. Motivo: impedi-la de contactar com alunos e pais, devido ao “alarme social” provocado pelo caso. A esse alarme não é estranho, além das notícias saídas nos jornais, o facto das pessoas da cidade terem comprado todos os exemplares da dita revista que encontraram à venda e de algumas das fotografias em causa terem circulado por email e telemóvel.

Ao ler sobre o caso vieram-me à memória as seguintes linhas de Fernando Savater e de Peter Singer. Creio que o caso não merece mais comentários.

 

“Quando as pessoas falam de ‘moral’ e sobretudo de ‘imoralidade’, oitenta por cento das vezes – e estou com toda a certeza a calcular por baixo – o sermão trata de alguma coisa que tem a ver com sexo. Tanto assim é que há quem julgue que a moral se dedica antes de mais a ajuizar o que as pessoas fazem com as suas partes sexuais. O disparate não podia ser maior (…). No sexo, por si próprio, nada há de mais ‘imoral’ do que comer ou passear no campo; claro que uma pessoa pode comportar-se imoralmente com o sexo (utilizando-o para prejudicar outra pessoa, por exemplo), do mesmo modo que há quem coma a parte do vizinho ou aproveite os seus passeios para planear atentados terroristas.”

Fernando Savater, Ética para um Jovem, 14ª edição, Dom Quixote, Lisboa, 2007, pp. 115-116.

“Algumas pessoas pensam que a moral está ultrapassada nos dias que correm. Encaram a moral como um sistema de proibições puritanas descabidas que se destinam sobretudo a evitar que as pessoas se divirtam. Os moralistas tradicionais pretendem ser os defensores da moralidade em geral, mas o que defendem na realidade é um determinado código moral. Apropriaram-se desta área a tal ponto que, quando uma manchete de jornal insere o título BISPO ATACA A DECADÊNCIA DOS PADRÕES MORAIS, pensamos logo que se trata de mais um texto sobre promiscuidade, homossexualidade, pornografia, etc., e não sobre as verbas insignificantes que concedemos para a ajuda internacional às nações mais pobres nem sobre a nossa indiferença irresponsável para com o meio ambiente do nosso planeta.

Portanto, a primeira coisa a dizer da ética é que não se trata de um conjunto de proibições particularmente respeitantes ao sexo. Mesmo na época da Sida, o sexo não levanta nenhuma questão ética específica. As decisões sobre o sexo podem envolver considerações sobre a honestidade, o respeito pelos outros, a prudência, etc., mas não há nada disso nada de especial em relação ao sexo, pois o mesmo se poderia dizer de decisões respeitantes à condução de um automóvel.”

Peter Singer, Ética Prática, Gradiva, Lisboa, 2000, pág. 18.

A respeito desta questão veja também o post "O que é realmente imoral: o sexo ou a miséria extrema?"

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Os animais não humanos têm direitos?

«Talvez chegue o dia em que a restante criação animal venha a adquirir os direitos de que só puderam ser privados pela mão da tirania. Os Franceses já descobriram que o negro da pele não é razão para um ser humano ser abandonado sem remédio aos caprichos de um torcionário. É possível que um dia se reconheça que o número de pernas, a vilosidade da pele ou a terminação do os sacrum [a cauda no caso de muitos animais não humanos] são razões insuficientes para abandonar um ser sensível ao mesmo destino. Que outra coisa poderia traçar uma linha insuperável? Será a faculdade da razão ou, talvez, a faculdade do discurso? Mas um cavalo adulto é, para além de toda a comparação, um animal mais racional, assim como mais sociável que um recém-nascido de um dia, de uma semana ou mesmo de um mês. Mas suponhamos que não era assim; de que serviria? A questão não está em saber se eles podem pensar ou falar, mas sim se podem sofrer.»

Jeremy Bentham, citado por: Peter Singer, Ética Prática, Gradiva, Lisboa, 2000, pág. 77.

cartaz direitos dos animais erro ético Quando se fala de Ética normalmente pensa-se nos seres humanos. Mas será que só nós é que somos dignos de respeito e de consideração ética? Haverá razões para excluir os animais não humanos dessa consideração?

O filósofo inglês Jeremy Bentham (1748- 1832) respondeu que não a essas questões, argumentando que o factor decisivo para um determinado ser merecer respeito e consideração ética é o facto de ser senciente, ou seja, poder sofrer. Na sua opinião, a racionalidade não é uma condição necessária. Terá razão?

A lista de argumentos e contra-argumentos é longa. Seja como for, é uma discussão que poderá influenciar a ementa do seu jantar, caro leitor.

terça-feira, 26 de maio de 2009

“Sair para o mundo e fazer algo que mereça a pena”

«Até à minha chegada a Nova Iorque [em 1973, para dar aulas de Filosofia na Universidade de NI], nunca conhecera ninguém que fizesse psicoterapia uma vez por semana; mas, quando travei conhecimento com o círculo de professores nova-iorquinos e suas esposas, depressa descobri que muitos deles faziam psicanálise diária. Cinco dias por semana, onze vezes por ano, tinham uma consulta de uma hora, que não podia ser cancelada por nada deste mundo, salvo numa emergência de vida ou de morte. (…) E isto não era nada barato. Alguns dos meus colegas, académicos bem remunerados e bem sucedidos, entregavam um quarto do seu ordenado anual aos seus analistas! Isto era para pessoas que, tanto quanto me era dado perceber, não eram nem mais nem menos perturbadas do que as que não faziam análise, e, com excepção do seu empenho na análise, não me pareciam diferentes das pessoas que eu conhecera em Oxford ou em Melbourne.

Perguntei aos meus amigos por que razão faziam aquilo. Responderam-me que se sentiam reprimidas, ou tinham tensões psicológicas por resolver, ou que não viam sentido para a vida.

Deu-me vontade de pegar nelas e abaná-las. Estas pessoas eram inteligentes, talentosas, abastadas e viviam numa das cidades mais estimulantes do mundo. Estavam no centro do maior centro de comunicações da História. O New York Times informava-os todos os dias do estado do mundo real. Sabiam, por exemplo, que em vários países em vias de desenvolvimento havia famílias que não sabiam de onde viria a sua comida para o dia seguinte e crianças que estavam a crescer física e mentalmente atrofiadas pela malnutrição. Sabiam, também, que o planeta podia produzir comida suficiente para cada ser humano ser adequadamente alimentado, mas esta encontrava-se tão mal distribuída que tornava risível qualquer referência a justiça entre nações. (Por exemplo, em 1973, o Produto Interno Bruto per capita dos Estados Unidos era de 6200 dólares e o do Mali 70 dólares.)

Se estes nova-iorquinos capazes e abastados tivessem saído dos divãs dos analistas, deixado de pensar nos seus próprios problemas e feito qualquer coisa quanto aos verdadeiros problemas enfrentados por pessoas menos afortunadas no Bangladesh ou na Etiópia – ou mesmo em Manhattan, umas poucas paragens de metro mais adiante -, ter-se-iam esquecido dos seus próprios problemas e talvez tivessem tornado também o mundo um sítio melhor. (…) [Ou seja:] a solução está em sair para o mundo e fazer algo que mereça a pena» [em vez de apenas olhar para dentro, só preocupados com o próprio umbigo].

Peter Singer, Como havemos de viver? – A ética numa época de individualismo, Dinalivro, Lisboa, 2006, pp. 361-362.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O paradoxo do hedonismo e o Dia dos Namorados

On A Claire Day by Carla Ventresca and Henry Beckett



“A maioria das pessoas não seria capaz de encontrar a felicidade ao decidir deliberadamente gozar a vida sem se preocupar com ninguém nem com coisa alguma. Os prazeres assim obtidos pareceriam vazios e em pouco tempo tornar-se-iam insípidos. Procuramos um sentido para a vida que vá para além do prazer pessoal e sentimo-nos realizados e felizes quando fazemos as coisas que consideramos plenas de sentido. Se a nossa vida não tiver sentido algum para além da nossa própria felicidade, é provável que, ao conseguirmos aquilo que julgamos necessário para essa felicidade, constatemos que a própria felicidade continua a escapar-nos.

Tem-se dado o nome de “paradoxo do hedonismo” ao facto de as pessoas que procuram a felicidade pela felicidade quase nunca a conseguirem encontrar, ao passo que outros a encontram numa busca de objectivos totalmente diferentes.”

Peter Singer, Ética Prática, Gradiva, 1ª edição, 2000, pág. 357.


Ao defender que podemos encontrar a felicidade e o sentido da vida quando tentamos pôr em prática objectivos a que atribuímos sentido e valor, Peter Singer tem em mente objectivos de natureza ética: ajudar pessoas necessitadas, combater a pobreza, combater algumas das várias formas de desigualdade e discriminação existentes no mundo, contribuir para a preservação do ambiente, etc.

A ideia é que o mero prazer pessoal não é suficiente e que precisamos de objectivos mais amplos e mais vastos que a nossa própria vida.

Muitas pessoas não seriam de facto capazes de “encontrar a felicidade ao decidir deliberadamente gozar a vida sem se preocuparem com ninguém nem com coisa alguma”, pois não são psicopatas dispostas a fazerem tudo aquilo que lhes der satisfação pessoal, mas não parecem ter os objectivos de natureza ética valorizados por Peter Singer.

Há muitas pessoas que são como as personagens do Cartoon: valorizam acima de tudo algumas relações afectivas – o amor pelos pais ou pelos filhos, o amor pela pessoa por quem se apaixonaram, etc. Para elas, mesmo que não seja o Dia dos Namorados, a pessoa amada é sempre o centro do mundo. Mas não procuram combater a pobreza nem se empenham na preservação do meio ambiente.

O amor que essas pessoas sentem por algumas pessoas próximas será suficiente para que tenham objectivos mais vastos que as suas próprias vidas ou não passará isso de uma outra forma de procurar o mero prazer pessoal? Ou seja: se não forem activistas de causas eticamente relevantes, estarão essas pessoas condenadas a procurar a felicidade pela felicidade e, por isso, a só encontrarem a amarga infelicidade?