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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Uma questão de perspetiva



Relatividade

Imagem da autoria do holandês Maurits Cornelius Escher (1898-1970).
Retirado de: M. C. Escher, the official website - http://www.mcescher.com/

Quando observamos esta imagem, o que vemos depende dos pormenores em que focamos o nosso olhar.
O mesmo se passa, por exemplo, em relação a alguns acontecimentos da nossa vida: muitos deles são factos objetivos, mas o modo como os compreendemos depende da perspetiva em que nos colocamos. Daí que o nosso olhar possa ser, eventualmente, distorcido e a compreensão que obtemos falsa.
Há muitas possibilidades de distorção. Duas das mais frequentes são: uma situação nos parecer melhor do que na realidade é ou então pior do que na realidade é. Manter a lucidez e o espírito crítico é uma forma de as evitar.

segunda-feira, 17 de março de 2014

Os esquecidos da História

QUEM CONSTRUIU TEBAS DE SETE PORTAS?

Quem construiu Tebas de sete portas?
Nos livros estão os nomes dos reis.
Foram os reis que arrastaram os blocos de pedra?
E as várias vezes destruída Babilónia —
Quem é que tantas vezes a reconstruiu?
Em que casas da Lima fulgente
de oiro moraram os construtores?
Para onde foram os pedreiros na noite em que ficou pronta
a Mu­ralha da China? A grande Roma
está cheia de arcos de triunfo. Quem os levantou?
Sobre quem triunfaram os césares?
Tinha a tão cantada Bizâncio
Só palácios para os seus habitantes?
Mesmo na lendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu bramavam os
afogados pelos seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os Gálios.
Não teria consigo um cozinheiro ao menos?
Filipe da Espanha chorou, quando a armada se afundou.
Não chorou mais ninguém?
Frederico II venceu na Guerra dos Sete Anos —
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhou o banquete da vitória?
Cada dez anos um Grande Homem.
Quem pagou as despesas?
Tantos relatos
Tantas perguntas. 

Bertolt Brecht

(Tradução de Paulo Quintela)

El juramento de los siete jefes de Alfred Church

O Juramento dos sete chefes, de Alfred Church

(inspirado num episódio da tragédia de Ésquilo Os Sete Contra Tebas).

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Como tudo começou

Vale a pena ver o filme, mas vale ainda mais pena ler o livro. Eis a parte em que Bilbo Baggins encontra o anel, para confirmar que o filme não substitui o livro.

gandalf comes to hobbiton Hobbit de John Howe

Desenho de John Howe.

“Quando Bilbo abriu os olhos não teve a certeza de que os abrira, pois estava tão escuro como quando os tivera fechados. Não se encontrava ninguém perto dele. Imaginai o seu medo! Não ouvia nada, não via nada e não sentia nada além da pedra do chão.

Pôs-se de gatas, muito devagar, e tateou até tocar na parede do túnel; mas nem por ela abaixo nem por ela acima encontrou nada; absolutamente nada, nenhum sinal de gnomos, nenhum sinal de anões. Tinha a cabeça a andar à roda e nem sequer estava certo da direção em que seguiam quando caíra. Calculou o melhor que pôde e arrastou-se um bom bocado, até que, de repente, a sua mão encontrou o que, pelo tato, lhe pareceu um pequeno anel de metal frio caído no chão do túnel. Foi um ponto de viragem na sua carreira, mas ele não o soube.”

J.R.R. Tolkien, O Hobbit, Publicações Europa-América, 2003, pág. 68.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O relativismo acerca da verdade refuta-se a si mesmo?

O relativismo acerca da verdade refuta-se a si mesmo?

Esta é a questão colocada a concurso na edição de 2012 do Prémio de Ensaio Filosófico da Sociedade Portuguesa de Filosofia.

No site da SPF ainda não se encontra disponível o regulamento, mas pode consultar AQUI o regulamento da edição de 2011. No ano passado a data de entrega foi o final de Dezembro.

O autor do ensaio vencedor receberá um prémio monetário (3500 euros, no passado ano). O ensaio vencedor será publicado na Revista Portuguesa de Filosofia.

"Uma Mão Com a Esfera Reflectora"  de Escher

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Não é preciso temer a morte

“A morte, o mais temido dos males, não nos diz (…) respeito; pois enquanto existimos a morte não está presente, e quando a morte está presente nós já não existimos. Nada é portanto nem para os vivos nem para os mortos visto que não está presente nos vivos, e os mortos já não são.”

Epicuro, Carta a Meneceu, Crítica [Revista de Filosofia] - http://criticanarede.com/meneceu.html

Durer a morte Death

Desenho de Albrecht Dürer.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Mais maravilhas do mundo de Alice: quando é que um argumento é cogente?

alice e o gato

(Este desenho é de Sir John Tenniel, autor das ilustrações que fizeram  parte da edição original.)

“- Que espécie de gente vive por aqui?

- Naquela direcção – disse o Gato, levantando a pata direita – vive um Chapeleiro, e naquela, uma Lebre de Março. Vai visitar o que quiseres, são ambos loucos.

- Mas eu não quero estar ao pé de gente louca – respondeu a Alice.

- Oh, não podes evitá-lo – disse o Gato. – Aqui todos são loucos. Eu sou louco. Tu és louca.

- Como é que sabes que sou louca? Perguntou a Alice.

- Tens de ser, de outro modo não estarias aqui.

Alice não achava que isso provasse coisa nenhuma (…).”

Lewis Carroll, Alice no país das maravilhas, tradução de Maria Filomena Duarte, Edições D. Quixote, Lisboa, 1988, págs. 66-67.

O argumento dedutivo presente no diálogo entre a Alice e o Gato pode ser formulado do seguinte modo: Todos os que estão aqui são loucos. Tu estás aqui. Logo, tu és louca.

Trata-se de um argumento dedutivo válido do ponto de vista formal, pois se admitirmos, por hipótese, a verdade das premissas, a conclusão que delas se extrai será necessariamente verdadeira.

Todavia, apesar de existir um nexo lógico entre premissas e conclusão, Alice considera que o argumento do Gato não prova nada.

Esse argumento é válido do ponto de vista formal. Mas será sólido? E cogente?

Nota: Em virtude do comentário do leitor Aires de Almeida - a quem agradeço - alterei o terceiro parágrafo do texto (que pode ser lido na caixa de comentários, bem como as razões da alteração introduzida).

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Desenhos com areia: será isto arte?

Muitos desenhos de Kseniya Simonova são (na minha opinião) belos. A sua realização revela perícia (eu, por exemplo, não seria capaz de fazer nenhum deles). É manifesto que exprimem ideias e sentimentos da autora. Esta, ao fazê-los e apresentá-los publicamente, comunica a outras pessoas essas ideias e sentimentos. Tal comunicação desperta emoções nessas pessoas e - presumivelmente – leva-as a reflectir e a debater acerca dos temas dos desenhos.

Serão estas razões suficientes para considerar artístico o trabalho de Kseniya Simonova?

O facto dos desenhos com areia serem efémeros poderá ser considerado uma razão para não serem considerados obras de arte?

O facto da generalidade dos especialistas em arte e dos artistas reconhecidos como tal, ignorar habitualmente os desenhos com areia e não os incluir nas suas listas de formas de arte, será razão suficiente para alguém que deles goste não os considerar obras de arte?

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Sem Deus tudo seria permitido?

«Afirma-se muitas vezes que é prejudicial atacar uma religião, porque ela torna os homens virtuosos. Confesso que não estou convencido disso. Conheceis, por certo, a paródia que Samuel Butler fez deste argumento no sue livro Erewhon Revisited.

Estais recordados de que um certo Higgs chegou a uma remota região onde passa algum tempo e depois se escapa num balão. Vinte anos depois, tendo aí regressado, ficou Albrecht Durer's Praying Hands rezar surpreendido ao deparar com um novo culto no qual ele próprio era adorado sob o nome de Filho do Sol. Recorde-se que, com efeito, subiu aos céus. Estava para breve a celebração da Festa da Ascensão, quando ouviu (…) [dois] altos dignitários da religião dos Filhos do Sol confidenciar uma ao outro que nunca tinham visto o chamado Higgs e que esperavam que jamais isso acontecesse. Cheio de indignação, aproximou-se e disse-lhes: ‘Vou esclarecer neste dia toda esta mistificação e dizer ao povo de Erewhon que eu, Higgs, sou apenas um homem como os outros e que, simplesmente, me servi de um balão para deixar o vosso país.’ Responderam-lhe: ‘Não faças isso, porque todos os princípios morais deste povo estão ligados a esse mito, e se souberem que não subiste ao céu, transformar-se-ão todos em malfeitores’. Persuadido, abandonou o país silenciosamente.»

Bertrand Russell, Porque não sou Cristão, Brasília Editora, Porto, s/d, pp. 28-29.

Os sacerdotes convenceram Higgs a não dizer a verdade argumentando que sem a fé religiosa não haveria razões suficientemente fortes para convencer as pessoas a agir moralmente: cumprir regras, respeitar os outros e os seus bens, etc. O romancista russo Fiódor Dostoiévski exprimiu essa ideia através destas célebres palavras: “Sem Deus tudo seria permitido”.

A ideia de que as pessoas não agiriam moralmente se não tivessem uma motivação religiosa presta-se a objecções óbvias, nomeadamente esta: há imensas pessoas que não têm qualquer crença religiosa e mesmo assim procuram agir moralmente. Por isso, é possível que mesmo sem Deus nem tudo fosse permitido.

Mas, mesmo que admitíssemos a necessidade de uma tal motivação religiosa, isso não seria – como sugere a história contada por Bertrand Russell – uma prova a favor da existência de Deus ou de outro ser sobrenatural qualquer. Com efeito, para se adquirir esse tipo de motivação e para que esta seja eficaz, não é necessário que Deus exista – basta que as pessoas acreditem que existe.

[Uma discussão mais detalhada destas ideias levar-nos-ia a considerar vários tópicos filosóficos, nomeadamente a teoria dos mandamentos divinos (acerca da natureza dos juízos morais) e o argumento moral a favor da existência de Deus.]

Na imagem: Betende Hände, Desenho a pincel sobre papel azul de Albrecht Dürer (1471-1528).

sábado, 31 de janeiro de 2009

O que se ganha com a leitura de bons livros

Escher, Libertação.

Tornei obrigatória no 10º ano a leitura do livro Ética para um Jovem de Fernando Savater. Muitos dos meus alunos consideram pouco democrática esta minha imposição. Também os desgosta o facto de, no teste de avaliação, existirem questões para verificar a leitura e compreensão da referida obra.

Muitos dos meus alunos são pessoas que frequentam há anos a escola, mas não compreendem o que se pode ganhar com a leitura de um livro - de Filosofia mas não só, pois a resistência à leitura das obras analisadas em Português é facilmente observável. Para eles é uma seca que recusam ou pelo menos vão adiando até ao último momento.

As causas deste fenómeno são complexas e não posso discuti-las todas aqui. Quero só referir que a explicação do fenómeno não pode residir apenas na existência de novos meios de comunicação e de maravilhas tecnológicas. Há pessoas, ingénuas – creio eu -, que julgam que a maioria dos alunos do secundário substituiu os “antiquados” livros em papel da minha geração por modos mais modernos de aceder ao conhecimento e à cultura em geral: a Internet, a televisão, etc. Segundo essas pessoas, os jovens lêem e acedem a diversas formas culturais de qualidade e intelectualmente estimulantes – só que já não é através dos livros.

Essa perspectiva optimista não é verdadeira. Na verdade, a utilização que a maioria dos alunos faz do computador, da televisão e de outros meios de comunicação relaciona-se apenas com o desfrutar do prazer imediato proporcionado pelos jogos, vídeos, filmes… Nada tem a ver com curiosidade em aprofundar os assuntos estudados, em alargar horizontes, em saber mais. Naturalmente que existem honrosas excepções, mas são uma diminuta minoria.

Em vez de referir todas as causas do fenómeno, vou limitar-me a apresentar alguns argumentos a favor da leitura.

A leitura de bons livros – de filosofia ou outros – permite-nos adquirir conhecimentos e proporciona um óptimo treino intelectual. O que alarga os nossos horizontes, dá-nos mais independência de espírito e capacidade crítica – em relação aos outros e a nós mesmos. O que faz com que os outros tenham mais dificuldade em manipular-nos. A leitura de alguns livros pode até ajudar-nos a ser melhores pessoas. Mas, mesmo quando isso não sucede, torna-nos pelo menos pessoas mais informadas e autónomas. O mundo é mais compreensível para quem lê do que para quem não lê.

Epicteto (um filósofo romano que durante muitos anos foi escravo) disse: “Não devemos acreditar nos muitos que afirmam que só as pessoas livres devem ser instruídas, mas devemos antes acreditar nos filósofos que dizem que só os instruídos são livres” (Epicteto, Dissertações). Epicteto tinha razão.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Winter wonderland - o frio, a neve e a leitura

“Winter wonderland”, desenho de Gabi Camapanario, no Seattle Sketcher Blog.

Escrevy sete ou oito linhas sobre o facto de nos países do norte da Europa (onde neva bastante, faz muito frio e anoitece cedo) as pessoas lerem mais livros do que nos países do Sul da Europa (nomeadamente neste parque de estacionamento à beira do mar plantado que dá pelo nome de Portugal), mas apaguei-as.

A imagem não precisa de legenda.

Por outro lado, um fenómeno como os hábitos de leitura, ou a falta deles, tem certamente causas mais complexas e humanas que o clima. Se se pudessem explicar os miseráveis índices de leitura que temos em Portugal só com o clima... Que bela desculpa que isso seria para algumas pessoas que eu conheço.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Será verdade que ninguém quer ser injusto?

“Todo o confronto é fruto de um mal-entendido; se as partes em disputa se conhecessem uma à outra, o confronto cessaria. Nenhum homem, no fundo, tenciona cometer injustiças; é sempre por uma imagem distorcida e obscura de algo moralmente correcto que ele batalha: uma imagem obscura, difractada, exagerada da forma mais assombrosa pela natural obtusão e egoísmo, uma imagem que se distorce dez vezes mais pelo acirramento da contenda, até tornar-se virtualmente irreconhecível, mas ainda assim a imagem de algo moralmente correcto. Se um homem pudesse admitir perante si próprio que aquilo pelo que luta é errado e contrário à equidade e à lei da razão, admitiria também, por conta disso, que a sua causa ficou condenada e desprovida de esperança; ele não conseguiria continuar a lutar por ela.”

Thomas Carlyle, Selected Writings, retirado do site Citador.


O autor apresenta diversas proposições que resultam de generalizações. Identifique essas proposições.

Tente encontrar contra-exemplos e discuta a validade das generalizações.


De acordo com Caryle, quando as pessoas agem de modo errado e injusto nunca o fazem voluntariamente, pois o que queriam fazer era - na perspectiva delas - algo certo e justo. Concorda com Caryle? Porquê?


Pode-se dizer que o autor defende uma forma de subjectivismo moral? Porquê?

(O desenho chama-se "E.T." e é da autoria de Helena Monteiro, que pode conhecer no blogue Traços e Cores.)