- Sabes qual é a terra da moda na filosofia?
- Não. Qual é?
- É o Alentejo: já tinham o Cante e agora têm também o Sócrates.
Anedota ouvida aqui.
“As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar, senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento.” John Stuart Mill
Uma mulher saía para o alpendre de casa todas as manhãs e exclamava:
- Que os deuses protejam esta casa! Que os deuses protejam esta casa!
Uma vizinha, após ouvir essas palavras muitas vezes, resolveu um dia perguntar-lhe:
- Para que é aquilo? Não há um único tigre num raio de mil quilómetros.
- Estás a ver? Resulta! – respondeu a mulher.
Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco entram num Bar..., Dom Quixote, Lisboa, 2008, pág. 54 (adaptado).
Qual é a falácia?
«Um teólogo perguntou a um supercomputador muito potente: “Deus existe?” O computador respondeu que não tinha poder suficiente, em termos de processamento, para saber isso. E pediu para ser ligado a todos os outros supercomputadores do mundo. Mesmo assim, não foi poder suficiente. Por isso, o supercomputador foi ligado às principais redes do mundo e, então, a todos os minicomputadores e computadores pessoais. E (…) ligado a todos os computadores instalados nos automóveis, micro-ondas, VCRs, relógios digitais e assim por diante. O teólogo fez a pergunta pela última vez: “Deus existe?” E o computador respondeu: “Sim, agora já existe!”»
John Naisbitt, citado por: Anthony Giddens, Sociologia, 3ª edição, 2002, F. C. Gulbenkian, Lisboa, pág. 476.
Uma vez um homem foi ao médico dizendo que lhe doía o corpo todo. O médico duvidou ligeiramente: “todo??” Mas o homem reiterou: “Sim, doutor. Todo!”
Para demonstrar a sua afirmação, o homem tocou rapidamente em várias partes do seu corpo com o dedo espetado, dizendo de cada vez: “dói-me aqui” - “dói-me aqui”, “dói-me aqui”, “dói-me aqui”...
Depois disso, o médico examinou-o com atenção e finalmente pronunciou o diagnóstico: “O senhor tem o dedo partido.”
(Esta história é contada no filme O Sabor da Cereja, de Abbas Kiarostami.)
“Dimitri: Então, Tasso, pareces ser uma daquelas pessoas que pensam que não existe uma verdade absoluta, que toda a verdade é relativa.
Tasso: Certo.
Dimitri: Tens a certeza disso?
Tasso: Absoluta.”
Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco entram num Bar..., Dom Quixote, Lisboa, 2008, pág. 220.
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Diz-se “isso é relativo” para sugerir que em relação ao assunto X ou Y não há uma verdade objectiva e igual para todas as pessoas. Talvez seja assim em relação a algumas coisas (gostos alimentares, por exemplo). Porém, no que respeita a muitas outras coisas a crença na relatividade da verdade deriva da falta de dados e de reflexão sobre a situação em apreço. Quando se considera a situação de modo mais completo torna-se evidente que a verdade acerca dela é objectiva e partilhável por todas as pessoas. Eis um exemplo irónico:
“Um homem está preocupado porque pensa que a mulher está a ficar surda e, por isso, vai ao médico. O médico sugere-lhe que experimente um simples teste em casa: parar atrás dela e fazer-lhe uma pergunta, primeiro a seis metros, depois a três metros e, por fim, mesmo atrás dela.
O homem vai para casa e vê a mulher na cozinha, virada para o fogão. Da porta, pergunta:
- Que vamos jantar esta noite?
Nenhuma resposta.
Três metros atrás dela, repete:
- Que vamos jantar esta noite?
Continua sem resposta.
Por fim, mesmo atrás dela, pergunta:
- Que vamos jantar esta noite?
A mulher volta-se e diz:
- Pela terceira vez… frango!"Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco entram num Bar..., Dom Quixote, Lisboa, 2008, pp. 73-74.
“Um homem está a rezar a Deus.
- Senhor – reza -, gostaria de te fazer uma pergunta.
O Senhor responde:
- Não há problema. Podes perguntar.
- Senhor, é verdade que para ti um milhão de anos é apenas um segundo?
- Sim, é verdade.
- Bem, nesse caso o que é um milhão de dólares para ti?
- Para mim, um milhão de dólares é apenas um cêntimo.
- Ah, nesse caso, Senhor – diz o homem -, podes dar-me um cêntimo?
- Claro – respondeu o Senhor. – Espera só um segundo.”
Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco entram num Bar..., Dom Quixote, Lisboa, 2008, pág. 215.
«Conta-se uma velha história sobre um matemático famoso… Tinha o matemático acabado de dizer aos seus alunos que um determinado resultado era óbvio quando uma aluna levanta a mão e diz ter dúvidas de que seja óbvio. O matemático ficou intrigado, sentou-se e começou a pensar. Passaram-se minutos, depois horas, e o matemático continuava a pensar, completamente absorto. Quando a aula estava praticamente a chegar ao fim, o matemático levantou a cabeça e proclamou, triunfante: ‘Sim, eu tinha razão: é óbvio!’»
Alexander George, Que diria Sócrates?, Gradiva, Lisboa, 2008, pág. 49.
A verdade de uma proposição ou a validade de um argumento são independentes do agente cognitivo.
O mesmo não sucede à evidência, ao carácter óbvio, de uma proposição ou de um argumento. A evidência depende do estado cognitivo do agente.
“Por estado cognitivo do agente entende-se o conjunto de crenças ou convicções que o agente tem, aquilo que o agente julga saber, o que ele pensa ser falso, o que ele aceita apenas parcialmente, o que ele duvida, etc.” - Desidério Murcho, Pensar Outra Vez, Edições Quasi, 2006, pág. 121.
Para uma pessoa X (detentora de mais conhecimentos, nomeadamente de Lógica) pode ser óbvio que uma certa proposição é verdadeira e que um certo argumento é válido, enquanto para uma pessoa Y (detentora de menos conhecimentos) isso pode não ser óbvio e a sua descoberta implicar uma trabalhosa reflexão.