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terça-feira, 1 de abril de 2014

Mentir, eis o problema

pinoquio-paradoxo do mentiroso

DOIS RUMOS

Mentir, eis o problema:
minto de vez em quando
ou sempre, por sistema?

Se mentir todo dia,
erguerei um castelo
em alta serrania

contra toda escalada,
e mais ninguém no mundo
me atira seta ervada?

Livre estarei, e dentro
de mim outra verdade
rebrilhará no centro?

Ou mentirei apenas
no varejo da vida,
sem alívio de penas,

sem suporte e armadura
ante o império dos grandes,
frágil, frágil criatura?

Pensarei ainda nisto.
Por enquanto não sei
se me exponho ou resisto,

se componho um casulo
e nele me agasalho,
tornando o resto nulo,

ou adiro à suposta
verdade contingente
que, de verdade, mente.

Carlos Drummond de Andrade, Boitempo.

sábado, 19 de maio de 2012

Verdades acerca da mentira

Mentira máscara“Metade da verdade é muitas vezes uma grande mentira.”

“Os mentirosos começam por enganar os outros e acabam por se enganar a si próprios.”

“Os mentirosos têm pouco respeito pelas outras pessoas.”

“Pode chegar-se longe com uma mentira, mas depois não se pode voltar atrás.”

A.C. Grayling, O Livro dos Livros– Uma Bíblia Humanista, Lua de Papel, 2011, pp. 449-450.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Devemos mentir para salvar a vida de um amigo? – Não, diz Kant (1)

kant

Immanuel Kant (1724-1804).

Um filósofo francês, Benjamin Constant, criticando a teoria ética de Kant, referiu:

«O princípio moral “é um dever dizer a verdade”, se se tomasse incondicionalmente e de um modo isolado, tornaria impossível qualquer sociedade. Temos disso a prova nas consequências muito imediatas que desse princípio tirou um filósofo alemão, o qual chega ao ponto de afirmar que a mentira dita a um assassino que nos perguntasse se um amigo nosso e por ele perseguido não se refugiou em nossa casa seria um crime

Kant respondeu-lhe do seguinte modo:

«(…) Se, por exemplo, mediante uma mentira, a alguém ainda agora mesmo tomado de fúria assassina, o impediste de agir és responsável, do ponto de vista jurídico, de todas as consequências que daí possam surgir. Mas se ativeres fortemente à verdade, a justiça pública nada pode contra ti, por mais imprevistas que sejam as consequências. É, pois, possível que após teres honestamente respondido com sim à pergunta do assassino, sobre a presença em tua casa da pessoa por ele perseguida, esta se tenha ido embora sem ser notada, furtando-se assim ao golpe do assassino e que, portanto, o crime não tenha ocorrido; mas se tivesses mentido e dito que ela não estava em casa e tivesse realmente saído (embora sem o teu conhecimento) e, em seguida, o assassino a encontrasse a fugir e levasse a cabo a sua acção, com razão poderias ser acusado como autor da sua morte, pois se tivesses dito a verdade, tal como bem a conhecias, talvez o assassino ao procurar em casa o seu inimigo fosse preso pelos vizinhos que ocorreram e ter-se-ia impedido o crime. Quem, pois mente, por mais bondosa que possa ser a sua disposição deve responder pelas consequências, mesmo perante um tribunal civil, e por ela se penitenciar, por mais imprevistas que possam também ser essas consequências; porque a veracidade é um dever que tem de considerar-se como base de todos os deveres (…).

Ser verídico (honesto) em todas as declarações é, portanto, um mandamento da razão que ordena incondicionalmente e não admite limitação por quaisquer conveniências.

(…) o dever de veracidade (do qual apenas aqui se fala) não faz qualquer distinção entre pessoas – umas em relação às quais poderíamos ter este dever, outras a propósito das quais dele nos poderíamos dispensar – mas porque é um dever incondicionado, que vale em todas as condições

Kant, “Sobre um suposto direito de mentir por amor à humanidade” em Paz perpétua e outros opúsculos, tradução de Artur Morão, Lisboa, 1992, Edições 70. pp 173-177.

Devemos mentir para salvar a vida de um amigo? – Não, diz Kant (2)

Kant defende que a proposição “deve-se dizer a verdade” deve ser posta em prática em qualquer circunstância. De acordo com a primeira formulação do imperativo categórico – que é um critério distintivo do que é moralmente certo e do que é moralmente errado -, dizer a verdade é uma acção universalizável; e, de acordo com a segunda formulação desse imperativo, trata-se de uma acção que não instrumentaliza as pessoas e em que estas são consideradas fins em si mesmas e não apenas meios.

Deste modo, a norma: “deves dizer a verdade” é um princípio moral objectivo, independente da situação, dos desejos particulares do agente e das consequências possíveis da sua aplicação.

Esta ideia do valor moral da acção depender da obediência a uma regra vinculativa para todas as pessoas, aplicada de modo imparcial, pode também ser encontrada no senso comum, por exemplo na expressão: “agir sem segundas intenções”. Significa isto que ser honesto apenas por interesse, para receber algo em troca, pode ser sinónimo, na linguagem comum, de instrumentalizar as outras pessoas, de realizar uma acção incorrecta ou pelo menos de valor duvidoso.

Na perspectiva kantiana, a moralidade da acção depende da intenção ou motivo. Os seres humanos, por serem racionais, são dotados de consciência moral e, por isso, podem compreender que determinados princípios morais (como não mentir, não matar, dizer a verdade) são deveres incondicionais e absolutos. Há também a possibilidade de, enquanto seres sensíveis que somos, seguirmos os nossos sentimentos e inclinações sensíveis. Contudo, cabe à vontade, em vez de se orientar por desejos ou necessidades particulares, subordinar-se apenas a motivações racionais e agir exclusivamente por respeito ao dever, praticando o bem pelo bem.

Que razões poderão justificar que não se minta, mesmo para salvar a vida de um amigo?

O contra-exemplo apresentado, conhecido como a pergunta do assassino, é uma situação concreta que pretende mostrar que a proposição “deve-se dizer sempre a verdade” não é verdadeira, ao contrário do que Kant diz.

Este argumenta que, mesmo nessa circunstância extrema, o princípio moral universal não deve ser posto em causa, pois o dever da verdade é o fundamento de muitos outros deveres. Estes deixariam de fazer sentido se a mentira fosse moralmente admissível. Por exemplo: que sentido faria a exigência, em termos morais, de sermos justos ou leais se não considerássemos a verdade como um valor fundamental?

Na perspectiva kantiana, a responsabilidade moral deve depender apenas de aspectos racionais que se encontram ao alcance da vontade – como é o caso da intenção. Quando se faz depender o valor moral da acção do sentimento de compaixão ou das consequências consideram-se factores que não são controláveis pelo agente.

Assim, devemos dizer a verdade ao assassino, pois não é possível prever se as consequências da mentira serão, de facto, boas como desejaríamos. Kant salienta que, por mais bem-intencionada que seja a mentira, nada nos garante que conseguiremos alcançar os efeitos desejados. Por outro lado, caso as consequências da mentira sejam negativas, teremos de assumi-las moral e juridicamente.

Todavia, este contra-exemplo (e outros de natureza semelhante em que existe um conflito de deveres) constitui uma forte objecção à ética kantiana. Sentimos como “imoral” considerar o dever de dizer a verdade como mais importante que o dever de salvar uma vida. A aplicação cega de um princípio moral abstracto – dizer a verdade – sem ter em conta as consequências possíveis – pôr fim à vida de alguém – faz-nos colocar a questão de saber se, caso a morte do nosso amigo ocorra por dizermos a verdade, não teremos igualmente responsabilidade moral?

No entanto, Kant parece não considerar a existência de responsabilidade moral pelas consequências de dizer a verdade.

Face à resposta kantiana, experienciamos uma dificuldade comparável, julgo eu, à constatação feita por um amigo meu (aquando da morte de um familiar próximo): há uma enorme diferença entre o que lemos nos livros sobre a perda e o facto de perdermos alguém de quem gostávamos muito. As teorias podem-nos ajudar a compreender os factos, mas estes não se deixam encerrar nelas.

Porém, apesar da eficácia maior ou menor dos contra-exemplos enquanto meios de refutação, uma perplexidade subsiste: como é possível defender uma teoria ética onde se admitam excepções a princípios morais, como o dever de não mentir, salvaguardando a sua aplicação a certas situações particulares? A exigência de universalidade dos princípios morais não será, como salienta Kant, incompatível com a existência de excepções? Como poderemos saber se numa dada situação aquilo que nos leva a mentir é um “suposto amor à humanidade” e não o nosso amor-próprio?

Como conciliar estas duas ideias, aparentemente, contraditórias: a exigência da moralidade depender da aplicação imparcial de determinados princípios universais e a necessidade de, em termos práticos, admitirmos excepções a esses princípios?

sábado, 24 de outubro de 2009

A negação de proposições condicionais

A frase “Se a Yolanda estuda, então passa de ano” exprime uma proposição condicional. Esta é uma proposição composta de duas proposições mais simples ligadas pelo conector “Se… então” (ou outros equivalentes, como por exemplo “Caso”). Costuma chamar-se a estas “antecedente” e “consequente”. O que é dito na antecedente constitui uma condição suficiente relativamente àquilo que é dito na consequente. No caso do exemplo, a expressão “condição suficiente” significa que basta (= é suficiente) a Yolanda estudar para conseguir passar de ano. Pode-se também dizer que a antecedente implica a consequente.

Nega-se uma proposição condicional afirmando a antecedente e negando a consequente: “Yolanda estuda, mas não passa de ano”.

A negação de uma condicional não é outra proposição condicional, mas sim uma conjunção. Em vez de “mas” também se pode usar o conector “e”.

Porque é que uma condicional se nega desse modo? Para responder a esta questão é preciso perceber em que condições uma proposição condicional é verdadeira ou falsa.

Há quatro circunstâncias possíveis, que no caso do exemplo dado são:

1. Yolanda estuda e passa de ano.

2. Yolanda não estuda e não passa de ano.

3. Yolanda não estuda e passa de ano.

4. Yolanda estuda e não passa de ano.

(Nos livros de Lógica estas quatro circunstâncias não costumam ser apresentadas por esta ordem, mas optei por ela por ser a mais intuitiva.)

Em 1. a antecedente e a consequente são ambas verdadeiras. Nessa circunstância a condicional é obviamente verdadeira: verificou-se aquilo que nela está enunciado – estudar levou a Yolanda passar de ano. O facto da Yolanda ter estudado e o facto de ter passado de ano confirmam a veracidade da relação enunciada na condicional.

Em 2. a antecedente e a consequente são ambas falsas. Nessa circunstância a condicional continua a ser verdadeira. O facto da Yolanda não ter estudado e o facto de não ter passado de ano não anulam a veracidade da relação enunciada na condicional. Imagine que um professor tinha dito a Yolanda “Se estudas, então passas de ano” e que agora esta alegava que tinha sido enganada. O professor poderia responder: “O que eu te disse é verdadeiro. Se tivesses estudado, terias passado de ano.”

Em 3. a antecedente é falsa e a consequente é verdadeira. Nessa circunstância a condicional continua a ser verdadeira. Esta assegura que basta estudar para passar de ano, mas não diz que essa é a única maneira de passar de ano, não diz que não há outros factores que permitam passar (copiar ou ameaçar o professor, por exemplo). Por isso, o facto da Yolanda não ter estudado e o facto de ter passado de ano não anulam a veracidade da relação enunciada na condicional.

Em 4. a antecedente é verdadeira e a consequente é falsa. Nessa circunstância a condicional é falsa. Caso estude e não passe, a Yolanda já tem motivos para dizer ao tal professor que este disse uma falsidade. Este tinha assegurado que estudar era uma condição suficiente para a Yolanda passar, ou seja, que bastava ela estudar para passar. E isso não se verificou: uma coisa não levou à outra. Daí que, nessa circunstância, a condicional seja falsa.

Em síntese:

ANTECEDENTE

CONSEQUENTE

CONDICIONAL

Verdadeira

Verdadeira

Verdadeira

Falsa

Falsa

Verdadeira

Falsa

Verdadeira

Verdadeira

Verdadeira

Falsa

Falsa

Regressemos então à negação. Ao negar uma certa proposição obtemos uma outra proposição que tem necessariamente de possuir um valor de verdade diferente da proposição inicial. Se a proposição inicial é falsa a sua negação tem de ser verdadeira. Se a proposição inicial é verdadeira a sua negação tem de ser falsa. Não podem ser ambas verdadeiras nem ambas falsas. Ou seja: a proposição inicial e a sua negação têm de ser proposições contraditórias. Por exemplo: ao negarmos a proposição verdadeira “Florença é uma cidade italiana” obtemos a proposição falsa “Florença não é uma cidade italiana”.

Ao negar uma proposição condicional afirmamos a antecedente e negamos a consequente, pois isso equivale a dizer que a antecedente é verdadeira e a consequente é falsa – que, como vimos, é a única circunstância em que uma proposição condicional é falsa. Ao fazer isso estamos a mostrar que, contrariamente ao que tinha sido dito nessa proposição, a antecedente não é uma condição suficiente da consequente. Dito de modo mais coloquial: estamos a mostrar que uma coisa não leva à outra e que a relação enunciada na condicional não ocorre.

A conjunção entre a afirmação da antecedente e a negação da consequente de uma condicional (ou seja, a negação desta) constitui uma proposição que não pode ter o mesmo valor de verdade dessa proposição condicional. Caso seja falso que “Se a Yolanda estuda, então passa de ano” tem de ser verdadeiro que “Yolanda estuda, mas não passa de ano”. E vice-versa: Caso seja verdadeiro que “Se a Yolanda estuda, então passa de ano” tem de ser falso que “Yolanda estuda, mas não passa de ano”.

Se tentássemos negar a condicional de outro modo não conseguiríamos obter uma proposição contraditória com ela e por isso não se trataria de uma autêntica negação. Por exemplo: “Se a Yolanda estuda, então passa de ano” e “Yolanda não estuda e não passa de ano” podem ser, em certas circunstâncias, ambas verdadeiras ou ambas falsas.

(Alguns leitores poderão achar útil o post Condições necessárias e suficientes: análise de um exemplo. Tendo em conta que o mesmo foi escrito a pensar nos alunos do 11º ano, não aconselho a sua leitura aos alunos do 10º ano.)

domingo, 12 de abril de 2009

Será verdade que a mentira é necessária?

"Gosto da verdade. Acredito que a humanidade precisa dela; mas precisa ainda mais da mentira que a lisonjeia, a consola, lhe dá esperanças infinitas. Sem a mentira, a humanidade pereceria de desespero e de tédio."

Anatole France, A Vida em Flor (citação encontrada no blogue O Amigo do Povo)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

O carácter factivo do conhecimento

A chamada definição tradicional do conhecimento diz que para haver conhecimento (proposicional) têm de estar reunidas três condições: crença, verdade e justificação.

Dessas três condições aquela que costuma suscitar mais dificuldades de compreensão aos alunos é a segunda: a verdade. Vejamos se é possível clarificar o problema e diminuir essas dificuldades.

A primeira condição é a crença. Ter uma crença consiste em acreditar que uma certa proposição é verdadeira. Mas a pessoa pode enganar-se e julgar verdadeira uma proposição falsa. Para haver conhecimento é preciso que (além da justificação) a proposição seja de facto verdadeira. A crença de que é verdadeira é necessária, mas não é suficiente. É necessário que a proposição seja mesmo verdadeira.

O conhecimento proposicional, como o próprio nome indica, consiste no conhecimento de proposições. As proposições podem ser verdadeiras ou falsas. No entanto, só podemos conhecer proposições verdadeiras. Podemos saber que uma proposição é falsa, mas não podemos conhecer uma proposição falsa, ou seja, não podemos conhecer a própria falsidade.

Por exemplo: sabemos que a proposição expressa pela frase “as flores falam” é falsa, mas não podemos saber que as flores falam.

Uma proposição é falsa quando afirma algo que não sucede, que não é o caso, que não é real. Não podemos conhecer falsidades pois tratando-se de falsidades não há “lá” nada para conhecer. Não podemos conhecer falsidades tal como não podemos agarrar o vazio. Não podemos saber que as flores falam, pois as flores não falam.

Uma proposição é verdadeira quando afirma algo que sucede, que é o caso, que é real. E isso pode ser conhecido.

Por exemplo: a proposição expressa pela frase “a maioria das pessoas fala” é verdadeira, pois afirma algo que realmente ocorre. Podemos saber que a maioria das pessoas fala, pois de facto a maioria das pessoas fala e como tal existe algo para ser conhecido.

Pode-se resumir essas ideias dizendo que o conhecimento é factivo. Factivo significa literalmente: remeter para factos.

Palavras como “ver” e “ouvir” são factivas. Palavras como “desejar”, “querer” ou “preferir” não são factivas.

O desejo não é factivo, pois posso desejar efectivamente algo que não existe, algo que não é real, algo que é impossível.

Por exemplo: posso desejar estar em dois lugares ao mesmo tempo. Esse desejo incide em algo impossível, mas é um desejo tão efectivo como desejar beber um café com uma pessoa amiga. Os desejos podem perfeitamente não remeter para factos sem deixar de ser desejos.

O ver é factivo, pois não posso efectivamente ver algo que não é real. Quando efectivamente se vê, vê-se algo que é real, algo com o qual os olhos podem estabelecer um contacto.

O que pode acontecer é que me engane e julgue ter visto sem de facto ter visto. É o que sucede, por exemplo, nas alucinações visuais. Estas costumam ser definidas como percepções sem objecto e são “produzidas” pelo cérebro e não pelos olhos, não se relacionando (pelo menos directamente) com algo que esteja diante da pessoa que alucina.

Em suma: quem alucina não está de facto a ver (chamar “visões” às alucinações é apenas uma maneira de falar), mas quem deseja algo impossível ou irreal está de facto a desejar.

Verifica-se o mesmo com o conhecimento. Só se pode conhecer o que é verdadeiro, aquilo que de facto sucede. Aquilo que não sucede não pode ser conhecido, pois nada há para conhecer.

Tal como uma pessoa se pode enganar e julgar ver algo sem realmente estar a ver, também se pode enganar e julgar que conhece e afinal não conhecer.

Mas isso não significa que a pessoa tenha um conhecimento falso. É comum ouvirmos falar de conhecimentos falsos. No entanto, essa expressão não pode ser entendida literalmente, é apenas uma maneira de falar. Se conhecer é conhecer verdades, se não se podem conhecer falsidades, então não há conhecimentos falsos. Se uma crença é falsa, não é conhecimento. Se uma crença constitui conhecimento, não é falsa. Por isso, há crenças falsas mas não conhecimentos falsos.

Em suma: para haver conhecimento é preciso haver verdade. Esta é uma condição necessária do conhecimento.

Um indício de que conhecer é conhecer verdades e que a verdade é uma condição necessária do conhecimento é o facto de as pessoas que acreditam em proposições falsas só considerarem que têm conhecimento porque não têm consciência da falsidade dessas proposições. Julgam que são verdadeiras e por isso julgam ter conhecimento. Uma pessoa que não esteja a mentir e a tentar enganar outras pessoas, não diz que sabe algo se tem consciência da sua falsidade.

Isso mostra que todas as pessoas, mesmo que não conheçam a definição tradicional do conhecimento, associam-no naturalmente à verdade e colocam-na como uma condição necessária deste.

Uma análise mais completa da definição tradicional do conhecimento implicaria explicar a terceira condição: a justificação.

Cada uma das condições é necessária, mas não suficiente. As três juntas constituem uma condição suficiente para haver conhecimento, pelo menos nalguns casos. Podemos dar inúmeros exemplos de conhecimentos proposicionais em que ocorrem essas três condições. No entanto, existem alguns casos – que constituem contra-exemplos a essa definição – em que a ocorrência das três condições não parece suficiente para haver conhecimento.

Nota: por facilidade de expressão a palavra “conhecimento” por vezes foi usada sem o adjectivo “proposicional”, mas refere-se sempre ao conhecimento proposicional.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Dizer a verdade...

"Dizer a verdade é dizer que aquilo que é, é; e que aquilo que não é, não é. Dizer uma falsidade é dizer que aquilo que é, não é; e que aquilo que não é, é."
Aristóteles (citado de memória)

terça-feira, 30 de setembro de 2008

A relação entre verdade e validade


A verdade e a validade são diferentes. A verdade (tal como a falsidade) é uma característica das proposições. A validade (tal como a invalidade) é uma característica dos argumentos. Por isso, é incorrecto dizer que uma proposição é válida ou inválida, tal como é incorrecto dizer que um argumento é verdadeiro ou falso.
Todavia, isso não significa que a validade e a verdade não têm nenhuma relação.
Pode-se falar de verdade sem falar de validade, tal como se pode falar de proposições sem falar de argumentos. No entanto, não se pode falar de validade sem falar de verdade, tal como não se pode explicar bem o que é um argumento sem falar de proposições.
A validade diz respeito à relação entre o valor de verdade das premissas e o valor de verdade da conclusão. Um argumento válido é um argumento em que as premissas justificam a conclusão, pois ela é uma consequência lógica delas. Ora, isso significa que a verdade das premissas assegura (de modo necessário no caso dos argumentos dedutivos e de modo provável no caso dos argumentos não dedutivos) a verdade da conclusão.
Um argumento válido pode ser constituído por proposições falsas, mas o facto de ser válido, de haver um nexo lógico entre premissas e conclusão, permite-nos perceber que caso as premissas fossem verdadeiras a conclusão também seria.
Dito por outras palavras. A verdade e a falsidade são características possíveis das diferentes partes de um argumento: premissas e conclusão. A validade e a invalidade são características da ligação dessas partes – ou seja, do próprio argumento.
De um modo coloquial, podemos dizer que um argumento válido é um argumento correctamente ligado, correctamente organizado – de tal modo que a verdade de uma parte (premissas) leva à verdade da outra parte (conclusão). E, pelo contrário, um argumento inválido é um argumento incorrectamente ligado, incorrectamente organizado – de tal modo que a verdade de uma parte (premissas) não leva à verdade da outra parte (conclusão).

Validade dedutiva


Um ARGUMENTO VÁLIDO é um argumento em que as premissas justificam a conclusão. Dito por outras palavras: a conclusão deriva das premissas, é uma consequência lógica delas. As ideias que estão na conclusão seguem-se das ideias que estão nas premissas. Pensar nas premissas leva a pensar na conclusão.

Por isso, se as premissas forem verdadeiras será impossível (no caso dos argumentos dedutivos) ou improvável (no caso dos argumentos não dedutivos) a conclusão ser falsa. Dito por outras palavras: os argumentos válidos preservam a verdade.

Neste texto será apenas explicado o caso dos argumentos dedutivos.

Num argumento dedutivo válido é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão ser falsa. Mas isso não significa que a conclusão de um argumento dedutivo válido seja sempre verdadeira.

Se as premissas forem falsas a conclusão também poderá ser falsa. Uma vez que a conclusão é uma consequência lógica das premissas, a falsidade destas pode levar à falsidade da conclusão.

Por outro lado, também existem argumentos válidos em que as premissas são falsas e a conclusão é verdadeira.

Recapitulemos as várias possibilidades. Um argumento válido pode ter:

Premissas verdadeiras e conclusão verdadeira.

Premissas falsas* e conclusão falsa.

Premissas falsas* e conclusão verdadeira.

(*Todas as premissas ou algumas delas.)

Estas duas últimas possibilidades não são contraditórias com a definição de validade dedutiva apresentada. Mesmo nesses casos a conclusão é uma consequência lógica das premissas. Quando as premissas de um argumento dedutivo válido são falsas basta-nos imaginar o que sucederia se fossem verdadeiras: a conclusão também teria que ser verdadeira.

É preciso sublinhar um aspecto para evitar confusões. Para um argumento dedutivo ser válido não basta ter premissas e conclusão verdadeiras. Um argumento inválido também pode ter premissas e conclusão verdadeiras. Para um argumento dedutivo ser válido é preciso que, sendo as premissas verdadeiras, seja impossível a conclusão ser falsa. A verdade das premissas tem de excluir completamente a possibilidade da conclusão ser falsa.

Se uma pessoa aceita a verdade das premissas de um argumento dedutivo válido está logicamente obrigada a aceitar a verdade da sua conclusão – pois esta é uma consequência necessária daquelas. Caso reconheça a verdade das premissas e não queira reconhecer a verdade da conclusão estará a cair em contradição, estará a ser incoerente e inconsequente.

Um ARGUMENTO INVÁLIDO é um argumento em que as premissas não justificam a conclusão. É um argumento em que, apesar de existirem palavras como “Logo” ou “Portanto” a indicar que uma das frases é consequência das outras, essa frase (conclusão) não se segue efectivamente dessas outras frases (premissas). Ou seja: o argumento apresenta-se como se essa frase (a conclusão) fosse consequência das outras frases, mas ela não é.

Num argumento inválido não há conexão lógica entre as premissas e a conclusão. Essa falta de conexão pode-se exprimir de um modo coloquial dizendo “uma coisa não tem nada a ver com a outra” – mesmo que pareça que tem (como sucede nas falácias, que são argumentos inválidos que parecem válidos).

Por isso, num argumento dedutivo inválido pode suceder aquilo que é impossível num argumento dedutivo válido: as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa. Por outro lado, também podem ocorrer as três possibilidades que caracterizam os argumentos válidos.

Recapitulemos as várias possibilidades. Um argumento inválido pode ter:

Premissas verdadeiras e conclusão falsa.

Premissas verdadeiras e conclusão verdadeira.

Premissas falsas* e conclusão falsa.

Premissas falsas* e conclusão verdadeira.


(*Todas as premissas ou algumas delas.)

Num argumento inválido, uma vez que não há conexão lógica entre premissas e conclusão, uma vez que a relação entre as premissas e a conclusão é arbitrária, tudo pode suceder. É uma questão de calhar assim, trata-se de acasos.

(Nota: Por facilidade de expressão falou-se de premissas no plural. Isso não significa naturalmente que alguns argumentos não tenham apenas uma premissa.)


terça-feira, 16 de setembro de 2008

Exemplo de um argumento válido com premissas falsas e conclusão verdadeira



Todos os imperadores romanos foram presidentes dos E.U.A.
Lincoln foi um imperador romano.
Logo, Lincoln foi um presidente dos E.U.A.


A. H. Basson a D. J. O'Connor, Introduction to Symbolic Logic