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sábado, 27 de janeiro de 2018

Da dúvida à certeza: vídeo e ficha de trabalho

Desenho da autoria de  Banksy.
Este vídeo, disponibilizado no Manual escolar 2.0, Edições Sebenta (um sítio que vale a pena visitar), é muito interessante e útil na leccionação dos conteúdos programáticos do 11º ano.
Quando os meus alunos o visionaram na aula disponibilizei-lhes, previamente, o pequeno questionário que a seguir apresento. O vídeo é um excelente recurso - para utilizar nas aulas a propósito do problema do conhecimento - devido à clareza da linguagem e pertinência dos conteúdos filosóficos.
No vídeo do filósofo inglês Warburton surgem algumas passagens de um pequeno filme sobre a alegoria da caverna de Platão, que costumo passar nas aulas do 10º ano e que pode ser visionado na íntegra no link seguinte (com legendas em português):
Adaptações da alegoria da caverna em vídeo
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Ficha de trabalho de Filosofia - 11º ano

Tema: A teoria do conhecimento de Descartes.

Após o visionamento do vídeo do filósofo inglês Warburton, responda às seguintes questões:


1. Dê exemplos que provem a falibilidade dos nossos sentidos.
2. Explique uma das objecções à tese: nunca podemos confiar no conhecimento sensorial.
3. Qual é o ponto de vista de Platão, expresso na alegoria da caverna, acerca do conhecimento empírico. Descartes concorda com ele?
4. Como se explica o argumento do sonho?
5. De que tipo de conhecimento é que o argumento do sonho não nos permite duvidar?
6. Esclareça em que consiste a experiência mental do “cérebro numa cuba”. Para que serve?
7. A experiência mental do “cérebro numa cuba” é comparável a que argumento cartesiano? Porquê?
8. De que forma ultrapassa Descartes a dúvida metafísica introduzida pelo Génio Maligno?
9. O que é o cogito?
                                                                                                     A professora: Sara Raposo
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domingo, 28 de dezembro de 2014

A máquina de experiências agradáveis

Ignorance is bliss Cypher filme Matrix

A máquina de experiências de Robert Nozick é uma das experiências mentais mais célebres da filosofia. É referida em imensos livros, habitualmente como objeção ao utilitarismo e à ideia de que a felicidade é o bem supremo. Chegou inclusivamente ao cinema: no filme Matrix, dos irmãos Wachowski, um homem (Cypher) pede para ser ligado à Matrix - um programa de computador muito avançado que simulava a realidade – e para lhe atribuírem uma “vida” falsa muito agradável, mas sem consciência de que não era real.

Eis a máquina de experiências nas palavras de Nozick:

«Suponhamos que havia uma máquina de experiências que proporcionaria ao leitor a experiência que desejasse. Neuropsicólogos superfixes podiam estimular o seu cérebro de maneira a pensar e sentir que escrevia um grande romance, fazia uma amigo, ou lia um livro interessante. Durante todo o tempo, estaria a flutuar numa cuba, com eléctrodos ligados ao cérebro. Dever-se-ia ligar esta máquina durante toda a vida, pré-programando as suas experiências de vida? Se está preocupado com a perda de experiências desejáveis, podemos supor que as empresas investigaram exaustivamente a vida de muitos outros. O leitor pode escolher a partir da sua imensa biblioteca ou bufete dessas experiências, seleccionando as suas experiências de vida para, digamos, os dois anos seguintes. Após dois anos, poderia passar dez minutos ou dez horas fora da cuba, para seleccionar as experiências dos seus dois anos seguintes. Evidentemente, enquanto está na cuba não saberá que ali está; pensará que tudo aquilo acontece efectivamente. Os outros podem também ligar-se e ter as experiências que quiserem, pelo que não há necessidade de estar desligado para os servir. (Ignore problemas como o de saber quem cuidará das máquinas se todos se ligarem.) Ligar-se-ia? O que mais pode ter importância para nós, além do modo como são as nossas vidas a partir de dentro? Tão-pouco se devia abster por causa dos escassos momentos de angústia entre o momento em que decide e aquele em que já está ligado. O que são alguns momentos de angústia comparados com uma vida inteira de felicidade (se é isso que o leitor escolhe), e porque sentir angústia se a sua decisão é a melhor?
O que tem para nós importância, além das nossas experiências?»

Robert Nozick, Anarquia, Estado e Utopia, trad. Vítor Guerreiro, Lisboa, Edições 70, Novembro de 2009, pp. 74-75.

Não esqueça a pergunta de Nozick: ligar-se-ia?

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A vida será um sonho?

sonho dentro do sonho

Como explicam a Psicologia e a Neurologia, para fabricar os sonhos o nosso cérebro vai “buscar” imagens e outros dados à memória das experiências passadas. (Esquema 1)

Contudo, isso não chega para refutar o cenário cético da vida ser um sonho (ou seja, não implica necessariamente que exista uma vida real e não sonhada onde essas experiências passadas ocorreram), pois se a vida de uma pessoa fosse um sonho essas experiências passadas teriam também sido sonhadas e não vividas realmente. (Esquema 2)

Para refutar esse cenário é necessário encontrar um elemento qualquer que exista na nossa experiência (nas perceções que temos ) e não exista nos sonhos.

(Note-se que a situação inversa – sonharmos com algo, por exemplo voar, que não conseguimos experienciar – não refuta a sugestão cética de que a vida talvez seja um sonho.)

Considerações semelhantes podem ser feitas a propósito de outros cenários céticos, nomeadamente a vida ser uma enorme alucinação (como no filme Matrix ou na experiência mental do “cérebro numa cuba”).

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quinta-feira, 6 de maio de 2010

Aborto: o argumento do violinista

220px-NiccoloPaganini

Niccolò Paganini (1782-1840) foi um compositor e grande violinista italiano. 

A filósofa norte-americana Judith Jarvis Thomson (n. 1929) escreveu, em 1971, um artigo “Uma defesa do aborto”, onde propõe ao leitor a seguinte situação imaginária (o que em Filosofia designamos como experiência mental):

«De manhã acorda e descobre que está numa cama adjacente à de um violinista inconsciente - um violinista famoso. Descobriu-se que ele sofre de uma doença renal fatal. A Sociedade dos Melómanos [dos apreciadores de música] investigou todos os registos médicos disponíveis e descobriu que só o leitor possui o tipo de sangue apropriado para ajudar. Por esta razão os melómanos raptaram-no e, na noite passada, o sistema circulatório do violinista foi ligado ao seu, de modo a que os seus rins possam ser usados para purificar o sangue de ambos. O director do hospital diz-lhe agora: “Olhe lamento que a Sociedade dos Melómanos lhe tenha feito isto - nunca o teríamos permitido se estivéssemos a par do caso. Mas eles puseram-no nesta situação e o violinista está ligado a si. Caso se desligasse matá-lo-ia. Mas não se importe, porque isto dura apenas nove meses. Depois ele ficará curado e será seguro desligá-lo de si”.

De um ponto de vista moral, o leitor teria a obrigação de aceitar esta situação? Não há dúvida de que aceitá-la seria muito simpático da sua parte, constituiria um gesto muito generoso. Mas teria de aceitá-la?»

Como responderia o leitor?

Considera que o facto de admitirmos o direito do feto à vida significa que o aborto não é moralmente permissível?

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A estrada de Giges

 

O que sucederia se uma grande catástrofe matasse a maior parte dos seres humanos, dos animais e das plantas e destruísse as cidades, a agricultura, a indústria, o comércio e as instituições sociais e políticas (nomeadamente o governo, os tribunais e a polícia)?

O filme “A Estrada” (baseado no romance homónimo de Cormac McCarthy) sugere que a vida dos sobreviventes se tornaria miserável, perigosa e degradante. Matar-se-ia por um par de sapatos ou por um bocado de comida. A fome seria constante e muitas pessoas praticariam o canibalismo. As pessoas tenderiam a viver sozinhas ou em pequenos grupos, isolados e esquivos, devido à desconfiança e ao medo de serem atacadas pelos vizinhos. O horror do presente e a falta de esperança num futuro melhor tornaria muitas pessoas apáticas e levaria algumas ao suicídio.

Trata-se de um cenário ainda pior do que o descrito pelo filósofo Thomas Hobbes ao imaginar o que seria a vida humana sem Estado, sem organização social e política: uma vida “solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta” e dominada por “um constante temor e perigo de morte violenta” (ver aqui mais detalhes).

Infelizmente, é improvável que se trate de um pessimismo injustificado. O que vemos em “A Estrada” é apenas uma generalização feita a partir do que já aconteceu muitas vezes em situações de menor dimensão. Após naufrágios ou quedas de aviões os sobreviventes, isolados e acossados pela fome, recorreram muitas vezes ao canibalismo. Nos campos de concentração nazis e soviéticos muitos prisioneiros roubavam, agrediam ou matavam outros prisioneiros para lhes roubar um bocado de pão. Após catástrofes naturais ou grandes convulsões sociais e políticas, quando o controlo das autoridades do Estado diminui ou desaparece, é frequente ocorrerem roubos, pilhagens, violações, assassinatos e outras violências (veja aqui um exemplo). No Haiti, devastado pelo terramoto ocorrido no passado dia 12 de Janeiro, está a acontecer precisamente isso.

É como se as normas morais e jurídicas a que habitualmente obedecemos, e valores como a justiça e o respeito pelas outras pessoas, fossem apenas um verniz fino e frágil que nessas situações mais extremas estala - dando-nos uma visão do como seria terrível a vida humana sem o controlo do Estado e das outras instituições sociais.

Mas em “A Estrada” não há apenas desespero e miséria material e moral. Segundo o filme, embora se trate apenas de uma pequena minoria, nem todas pessoas esqueceram as normas que respeitavam ou perderam o respeito pelos outros. Nem todas as pessoas se tornaram escravas da fome e do medo. Embora esfomeadas, algumas pessoas não praticaram o canibalismo. Embora amedrontadas, algumas pessoas arranjaram coragem suficiente para ajudar quem precisava de ajuda e partilharam o pouco que tinham. O mesmo sucedeu nas situações reais referidas, nomeadamente nos campos de concentração nazis e soviéticos (veja aqui um exemplo).

Platão conta a história de um homem chamado Giges que encontra um anel que tornava as pessoas invisíveis. Com esse anel podiam, se quisessem, roubar e matar impunemente. O anel de Giges é uma espécie de teste: sem o medo do castigo as pessoas continuariam a respeitar as normas morais e jurídicas que respeitavam antes?

Situações como a descrita em “A Estrada”, ou como a que se verifica actualmente no Haiti, em que o controle estatal desaparece ou diminui muito, põem muitas pessoas no papel de Giges: poderem praticar o mal impunemente. Embora não sejam certamente a maioria, nem todas as pessoas falham nesse teste. Por isso, no final do filme é a esperança (embora incerta e pequena), e não o desespero, que tem a última palavra. Esperemos que suceda o mesmo no Haiti.

sábado, 14 de março de 2009

A minha vida é real: conhecimento ou mera crença?


“Não tenho corpo. Tudo o que sou é um cérebro a flutuar numa cuba de produtos químicos. Um cientista perverso ligou de tal forma fios ao meu cérebro que tenho a ilusão da experiência sensorial. O cientista criou uma espécie de máquina de experiências. Do meu ponto de vista, posso levantar-me e dirigir-me à loja para comprar um jornal. Contudo, quando faço isto, o que está realmente a acontecer é que o cientista está a estimular certos nervos do meu cérebro de maneira a que eu tenha a ilusão de fazer isto. Toda a experiência que penso provir dos meus cinco sentidos é na verdade o resultado de este cientista perverso estar a estimular o meu cérebro desencarnado. Com esta máquina de experiências o cientista pode fazer com que eu tenha qualquer experiência sensorial que poderia ter na vida real. Através de um estímulo complexo dos nervos do meu cérebro o cientista pode dar-me a ilusão de estar a ver televisão, a correr um maratona, a escrever um livro, a comer massa ou qualquer outra coisa que eu poderia fazer.”


Nigel Warburton, Elementos básicos de Filosofia, 2ª edição, Lisboa, 2007, pág. 158.

A história do cérebro numa cuba é uma experiência mental, tal como imaginar que a vida é um sonho ou a hipótese do Génio Maligno, de Descartes. Essas experiências mentais sugerem que podemos estar muito enganados em relação ao mundo e a nós próprios e que o conhecimento que julgamos ter é, afinal, uma ilusão.

Claro que não acreditamos que as coisas se passem dessem modo: acreditamos que as coisas são realmente semelhantes ao modo como as percepcionamos e acreditamos que temos realmente conhecimento. Eu acredito, o caro leitor acredita. Acreditamos - mas será que sabemos? Sabemos que a nossa vida é real e não uma ilusão ou apenas acreditamos nisso, tal como algumas pessoas acreditam em Deus e outras que vão ganhar a lotaria?

É que para saber algo não basta ter uma crença – no mínimo, é também necessário que a crença seja verdadeira e esteja justificada. Como podemos justificar a nossa crença de que a vida não é um sonho ou que não somos apenas cérebros numa cuba iludidos por um cientista perverso qualquer?

Os filósofos cépticos consideram que não podemos fazer essa justificação e que, portanto, não sabemos o que julgamos saber sobre o mundo e sobre nós próprios.

Quando se propõe a alguém, nomeadamente a um aluno do ensino secundário, que faça uma dessas experiências mentais e que depois justifique o facto de não acreditar na sua veracidade, uma das respostas mais frequentes é esta: isso é demasiado estranho e improvável para ser verdade.

Descartes e David Hume discordaram dos cépticos, mas fizeram-no de modo bastante distinto. Descartes tentou refutar o cepticismo e demonstrar inequivocamente a falsidade das suas afirmações e não apenas a sua improbabilidade. David Hume considerou que essa demonstração não é possível e que não podemos fazer muito mais do que declarar que a sua elevada improbabilidade.

Qual deles terá razão? Ou serão os cépticos que têm razão?

A imagem foi retirado do blogue de Filosofia Logosfera. Se quiser ler versões mais detalhadas da história do cérebro numa cuba pode fazê-lo em diversos posts do Logosfera ou no site Filosofia & Educação.