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domingo, 11 de novembro de 2012

Felicidade ou mero conformismo?

velho"Não procures que tudo quanto acontece aconteça como desejas, antes deseja que tudo aconteça como de facto acontece. Assim serás feliz."

Epicteto, A Arte de Viver.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

O dinheiro não traz a felicidade!

“Os filósofos antigos tiveram muito a dizer sobre a felicidade. Supunham que ‘a melhor vida’ e ‘a vida feliz’ eram a mesma coisa, e geralmente aceitavam que a felicidade consistia numa vida de razão e virtude. Epicuro (341-270 a. C.) recomendou uma vida simples, de modo a se evitarem sofrimentos e ansiedades. Os estóicos acrescentaram que um homem sábio não permitiria que a sua felicidade dependesse de coisas que estivessem fora do seu controlo, como a riqueza, a saúde, a boa aparência ou as opiniões dos outros. Não podemos controlar as circunstâncias externas, disseram, pelo que devemos ser indiferentes a essas coisas, aceitando-as como aparecem. Epitecto (c. 55-135 a. C.), um dos grandes professores estóicos, deu este conselho aos seus estudantes: ‘Não peçam que as coisas ocorram segundo a vossa vontade; façam com que a vossa vontade seja que as coisas ocorram como ocorrem de facto, e terão paz.’

Algumas destas ideias podem parecer questionáveis, mas uma parte significativa delas tem sido confirmada pela investigação psicológica moderna.

Moedas mão cheia de dinheiro Consideremos, por exemplo, a ideia de que a riqueza não traz felicidade. Dado que a maior parte das pessoas quer ser rica, poderíamos pensar que há alguma correlação entre a riqueza e a felicidade. Mas não há. Quando Ronald Inglehardt, cientista político da Universidade de Michigan, comparou os níveis de riqueza de países diferentes com aquilo que as pessoas desses países dizem sobre a sua satisfação com a sua vida, descobriu que as pessoas dos países mais ricos não são mais felizes do que as dos países mais pobres. Por vezes acontece o oposto: os alemães ocidentais têm o dobro da riqueza dos irlandeses, mas os irlandeses são mais felizes. Dentro de países específicos, encontrou a mesma ausência de correlação: as pessoas que têm mais dinheiro não são mais felizes que as outras. Portanto, sermos ricos não importa. As pessoas afectadas pela pobreza tendem a ser menos felizes do que aquelas que possuem o suficiente para viver; mas, para aqueles que estão acima da linha de pobreza, o dinheiro adicional faz pouca diferença. O psicólogo David Myers observa que ‘quando se ultrapassa a pobreza, o crescimento económico suplementar não melhora significativamente o ânimo dos seres humanos’.

Os estudos sobre os vencedores de lotarias confirmam isto de forma notável. Como é óbvio, os vencedores de lotarias ficam extremamente felizes quando sabem das boas notícias e a euforia tende a durar alguns dias. Mas, passado pouco tempo, regressam ao seu nível normal de felicidade. No essencial, as pessoas amuadas voltam a ficar amuadas. Podem ser capazes de deixar o emprego e de comprar muitas coisas, mas, no que respeita ao seu nível de felicidade, a riqueza recentemente adquirida não faz diferença. (…)

Então, o que tornará as pessoas felizes? Se não é a riqueza (…) o que será?”

James Rachels, Problemas da Filosofia, tradução de Pedro Galvão, Gradiva, Lisboa, 2009, pp. 286-288.

problemas da filosofia James Rachels

domingo, 12 de abril de 2009

O que pensaria Epicteto da nossa sociedade?

consumismo - mulher vendo sapatos

Epitecto foi um filósofo que viveu aproximadamente entre 50 e 138 d. C. Foi escravo durante a maior parte da sua vida, tendo sido torturado pelo seu cruel “dono” como castigo pelo facto de ser muito pensativo e estudioso. Julga-se que por isso ficou com uma deficiência numa perna e que coxeava. Era um estóico e defendia que a felicidade se alcança através do autodomínio e da indiferença relativamente às coisas exteriores.

Numa das suas máximas afirmou:

“Que a morte, o exílio e todas as coisas que te parecem terríveis se apresentem a teus olhos todos os dias, sobretudo a morte. E nunca pensarás nada de vil, nem tampouco cobiçarás nada de mais.”

Epitecto, Manual, XXI, Didáctica Editora, 2000, pág. 16.


O que pensaria um homem como Epitecto da sociedade em que vivemos, nomeadamente do consumismo e do culto do prazer imediato que orientam a vida de tantas pessoas?

Outro exemplo. O que pensaria um homem como Epitecto de estudantes que chegam à Universidade sem hábitos regulares de leitura e que não lêem nem literatura, nem ciência, nem filosofia?

Pensaria mal de muitas coisas, mas não de todas, certamente. O que é que na nossa sociedade (e nas outras sociedades ocidentais semelhantes à portuguesa) merece ser valorizado e elogiado?

E quanto às ideias de Epitecto... O erro está na valorização das coisas exteriores e materiais ou na sua valorização excessiva e exclusiva? Ou não há erro algum nessa valorização, por muito excessiva e exclusiva que seja?

sábado, 31 de janeiro de 2009

O que se ganha com a leitura de bons livros

Escher, Libertação.

Tornei obrigatória no 10º ano a leitura do livro Ética para um Jovem de Fernando Savater. Muitos dos meus alunos consideram pouco democrática esta minha imposição. Também os desgosta o facto de, no teste de avaliação, existirem questões para verificar a leitura e compreensão da referida obra.

Muitos dos meus alunos são pessoas que frequentam há anos a escola, mas não compreendem o que se pode ganhar com a leitura de um livro - de Filosofia mas não só, pois a resistência à leitura das obras analisadas em Português é facilmente observável. Para eles é uma seca que recusam ou pelo menos vão adiando até ao último momento.

As causas deste fenómeno são complexas e não posso discuti-las todas aqui. Quero só referir que a explicação do fenómeno não pode residir apenas na existência de novos meios de comunicação e de maravilhas tecnológicas. Há pessoas, ingénuas – creio eu -, que julgam que a maioria dos alunos do secundário substituiu os “antiquados” livros em papel da minha geração por modos mais modernos de aceder ao conhecimento e à cultura em geral: a Internet, a televisão, etc. Segundo essas pessoas, os jovens lêem e acedem a diversas formas culturais de qualidade e intelectualmente estimulantes – só que já não é através dos livros.

Essa perspectiva optimista não é verdadeira. Na verdade, a utilização que a maioria dos alunos faz do computador, da televisão e de outros meios de comunicação relaciona-se apenas com o desfrutar do prazer imediato proporcionado pelos jogos, vídeos, filmes… Nada tem a ver com curiosidade em aprofundar os assuntos estudados, em alargar horizontes, em saber mais. Naturalmente que existem honrosas excepções, mas são uma diminuta minoria.

Em vez de referir todas as causas do fenómeno, vou limitar-me a apresentar alguns argumentos a favor da leitura.

A leitura de bons livros – de filosofia ou outros – permite-nos adquirir conhecimentos e proporciona um óptimo treino intelectual. O que alarga os nossos horizontes, dá-nos mais independência de espírito e capacidade crítica – em relação aos outros e a nós mesmos. O que faz com que os outros tenham mais dificuldade em manipular-nos. A leitura de alguns livros pode até ajudar-nos a ser melhores pessoas. Mas, mesmo quando isso não sucede, torna-nos pelo menos pessoas mais informadas e autónomas. O mundo é mais compreensível para quem lê do que para quem não lê.

Epicteto (um filósofo romano que durante muitos anos foi escravo) disse: “Não devemos acreditar nos muitos que afirmam que só as pessoas livres devem ser instruídas, mas devemos antes acreditar nos filósofos que dizem que só os instruídos são livres” (Epicteto, Dissertações). Epicteto tinha razão.