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domingo, 21 de junho de 2020

A filosofia por vezes vai ao cinema


Muitas pessoas «acham que a vida não tem sentido sem Deus, e que a perspetiva de nada haver para além da morte torna a vida paralisantemente vazia. Esta visão é expressa numa cena de um filme de Bergman, O Sétimo Selo (1957), em que o cavaleiro medieval fala com a figura encapuzada da morte. [O cavaleiro joga uma partida de xadrez com a Morte para tentar adiar a sua morte.]

“Cavaleiro: Eu quero o conhecimento! Não a fé, nem presunções, quero o conhecimento! Quero que Deus me estenda a sua mão, que me mostre a sua face e fale comigo.
Morte: Mas Ele permanece em silêncio.
Cavaleiro: Eu chamo por Ele na Escuridão. Mas é como se não estivesse lá ninguém.
Morte: Se calhar é porque não está lá ninguém.
Cavaleiro: Então a vida é um tremendo absurdo. Ninguém pode viver confrontado com a morte se souber que tudo se resume a nada.”»
Dan O’ Brien, Introdução à Teoria do Conhecimento, Gradiva, Lisboa, 2013, pág. 349.

A filosofia por vezes vai ao cinema. Neste pequeno diálogo encontramos referências a diversos tópicos filosóficos:

- o problema do sentido da vida (e a perspetiva de que esta sem Deus é absurda);
- o chamado “argumento da ocultação divina”, contra a existência de Deus (“chamo por Ele na Escuridão. Mas é como se não estivesse lá ninguém”);
- a rejeição do fideísmo (“quero o conhecimento! Não a fé”);
e, talvez mais discutivelmente,
- a falácia do apelo às consequências (alegar que uma ideia é verdadeira ou falsa em função das suas consequências serem desejadas ou indesejadas – o cavaleiro sugere que Deus tem de existir senão “a vida é um tremendo absurdo”). 

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Matriz do teste de filosofia da religião

Júpiter e Tétis, de Jean Auguste Dominique Ingres

Júpiter e Tétis, de Jean Auguste Dominique Ingres

Ano letivo: 2019-2020

Duração: 90 minutos

Objetivos:

1. Distinguir religiões monoteístas de religiões politeístas.
2. Explicar a conceção teísta de Deus.
3. Distinguir o ateísmo do agnosticismo.
4. Distinguir a abordagem racional do problema da existência de Deus da fé.
5. Enunciar o problema da existência de Deus.
6. Explicar o argumento cosmológico.
7. Explicar duas objeções ao argumento cosmológico.
8. Explicar o argumento teleológico.
9. Explicar duas objeções ao argumento teleológico.
10. Explicar o argumento ontológico.
11. Explicar duas objeções ao argumento ontológico.
12. Explicar o problema do mal. 
13. Explicar três respostas ao problema do mal.
14. Mostrar em que medida Pascal é fideísta. 
15. Explicar a “aposta de Pascal”. 
16. Explicar duas objeções à “aposta de Pascal”.
17. Comparar e avaliar os diversos argumentos e respetivas objeções acerca do problema da existência de Deus.
18. Justificar uma posição pessoal acerca do problema da existência de Deus.

Natureza das questões:

Escolha múltipla, questões de resposta curta e uma questão de resposta extensa.

Para estudar:

Documentos fornecidos aos alunos

Opcional:


O homem que foi visitado por Deus (vídeo humorístico)

O argumento ontológico (outra explicação)






sábado, 30 de maio de 2020

Recursos de Filosofia: o problema do mal


A existência de mal tornará improvável a existência de Deus?

A proposta de trabalho que esta semana eu e a Sara Raposo elaborámos para a Aula Digital da Leya visa a discussão do problema do mal. Inclui um guião com questões e um PowerPoint com breves possibilidades de resposta.

Apesar de no 11º ano as aulas já serem presenciais, a utilização de recursos digitais continua a ser essencial, pois os professores não podem distribuir fotocópias e os manuais do 11º não contemplam a filosofia da religião. Estes recursos podem ser projetados pelo professor durante as aulas ou acedidos pelos próprios alunos através dos seus dispositivos móveis.

Aceda AQUI

(A inscrição é rápida e fácil, caso ainda não esteja inscrito na plataforma.)

Votos de bom trabalho! 

sábado, 16 de maio de 2020

O argumento teleológico de Tomás de Aquino e uma objeção


«Na sua obra mais importante e mais conhecida, Tomás conclui teleologicamente que Deus existe:

Vemos que as coisas sem inteligência, como os corpos naturais, atuam tendo em vista uma finalidade, e isto é evidente a partir do facto de atuarem sempre, ou quase sempre, da mesma maneira, de modo a obter o melhor resultado. Assim, é óbvio que não é fortuitamente, mas antes com desígnio, que atingem as suas finalidades. Ora, o que não tem inteligência não pode direcionar-se a uma finalidade, a menos que seja direcionada por um ser dotado de conhecimento e inteligência, como a flecha é disparada para o alvo pelo arqueiro. Logo, existe um ser inteligente por meio do qual todas as coisas naturais são direcionadas para as suas finalidades; e é a este ser que chamamos Deus. 

(Tomás de Aquino, Suma Teológica, Ia. Q2. A3.)

O raciocínio de Tomás parte da observação de finalidades na natureza, em entidades que não são dotadas de inteligência. As raízes de uma árvore cumprem a finalidade de captar a água de que a árvore precisa, mas, tal como a própria árvore, não têm qualquer inteligência. Uma vez que nenhuma entidade sem inteligência atua com vista a uma finalidade, alguma outra entidade inteligente dirige as raízes da árvore. Essa entidade é Deus. Daí a analogia com a flecha: sem uma inteligência que a direcione para a sua finalidade, que é atingir o alvo, a seta não fará tal coisa, por si mesma, precisamente porque não tem qualquer inteligência.»

Desidério Murcho, A existência de Deus – O essencial, Plátano, 2020, pp. 17-18

(Trata-se de um Ebook, ainda sem edição em papel: 

Há várias objeções ao argumento teleológico. Uma delas alega que, mesmo que admitamos a necessidade de o mundo ter um criador inteligente, isso não implica a sua identificação com o Deus teísta (omnipotente, sumamente bom, etc.) nem sequer monoteísta – pois pode suceder, por exemplo, que tenha vários criadores imperfeitos.

David Hume formulou essa objeção do seguinte modo (não cito diretamente o livro de Hume - Diálogos sobre a Religião Natural -, mas um artigo da revista Crítica que inclui, além de excertos do filósofo, breves explicações).

«Em vez de ser a obra de um único Deus, o mundo pode ser a obra de muitos deuses, todos mais finitos e imperfeitos do que a sua própria obra.

“Mas, mesmo que este mundo fosse uma produção tão perfeita, continuaria a ser duvidoso que se pudesse corretamente atribuir ao artífice todas as perfeições da obra. Se examinarmos um navio, que ideia elevada não formaremos do engenho do carpinteiro que construiu uma máquina tão complicada, útil e bela? E que surpresa não deveremos sentir ao verificarmos que se trata de um estúpido mecânico que imitou outros e copiou uma arte que, durante uma longa sucessão de épocas, após múltiplas tentativas, enganos, correcções, deliberações e controvérsias, foi gradualmente melhorada? Muitos mundos podem ter sido atamancados e destruídos ao longo de uma eternidade, antes que este sistema tenha surgido; muito trabalho perdido; muitas tentativas infrutíferas feitas; e um lento, mas gradual aperfeiçoamento na arte de fazer mundos ter sido levado a cabo durante épocas sem fim”. (Diálogos, Parte V). (…)

Tem de se admitir todas as hipóteses imagináveis para explicar o mundo, desde uma divindade infantil a um deus senil passando por uma divindade inferior e subalterna.

“Por aquilo que se sabe, quando comparado com um padrão superior, este mundo é muito defeituoso e imperfeito; e foi apenas a primeira e grosseira tentativa de uma Deidade infantil, que a seguir o abandonou, envergonhada da sua defeituosa realização; é meramente a obra de uma Deidade inferior e subalterna e constitui o objecto de troça dos seus superiores; é a produção de velhice e de senilidade de uma Deidade aposentada e, desde a sua morte, continua, à aventura, devido ao primeiro impulso e à força activa que dela recebeu” (Diálogos, Parte V)

Álvaro Nunes, “Será que Deus existe?”, Crítica - https://criticanarede.com/anunesseraquedeusexiste.html

(Infelizmente desconheço o autor e a origem da imagem.)

domingo, 10 de maio de 2020

Forma indiciária do problema do mal: um exemplo de sofrimento desnecessário e injustificado


William L. Rowe, no livro “Introdução à Filosofia da Religião”, ao discutir o problema do mal apresenta de exemplos de males alegadamente desnecessários e injustificados, nomeadamente o caso de um corço que durante cinco dias sofre dores terríveis provocadas por queimaduras até finalmente morrer num lugar isolado.

É de salientar que também apresenta e discute diversas maneiras de rejeitar o problema do mal.

«A forma indiciária do problema do mal baseiase em exemplos de sofrimento intenso, em seres humanos ou animais, que aparentemente não servem qualquer propósito benéfico. Desenvolvemos aqui o argumento centrandonos num exemplo de sofrimento animal: um corço que fica horrivelmente queimado durante um incêndio provocado pela descarga de um raio, sofrendo terrivelmente durante cinco dias antes de morrer. Ao contrário dos seres humanos, não se atribui livrearbítrio aos corços, pelo que não podemos imputar o terrível sofrimento do corço a um mau uso do livrearbítrio. Por que permitiria então Deus que isto acontecesse quando, se existe, podia têlo impedido com tanta facilidade? Admitese em geral que somos simplesmente incapazes de imaginar um bem superior cuja realização dependa, sob qualquer perspetiva razoável, de Deus permitir que aquele corço sofra terrivelmente. Tãopouco parece razoável supor que há um mal imenso que Deus seria incapaz de impedir se não permitisse que o corço sofresse durante cinco dias. Suponhase que por «mal sem sentido» entendemos um mal que Deus (se existe) poderia ter impedido sem com isso perder um bem superior ou sem ter de permitir um mal igualmente mau ou pior. Será que o sofrimento do corço é um mal sem sentido? Seguramente que o terrível sofrimento do animal durante esses cinco dias não parece do nosso ponto de vista fazer qualquer sentido. Quanto a isto, o consenso é, ao que parece, quase universal. Pois dada a omnisciência e o poder absoluto de Deus, serlheia extremamente fácil ter impedido o incêndio ou ter impedido que o corço fosse apanhado pelas chamas. Além disso, como vimos, é extraordinariamente difícil imaginar um bem superior cuja realização dependa, sob qualquer perspetiva razoável, de Deus permitir que aquele corço sofra terrivelmente. E é igualmente difícil imaginar um mal equivalente, ou até pior, que Deus se visse forçado a permitir caso impedisse o sofrimento do corço. Parece, portanto, perfeitamente razoável pensar que o sofrimento do corço é um mal sem sentido, um mal que Deus (se existe) podia impedir sem com isso perder um bem superior ou ter de permitir um mal equivalente ou pior.
À luz de tais exemplos de males horríveis, podese formular da seguinte maneira o argumento indiciário:

1. Provavelmente, há males sem sentido (por exemplo, o sofrimento do corço).
2. Se deus existe, não há males sem sentido.
Logo,
3. Provavelmente, Deus não existe.»

William L. Rowe, Introdução à Filosofia da Religião, Verbo, 2011, pp. 123-124.

(Tradução de Vítor Guerreiro e revisão científica de Desidério Murcho.)

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Duas objeções ao argumento cosmológico


Qual é a causa de Deus?

«Se um universo requer um deus para explicar a sua existência, o que explica a existência do próprio Deus? Da mesma maneira, ou Deus existiu desde sempre ou apenas apareceu ou então deve ter tido uma causa. No entanto, é tão implausível pensar que Deus sempre existiu ou que tenha simplesmente surgido, como pensar que também foi assim com o universo. O próprio raciocínio que nos leva a propor um deus como causa do universo deve levar-nos a propor um supradeus como causa de Deus. E, claro, o supradeus também precisa de uma causa, o suprasupradeus e assim infinitamente. Portanto, sejam quais forem as voltas que dermos, o que obtemos no fim é igualmente implausível. É tão implausível um deus incausado como um universo incausado, e é tão incrível uma série infinita de causas como uma série infinita de deuses.»

Limites da conclusão

«[Mesmo que aceitássemos o argumento, este] apenas provaria, no melhor dos casos, que a primeira causa existe, não que essa primeira causa seja Deus. Em vez disso, a primeira causa poderia ter sido o Diabo (um candidato plausível, dada a natureza do universo). E mesmo que o argumento tivesse provado que a primeira causa tinha de ser um deus, não provaria que ele tivesse de ser o seu Deus (se for um crente) ou um deus que encaixasse na imagem comum que os cristãos, judeus ou muçulmanos têm de Deus. Poderia ser qualquer um dos milhares de deuses diferentes em que os seres humanos acreditam ou, talvez, um deus em que os seres humanos nunca tenham pensado. De facto, o argumento da primeira causa abre a possibilidade de que tenha existido um Deus que criou o universo (ou talvez muitos deuses), mas que agora Deus está morto.»

Howard Kahane, “Há boas razões para acreditar que Deus existe?”, Crítica - https://criticanarede.com/hkahanehaboasrazoesparaacreditarq…

Pintura: William Blake, The Ancient of Days.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Argumento cosmológico: o texto de Tomás de Aquino e algumas reconstituições do argumento


Tomás de Aquino, de Gentile da Fabriano (1370-1427)


«A existência de Deus pode ser provada de cinco maneiras:
(…) A segunda maneira parte da natureza da causa eficiente. No mundo dos sentidos encontramos uma ordem de causas eficientes. Não há qualquer caso conhecido (nem isso seria, de facto, possível) em que uma coisa é causa eficiente de si própria. Para isto, teria de ser anterior a si própria, o que é impossível. Ora, não é possível haver uma série infinita de causas eficientes, porque nas causas que se seguem umas às outras na série, a primeira é a causa da intermédia, e esta é a causa da última, sejam várias ou apenas uma as causas intermédias. Ora, fazer desaparecer a causa é fazer desaparecer o efeito. Logo, se não há uma primeira causa na série das causas eficientes não haverá uma última nem qualquer causa intermédia. Mas se é possível haver uma série infinita de causas eficientes, não há uma primeira causa eficiente, nem um efeito último, nem quaisquer causas eficientes intermédias; tudo isto é obviamente falso. Logo, é necessário admitir uma primeira causa eficiente, a que todos dão o nome de Deus.»



Confrontar os alunos com o texto do próprio Tomás de Aquino parece-me pedagogicamente acertado, mas convém apresentar uma reconstituição do argumento de modo a facilitar a compreensão e a discussão. Eis três possibilidades:


«Premissa 1: No mundo, todas as coisas têm uma causa.
Premissa 2: Nada pode ser a causa de si próprio.
Premissa 3: As cadeias causais não podem regredir infinitamente.
Logo, existe uma causa primeira que é Deus.»

Aires Almeida e outros, A Arte de Pensar – volume 2, Didáctica Editora, Lisboa, 2007, pág. 133.


«1. Na natureza ocorrem acontecimentos.
2. Na natureza todo o acontecimento tem uma causa e nenhum acontecimento é a causa de si mesmo.
3. Na natureza as causas precedem os efeitos.
4. Na natureza não há cadeias infinitas de causa/efeito.
5. Logo, há uma entidade fora da natureza (um ser sobrenatural) que causa o primeiro acontecimento que ocorre na natureza.
6. Logo, Deus existe.»

Artur Polónio e outros, Criticamente, de Porto Editora, 2007, pág. 227.


«1. Existem coisas no mundo.
2. Se existem coisas no mundo, então tais coisas foram causadas a existir por alguma outra coisa.
3. Se as coisas do mundo foram causadas a existir por alguma outra coisa, então ou há uma cadeia causal que regride infinitamente ou há apenas uma primeira causa que é a origem da cadeia causal.
4. Mas não há uma cadeia causal que regride infinitamente.
5. Logo, há apenas uma maneira causa (a que chamamos Deus) que é a origem da cadeia causal. (De 1 a 4)»

Domingos Faria e Luís Veríssimo, Exame 11, Leya, Lisboa, 2020, pág. 258.

Imagem: Tomás de Aquino, de Gentile da Fabriano (1370-1427)

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Deus criou o melhor mundo que era possível criar


Leibniz é o autor de referência indicado nas AE para o problema do mal. Leibniz pensava que este é o melhor mundo possível e não pode ser melhorado, pelo que criou uma teodiceia, isto é, uma tentativa de mostrar que o mal existente no mundo não é incompatível com a existência de um Deus omnipotente e bom. 

Eis uma das passagens em que esse filósofo defende que Deus criou o melhor mundo que era possível criar. 

«89. Pode-se ainda dizer que Deus como Arquiteto contenta em tudo a Deus como Legislador; e que assim os pecados devem arrastar o seu castigo com eles pela ordem da natureza, e em virtude mesmo da estrutura mecânica das coisas; e que da mesma maneira as belas ações atrairão as suas recompensas por vias maquinais em relação aos corpos; embora isso não possa e não deva acontecer sempre de imediato.
90. Finalmente, sob este governo perfeito, não haveria boa Ação sem recompensa nem má sem castigo: e tudo deve resultar para o bem dos bons, quer dizer, daqueles que não estão descontentes neste grande Estado, que se confiam à Providência depois de terem feito o seu dever, e que amam e imitam, como é devido, o Autor de todo o bem, comprazendo-se na consideração das suas perfeições segundo a natureza do puro amor verdadeiro, que leva a ter prazer na felicidade daquilo que se ama. É o que faz trabalhar as pessoas sábias e virtuosas para tudo o que se revela conforme à vontade divina presuntiva ou antecedente, e não obstante contentar-se com o que Deus faz acontecer efetivamente pela sua vontade secreta, consequente e decisiva; reconhecendo que, se pudéssemos entender bastante a ordem do universo, acharíamos que ela ultrapassa todos os desejos dos mais sábios, e que é impossível torna-la melhor do que é; não só para o todo em geral mas também para nós mesmos em particular, se estivermos ligados como é preciso ao Autor do todo, não só como ao Arquiteto e à causa eficiente do nosso ser mas também como ao nosso Senhor e à causa Final que deve todo o fim da nossa vontade, e é o único que pode fazer a nossa felicidade.»

Leibniz, Monadologia, Edições Colibri, Lisboa, 2016, pp. 63-64.

Pintura: Vincent van Gogh: Às portas da eternidade.

terça-feira, 14 de abril de 2020

O conceito de Deus




«Antes de surgir a crença de que o mundo no seu todo está sob o controlo soberano de um único ser, as pessoas acreditavam amiúde numa pluralidade de seres divinos ou deuses, posição religiosa a que se chama politeísmo. Na antiguidade grega e romana, por exemplo, os diversos deuses controlavam diferentes aspetos da vida, de modo que se venerava, naturalmente, vários deuses — um deus da guerra, uma deusa do amor, e por aí em diante. Às vezes, porém, podia‐se acreditar que há diversos deuses mas venerar apenas um, o deus da própria tribo, posição religiosa a que se chama henoteísmo. No Antigo Testamento, por exemplo, há referências frequentes a deuses de outras tribos, embora os hebreus se mantenham fiéis ao seu próprio deus, Jeová. Lentamente, porém, surgiu a crença de que o nosso próprio deus é o criador do Céu e da Terra, o deus que não é apenas o da nossa própria tribo mas de todos, perspetiva religiosa a que se chama monoteísmo. (…)
[Segundo a conceção teísta] Deus não está em qualquer local ou região do espaço físico. É um ser puramente espiritual, um ser pessoal, perfeitamente bom, omnipotente, omnisciente, que criou o mundo, mas não faz parte dele. É distinto do mundo, não está sujeito às suas leis, julga‐o, orienta‐o para o seu desígnio final. Esta ideia bastante majestosa de Deus foi lentamente desenvolvida ao longo dos séculos por grandes teólogos ocidentais como Agostinho, Boécio, Boaventura, Avicena, Anselmo, Maimónides e Tomás. Tem sido a ideia dominante de Deus na civilização ocidental.»

William L. Rowe, Introdução à Filosofia da Religião, Verbo, 2011, pp. 11-12.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Matriz do 5º teste do 11º ano

Ano letivo: 2018-2019

Duração: 90 minutos

Objetivos:

1. Distinguir religiões monoteístas de religiões politeístas.

2. Explicar a a conceção teísta de Deus.

3. Distinguir o ateísmo do agnosticismo.

4. Distinguir a abordagem racional do problema da existência de Deus da fé.

5. Enunciar o problema da existência de Deus.

6. Explicar o argumento do desígnio.

7. Explicar as objeções estudadas ao argumento do desígnio.

8. Explicar o argumento da causa primeira.

9. Explicar as objeções estudadas ao argumento da causa primeira.

10. Explicar o argumento ontológico.

11. Explicar as objeção estudada ao argumento ontológico.

12. Explicar o problema do mal e o modo como este permite questionar a existência de Deus.

13. Explicar as respostas ao problema do mal.

14. Comparar e confrontar os argumentos a favor e contra a existência de Deus.

15. Defender uma tese acerca do problema da existência de Deus.

Natureza das questões:

Escolha múltipla, questões de resposta curta e uma questão de resposta extensa.

Para estudar:

Fotocópias

Opcional:

Se o mundo tivesse 100 pessoas: estatísticas interessantes
A objecção de Kant ao argumento ontológico: a existência não é um predicado

Se Deus existe porque é que acontecem coisas tão más?

O homem que foi visitado por Deus (vídeo humorístico)
O problema do mal em versão light, ou very light (vídeo humorístico)

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Razões para acreditar em Deus, segundo o filósofo Alvin Plantinga

Quadro do pintor René Magritte.

1. Razões para acreditar em Deus.

2. O erro de Richard Dawkins.

3. Deus é bom?

Um ateu encontra-se com Deus: vídeo

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Teísmo

filosofia da religiao miguel ângelo

Todos ou quase todos os povos têm religião. Mas não a mesma religião. Existem muitas religiões diferentes. Os antigos gregos, por exemplo, acreditavam em vários deuses e imaginavam-nos semelhantes aos humanos, embora muito mais poderosos. Os hindus também acreditam em vários deuses. Muito diferentes dessas religiões políteístas são as religiões monoteístas, em que se acredita num único Deus. As três principais religiões monoteístas são o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.

Como é sabido, essas religiões são bastante diferentes entre si. Contudo, têm uma conceção semelhante de Deus, conhecida por teísmo.

Quando na filosofia da religião se discute se Deus existe ou não tem-se em mente o conceito teísta de Deus, e não os deuses das religiões politeístas.

Segundo o teísmo, Deus é um ser omnipotente, omnisciente, omnipresente, criador do universo, eterno, incorpóreo, sumamente bom e pessoal. Dizer que Deus é uma pessoa (embora muito diferente das pessoas humanas) é dizer que é um ser dotado de consciência e capaz de agir – e não uma espécie de energia ou força da natureza1.

A discussão filosófica dos argumentos clássicos2 a favor e contra a existência de Deus pode e deve ser feita sem considerar as diferenças existentes entre as religiões que partilham a conceção teísta de Deus3. Nenhum desses argumentos implica, por exemplo, qualquer referência a Moisés, Jesus Cristo ou Maomé.

Notas:

1 A conceção de Deus como uma espécie de energia ou força da natureza chama-se deísmo.

2 A favor: argumento do desígnio, argumento cosmológico e argumento ontológico. Contra: problema do mal.

3 Para um desenvolvimento maior dessa ideia ler: Deus? Qual deles?

Leituras:

Agnaldo Cuoco Portugal, “Filosofia da Religião”, em Filosofia – uma introdução por disciplinas, organização de Pedro Galvão, Edições 70, Lisboa, 2012.

Aires Almeida e Desidério Murcho, 50 Lições de Filosofia – 10º, Didática Editora, Lisboa, 2013.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Deus em tribunal

menina

menina com epidermólise bulhosa

Suponha que a menina do desenho, após enorme sofrimento, morreu com epidermólise bulhosa.

Um advogado, o dr. Hugo Ateu, decidiu acusar Deus da sua morte. Com essa acusação um pouco paradoxal não pretendia que Deus fosse preso, mas sim convencer as pessoas de que – já que existe tanto mal no mundo - não vale a pena acreditar em Deus.

Outro advogado, o dr. Heitor Teísta, decidiu defender Deus dessa acusação. Com essa defesa não queria, naturalmente, evitar que Deus fosse preso, mas sim mostrar que vale a pena acreditar nele.

Imagine que faz parte da equipa de um desses advogados e tem de o ajudar a preparar a sua alegação.

A turma dividir-se-á em dois grupos: um será a equipa do dr. Hugo Ateu e o outro será a equipa do dr. Heitor Teísta.

Depois de preparadas as alegações, os dois advogados deverão defendê-las no conhecido Tribunal da Aula de Filosofia. Os alunos de cada equipa serão à vez o dr. Hugo Ateu e o dr. Heitor Teísta.

O professor de filosofia será apenas um espectador imparcial e não o juiz. O juiz será a razão humana.

Que vença a melhor argumentação!

sábado, 3 de agosto de 2013

Ateísmo

“Não se trata apenas de eu não acreditar em Deus e de, como é natural, esperar ter razão. Trata-se de eu ter a esperança de que não exista Deus! Não quero que exista Deus; não quero que o universo seja dessa maneira.”
Thomas Nagel, A Última Palavra, Gradiva, Lisboa, 1999, pág. 155.
Thomas Nagel