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sábado, 27 de janeiro de 2018

Da dúvida à certeza: vídeo e ficha de trabalho

Desenho da autoria de  Banksy.
Este vídeo, disponibilizado no Manual escolar 2.0, Edições Sebenta (um sítio que vale a pena visitar), é muito interessante e útil na leccionação dos conteúdos programáticos do 11º ano.
Quando os meus alunos o visionaram na aula disponibilizei-lhes, previamente, o pequeno questionário que a seguir apresento. O vídeo é um excelente recurso - para utilizar nas aulas a propósito do problema do conhecimento - devido à clareza da linguagem e pertinência dos conteúdos filosóficos.
No vídeo do filósofo inglês Warburton surgem algumas passagens de um pequeno filme sobre a alegoria da caverna de Platão, que costumo passar nas aulas do 10º ano e que pode ser visionado na íntegra no link seguinte (com legendas em português):
Adaptações da alegoria da caverna em vídeo
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Ficha de trabalho de Filosofia - 11º ano

Tema: A teoria do conhecimento de Descartes.

Após o visionamento do vídeo do filósofo inglês Warburton, responda às seguintes questões:


1. Dê exemplos que provem a falibilidade dos nossos sentidos.
2. Explique uma das objecções à tese: nunca podemos confiar no conhecimento sensorial.
3. Qual é o ponto de vista de Platão, expresso na alegoria da caverna, acerca do conhecimento empírico. Descartes concorda com ele?
4. Como se explica o argumento do sonho?
5. De que tipo de conhecimento é que o argumento do sonho não nos permite duvidar?
6. Esclareça em que consiste a experiência mental do “cérebro numa cuba”. Para que serve?
7. A experiência mental do “cérebro numa cuba” é comparável a que argumento cartesiano? Porquê?
8. De que forma ultrapassa Descartes a dúvida metafísica introduzida pelo Génio Maligno?
9. O que é o cogito?
                                                                                                     A professora: Sara Raposo
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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

A alegoria da caverna: atividades e vídeo

Resultado de imagem para Platos cave

Perguntas e respostas online sobre a alegoria da caverna de Platão  e sugestões de atividades aa realizar em sala de aula (em português do Brasil), no link:

http://ed.ted.com/on/bUorXrWF#review

quinta-feira, 19 de março de 2015

terça-feira, 30 de setembro de 2014

A alegoria da caverna: o texto de Platão

Plato's cave allegory

"- Imagina agora o estado da natureza humana com respeito à ciência e à ignorância, conforme o quadro que dele vou esboçar. Imagina uma caverna subterrânea que tem a toda a sua largura uma abertura por onde entra livremente a luz e, nessa caverna, homens agrilhoados desde a infância, de tal modo que não possam mudar de lugar nem volver a cabeça devido às cadeias que lhes prendem as pernas e o tronco, podendo tão-só ver aquilo que se encontra diante deles. Nas suas costas, a certa distância e a certa altura, existe um fogo cujo fulgor os ilumina, e entre esse fogo e os prisioneiros depara-se um caminho dificilmente acessível. Ao lado desse caminho, imagina uma parede semelhante a esses tapumes que os charlatães de feita colocam entre si e os espectadores para esconder destes o jogo e os truques secretos das maravilhas que exibem.

- Estou a imaginar tudo isso.

- Imagina homens que passem para além da parede, carregando objectos de todas as espécies ou pedra, figuras de homens e animais de madeira ou de pedra, de tal modo que tudo isso apareça por cima do muro. Os que tal transportam, ou falam uns com os outros, ou passam em silêncio.

- Estranho quadro e estranhos prisioneiros!

- E, no entanto, são ponto por ponto tal qual como nós. Em primeiro lugar, julgas que percepcionarão outra coisa, de si mesmos e dos que se encontram a seu lado, além das sombras que na sua frente se produzem, no fundo da caverna?

- Que outra coisa poderão ver, pois que, desde o nascimento, foram compelidos a conservar a cabeça permanentemente imóvel?

- Verão, apesar disso, outras coisas além dos objectos que passam à sua rectaguarda?

- Não.

- Se pudessem conversar uns com os outros, não concordariam em dar às sombras que vêem os nomes dessas mesmas coisas?

- Sem dúvida.

- E se no fundo da sua prisão houvesse eco que repetisse as palavras daqueles que passam, não imaginariam que ouviam falar as sombras mesmas que desfilam diante dos seus olhos?

- Sim.

- E, por fim, não julgariam eles que nada existiria de real além das sombras?

- Não há dúvida.

- Pensa agora naquilo que naturalmente lhes aconteceria se fossem libertados das suas cadeias e se fossem elucidados acerca do erro em que estavam. Liberte-se um desses cativos, e que ele seja obrigado a levantar-se imediatamente, a voltar a cabeça, a andar e a enfrentar a luz: nada disso poderá fazer sem grande esforço; a luz encandear-lhe-á a vista e o deslumbramento produzido impedi-lo-á de distinguir os objectos cujas sombras via antes. Que julgas tu que responderia se lhe dissessem que até então apenas vira fantasmas e que agora tem ante os olhos objectos mais reais e mais próximos da verdade? Se lhe mostrarem imediatamente as coisas à medida que se forem apresentando, e se for obrigado, à força de perguntas, a dizer o que é cada uma delas, não ficará perplexo e não julgará que aquilo que dantes via era mais real do que aquilo que agora se lhe apresenta?

- Sem dúvida.

- E se o obrigassem a enfrentar o fogo, não adoeceria dos olhos? Não desviaria os seus olhares, para dirigi-los para a sombra, que enfrenta sem dificuldade? Não julgaria que essa sombra possui algo de mais claro e distinto do que tudo quanto se lhe mostra?

- Certamente.

- Se agora o arrancarmos da caverna e o arrastarmos, pela senda áspera e fragosa, até à claridade do Sol, que suplício o seu por ser assim arrastado! Como está furioso! E, uma vez chegado à luz livre, os olhos ofuscados com o fulgor dela, poderia ver alguma coisa da multitude de objectos a que chamamos seres reais?

- De início ser-lhe-ia impossível.

- Necessitaria de tempo, sem dúvida, para se acostumar a eles. Aquilo que distinguiria melhor seria, em primeiro lugar, as sombras; e, logo a seguir, as imagens dos homens e dos mais objectos, reflectidos à superfície das águas; por fim, os próprios objectos. Daí volveria os olhos para o céu, cuja visão suportaria com maior facilidade durante a noite, à luz da Lua e das estrelas, do que durante o dia, à luz do Sol.

- Sem dúvida.

- Por fim, encontrar-se-ia em condições, não só de ver a imagem do Sol nas águas e em tudo aquilo em que se reflicta, como de olhá-lo e contemplar o verdadeiro Sol no seu verdadeiro local.

- Sim.

- Depois disto, pondo-se a reflectir, chegaria à conclusão de que o Sol é o que determina as estações e os anos, e o que rege todo o mundo visível e que, de certo modo, é causa daquilo que se via na caverna.

- É evidente que chegaria gradualmente a tais reflexões.

- E se, então, se recordasse da sua primeira habitação e da ideia que aí formavam da sabedoria, ele e os seus companheiros de escravidão, não se regozijaria com a mudança e não teria compaixão da desgraça daqueles que permaneciam cativos?

- Certamente.

- Crês tu que agora ele sentisse ciúmes das honras, das vaidades e recompensas ali outorgadas àquele que mais rapidamente captasse as sombras, àquele que com maior segurança recordasse as que iam atrás ou juntas e por tal razão seria o mais hábil em prever a sua aparição, ou que invejasse a condição daqueles que na prisão eram mais poderosos e mais honrados? Não preferiria, como Aquiles, segundo Homero, passar a vida ao serviço dum pobre lavrador e sofrê-lo, a voltar ao seu primeiro estado e às suas primitivas ilusões?

- Não duvido de que preferiria suportar todos os males possíveis a voltar a viver de tal modo.

- Atenta, pois, nisto: se regressasse novamente à sua prisão, para voltar a ocupar nela o seu antigo posto, não se acharia como um cego, na súbita passagem da luz do dia para a obscuridade?

- Sim.

- E se, no entanto, ainda não distinguisse nada e, antes que os seus olhos se houvessem refeito, o que apenas poderia acontecer depois de muito tempo, tivesse de discutir com os mais prisioneiros sobre essas sombras, não se tornaria ridículo aos olhos dos outros, que diriam dele que, por ter subido até lá acima, perdera a vista, acrescentando que seria uma loucura o eles pretenderem sair do lugar onde se encontravam, e que, se alguém se lembrasse de tirá-los dali e levá-los para a região superior, se tornaria necessário prendê-lo e matá-lo?

- Indiscutivelmente.

- Pois, meu querido Glauco, é essa, precisamente, a imagem da condição humana. A caverna subterrânea é este mundo visível; o fogo que a ilumina, a luz do Sol; o prisioneiro que ascende à região superior e a contempla é a alma que se eleva até à esfera do inteligível. É isto, pelo menos, o que penso, já que o queres conhecer, mas só Deus sabe se é certo. Pelo que me toca, a coisa afigura-se-me tal como te vou comunicar. Nos últimos limites do mundo inteligível encontra-se a ideia do bem, que só com dificuldade se percebe, mas que, todavia, não pode ser percebida sem que se conclua que ela é a causa primeira de quanto há de bom e de belo no universo; que ela, neste mundo visível, produz a luz e o astro do qual a luz irradia directamente; que, no mundo visível, engendra a verdade e a inteligência; que é preciso, enfim, ter os olhos fitos nessa ideia, se quisermos conduzir-nos honestamente na vida pública e privada.

- Na medida em que pude compreender a tua ideia, concordo contigo.

- Tens, pois, de admitir e não estranhar que aqueles que alcançaram essa sublime contemplação desdenhem da intervenção nos assuntos humanos e que as suas almas aspirem, incessantemente, a fixar-se nesse lugar eminente. Assim deve ser, se isto está em conformidade com a pintura alegórica que esbocei.

- Assim deve ser."

Platão, "República".

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A alegoria da caverna e um cartoon de Quino

Legenda: “E porque diabos caminhamos como carneiros sem sequer saber para onde vamos?”

A minha aluna, Diana Todica, do 10º E, escreveu na aula um texto que vale a pena ler. O tema é a relação entre a alegoria da caverna de Platão e o cartoon anterior da autoria de Quino.

Ei-lo:

O texto da alegoria da caverna está muito relacionado com a atualidade por diversas razões. Uma delas é que coloca questões como: "O que é a realidade?", "O que é a verdade?" ou "Será que quem adquire o conhecimento tem necessariamente a obrigação de o partilhar com os outros?" – estes problemas continuam a dizer respeito a todas as pessoas. A alegoria da caverna representa duas formas diferentes de nós, os humanos, compreendermos a realidade. Se vivermos aprisionados no nosso ponto de vista, tomando como óbvias certas ideias, isto é agarrados a essas crenças, sem as examinar criticamente, o mundo é como no interior da caverna, em que os prisioneiros confundem as sombras com a realidade. Esta atitude dogmática impede-nos de compreender que aquilo que tomamos como real é na verdade ilusório. Vivermos deste modo é sermos "cegos", sem termos consciência disso, escolher o caminho mais fácil: por preguiça não questionarmos as nossas crenças mais básicas, as ideias que a nossa cultura, época ou família nos impingiram como certas.

Mas podemos adoptar uma outra atitude: questionarmo-nos, procurando uma justificação racional para as nossas ideias. Ao fazermos isso, estamos a filosofar, este é o momento em que "saímos da caverna" e nos apercebemos que, baseando os nossos pensamentos e ações apenas nas ideias dos outros, vivíamos num mundo muito pequeno e limitado. Ainda hoje esta situação se verifica, a atitude das pessoas relativamente às crenças religiosas é um bom exemplo, pois grande parte delas depende da aceitação acrítica de certas ideias. Muitas pessoas baseiam as suas vidas no pressuposto que  Deus existe e recusam-se a pôr em causa uma ideia discutível. Outro exemplo é o que acontece no dia a dia, recusamos o pensamento crítico porque isso torna tudo muito mais difícil de compreender e de aceitar, além disso dá trabalho! E é sempre mais fácil seguir o caminho que exige menos esforço. Contudo, de acordo com Platão, se não reconhecemos a nossa ignorância, não nos apercebemos que a nossa vida está a passar à frente dos olhos, sem vermos as coisas mais importantes, sem termos oportunidade de aceder e conhecer outras perspectivas ou "realidades" alternativas à nossa.

O cartoon mostra uma sociedade onde tudo isto acontece. Os membros desta sociedade têm uma atitude acrítica, acreditam nas ideias que outros criaram para a população e seguem a multidão, "cegos", sem pensarem por si próprios. No entanto, há sempre uma minoria (neste caso, uma pessoa no cartoon), que "abre os olhos" e começa a questionar se a direção seguida pela maioria está certa, se aquela é a verdade, porque é que tem de ser assim e porque razão não se consideram outras possibilidades – na alegoria de Platão corresponde ao "sair da caverna. No entanto, quem faz isto não é bem aceite (há uma mão mecânica que remove quem questiona). Tal como na alegoria da caverna, a maioria das pessoas não quer sair do seu sono dogmático, prefere continuar a ter uma vida fácil e "facilitada", mesmo que sejam manipulados por outros. A ilusão tornou-se a realidade.

Na alegoria da caverna, os outros prisioneiros quiseram matar o prisioneiro que tinha saído da caverna e os tentava persuadir como era "pequeno" mundo em que viviam e falsas as ideias que eles pensavam ser verdadeiras. No cartoon, passa-se exatamente o mesmo, as pessoas que se interrogam são excluídas, "removidas" pela sociedade ou pelo poder por não aceitarem as crenças mais básicas que a maioria adopta.

Porém, pode-se perguntar, tal como fez Sócrates, "será que uma vida sem pensar é digna de ser vivida"?

Cabe a cada um de nós escolher, diz Platão.

Diana Todica, 10º E

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

People are strange

Uma sugestão musical para os meus alunos do 10º E, que irão ter teste amanhã.

Espero que esta música seja inspiradora e vos ajude a perceber melhor a alegoria da caverna de Platão (estou a falar a sério!):)

domingo, 7 de outubro de 2012

Adaptações da alegoria da caverna em vídeo

Em ambos os vídeos estão presentes algumas das ideias fundamentais que Platão apresenta no texto da alegoria da caverna. O segundo vídeo - uma passagem do filme "Matrix" (1) - foi uma sugestão de vários alunos do 10º E (a quem agradeço), após terem visionado na aula o primeiro vídeo.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Sabias que és parecido a uma pessoa acorrentada no fundo de uma caverna?

Segundo Platão, eu, __________________________ (nome), sou parecido(a) aos prisioneiros da Alegoria da Caverna. Julgo que Platão está _________________(certo/errado), pois_______.

No primeiro teste de Filosofia do 10º da turma D, realizado no passado mês de Outubro, esta era a pergunta 8. Houve várias respostas boas, mas as melhores foram dadas pelos alunos Fábio Gonçalves e Rafael Fonseca. Pedi-lhes para conversarem um com o outro e com base nas respostas dadas no teste construírem um texto com que ambos concordassem. Ei-lo.

Segundo Platão, nós somos parecidos aos prisioneiros da Alegoria da caverna. Julgamos que Platão está certo, pois, tal como os prisioneiros, nós - Fábio e Rafael, mas também os outros seres humanos – muitas vezes adotamos crenças acriticamente. Tal como os prisioneiros, estamos presos por “correntes” (metafóricas, claro) que nos iludem, parcialmente ou mesmo globalmente, acerca do que é real e do que não é.

A Alegoria da Caverna fala-nos de um grupo de seres humanos que se encontram presos no fundo de uma caverna. A única coisa que conseguem ver são sombras e julgam que estas são reais – julgam que são a realidade. Depois, há um prisioneiro que sai da caverna: vivia numa ilusão mas liberta-se das correntes da ignorância e alcança o conhecimento após um árduo processo de aprendizagem.

Os prisioneiros viveram sempre com a certeza de que as sombras eram a realidade e não as viam como aparências ou ilusões, mas estavam errados. Julgavam saber o que era a realidade mas não sabiam. Como foi dito, esses prisioneiros podem ser comparados a cada um de nós, pois nós podemos estar iludidos como eles - parcialmente ou até globalmente.

Vejamos primeiro a hipótese da ilusão parcial. Uma pessoa pode estar “acorrentada”, querendo isto dizer que vive iludida relativamente a certos aspetos da realidade. Por causa de coisas como o amor, o ódio, a preguiça, experiências traumáticas, etc., pode ignorar alguns aspetos da sua vida ou até vivê-los de uma forma falsa. Por exemplo: uma pessoa que esteve na guerra pode ter alucinações visuais ou sonoras quando confrontada com uma situação que lhe lembre uma situação passada traumatizante. Uma pessoa que ama outra de forma intensa pode não conseguir perceber que a outra pessoa a engana ou então pode suavizar e desculpar coisas erradas que a outra pessoa faz, como agredi-la ou insultá-la. Essas pessoas vivem convencidas que as coisas da sua vida são de um certo modo e afinal a realidade é muito diferente.

Mas pode suceder que a nossa ilusão não seja apenas parcial mas sim global. Não é impossível, embora seja pouco plausível, que toda a nossa vida atual seja uma ilusão e estejamos, por exemplo, a sonhar. Talvez toda a nossa vida seja um sonho ou uma ilusão semelhante à descrita no filme Matrix. Quem sabe? Talvez exista uma outra vida, uma outra verdade, completamente transcendente e diferente daquilo em que habitualmente acreditamos. Embora a hipótese seja pouco plausível não a devemos rejeitar sem discussão: que razões temos para considerar que a realidade é aquilo que julgamos ser?

O prisioneiro libertado regressou à caverna mas os outros prisioneiros não o quiseram ouvir nem discutir ideias com ele. Isto pode ser interpretado como o uso da filosofia para a discussão das nossas crenças básicas. As pessoas que não aceitam as crenças acriticamente e usam a Filosofia como um instrumento de sabedoria (isto é, uma forma de procurar a verdade) podem ser comparadas ao prisioneiro que se libertou e descobriu o que era de facto a realidade e que tudo o que tinha visto até então era falso. Aquelas pessoas que se recusam a discutir as suas crenças e as aceitam acriticamente - talvez por terem medo de não terem as mesmas ideias da maioria - são comparáveis aos prisioneiros que, no fim, se recusaram a sair da caverna. São dogmáticas, ou seja, acham as suas ideias tão corretas que nem se preocupam em justifica-las e recusam discuti-las e compará-las com as ideias das outras pessoas.

De qualquer forma, a conclusão é que qualquer um de nós pode estar parcialmente ou globalmente iludido, pelo que somos comparáveis aos prisioneiros descritos por Platão.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Sobre a alegoria da caverna de Platão

Seguem-se alguns materiais didáticos, acerca da alegoria da caverna de Platão, utilizáveis nas aulas.

Além da ficha de trabalho seguinte, podem consultar neste blogue:

- Um vídeo e uma banda desenhada: AQUIAQUI.

- Trabalhos realizados pelos alunos no ano letivo transato: AQUI e AQUI.

- Textos:

A origem dos problemas filosóficos
O que mais importa não é viver, mas viver bem
Examinar a vida: valerá a pena o esforço?
Cegos que não sabem que são cegos

2011-12 10º ano Ficha de trabalho 2, a alegoria da caverna de Platão

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A alegoria da caverna e o Facebook: a opinião dos alunos

Facebook

Coloquei um desafio (aqui) aos meus alunos do 10º ano: turmas C, D e F. Agradeço a todos os que se empenharam e se atreveram a expressar publicamente as suas opiniões.

Os melhores trabalhos sobre o vídeo 2 , ainda que existam outros cuja leitura também vale a pena, foram realizados pelos alunos: Katayoune Shahbazkia (turma C) e David Afonso (turma D).

Ei-los:

As redes sociais virtuais são grupos ou espaços específicos na Internet que permitem partilhar dados e informações, sendo estas de carácter geral ou específico e nos mais diversos formatos (textos, arquivos, imagens fotos, vídeos, etc.). Incluem igualmente jogos, debates, testes e outros tipos de entretenimento virtuais. Embora seja um meio de interacção e comunicação que comporta inúmeras vantagens, engloba igualmente diversas desvantagens – quando usado por pessoas que possuem uma atitude acrítica (não pensam de forma coerente e apresentam ideias injustificadas).

A facilidade com que alguns indivíduos divulgam informações pessoais e aceitam como “verdades” o que lhes aparece no ecrã, passando inúmeras horas neste tipos de rede - que se torna viciante e causa dependência - são exemplos que ilustram as consequências negativas da utilização acrítica das redes sociais, em particular do Facebook. Outros aspectos negativos resultantes do mau uso das redes sociais podem ser: deficiência de interacção não-virtual, insucesso profissional e escolar, publicidade dirigida (após analise de perfis de diversas pessoas), perseguições por pessoas indesejáveis, chantagens, perda de privacidade e danos na reputação.

Na Alegoria da Caverna, Platão exprime a diferença entre a atitude crítica e acrítica, sublinhando que cada um de nós é livre de escolher ficar preso ou libertar-se. Para fazer esta diferenciação relata a história de homens que viveram desde sempre numa caverna escura, presos por correntes. Não vêem nada a não ser uma das paredes da caverna, onde são projectadas – graças a uma fonte de luz que se encontra atrás deles – figuras que provêm de objectos e pessoas que estão nas suas costas. Quando um dos prisioneiros é liberto, exposto à luz, começa por pensar que o que vê é irreal, convencido que as projecções da caverna são a vida real. Porém, ao longo do tempo, compreende que a verdade é precisamente o contrário, que as projecções não passam de ilusões, e que a realidade é fora da caverna, na liberdade. Decide voltar para persuadir os companheiros de prisão que tivera de que o que pensam não é verdade, contando-lhes a realidade, mas eles gozam com ele, não querendo acreditar no que ele diz.

Analisando esta história relatada por Platão, podemos afirmar que o prisioneiro liberto é a pessoa que pensa e age criticamente, os outros prisioneiros são os que não pensam por si próprios, presos a correntes – que são nem mais nem menos do que as suas próprias mentes quadradas e convencidas da verdade – e envoltos nas sombras, permanecendo, sem ter consciência, na ignorância.

Se examinarmos com atenção, podemos relacionar o modo acrítico com que algumas pessoas usam as redes sociais com os prisioneiros, que são igualmente possuidores de uma atitude acrítica e dogmática. A deficiência de interacção não-virtual pode ser comparada com o isolamento dos prisioneiros em relação ao mundo real. O insucesso profissional e escolar é equivalente ao facto dos prisioneiros se encontrarem embrenhados nas sombras, sem manifestarem qualquer tipo de interesse intelectual por compreender verdadeiramente o mundo que os rodeia. A publicidade dirigida, as chantagens e as perseguições (por pessoas indesejáveis que, de certa forma usaram a atitude acrítica e dogmática da vítima para a alcançar, sendo isto um género de manipulação) encaixam perfeitamente na ideia das pessoas estarem a ser manipuladas e enganadas, tal como os prisioneiros que são levados a pensar que o mundo real é apenas o espaço que eles conhecem da caverna.

As relações sociais podem ser bem mais difíceis no mundo real que no virtual. Mas não será preferível a verdade à ilusão?

Katayoune Shahbazkia (turma C)

Se admitirmos que os prisioneiros descritos na Alegoria da Caverna são semelhantes a nós, podemos estabelecer algumas relações entre o modo como algumas pessoas usam as recentes descobertas tecnológicas e a situação dos prisioneiros. Por exemplo, o uso do computador para aceder às redes sociais.

Actualmente, as redes sociais são usadas para diversos fins. Por exemplo, para manter contacto com as pessoas que têm uma localização geográfica muito distante, para comunicar sobre os mais variados assuntos, para jogar os vários jogos, etc. Este meio também pode ser usado – de forma muito eficaz - pela comunicação social e outras organizações para transmitir determinadas notícias ou petições relacionadas a determinado assunto.

De acordo com esta fonte, seis anos após a criação do Facebook, o número de utilizadores já chega aos 400 milhões. Esta rede social teve,  desde o início da sua criação, uma grande adesão. Todavia, apesar das redes sociais poderem ser bem utilizadas, podem também ter um impacto negativo na vida das pessoas, se elas passarem aí demasiado tempo e deixarem de conviver presencialmente com os outros. Estes utilizadores podem vir a sofrer de vários problemas a nível social e psicológico.

Algumas pessoas aceitam acriticamente a informação que lhes é transmitida nestas redes, não se questionando acerca da sua veracidade. Deste modo, podemos comparar a situação dos prisioneiros - que estão presos com correntes de metal e pensavam que as sombras eram a realidade – descrita por Platão na Alegoria da Caverna com o modo como algumas pessoas utilizam o Facebook. Neste caso, não estão presas por correntes de metal, mas pela ignorância, pela falta de espírito crítico, pelos preconceitos, etc.

Os utilizadores do Facebook partilham informações pessoais e fotografias no seu perfil e adicionam “amigos”, alguns deles conhecidos apenas na Internet, sem pensarem que podem estar a praticar acções cujas consequências na sua vida real podem ser graves: serem vítimas de crimes como a invasão da privacidade, a pedofilia, entre outros.

David Afonso (turma D)

A alegoria da caverna e a televisão: a opinião dos alunos

A alegoria da caverna e a televisão

Coloquei um desafio (aqui) aos meus alunos do 10º ano: turmas C, D e F. Agradeço a todos os que se empenharam e se atreveram a expressar publicamente as suas opiniões.

Os melhores trabalhos sobre o vídeo 1, ainda que existam outros cuja leitura também vale a pena, foram realizados pelas alunas:  Alina Dahmen (turma C) e Filipa Santos (turma D).

Ei-los:

O vídeo “Mito da Caverna – por Maurício de Souza” retrata uma realidade que pode identificar-se com o que acontece nos dias de hoje.

Os três velhos deste vídeo ocupavam a sua vida a observar a sombra das pessoas e dos animais que passavam à frente da parede da caverna, tal como os presos da Alegoria da Caverna viam as sombras projectadas dos objectos que passavam atrás das suas costas. Estes velhos (ou os prisioneiros da alegoria da caverna) assumiam como realidade todas as sombras que viam passar e não pensavam sequer que existisse qualquer coisa diferente para conhecerem.

A vida deles passava-lhes “à frente dos olhos”, sem que eles participassem activamente nela. Podem, portanto, ser considerados “espectadores da vida” (tal como Maurício de Souza refere). Por pensarem conhecer toda a realidade, ridicularizaram e perseguiram o seu “salvador” por este lhes querer mostrar a verdadeira vida e a realidade, ou seja, o exterior da caverna, os objectos e os seres vivos em três dimensões, aqueles que davam origem às sombras.

Era mais fácil para eles continuarem na ignorância do que fazer o esforço para alcançar o conhecimento e questionar as sombras, a ilusão vivida. Esses “prisioneiros das sombras”, semelhantes aos prisioneiros da caverna de Platão, representam todas as pessoas que dependem da televisão e que preferem aceitar os “conhecimentos” transmitidos por esta a pensarem por si próprios. Na maior parte das vezes, os espectadores nem se questionam se estes conhecimentos são ou não verdadeiros. A televisão tem, também, grande poder de influência. Se existem dois produtos alimentares de diferentes marcas, por exemplo um azeite, e uma das marcas tiver publicidade em vários canais televisivos, o outro produto - de uma marca menos conhecida mas com ingredientes de melhor qualidade - venderá menos. Se uma pessoa, diante os dois produtos, tiver de decidir qual deles comprar, provavelmente, escolherá o primeiro, pois este é “aconselhado” pela televisão. A publicidade é apenas um dos muitos exemplos do poder da televisão. Esta, além de informar, pode também manipular, se não adoptarmos um ponto de vista crítico.

Alina Dahmen (turma C)

Platão, filósofo grego, na Alegoria da Caverna, afirma que os prisioneiros são semelhantes a nós. Significa que, tal como os prisioneiros, também nós confundimos a aparência com a realidade e julgamos ser verdadeiro o conhecimento que  é, na realidade, falso. A diferença reside no facto de nós não estarmos presos da mesma maneira que os prisioneiros descritos por Platão estão, visto que nos encontramos presos psicologicamente, e não fisicamente.

Na Alegoria da Caverna, Platão descreve um grupo de homens que se encontram acorrentados no interior de uma habitação subterrânea, onde tudo o que conseguem ver são sombras e, por isso mesmo, julgam que estas são a realidade, dado que esta é a única a que têm acesso. Esses prisioneiros representam os indivíduos que, na nossa sociedade, têm uma atitude acrítica e dogmática. As sombras, tidas ilusoriamente como a realidade, correspondem às crenças que a maior parte de nós possui e julga serem incontestáveis.

Um dos prisioneiros consegue libertar-se, caminhando em direcção à luz: o conhecimento. Tem, no início, muita dificuldade em olhar para a luz, mas tenta com muito esforço habituar-se a ela. Falando, filosoficamente, ele passou a ser capaz de pôr em causa as crenças, que antes possuía e aceitava acriticamente, e procurou uma justificação racional para estas.

Quando o prisioneiro liberto regressa à caverna, não é bem aceite pelos outros. Estes consideram-no um louco e poderiam até tentar matá-lo, diz Platão. Isto acontece porque eles estão convencidos que conhecem a realidade e possuem a verdade e, por isso, não se sentem à vontade quando alguém os tenta chamar à razão, como fez o prisioneiro já solto.

Este texto, escrito por Platão, faz-nos pensar que se optarmos por um ponto de vista filosófico, não seguiremos a opinião da maioria só porque é mais fácil e não requer qualquer esforço da nossa parte, mas sim pensaremos pela nossa cabeça justificando racionalmente as nossas ideias.

Depois de ter feito um pequeno resumo da Alegoria da Caverna e uma breve interpretação da mesma, posso então dizer que o tema que escolhi foi o do artista brasileiro Maurício de Souza que criou uma pequena banda desenhada ("As Sombras da Vida"). Ele compara os prisioneiros com as pessoas que se tornam dependentes da televisão e acabam por confundir as imagens televisivas com a sua vida. Neste caso, as pessoas aceitam como verdadeira uma ''realidade imaginária'', artificial e programada com o objectivo, muitas vezes, de manipular as suas ideias e emoções. Vivem a vida dos personagens em vez de viverem a sua própria vida.

Podemos estabelecer uma relação entre o modo como algumas pessoas usam as recentes descobertas tecnológicas, nomeadamente a televisão,  e a situação dos prisioneiros. Tal como Platão refere, há dois caminhos possíveis: deixar-se levar pela fantasia e pela ilusão, aceitando, sem reflectir, o conhecimento que nos é transmitido ou, então, esforçar-nos por obter conhecimentos que nos permitam analisar criticamente a informação transmitida. Cabe a cada um de nós escolher.

Filipa Santos (turma D)

sábado, 13 de novembro de 2010

Dois desafios: escolham um!

Segundo Platão, os prisioneiros descritos na alegoria da caverna são semelhantes a nós.

Se admitirmos a verdade desta ideia, será que podemos estabelecer alguma relação entre o modo como algumas pessoas usam as recentes descobertas tecnológicas - a televisão, o computador (as redes sociais e os jogos, por exemplo) e a situação dos prisioneiros? Porquê?

Escolham o tema de um dos vídeos e argumentem!

Informação aos alunos: a data limite para o envio do comentário é dia 24 de Novembro. Como vos disse, só publicarei os vossos comentários depois desta data.

Bom trabalho!

Nota: Sobre a alegoria da caverna e a televisão pode ler, no Dúvida Metódica, aqui.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Alegoria da Caverna: um desafio aos alunos do 11º ano

sombras (Fotografia encontrada na Internet, sem indicação do autor)

No primeiro dia de aulas deste ano lectivo, alguns dos meus alunos do 10º ano perguntaram-me se iríamos estudar a alegoria da caverna de Platão. Explicaram-me, então, que outros colegas (agora no 11º ano) lhes haviam falado das ideias defendidas nesse texto e isso lhes tinha parecido muito interessante.

Esta atitude, não muito vulgar em alunos do 10º ano, fez-me pensar que a motivação e a curiosidade suscitadas se deveram, talvez, à clareza das explicações e ao entusiasmo com que foram apresentadas pelos seus colegas do 11º.

Decidi, na altura, que antes de iniciar o estudo do texto de Platão (que será na próxima semana) solicitaria aos alunos - actualmente no 11º ano - a colaboração para explicarem aos colegas, de uma forma simples e motivadora, quais os problemas filosóficos abordados por Platão na alegoria da caverna e se podemos ganhar algo com a reflexão e discussão acerca deles.

Fica o desafio.

Para o aceitar não é necessário ser atrevido, basta pensar! E depois escrever um comentário aqui no Dúvida Metódica, neste post.

 

Nota: Podem escrever o comentário no Word e depois copiar e colar na caixa de comentários.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Cegos que não sabem que são cegos

Em terra de cegos - conto de Wells

HG Wells Publiquei noutro blogue - “Crítica: Blog” - um post acerca de um conto de H. G. Wells: “Em Terra de Cegos…”, Padrões Culturais Editora, 2008.

É a história de uma terra em que todas as pessoas são cegas, mas sem saber que são cegas. Quando um forasteiro lhes tenta explicar a situação dizem-lhe que é louco e imbecil e procuram obrigá-lo a ser como elas.

Tem, como é óbvio, diversas semelhanças com a “alegoria da caverna” de Platão, mas tem também algumas diferenças. Uma delas é a existência de uma história de amor – não entre um filósofo e a verdade, como se esperaria de Platão, mas entre um homem e uma mulher bonita (o homem não é cego).

Descontando a introdução do autor, o conto tem apenas 42 páginas que se lêem em menos de uma hora. Claro que não vou insultar a inteligência do leitor sugerindo que essa é uma boa razão a favor da leitura do conto. Quero recomendar a sua leitura, mas devido ao interesse filosófico da história e à sua qualidade literária.

Se ler “Em Terra de Cegos…” chegará à última página interrogando-se deste modo: e se fossemos uma espécie de cegos que não sabem que são cegos? E se estivermos tão iludidos como eles?

Claro que o leitor acredita que não é assim – tal como os cegos de Wells acreditavam. Acreditar é fácil. Mas como justifica essa crença? Que razões tem para a considerar verdadeira? Pois é, justificar é mais difícil que acreditar… Bem-vindo à filosofia.

sábado, 25 de outubro de 2008

Os filósofos não andam com a cabeça nas nuvens

«No diálogo Teeteto, Platão refere: “Conta-se, acerca de Tales, que teria caído num poço quando se ocupava com a esfera celeste e olhava para cima. Acerca disto, uma criada trácia, espirituosa e bonita, ter-se-ia rido e dito que ele queria, com tanta paixão, ser sabedor das coisas do céu, que lhe permaneciam escondidas as que se encontravam diante do seu nariz e sob os seus pés.”
Platão acrescentou ao relato desta história, a seguinte afirmação: “O mesmo escárnio aplica-se a todos os que se ocupam da filosofia.” A filosofia é, portanto, aquele modo de pensar (…) acerca do qual as criadas necessariamente se riem.»

M. Heidegger, Que é uma coisa?, Edições 70, 1992, pp. 14-15.


Na linguagem do dia-a-dia a palavra “filósofo” é muitas vezes utilizada, pejorativamente, como equivalente a:

- “aquele que divaga: fala, fala e não diz nada”;

- “aquela criatura irritante que só sabe fazer perguntas”;

- “aquele que só tem teorias e é incapaz de apresentar soluções para os problemas práticos: fala mas não age, critica mas não faz”.

É verdade que esta caricatura descreve alguns daqueles que estudam ou ensinam Filosofia – nomeadamente, os que utilizam um discurso obscuro com uma terminologia filosófica pomposa, e supostamente erudita, que visa ocultar a falta de clareza das ideias ou até a ausência destas.

É fácil perceber porque motivo existe essa imagem negativa do filósofo, cuja tradição é longa (Platão descreveu-a a propósito de Tales de Mileto, considerado o primeiro filósofo). Basta considerar o facto de cada um de nós viver imerso em preocupações quotidianas de natureza prática e de, na voragem do dia-a-dia, o tempo e o distanciamento em relação ao imediato – condições necessárias à reflexão – serem, para a maior parte das pessoas, escassos ou inexistentes. Além disso, vivemos numa época em que a rapidez dos resultados e a mera eficácia prática são critérios essenciais para avaliar o sucesso de qualquer actividade.

Filosofar requer a análise e o questionamento das nossas ideias fundamentais, o conhecimento e o confronto com opiniões diferentes das nossas. Tudo isto surge aos olhos das pessoas “práticas” como algo bizarro e incómodo: Para quê pensar, se é mais fácil obedecer? Porquê adoptar uma atitude inconformista, se beneficiamos mais em seguir a opinião dos que detêm o poder? Para quê questionar as nossas crenças básicas, quando é muito mais fácil seguir as ideias feitas, a tradição, o senso comum, etc?

Por isso, para a maioria das pessoas ligadas a um qualquer poder instituído (seja ele de que natureza for) e aos interesses instalados, os que analisam e discutem ideias são um alvo a abater: é assim agora e sempre assim foi no passado (actualmente em Portugal podemos encontrar, nomeadamente nas escolas e nos partidos políticos, muitos exemplos que ilustram este facto). É natural que a esses importe transmitir da Filosofia e dos que dela se ocupam a visão caricatural a que Platão faz alusão.

Na Alegoria da Caverna, referindo-se à condição humana, Platão descreve o caminho árduo do prisioneiro em direcção à luz e ao conhecimento – no entanto será sempre nossa a decisão de escolher percorrê-lo ou optar por ficar no interior da caverna. Por outras palavras: escolher entre a lucidez decorrente da atitude crítica e uma vida vivida sem reflectir. Aos olhos das “criadas”, trácias ou não, o modo de pensar filosófico será sempre risível e os filósofos andarão sempre com a cabeça nas nuvens.

sábado, 13 de setembro de 2008

A Alegoria da Caverna e a televisão

Na Alegoria da Caverna, Platão descreve um grupo de homens que vivem presos no fundo de uma caverna e que consideram reais as sombras projectadas na parede. Para eles, essas sombras são a realidade – a única realidade.
Platão termina a Alegoria dizendo que os prisioneiros são semelhantes a nós. Essa semelhança significa que nós muitas vezes também confundimos a aparência com a realidade e julgamos verdadeiro o que é falso. Não estamos presos por correntes metálicas como os prisioneiros descritos por Platão, mas por outro género de “correntes”, que não imobilizam o corpo mas sim a mente: preguiça, medo, vícios, falta de espírito crítico, etc.
Inspirando-se na Alegoria da Caverna, o artista brasileiro Maurício criou uma pequena banda desenhada ("As Sombras da Vida") em que compara os prisioneiros, que julgam as sombras reais, com as pessoas “viciadas” em televisão, que confundem as suas imagens com a vida. Como é evidente, não é a televisão em si que é uma “corrente” mas a atitude acrítica e passiva que muitas pessoas têm perante ela.

(Pode encontrar essa banda desenhada aqui: clique em Quadradinhos, depois em Histórias Seriadas e finalmente em Piteco: As Sombras da Vida).
Para ilustrar essa ideia existem muitos outros exemplos: as pessoas que discutem as acções e personalidades das personagens das telenovelas como se estas fossem pessoas reais; as pessoas, nomeadamente crianças, que imitando os feitos dos super-heróis vistos na TV tentam voar ou dar saltos impossíveis; as pessoas que em vez de praticar desporto passam horas sentadas no sofá a ver desportos na TV; etc.