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domingo, 3 de fevereiro de 2013

Lincoln: será correto mentir para defender a verdade?

Um argumento bom ou cogente é um argumento que – além de ser válido e ter premissas verdadeiras – tem premissas mais plausíveis que a conclusão. A importância desta última característica prende-se com a necessidade de persuadir alguém: se as premissas não forem mais aceitáveis que a conclusão as pessoas que discordam desta não encontrarão no argumento razões para mudar de posição.

Vamos supor que não conhecemos razões que sejam simultaneamente verdadeiras e aceitáveis para um auditório X de modo a convencê-lo acerca de uma tese Y. Contudo, somos capazes de apresentar razões falsas mas plausíveis e aceitáveis para X. Vamos supor também que Y é uma ideia verdadeira – por exemplo, que a escravatura é errada e deve ser abolida.

Será correto persuadir X acerca de Y recorrendo a falsidades? Persuadir através de falsidades é uma forma de persuasão irracional ou manipulação. Será correto, portanto, manipular uma pessoa para a convencer de uma verdade  (caso ela seja incapaz de se deixar convencer através das verdadeiras razões)?

O filme Lincoln, de Steven Spielberg, leva o espetador a pensar nessa questão, na medida em que apresenta alguns defensores da abolição da escravatura perante o dilema de assumir publicamente todas as suas ideias e assustar eventuais apoiantes ou apresentar apenas algumas dessas ideias e suavizá-las (deturpando-as um pouco) para tentar conquistar mais apoiantes para a sua causa.

Essa questão é uma especificação de uma questão ética mais geral que atravessa o filme do princípio ao fim: será que os fins justificam os meios? Por exemplo: será correto alcançar um fim moralmente bom (como a proibição da escravatura) através de meios moralmente reprováveis (como a corrupção)?

As personagens não citam Kant nem Stuart Mill, mas decerto o argumentista do filme pensou neles e no debate entre a deontologia e o consequencialismo ao escrever a história.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Mais maravilhas do mundo de Alice: quando é que um argumento é cogente?

alice e o gato

(Este desenho é de Sir John Tenniel, autor das ilustrações que fizeram  parte da edição original.)

“- Que espécie de gente vive por aqui?

- Naquela direcção – disse o Gato, levantando a pata direita – vive um Chapeleiro, e naquela, uma Lebre de Março. Vai visitar o que quiseres, são ambos loucos.

- Mas eu não quero estar ao pé de gente louca – respondeu a Alice.

- Oh, não podes evitá-lo – disse o Gato. – Aqui todos são loucos. Eu sou louco. Tu és louca.

- Como é que sabes que sou louca? Perguntou a Alice.

- Tens de ser, de outro modo não estarias aqui.

Alice não achava que isso provasse coisa nenhuma (…).”

Lewis Carroll, Alice no país das maravilhas, tradução de Maria Filomena Duarte, Edições D. Quixote, Lisboa, 1988, págs. 66-67.

O argumento dedutivo presente no diálogo entre a Alice e o Gato pode ser formulado do seguinte modo: Todos os que estão aqui são loucos. Tu estás aqui. Logo, tu és louca.

Trata-se de um argumento dedutivo válido do ponto de vista formal, pois se admitirmos, por hipótese, a verdade das premissas, a conclusão que delas se extrai será necessariamente verdadeira.

Todavia, apesar de existir um nexo lógico entre premissas e conclusão, Alice considera que o argumento do Gato não prova nada.

Esse argumento é válido do ponto de vista formal. Mas será sólido? E cogente?

Nota: Em virtude do comentário do leitor Aires de Almeida - a quem agradeço - alterei o terceiro parágrafo do texto (que pode ser lido na caixa de comentários, bem como as razões da alteração introduzida).

domingo, 8 de fevereiro de 2009

O que é um argumento bom (ou cogente)? - 2

Como foi referido num post anterior, a solidez não basta para um argumento ser bom ou cogente: a solidez é uma condição necessária, mas não suficiente. Um argumento pode ser sólido (ou seja, ser válido e ter premissas verdadeiras) e, no entanto, ser um mau argumento.

Para um argumento ser bom ou cogente tem de possuir, além da solidez, premissas mais plausíveis que a conclusão.

Porque é que é assim?

De acordo com o dicionário, plausível significa: aceitável, crível, provável, verosímil…

Uma das maneiras de explicar o que é um argumento é dizer que se trata de um conjunto de afirmações em que é suposto uma delas (a conclusão) ser justificada pelas outras (as premissas) de modo a convencer alguém – nós próprios, ao reflectir, ou outras pessoas. Ao apresentar o argumento estamos a dar razões (as premissas) para esse alguém concordar com a conclusão.

A conclusão é uma ideia que precisa de ser justificada ou defendida. Se as ideias apresentadas como razões justificadoras não forem mais aceitáveis que a ideia que se pretende justificar não se conseguirá persuadir o interlocutor.

As premissas e a conclusão de um argumento são proposições. As proposições ou são verdadeiras ou são falsas. Assim, aceitar ou concordar com uma proposição significa considerá-la verdadeira. Por isso, o que foi dito no parágrafo anterior significa: para haver persuasão a verdade das premissas tem de ser mais fácil de reconhecer do que a verdade da conclusão.Caso as premissas sejam tão (ou menos) plausíveis que a conclusão, se a pessoa tem dificuldade em reconhecer a verdade da conclusão também terá dificuldade em reconhecer a verdade das premissas – isto é, das razões que deveriam convencê-la.A verdade de uma proposição ou a validade de um argumento são independentes do agente cognitivo (ou sujeito). Este pode ou não aperceber-se da verdade de uma proposição ou da validade de um argumento, mas isso não altera nem a própria verdade nem a própria validade. O mesmo não sucede à plausibilidade de uma proposição. A plausibilidade depende do estado cognitivo do agente.“Por estado cognitivo do agente entende-se o conjunto de crenças ou convicções que o agente tem, aquilo que o agente julga saber, o que ele pensa ser falso, o que ele aceita apenas parcialmente, o que ele duvida, etc.” - Desidério Murcho, Pensar Outra Vez, Edições Quasi, 2006, pág. 121.Daí segue-se que uma proposição pode ser plausível para uma pessoa e não ser para outra. Uma proposição pode ser plausível para uma pessoa num determinado momento da vida e depois deixar de ser – caso o seu estado cognitivo se altere.

Vamos imaginar que queríamos persuadir a pessoa Y, natural de um país onde se pratica a excisão (ou mutilação genital feminina), de que esta é moralmente errada e não deve ser praticada. Para conseguir isso apresentávamos o seguinte argumento:

Se a excisão constitui um desrespeito dos direitos da mulher, então é moralmente errada e não deve ser praticada.
Ora, a excisão constitui de facto um desrespeito dos direitos da mulher.
Logo, a excisão é moralmente errada e não deve ser praticada.

Para a grande maioria dos europeus actuais esse argumento é cogente. É obviamente válido. É quase consensual que as premissas são verdadeiras. Do ponto de vista de pessoas que valorizam os Direitos Humanos e a igualdade de direitos entre os sexos, as premissas são mais plausíveis que a conclusão.

Mas para a pessoa Y esse argumento provavelmente não seria considerado cogente e não a conseguiríamos convencer. Do ponto de vista dela, as premissas não são mais plausíveis que a conclusão e não lhe dariam motivos para aceitar a conclusão como verdadeira. Para uma pessoa que vive numa sociedade onde as mulheres não têm os mesmos direitos dos homens a ideia de que a violação dos direitos femininos torna algo errado não é uma ideia facilmente aceitável, a sua verdade não é nada óbvia – ou seja, não é plausível.

Vejamos se não teríamos mais hipóteses de sucesso com este argumento:

Se a excisão provoca muito sofrimento e se uma mulher que não a fez pode ser uma pessoa séria e uma boa esposa, então a excisão é moralmente errada e não deve ser praticada.
Ora, de facto a excisão provoca muito sofrimento e uma mulher que não a fez pode ser uma pessoa séria e uma boa esposa.
Logo, a excisão é moralmente errada e não deve ser praticada.

Mesmo uma pessoa que não se importa com os direitos das mulheres pode ser sensível ao seu sofrimento – que é facilmente confirmável pela experiência. Por outro lado, a ideia de que mesmo sem fazer a excisão se pode ser uma boa esposa também pode ser comprovada através de exemplos e é importante, devido à crença de que a excisão é que faz com que uma mulher seja digna de confiança.
Por isso, pode-se dizer que as premissas desse argumento são mais plausíveis que a conclusão. Uma vez que é válido e que as premissas são de facto verdadeiras, trata-se de um argumento cogente.

Com esse argumento teríamos mais hipóteses de convencer a pessoa Y.

Vale a pena referir que nesses países onde existe a tradição de fazer a excisão há organizações que procuram persuadir as pessoas de que esta é errada argumentando desse modo. Vão às aldeias e aos bairros falar com os pais e as mães das raparigas e dão informações acerca do sofrimento e dos riscos para a saúde, apresentam casos em que a excisão provocou a morte da rapariga, apresentam exemplos de mulheres que não fizeram a excisão mas que são – de acordo com os padrões daquela sociedade – mulheres sérias e boas esposas.

Essas campanhas consistem no fundo numa explicação das premissas do argumento apresentado, numa tentativa de expor a sua plausibilidade. Têm algum sucesso, mas claro que nem todas as pessoas se deixam persuadir, pois o peso dos preconceitos e das tradições (e talvez alguma teimosia pessoal) impede-as de analisar racionalmente as ideias em causa.

Um argumento só é cogente ou bom se reunir as três condições: validade, verdade das premissas e maior plausibilidade das premissas relativamente à conclusão. Tal como não basta a solidez (as duas primeiras) para tornar um argumento cogente, a mera plausibilidade das premissas não torna um argumento cogente. Como vimos, a plausibilidade de uma proposição significa no fundo que ela nos parece verdadeira. Mas para o argumento ser cogente não basta que nos pareça existir verdade, é preciso existir de facto verdade.Por isso, pode suceder que argumentos considerados cogentes numa época sejam depois declarados maus, por entretanto se ter descoberto que afinal tinha premissas falsas. Vejamos um exemplo.

Se a Terra se movesse sentiríamos o movimento.
Não sentimos o movimento.
Logo, a Terra não se move.

Ptolomeu considerava cogente o argumento anterior. No estado cognitivo em que se encontrava as premissas eram mais plausíveis que a conclusão. Para ele eram verdades evidentes que - uma vez que o argumento é válido - justificavam perfeitamente a conclusão. No estado cognitivo em que se encontrava não lhe era possível perceber que a primeira premissa é falsa.

Para terminar uma sugestão céptica: talvez muitos argumentos que hoje consideramos cogentes afinal não sejam cogentes, apesar da verdade das suas premissas nos parecer uma enorme evidência.

Bibliografia:

Aires Almeida e outros, “A Arte de Pensar – 11º Ano”, Didáctica Editora, Lisboa, 2008.
Desidério Murcho, “Argumentos Sólidos”, De Rerum Natura.

Desidério Murcho, “Argumentos Cogentes”, De Rerum Natura.

Desidério Murcho, “Cogência e falibilidade”, De Rerum Natura.

Desidério Murcho, “Pensar Outra Vez: Filosofia, Valor e Verdade”, Edições Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2006.
DEF – Dicionário Escolar de Filosofia, direcção de Aires Almeida.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Um post que pode convencer alunos renitentes a estudar mais e a ser melhores pessoas

Tendo em conta que faltam apenas duas ou três aulas para o teste, sugiro aos caros alunos que espreitem o blogue Átomo e Meio e prestem 30 segundos de atenção ao post "Ratos e Homens". Verão que vale a pena.
Mas, por favor, não caiam na tentação de sacudir a água do capote dizendo que se trata de um falso dilema. É do vosso interesse, como alunos e como pessoas, que admitam o carácter cogente do argumento.

sábado, 17 de janeiro de 2009

O que é um argumento bom (ou cogente)? - 1

“Um argumento é um conjunto de afirmações de tal modo estruturadas que se pretende que uma delas (a conclusão) seja apoiada pelas outras (as premissas)” (Desidério Murcho, “Argumento”, DEF). As premissas constituem razões a favor da conclusão, ou seja, pretende-se que justifiquem a conclusão.
Dito de modo mais coloquial: temos um argumento quando defendemos uma ideia (a conclusão) relacionando-a com outras ideias (as premissas).
Argumentamos para convencer alguém, para lhe mostrar que a ideia contida na conclusão é verdadeira. Muitas vezes argumentamos para convencer outras pessoas, mas pode também suceder que ao pensar num argumento estejamos a tentar convencer-nos a nós próprios.

(Alguns argumentos têm só uma premissa, mas por facilidade de expressão utilizarei a palavra no plural.)

Um argumento para ser bom ou cogente tem de reunir três condições: ser válido, ter premissas verdadeiras e ter premissas mais plausíveis que a conclusão.

Vejamos a importância de cada uma dessas condições.

Um argumento válido é um argumento que possui a seguinte característica: se as premissas são todas verdadeiras é impossível (no caso dos argumentos dedutivos) ou improvável (no caso dos argumentos não dedutivos) que a conclusão seja falsa. Isso significa que há uma conexão lógica tal entre as premissas e a conclusão que esta se segue daquelas.

(Uma explicação mais completa da validade implicaria explicar o conceito de forma lógica e distinguir argumentos formais e informais, bem como argumentos dedutivos e não dedutivos. Para perceber esses conceitos o leitor pode consultar o DEF e os posts do Dúvida Metódica publicados com a etiqueta validade.)

Se, ao conversarmos com alguém, utilizarmos argumentos inválidos, não seremos levados a sério. Ainda que o nosso interlocutor aceite as nossas razões (ou seja, considere verdadeiras as premissas) poderá rejeitar a conclusão.
A invalidade de alguns argumentos não é nada evidente e a sua detecção implica conhecimentos de Lógica (os argumentos inválidos que parecem válidos chamam-se falácias).
Mas no caso de outros argumentos essa detecção é mais fácil e, mesmo que se trate de uma pessoa sem conhecimentos de Lógica e até desconhecedora da palavra “inválido”, poderá dizer: “Uma coisa não tem nada a ver com a outra”.

Por exemplo. Tentando convencer a mãe a dar-lhe mais dinheiro, um rapaz disse-lhe: “A Vera disse que gosta muito de mim, mas já não quer namorar comigo. Além disso, tenho um TPC de Matemática para fazer para amanhã. Portanto, seria justo que me aumentasses a mesada.”
Por pouco que a mãe saiba de Lógica, poderá facilmente retorquir: “Lamento que ela não queira namorar contigo e espero que faças um TPC muito bom, mas não vejo que relação tenha isso com a mesada ser ou não aumentada”. Se a mãe desse rapaz fosse professora ou estudante de Filosofia, e tivesse portanto alguns conhecimentos de Lógica, poderia simplesmente dizer-lhe: “o teu argumento é inválido e por isso nada prova”.

Se formalizarmos o argumento do rapaz a falta de conexão entre premissas e conclusão (a invalidade, portanto) torna-se ainda mais óbvia: P & ¬Q, R╞ S. É óbvio que, sejam quais forem as proposições que substituam essas variáveis, é possível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. No caso do argumento apresentado pelo rapaz, as premissas são (nas circunstâncias descritas) verdadeiras, mas a conclusão pode ser falsa: imagine que a mesada já é elevada e até foi aumentada recentemente, apesar de a mãe não nadar em dinheiro; nessas circunstâncias o aumento da mesada não seria certamente justo.

No entanto, não basta a validade para um argumento ser bom ou cogente. A validade é uma condição necessária mas não suficiente da cogência. É também necessário que o argumento tenha premissas verdadeiras.

Por exemplo. Todos os deficientes portugueses são cidadãos da República Portuguesa. Todos os cidadãos da República Portuguesa beneficiam da igualdade de oportunidades em termos sociais, profissionais e políticos. Logo, todos os deficientes portugueses beneficiam da igualdade de oportunidades em termos sociais, profissionais e políticos.

O argumento é válido, mas é mau: a segunda premissa é claramente falsa e por isso a conclusão é também falsa. Dizer que é válido significa dizer que caso todas as premissas fossem verdadeiras a conclusão também seria verdadeira. Mas, como de facto uma das premissas é falsa, esse argumento não consegue assegurar a verdade de conclusão.
Se tentarmos convencer uma pessoa de que “todos os deficientes portugueses beneficiam da igualdade de oportunidades em termos sociais, profissionais e políticos” ela poderá justificar a sua discordância dizendo: “isso é falso, pois também é falso que todos os cidadãos da República Portuguesa beneficiam da igualdade de oportunidades em termos sociais, profissionais e políticos”.

Sendo assim, além de ser válido, um bom argumento tem de ter premissas verdadeiras. A um argumento válido com premissas verdadeiras chama-se argumento sólido.

No entanto, a solidez não basta para um argumento ser bom ou cogente: a solidez é uma condição necessária, mas não suficiente. Um argumento pode ser sólido e, no entanto, ser um mau argumento.

Para um argumento ser bom ou cogente tem de possuir, além da solidez, premissas mais plausíveis que a conclusão.

Essa terceira condição será explicada noutro post.


Bibliografia:

Aires Almeida e outros, A Arte de Pensar – 11º Ano, Didáctica Editora, Lisboa, 2008.
Desidério Murcho, “Argumentos Sólidos”, De Rerum Natura.
DEF – Dicionário Escolar de Filosofia, direcção de Aires Almeida.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Argumentos cogentes - 3 exemplos

Um argumento para ser bom ou cogente tem de reunir três condições: ser válido, ter premissas verdadeiras e ter premissas mais plausíveis que a conclusão.


Nos três exemplos que se seguem são apresentados argumentos válidos.
Serão as suas premissas verdadeiras? Serão as suas premissas mais plausíveis que a conclusão?
Esses argumentos são cogentes ou bons se e só se a resposta a ambas as perguntas for afirmativa.
É argumentável que nos três casos as
premissas são verdadeiras e mais plausíveis que a conclusão. Porquê?

Exemplo A:

O Zé e a Vera foram assaltados e sequestrados em Portimão. Foram vendados e colocados na bagageira de um carro e transportados durante cerca de 40 minutos. Depois foram abandonados num lugar deserto, coberto de neve. O Zé disse à Vera que estavam na serra de Monchique. Como esta duvidou, o Zé apresentou-lhe o seguinte argumento:

Estamos na Serra de Monchique, pois no Algarve habitualmente só lá é que neva. Ora, este campo está coberto de neve.

Reescrevendo o argumento e dando-lhe uma expressão mais canónica obtemos um Modus Ponens (afirmação do antecedente):

Se no Algarve habitualmente só neva na Serra de Monchique e se este campo está coberto de neve, então estamos na Serra de Monchique.
Ora, de facto no Algarve habitualmente só neva na Serra de Monchique e este campo está coberto de neve.
Logo, estamos na Serra de Monchique.

Exemplo B:

Todos os seres humanos suspeitos de crimes devem ser tratados de acordo com as regras de um Estado de Direito.
Os prisioneiros de Guantanamo são seres humanos suspeitos de crimes.
Logo, os prisioneiros de Guantanamo devem ser tratados de acordo com as regras de um Estado de Direito.

Trata-se de um silogismo categórico com a forma: Todos os A são B. Todos os C são A. Logo, todos os C são B. Mesmo quem não conhece as regras que determinam a validade dos silogismos categóricos percebe (facilmente) de modo intuitivo que é um argumento válido.

Exemplo C:

Se Deus existe e é um ser perfeito (bom, justo, etc.), então não é caprichoso nem parcial.
Se Deus não é caprichoso nem parcial, então não ajuda os jogadores de futebol a marcarem golos apenas porque estes se benzem no início do jogo nem ajuda alunos preguiçosos a passar de ano apenas porque as suas mães prometeram ir a Fátima se eles passassem.
Logo, se Deus existe e é um ser perfeito (bom, justo, etc.), então não ajuda os jogadores de futebol a marcarem golos apenas porque estes se benzem no início do jogo nem ajuda alunos preguiçosos a passar de ano apenas porque as suas mães prometeram ir a Fátima se eles passassem.

Trata-se de um silogismo hipotético:

(P&Q)→(¬R&¬S), (¬R&¬S) →(¬T&¬U) ╞ (P&Q) →(¬T&¬U)

(Nota: utilizei o símbolo & para a conjunção em vez do símbolo usado nas aulas devido a dificuldades informáticas.)