“As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar, senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento.”
John Stuart Mill
«A questão da felicidade é por vezes dramatizada sob a forma de uma pergunta [da autoria de John Stuart Mill]: ‘O que preferia ser: um Sócrates infeliz ou um porco feliz?’ Claro que preferiríamos ser um Sócrates feliz, mas o que se pretende demonstrar é que ter autonomia de espírito, ter consciência do mundo, e fazer escolhas próprias é melhor, de longe, do que ser passivamente feliz em prejuízo destas coisas. É por isso que nós – ou, de qualquer forma, a maior parte de nós – coloca objeções às vias fáceis de acesso à felicidade, como seja ingeri-la sob a forma química, pois desse modo não é muito diferente do esquecimento.»
«O ensino – e, em especial, o “ensino liberal” – é aquilo que torna possível a sociedade civil. (…)
Com “ensino liberal” refiro-me ao ensino que inclui literatura, história e apreciação das artes, atribuindo-lhe um peso igual ao que é dado às matérias científicas e práticas. O ensino nestas áreas oferece-nos a possibilidade de viver mais reflexiva e conhecedoramente, especialmente no que diz respeito à gama da experiência e do sentimentos humanos, tal como existe aqui e agora, assim como alhures e no passado. Isso, por sua vez, faz-nos entender melhor os interesses, necessidades e desejos dos outros, permitindo que os tratemos com respeito e compreensão, por muito diferentes das nossas que sejam as escolhas que fazem ou as experiências que moldaram as suas vidas. Quando o respeito e a compreensão são retribuídos, tornando-se mútuos, as brechas que poderiam suscitar fricção entre as pessoas, e até guerra, são unidas ou, pelo menos, toleradas. E basta o último caso.
A visão é utópica: não há dúvida que havia oficiais das SS que liam Goethe e ouviam Beethoven, e a seguir iam trabalhar para as câmaras de gás – portanto, o ensino liberal não produz automaticamente pessoas melhores. Mas fá-lo muito mais frequentemente do que a estupidez e o egoísmo que acompanham a falta de conhecimento e o discernimento medíocre.»
Lembrei-me destas palavras de Grayling ao ler que “the highest proportion of Nazi party members came from the educated classes” (aqui, no 15º parágrafo).
“Plínio, o Jovem, observou que as pessoas viajam longe para ver coisas que, se estivessem debaixo dos seus narizes, seriam negligenciadas e desprezadas. Isto sugere que devíamos habitar a nossa vida como viajantes, curiosos e alerta, procurando a estranheza nas coisas, por forma a vê-las pela primeira vez.”
A. C. Grayling, O significado das coisas, Lisboa, Gradiva, 2002,pág. 242.
Música mesmo, mesmo a condizer: After the rain, de John Coltrane.
«(…) lazer é licença, liberdade - especificamente, é estar livre de trabalhos e de deveres, permitindo que se fique à vontade, que se contemple o prazer, que se deixe de lado obrigações e regras (…).
Esta concepção do lazer é agora dominante. Atribui-se-lhe um contraste directo com o trabalho - e a implicação indirecta é que se trata de algo muito mais desejável do que o trabalho (…).
E, contudo, o lazer só poderia ser melhor do que o trabalho (à parte do trabalho especialmente doloroso e excessivo) se também constituísse uma vida de actividade, pois a mera ociosidade, após algum tempo, torna-se opressiva. “A ausência de ocupação não é descanso: um espírito completamente desocupado é um espírito angustiado”, escreveu William Cowper, agitando o dedo mas dizendo a verdade. A excelente máxima de Aristóteles acerca do bom uso do lazer interpreta-o como uma oportunidade para desfrutar daquilo que nos faz prosperar: cultivar as artes, a reflexão, a promoção do conhecimento, o aprofundamento das amizades, a procura da excelência (…).
(…) Visto desta forma, o lazer não é o oposto do trabalho; é - como Mark Twain e Aristóteles sugeriram - algo melhor: a oportunidade de trabalhar para fins mais elevados.»
Fotografia de Elliot Erwitt (nascido em 1928), fotógrafo da agência Magnum.
“Não há uma ciência do amor porque este é demasiado vário e próteo para se lhe poder aplicar uma teoria. As pessoas tentam amar como os montanhistas tentam escalar o Evereste: trepam com o auxílio dos pés e das mãos, e acabam por acampar no sopé da montanha, ou a meio da ascensão, onde quer quer que os seus compromissos os deixem. Alguns chegam suficientemente alto para ver a vista, que todos sabemos ser magnífica, pois todos a vislumbrámos já em sonhos. E é precisamente disso que trata a festa de S. Valentim: o sonho do amor. A vida seria realmente amarga se esse sonho nunca se tornasse realidade (…).”
«As pessoas ponderadas afirmam que o amor romântico [que se distingue do amor pelos filhos, pelos pais, pelos amigos...] não é um bom meio para conhecer alguém – pela razão apontada por Stendhal, de que envolvemos o objecto do amor em camadas de cristal e observamos uma visão, ao invés da pessoa, durante todo o tempo que dura o arrebatamento. Nesta perspectiva, trata-se de um estado delirante e o facto de ser [muitas vezes] breve é, portanto, positivo.
Outras pessoas pensam que o amor romântico é a única coisa que nos permite atravessar as camadas que isolam convencionalmente os indivíduos uns dos outros, desnudando a alma a outrem e possibilitando a verdadeira comunicação – aquela que fala a linguagem da intimidade, não através de palavras, mas de prazeres e desejos.
Esta está longe de ser a única diferença nas opiniões acerca do amor romântico. Discute-se igualmente se a propensão para o romantismo é uma característica humana fundamental, ou se se trata, ao invés, de uma construção social e histórica, presente nalguns períodos e sociedades mas ausentes noutros.»
Eis outra (e filosoficamente mais relevante) questão a propósito do “amor romântico” (mais conhecido por amor): será que este contribui para diminuir, ou mesmo anular, o livre-arbítrio? Fica para outro post, também acompanhado por uma canção de Frank Sinatra.
«O nacionalismo é um mal. Provoca guerras e tem as suas raízes na xenofobia e no racismo. (…) Disfarçado de patriotismo e amor pelo país, tira partido da sem-razão da psicologia de massas para fazer parecer aceitável, e mesmo honroso, vários horrores. Por exemplo, se alguém lhe dissesse: ‘Vou mandar o teu filho matar o filho dos teus vizinhos’, com certeza protestaria veementemente. Mas deixe seduzir-se com os seus gritos de ‘Rainha e Nação!’, ‘A Pátria!’, ‘O meu país, com razão ou sem ela!’ e vai dar consigo a permitir que ele mande todos os seus filhos matar não apenas os filhos de outras pessoas, como outras pessoas indiscriminadamente – que é o que fazem as bombas e as balas.
Os demagogos sabem muito bem o que fazem quando pregam o nacionalismo. Hitler disse: ‘A eficácia do chefe verdadeiramente nacionalista está em evitar que o seu povo disperse a atenção, mantendo-a assestada num inimigo comum’. E ele sabia a quem apelar: Goethe observara há muito que os sentimentos nacionalistas ‘conhecem a sua maior força e violência junto das pessoas com menor grau de cultura’. (…)
A ideia de nacionalismo depende da ideia de ‘nação’. A palavra não tem sentido: todas as ‘nações’ são híbridas, no sentido em que mais não são que uma mistura de imigrações e miscigenação de povos ao longo do tempo. Assim, a ideia de etnia é sobretudo cómica, excepto nos locais onde se pretende que a comunidade permaneceu tão remota e isolada (…) durante a maior parte da história, que conseguiu manter a sua reserva genética ‘pura’ (um cínico diria ‘consanguínea’).
Diz-se muitos disparates sobre as nações enquanto entidades: Emerson referiu o ‘génio’ de uma nação como algo independente dos seus cidadãos numéricos; Giraudoux descreveu o ‘espírito da nação’ como ‘a expressão dos seus olhos’; e abundam as afirmações sem sentido deste género.
As nações são construções artificiais cujas fronteiras foram traçadas no sangue das últimas guerras. E não se deve confundir cultura e nacionalidade: não existe país no mundo que não albergue mais do que uma cultura diferente mas geralmente coexistente. Património cultural não é a mesma coisa que identidade nacional.»
Temos consciência do carácter finito da nossa existência e, por isso, do facto de não ser indiferente o modo como utilizamos o nosso tempo de vida.
Contudo, pensar acerca de um problema como o sentido da vida, suscita uma certa repulsa à maior parte das pessoas: é uma questão vaga, aparentemente, desligada do quotidiano, demasiado abstracta e não produz resultados imediatos. Em suma, uma enorme perda de tempo destinada a gente ociosa e com pretensões “intelectuais”…
Mas será mesmo assim?
Perguntarmos pelo rumo atribuído ou a atribuir à nossa existência não será antes uma tarefa decisiva que cada um de nós deve levar a cabo, se quiser viver de um modo consciente e livre?
A. C. Grayling, no livro O significado das coisas, dá uma resposta interessante a essa pergunta:
«Sócrates disse, celebremente, que uma vida sem reflexão não merece a pena ser vivida. Queria ele dizer que uma vida vivida sem ponderação nem princípio é uma vida tão vulnerável ao acaso e tão dependente das escolhas e acções de terceiros que pouco valor real tem para a pessoa que a vive. Queria ainda dizer que uma vida bem vivida é aquela que possui objectivos e integridade, que é escolhida e orientada pelo que a vive, tanto quanto é possível a um agente humano enredado nas teias da sociedade e da História.
Como a expressão sugere, a “vida com reflexão” é uma vida enriquecida pelo pensamento acerca das coisas relevantes: valores, objectivos, sociedade, as vicissitudes características da condição humana, aspirações tanto pessoais como públicas (…). Não é necessário chegar a teorias apuradas sobre todos estes assuntos, mas é preciso conceder-lhes pelo menos um nadinha de reflexão (…). Pensar sobre estes assuntos é como examinar um mapa antes de começar a viagem (…). Uma pessoa que não pense na vida é como um forasteiro sem mapa numa terra estrangeira: para alguém assim, perdido e desorientado, um desvio no caminho é tão bom como qualquer outro e, se o rumo tomado conduzir a um local que vale a pena, terá sido meramente por acaso.»
A. C. Grayling, O significado das coisas, Lisboa, 2002, Edições Gradiva, pp. 11-12.
A reflexão acerca de problemas filosóficos como o livre-arbítrio, a existência de Deus ou a eutanásia pode ser feita com vários graus de complexidade e exigência. Todavia, seja qual for esse grau, se for feita com seriedade implica sempre algumas dificuldades, pois leva-nos a analisar diversos argumentos e contra-argumentos, muitas vezes igualmente plausíveis. “Por isso, a filosofia é uma actividade de certo modo vertiginosa, e poucos dos seus resultados ficam por desafiar muito tempo” (Thomas Nagel, O que quer dizer tudo isto? – Uma iniciação à Filosofia, Gradiva, 1995, pág. 9.)
No entanto, a reflexão filosófica também pode incidir em assuntos menos complexos e, por assim dizer, mais “leves” e menos “elevados” que os direitos dos animais ou o problema da justificação do Estado.
No livro O Significado das Coisas, Gradiva, Lisboa, 2002, A. C. Grayling ilustra bem essa possibilidade ao dissertar filosoficamente sobre assuntos como as viagens, o lazer e os presentes.
O que pode a Filosofia dizer sobre um acto tão frequente e banal como oferecer presentes?
Grayling começa por defender o valor e a importância do acto de oferecer presentes:
“O valor de um presente não pode ser medido pelo seu preço. Nenhuma quantia pode exprimir o valor de um presente que seja apropriado, oportuno, ponderado, bem escolhido, ou dado com grande amizade ou amor. Tais presentes veiculam parte do dador: representam a parte da sua história dedicada a pensar no recipiente e a procurar e escolher algo que fale dos seus sentimentos. (...) As melhores prendas não vêm embrulhadas. Assumem a forma de atitudes, gestos e sentimentos, solidariedade e auxílio oportuno.”
Depois Grayling mostra o outro lado da questão. Os presentes (como aliás muitas outras coisas) podem ter – por assim dizer – efeitos secundários perversos:
“Mas os presentes são coisas complicadas. ‘O presente de um inimigo é prejudicial, e não é um presente’, disse Sófocles. Qualquer coisa que seja dada visando uma retribuição, ou criando expressamente uma obrigação, pode revelar-se demasiado cara para quem recebe, embora seja gratuita no momento da recepção. ‘Os presentes são anzóis’, advertiu Marcial. Uma consideração próxima desta é que quem recebe pode vir a sentir rancor relativamente a quem dá, quer seja ou não verdade a sua convicção de que o presente esconde um anzol. Quem dá tem melhores sentimentos em relação a quem recebe do que vice-versa; é bom e reconfortante dar, pois não há muito que possa adulterar a auto-satisfação envolvida – excepto, claro está, a ingratidão deselegante ou mesmo a mera indiferença por parte de quem recebe. Mas quem recebe tem de exprimir prazer e agradecimento que poderão não ser sentidos na quantidade normalmente requerida e, ainda por cima, fica a partir de então na posição desvantajosa de devedor. ‘Nunca perdoamos completamente quem dá. A mão que nos alimenta corre algum risco de ser mordida’, disse Emerson.”
Em suma, oferecer presentes não é algo tão complexo como o aborto ou o sentido da vida, mas mesmo assim levanta dificuldades e dúvidas que não são meramente práticas. Ao pensar sobre essas dificuldades somos levados a pensar na ética das relações pessoais, na amizade, no amor e no que sabemos realmente acerca dos outros.
“Para a maioria dos seleccionadores de presentes, subsiste o mais profundo dilema da oferta. Como escreveu Antonio Porchia: ‘Sei o que te dei, mas não sei o que recebeste’. Um pensamento ponderado mas que revela também esta verdade: se sabemos o que recebeu quem recebe o nosso presente, ou o conhecemos bem, ou o amamos muito – ou ambos.”
Oferecer ou não oferecer, eis a questão.
Já agora duas informações úteis. Para os leitores relacionados com a Escola Secundária de Pinheiro e Rosa: O Significado das Coisas existe na Biblioteca da Escola. Para todos os leitores: não é um livro caro e foca – em capítulos breves, claros e lúcidos – muitos outros assuntos, uns mais "leves" que outros (a Mágoa, a Esperança, a Mentira, a Lealdade, o Amor, a Felicidade, o Ódio, o Arrependimento, a Fé, o Cristianismo, a Arte, etc.).
E para terminar, eis outra questão: porque não lê-lo?
"Os homens não tropeçam em montanhas, mas sim em pedras."
Esta frase é um provérbio hindustani (da Índia?), citado num livro de A. C. Grayling: O significado das coisas, Gradiva, Lisboa, 2002, pág. 141.
Os alunos que não conseguem ter boas notas a Filosofia, ou noutra disciplina qualquer, muitas vezes não fracassam devido a dificuldades enormes (montanhas) mas sim devido a pequenas dificuldades (pedras): não organizam bem o estudo (estudam só na véspera dos testes, não procuram esclarecer as dúvidas logo que elas surgem, etc.), tentam decorar em vez de compreender,não têm hábitos de leitura e por isso não estão completamente à vontade com a língua portuguesa, etc.
O Significado das Coisas, já agora, é um conjunto de pequenos ensaios (2 ou 3 páginas cada) sobre temas diversos: Medo, Morte, Esperança, Mentira, Amor, Ódio, Arte, etc. Na curta introdução o autor explica em poucas palavras o que é a Filosofia e porque vale a pena estudá-la. Todos os ensaios estão escritos de modo claro e divertido. Os ensaios são independentes uns dos outros: pode-se compreender qualquer um deles sem ler os outros. Trata-se, portanto, de textos ideais para um aluno do 10º ou do 11º , que quer ler qualquer coisa de Filosofia para além do Manual mas não sabe o quê e que além disso tem pouco tempo, pois ainda não fez o TPC de Português e daqui a bocado tem natação ou explicação de Matemática.
("Ninharias" é o nome do ensaio onde surge o provérbio. O livro existe na Biblioteca da Escola Secundária Pinheiro e Rosa.)
A compreensão do fenómeno do fundamentalismo religioso é essencial para compreender diversos factos do passado e do presente.
- A fé distingue-se do conhecimento em quê?
- Como se caracteriza a perspectiva que um fanático religioso tem do mundo?
- A atitude de um fundamentalista religioso é dogmática. Porquê?
O texto seguinte responde, com clareza, a estas e a outras questões.
«Alguns devotos religiosos sentem-se tão acossados e amargurados pela questionação ou rejeição das suas estimadas crenças que estão dispostos a recorrer ao assassínio, e até ao assassínio colectivo indiscriminado – como sucede sempre que o fanatismo se junta ao ressentimento e à ignorância para produzir a fermentação odiosa daquilo que é praticado em nome da crença. “A fé é aquilo por que morro, o dogma é aquilo por que mato”, conforme reza a máxima – e o problema é que a fé se baseia no dogma. (…)
A fé é a negação da razão. A razão é a faculdade de ajustar o julgamento à informação, depois de a pesar. A fé é acreditar mesmo mediante informação contrária. Søren Kierkegaard definiu a fé como um salto dado apesar de tudo, apesar do puro absurdo daquilo em que se pede que acreditemos. Quando as pessoas conseguem teimosamente escolher acreditar que o preto é branco, e são capazes na sua certeza absoluta, de ir ao ponto de matar quem com elas não concordar, não há muita hipótese de discussão. “A Fé, a Fé fanática, uma vez aferrando-se a uma qualquer falsidade, abraça-a até à morte”, disse Thomas Moore. (…)
A crença difere do conhecimento na medida em que, ao passo que este é verificado pelos factos e depende da existência do tipo certo de relação entre a mente e o mundo, a crença existe completamente e apenas na mente, não se baseando em nada do que existe no mundo. Em suma, é possível acreditar em qualquer coisa: que as galinhas têm dentes, que a relva é azul, e que as pessoas que não acreditam em nada disto é malévolas. É isto que torna tão sinistra a observação de Santo Agostinho: “a fé consiste em acreditar no que não se vê; a recompensa da fé consiste em ver aquilo em que se acredita” – se se consegue acreditar em tudo, consegue “ver-se” tudo – e, por conseguinte, é possível sentir-se no direito de fazer o que quer que seja: viver como um patriarca do Antigo Testamento, o que é idiota, ou mesmo matar outro ser humano, o que é vil.»
A.C. Grayling, O significado das coisas, capítulo “Fé”, Gradiva, pp. 142-144.