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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O que é mais importante que a felicidade?

sound of music música no coração felicidade

«A questão da felicidade é por vezes dramatizada sob a forma de uma pergunta [da autoria de John Stuart Mill]: ‘O que preferia ser: um Sócrates infeliz ou um porco feliz?’ Claro que preferiríamos ser um Sócrates feliz, mas o que se pretende demonstrar é que ter autonomia de espírito, ter consciência do mundo, e fazer escolhas próprias é melhor, de longe, do que ser passivamente feliz em prejuízo destas coisas. É por isso que nós – ou, de qualquer forma, a maior parte de nós – coloca objeções às vias fáceis de acesso à felicidade, como seja ingeri-la sob a forma química, pois desse modo não é muito diferente do esquecimento.»

A. C. Grayling, O significado das coisas, Lisboa, 2002, Edições Gradiva, pág. 96.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A educação não impede o mal, mas torna-o um pouco menos provável

A woman and her child are killed as they run across the fields

«O ensino – e, em especial, o “ensino liberal” – é aquilo que torna possível a sociedade civil. (…)

Com “ensino liberal” refiro-me ao ensino que inclui literatura, história e apreciação das artes, atribuindo-lhe um peso igual ao que é dado às matérias científicas e práticas. O ensino nestas áreas oferece-nos a possibilidade de viver mais reflexiva e conhecedoramente, especialmente no que diz respeito à gama da experiência e do sentimentos humanos, tal como existe aqui e agora, assim como alhures e no passado. Isso, por sua vez, faz-nos entender melhor os interesses, necessidades e desejos dos outros, permitindo que os tratemos com respeito e compreensão, por muito diferentes das nossas que sejam as escolhas que fazem ou as experiências que moldaram as suas vidas. Quando o respeito e a compreensão são retribuídos, tornando-se mútuos, as brechas que poderiam suscitar fricção entre as pessoas, e até guerra, são unidas ou, pelo menos, toleradas. E basta o último caso.

A visão é utópica: não há dúvida que havia oficiais das SS que liam Goethe e ouviam Beethoven, e a seguir iam trabalhar para as câmaras de gás – portanto, o ensino liberal não produz automaticamente pessoas melhores. Mas fá-lo muito mais frequentemente do que a estupidez e o egoísmo que acompanham a falta de conhecimento e o discernimento medíocre.»

A. C. Grayling, O significado das coisas, Lisboa, 2002, Edições Gradiva, pág. 187.

Lembrei-me destas palavras de Grayling ao ler que “the highest proportion of Nazi party members came from the educated classes” (aqui, no 15º parágrafo).

sábado, 19 de maio de 2012

Verdades acerca da mentira

Mentira máscara“Metade da verdade é muitas vezes uma grande mentira.”

“Os mentirosos começam por enganar os outros e acabam por se enganar a si próprios.”

“Os mentirosos têm pouco respeito pelas outras pessoas.”

“Pode chegar-se longe com uma mentira, mas depois não se pode voltar atrás.”

A.C. Grayling, O Livro dos Livros– Uma Bíblia Humanista, Lua de Papel, 2011, pp. 449-450.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Tesouros diante do nariz

“Plínio, o Jovem, observou que as pessoas viajam longe para ver coisas que, se estivessem debaixo dos seus narizes, seriam negligenciadas e desprezadas. Isto sugere que devíamos habitar a nossa vida como viajantes, curiosos e alerta, procurando a estranheza nas coisas, por forma a vê-las pela primeira vez.”

A. C. Grayling, O significado das coisas, Lisboa,  Gradiva, 2002,pág. 242.

Música mesmo, mesmo a condizer: After the rain, de John Coltrane.

sábado, 19 de junho de 2010

Lazer

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«(…) lazer é licença, liberdade - especificamente, é estar livre de trabalhos e de deveres, permitindo que se fique à vontade, que se contemple o prazer, que se deixe de lado obrigações e regras (…).

Esta concepção do lazer é agora dominante. Atribui-se-lhe um contraste directo com o trabalho - e a implicação indirecta é que se trata de algo muito mais desejável do que o trabalho (…).

E, contudo, o lazer só poderia ser melhor do que o trabalho (à parte do trabalho especialmente doloroso e excessivo) se também constituísse uma vida de actividade, pois a mera ociosidade, após algum tempo, torna-se opressiva. “A ausência de ocupação não é descanso: um espírito completamente desocupado é um espírito angustiado”, escreveu William Cowper, agitando o dedo mas dizendo a verdade. A excelente máxima de Aristóteles acerca do bom uso do lazer interpreta-o como uma oportunidade para desfrutar daquilo que nos faz prosperar: cultivar as artes, a reflexão, a promoção do conhecimento, o aprofundamento das amizades, a procura da excelência (…).

(…) Visto desta forma, o lazer não é o oposto do trabalho; é - como Mark Twain e Aristóteles sugeriram - algo melhor: a oportunidade de trabalhar para fins mais elevados.» 

  A. C. Grayling, O significado das coisas, Lisboa, 2002, Edições Gradiva, pp. 205-207.

Aqui fica a sugestão para ocupar o tempo de lazer, que já existe para alguns e para outros se aproxima.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

S. Valentim: O amor ou o sonho do amor?

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Fotografia de Elliot Erwitt (nascido em 1928), fotógrafo da agência Magnum.

“Não há uma ciência do amor porque este é demasiado vário e próteo para se lhe poder aplicar uma teoria. As pessoas tentam amar como os montanhistas tentam escalar o Evereste: trepam com o auxílio  dos pés e das mãos, e acabam por acampar no sopé da montanha, ou a meio da ascensão, onde quer quer que os seus compromissos os deixem. Alguns chegam suficientemente alto para ver a vista, que todos sabemos ser magnífica, pois todos a vislumbrámos já em sonhos. E é precisamente disso que trata a festa de S. Valentim: o sonho do amor. A vida seria realmente amarga se esse sonho nunca se tornasse realidade (…).”

A. C. Grayling, O significado das coisas, Lisboa, 2002, Edições Gradiva, pp. 91-92.

Pode ver outras fotografias de Elliot Erwitt aqui.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Será verdade que o amor é cego?

«As pessoas ponderadas afirmam que o amor romântico [que se distingue do amor pelos filhos, pelos pais, pelos amigos...] não é um bom meio para conhecer alguém – pela razão apontada por Stendhal, de que envolvemos o objecto do amor em camadas de cristal e observamos uma visão, ao invés da pessoa, durante todo o tempo que dura o arrebatamento. Nesta perspectiva, trata-se de um estado delirante e o facto de ser [muitas vezes] breve é, portanto, positivo.

Outras pessoas pensam que o amor romântico é a única coisa que nos permite atravessar as camadas que isolam convencionalmente os indivíduos uns dos outros, desnudando a alma a outrem e possibilitando a verdadeira comunicação – aquela que fala a linguagem da intimidade, não através de palavras, mas de prazeres e desejos.

Esta está longe de ser a única diferença nas opiniões acerca do amor romântico. Discute-se igualmente se a propensão para o romantismo é uma característica humana fundamental, ou se se trata, ao invés, de uma construção social e histórica, presente nalguns períodos e sociedades mas ausentes noutros.»

A. C. Grayling, O significado das coisas, Lisboa, 2002, Edições Gradiva, pp. 99-101.

Eis outra (e filosoficamente mais relevante) questão a propósito do “amor romântico” (mais conhecido por amor): será que este contribui para diminuir, ou mesmo anular, o livre-arbítrio? Fica para outro post, também acompanhado por uma canção de Frank Sinatra.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Tudo pela nação e nada contra a nação???

«O nacionalismo é um mal. Provoca guerras e tem as suas raízes na xenofobia e no racismo. (…) Disfarçado de patriotismo e amor pelo país, tira partido da sem-razão da psicologia de massas para fazer parecer aceitável, e mesmo honroso, vários horrores. Por exemplo, se alguém lhe dissesse: ‘Vou mandar o teu filho matar o filho dos teus vizinhos’, com certeza protestaria veementemente. tudo pela nação selo Mas deixe seduzir-se com os seus gritos de ‘Rainha e Nação!’, ‘A Pátria!’, ‘O meu país, com razão ou sem ela!’ e vai dar consigo a permitir que ele mande todos os seus filhos matar não apenas os filhos de outras pessoas, como outras pessoas indiscriminadamente – que é o que fazem as bombas e as balas.

Os demagogos sabem muito bem o que fazem quando pregam o nacionalismo. Hitler disse: ‘A eficácia do chefe verdadeiramente nacionalista está em evitar que o seu povo disperse a atenção, mantendo-a assestada num inimigo comum’. E ele sabia a quem apelar: Goethe observara há muito que os sentimentos nacionalistas ‘conhecem a sua maior força e violência junto das pessoas com menor grau de cultura’. (…)

A ideia de nacionalismo depende da ideia de ‘nação’. A palavra não tem sentido: todas as ‘nações’ são híbridas, no sentido em que mais não são que uma mistura de imigrações e miscigenação de povos ao longo do tempo. Assim, a ideia de etnia é sobretudo cómica, excepto nos locais onde se pretende que a comunidade permaneceu tão remota e isolada (…) durante a maior parte da história, que conseguiu manter a sua reserva genética ‘pura’ (um cínico diria ‘consanguínea’).

estado novo nacionalismo Diz-se muitos disparates sobre as nações enquanto entidades: Emerson referiu o ‘génio’ de uma nação como algo independente dos seus cidadãos numéricos; Giraudoux descreveu o ‘espírito da nação’ como ‘a expressão dos seus olhos’; e abundam as afirmações sem sentido deste género.

As nações são construções artificiais cujas fronteiras foram traçadas no sangue das últimas guerras. E não se deve confundir cultura e nacionalidade: não existe país no mundo que não albergue mais do que uma cultura diferente mas geralmente coexistente. Património cultural não é a mesma coisa que identidade nacional.»

A. C. Grayling, O significado das coisas, Lisboa, 2002, Edições Gradiva, pp. 99-101.

Nota: “Tudo pela nação, nada contra a nação” era um slogan do Estado Novo, da autoria de Salazar (inspirado, creio, em Mussolini).

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Pensar sobre o sentido da vida será uma perda de tempo?

sentido da vida

Temos consciência do carácter finito da nossa existência e, por isso, do facto de não ser indiferente o modo como utilizamos o nosso tempo de vida.

Contudo, pensar acerca de um problema como o sentido da vida, suscita uma certa repulsa à maior parte das pessoas: é uma questão vaga, aparentemente, desligada do quotidiano, demasiado abstracta e não produz resultados imediatos. Em suma, uma enorme perda de tempo destinada a gente ociosa e com pretensões “intelectuais”…

Mas será mesmo assim?

Perguntarmos pelo rumo atribuído ou a atribuir à nossa existência não será antes uma tarefa decisiva que cada um de nós deve levar a cabo, se quiser viver de um modo consciente e livre?

A. C. Grayling, no livro O significado das coisas, dá uma resposta interessante a essa pergunta:

«Sócrates disse, celebremente, que uma vida sem reflexão não merece a pena ser vivida. Queria ele dizer que uma vida vivida sem ponderação nem princípio é uma vida tão vulnerável ao acaso e tão dependente das escolhas e acções de terceiros que pouco valor real tem para a pessoa que a vive. Queria ainda dizer que uma vida bem vivida é aquela que possui objectivos e integridade, que é escolhida e orientada pelo que a vive, tanto quanto é possível a um agente humano enredado nas teias da sociedade e da História.

Como a expressão sugere, a “vida com reflexão” é uma vida enriquecida pelo pensamento acerca das coisas relevantes: valores, objectivos, sociedade, as vicissitudes características da condição humana, aspirações tanto pessoais como públicas (…). Não é necessário chegar a teorias apuradas sobre todos estes assuntos, mas é preciso conceder-lhes pelo menos um nadinha de reflexão (…). Pensar sobre estes assuntos é como examinar um mapa antes de começar a viagem (…). Uma pessoa que não pense na vida é como um forasteiro sem mapa numa terra estrangeira: para alguém assim, perdido e desorientado, um desvio no caminho é tão bom como qualquer outro e, se o rumo tomado conduzir a um local que vale a pena, terá sido meramente por acaso.»

A. C. Grayling, O significado das coisas, Lisboa, 2002, Edições Gradiva, pp. 11-12.

domingo, 26 de outubro de 2008

Filosofia das pequenas coisas: o dilema da oferta

A reflexão acerca de problemas filosóficos como o livre-arbítrio, a existência de Deus ou a eutanásia pode ser feita com vários graus de complexidade e exigência. Todavia, seja qual for esse grau, se for feita com seriedade implica sempre algumas dificuldades, pois leva-nos a analisar diversos argumentos e contra-argumentos, muitas vezes igualmente plausíveis. “Por isso, a filosofia é uma actividade de certo modo vertiginosa, e poucos dos seus resultados ficam por desafiar muito tempo” (Thomas Nagel, O que quer dizer tudo isto? – Uma iniciação à Filosofia, Gradiva, 1995, pág. 9.)

No entanto, a reflexão filosófica também pode incidir em assuntos menos complexos e, por assim dizer, mais “leves” e menos “elevados” que os direitos dos animais ou o problema da justificação do Estado.

No livro O Significado das Coisas, Gradiva, Lisboa, 2002, A. C. Grayling ilustra bem essa possibilidade ao dissertar filosoficamente sobre assuntos como as viagens, o lazer e os presentes.

O que pode a Filosofia dizer sobre um acto tão frequente e banal como oferecer presentes?

Grayling começa por defender o valor e a importância do acto de oferecer presentes:

“O valor de um presente não pode ser medido pelo seu preço. Nenhuma quantia pode exprimir o valor de um presente que seja apropriado, oportuno, ponderado, bem escolhido, ou dado com grande amizade ou amor. Tais presentes veiculam parte do dador: representam a parte da sua história dedicada a pensar no recipiente e a procurar e escolher algo que fale dos seus sentimentos. (...) As melhores prendas não vêm embrulhadas. Assumem a forma de atitudes, gestos e sentimentos, solidariedade e auxílio oportuno.”

Depois Grayling mostra o outro lado da questão. Os presentes (como aliás muitas outras coisas) podem ter – por assim dizer – efeitos secundários perversos:

“Mas os presentes são coisas complicadas. ‘O presente de um inimigo é prejudicial, e não é um presente’, disse Sófocles. Qualquer coisa que seja dada visando uma retribuição, ou criando expressamente uma obrigação, pode revelar-se demasiado cara para quem recebe, embora seja gratuita no momento da recepção. ‘Os presentes são anzóis’, advertiu Marcial. Uma consideração próxima desta é que quem recebe pode vir a sentir rancor relativamente a quem dá, quer seja ou não verdade a sua convicção de que o presente esconde um anzol. Quem dá tem melhores sentimentos em relação a quem recebe do que vice-versa; é bom e reconfortante dar, pois não há muito que possa adulterar a auto-satisfação envolvida – excepto, claro está, a ingratidão deselegante ou mesmo a mera indiferença por parte de quem recebe. Mas quem recebe tem de exprimir prazer e agradecimento que poderão não ser sentidos na quantidade normalmente requerida e, ainda por cima, fica a partir de então na posição desvantajosa de devedor. ‘Nunca perdoamos completamente quem dá. A mão que nos alimenta corre algum risco de ser mordida’, disse Emerson.”

Em suma, oferecer presentes não é algo tão complexo como o aborto ou o sentido da vida, mas mesmo assim levanta dificuldades e dúvidas que não são meramente práticas. Ao pensar sobre essas dificuldades somos levados a pensar na ética das relações pessoais, na amizade, no amor e no que sabemos realmente acerca dos outros.

“Para a maioria dos seleccionadores de presentes, subsiste o mais profundo dilema da oferta. Como escreveu Antonio Porchia: ‘Sei o que te dei, mas não sei o que recebeste’. Um pensamento ponderado mas que revela também esta verdade: se sabemos o que recebeu quem recebe o nosso presente, ou o conhecemos bem, ou o amamos muito – ou ambos.”

Oferecer ou não oferecer, eis a questão.

Já agora duas informações úteis. Para os leitores relacionados com a Escola Secundária de Pinheiro e Rosa: O Significado das Coisas existe na Biblioteca da Escola. Para todos os leitores: não é um livro caro e foca – em capítulos breves, claros e lúcidos – muitos outros assuntos, uns mais "leves" que outros (a Mágoa, a Esperança, a Mentira, a Lealdade, o Amor, a Felicidade, o Ódio, o Arrependimento, a Fé, o Cristianismo, a Arte, etc.).

E para terminar, eis outra questão: porque não lê-lo?

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Ninharias



"Os homens não tropeçam em montanhas, mas sim em pedras."


Esta frase é um provérbio hindustani (da Índia?), citado num livro de A. C. Grayling: O significado das coisas, Gradiva, Lisboa, 2002, pág. 141.

Os alunos que não conseguem ter boas notas a Filosofia, ou noutra disciplina qualquer, muitas vezes não fracassam devido a dificuldades enormes (montanhas) mas sim devido a pequenas dificuldades (pedras): não organizam bem o estudo (estudam só na véspera dos testes, não procuram esclarecer as dúvidas logo que elas surgem, etc.), tentam decorar em vez de compreender,não têm hábitos de leitura e por isso não estão completamente à vontade com a língua portuguesa, etc.

O Significado das Coisas, já agora, é um conjunto de pequenos ensaios (2 ou 3 páginas cada) sobre temas diversos: Medo, Morte, Esperança, Mentira, Amor, Ódio, Arte, etc. Na curta introdução o autor explica em poucas palavras o que é a Filosofia e porque vale a pena estudá-la. Todos os ensaios estão escritos de modo claro e divertido. Os ensaios são independentes uns dos outros: pode-se compreender qualquer um deles sem ler os outros.
Trata-se, portanto, de textos ideais para um aluno do 10º ou do 11º , que quer ler qualquer coisa de Filosofia para além do Manual mas não sabe o quê e que além disso tem pouco tempo, pois ainda não fez o TPC de Português e daqui a bocado tem natação ou explicação de
Matemática.

("Ninharias" é o nome do ensaio onde surge o provérbio. O livro existe na Biblioteca da Escola Secundária Pinheiro e Rosa.)

domingo, 14 de setembro de 2008

Exemplo de uma atitude dogmática: o fundamentalismo religioso


A compreensão do fenómeno do fundamentalismo religioso é essencial para compreender diversos factos do passado e do presente.

- A fé distingue-se do conhecimento em quê?

- Como se caracteriza a perspectiva que um fanático religioso tem do mundo?

- A atitude de um fundamentalista religioso é dogmática. Porquê?

O texto seguinte responde, com clareza, a estas e a outras questões.

«Alguns devotos religiosos sentem-se tão acossados e amargurados pela questionação ou rejeição das suas estimadas crenças que estão dispostos a recorrer ao assassínio, e até ao assassínio colectivo indiscriminado – como sucede sempre que o fanatismo se junta ao ressentimento e à ignorância para produzir a fermentação odiosa daquilo que é praticado em nome da crença. “A fé é aquilo por que morro, o dogma é aquilo por que mato”, conforme reza a máxima – e o problema é que a fé se baseia no dogma. (…)

A fé é a negação da razão. A razão é a faculdade de ajustar o julgamento à informação, depois de a pesar. A fé é acreditar mesmo mediante informação contrária. Søren Kierkegaard definiu a fé como um salto dado apesar de tudo, apesar do puro absurdo daquilo em que se pede que acreditemos. Quando as pessoas conseguem teimosamente escolher acreditar que o preto é branco, e são capazes na sua certeza absoluta, de ir ao ponto de matar quem com elas não concordar, não há muita hipótese de discussão. “A Fé, a Fé fanática, uma vez aferrando-se a uma qualquer falsidade, abraça-a até à morte”, disse Thomas Moore. (…)

A crença difere do conhecimento na medida em que, ao passo que este é verificado pelos factos e depende da existência do tipo certo de relação entre a mente e o mundo, a crença existe completamente e apenas na mente, não se baseando em nada do que existe no mundo. Em suma, é possível acreditar em qualquer coisa: que as galinhas têm dentes, que a relva é azul, e que as pessoas que não acreditam em nada disto é malévolas. É isto que torna tão sinistra a observação de Santo Agostinho: “a fé consiste em acreditar no que não se vê; a recompensa da fé consiste em ver aquilo em que se acredita” – se se consegue acreditar em tudo, consegue “ver-se” tudo – e, por conseguinte, é possível sentir-se no direito de fazer o que quer que seja: viver como um patriarca do Antigo Testamento, o que é idiota, ou mesmo matar outro ser humano, o que é vil.»

A.C. Grayling, O significado das coisas, capítulo “Fé”, Gradiva, pp. 142-144.