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domingo, 9 de outubro de 2011

Só sei se não me perguntarem

«O que é o tempo? (…) E que assunto  mais familiar e mais batido nas nossas conversas [há] do que o tempo? Quando dele falamos compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.»

Santo Agostinho, Confissões, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1984, 11ª edição, pág. 304.

(Curiosamente, muitas pessoas poderão dizer o mesmo de vários outros conceitos filosóficos: verdade, conhecimento, justiça,  liberdade, beleza, etc.)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O tempo e o uso do tempo

GCLopes0

Fotografia de Gérard Castello-Lopes.

Associo, inevitavelmente, o início do ano lectivo às seguintes ideias: “gestão do tempo”, “falta de tempo” (para realizar actividades que considero fundamentais: preparar aulas e ler livros) e “perda de tempo” (com tarefas burocráticas inúteis, por sinal inúmeras, que fazem parte do quotidiano de um professor).

Todos os anos, reflectindo sobre a experiência dos anos lectivos anteriores, prometo a mim mesma: é desta vez que uma maior capacidade de organização me permitirá ganhar tempo para o que é importante. Esta expectativa em relação ao futuro, embora contrariada pela memória dos factos passados, renasce em cada ano lectivo.

Na execução dos preparativos - planificações, cronogramas e grelhas - para alcançar a tão desejada eficácia na gestão temporal, ocorreu-me a passagem das Confissões (livro XI), onde o filósofo cristão Santo Agostinho (354-430) diz o seguinte:

“Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.”

A evidência deste conceito, aparentemente familiar, esvai-se quando temos de o explicar.

Quando pensamos na passagem do tempo,  percepcionamo-lo como um fluxo, em que se distingue o passado, o presente e o futuro. Porém, Santo Agostinho considera que “É impróprio afirmar: os tempos são três, pretérito, presente e futuro. Mas talvez fosse próprio dizer: presente das coisas passadas, presente das presentes e presente das futuras. Existem, pois estes três tempos na minha mente que não vejo em outra parte: lembrança presente das coisas passadas, visão presente das coisas presentes e esperança presente das coisas futuras.”

Deste modo, o passado depende das imagens mentais – seleccionadas e guardadas na memória - que o sujeito consegue evocar no presente e o futuro consiste em antecipar, no presente, imagens das coisas que ainda não existem. Daí que, Santo Agostinho afirme “o passado já não existe e o futuro ainda não veio”. Portanto, existe apenas o presente.

Todavia, à medida que cada momento (único e irrepetível) do presente flui, torna-se passado e pode apenas ser lembrado. Por exemplo: quando eu acabo de dizer a palavra “Filosofia”, o momento em que comecei a dizê-la já pertence ao passado.

A reflexão sobre o modo como apreendemos o tempo e a natureza deste – que constitui, desde os antigos gregos, um problema filosófico importante e complexo - poderá ter algumas consequências práticas na forma como gastamos o nosso tempo no dia-a-dia?

Vai iniciar-se mais um ano lectivo, durante o qual tanto alunos como professores vão investir muito do seu tempo na árdua tarefa de aprender e ensinar. Ter consciência que cada um dos instantes presentes da nossa vida é irrecuperável pode, talvez, ajudar-nos a vivê-los de modo que valha a pena.

As citações foram retiradas do livro de Santo Agostinho, Confissões, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1984, 11ª edição, pp. 303, 304 e 309.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

domingo, 14 de setembro de 2008

Exemplo de uma atitude dogmática: o fundamentalismo religioso


A compreensão do fenómeno do fundamentalismo religioso é essencial para compreender diversos factos do passado e do presente.

- A fé distingue-se do conhecimento em quê?

- Como se caracteriza a perspectiva que um fanático religioso tem do mundo?

- A atitude de um fundamentalista religioso é dogmática. Porquê?

O texto seguinte responde, com clareza, a estas e a outras questões.

«Alguns devotos religiosos sentem-se tão acossados e amargurados pela questionação ou rejeição das suas estimadas crenças que estão dispostos a recorrer ao assassínio, e até ao assassínio colectivo indiscriminado – como sucede sempre que o fanatismo se junta ao ressentimento e à ignorância para produzir a fermentação odiosa daquilo que é praticado em nome da crença. “A fé é aquilo por que morro, o dogma é aquilo por que mato”, conforme reza a máxima – e o problema é que a fé se baseia no dogma. (…)

A fé é a negação da razão. A razão é a faculdade de ajustar o julgamento à informação, depois de a pesar. A fé é acreditar mesmo mediante informação contrária. Søren Kierkegaard definiu a fé como um salto dado apesar de tudo, apesar do puro absurdo daquilo em que se pede que acreditemos. Quando as pessoas conseguem teimosamente escolher acreditar que o preto é branco, e são capazes na sua certeza absoluta, de ir ao ponto de matar quem com elas não concordar, não há muita hipótese de discussão. “A Fé, a Fé fanática, uma vez aferrando-se a uma qualquer falsidade, abraça-a até à morte”, disse Thomas Moore. (…)

A crença difere do conhecimento na medida em que, ao passo que este é verificado pelos factos e depende da existência do tipo certo de relação entre a mente e o mundo, a crença existe completamente e apenas na mente, não se baseando em nada do que existe no mundo. Em suma, é possível acreditar em qualquer coisa: que as galinhas têm dentes, que a relva é azul, e que as pessoas que não acreditam em nada disto é malévolas. É isto que torna tão sinistra a observação de Santo Agostinho: “a fé consiste em acreditar no que não se vê; a recompensa da fé consiste em ver aquilo em que se acredita” – se se consegue acreditar em tudo, consegue “ver-se” tudo – e, por conseguinte, é possível sentir-se no direito de fazer o que quer que seja: viver como um patriarca do Antigo Testamento, o que é idiota, ou mesmo matar outro ser humano, o que é vil.»

A.C. Grayling, O significado das coisas, capítulo “Fé”, Gradiva, pp. 142-144.