Mostrar mensagens com a etiqueta Cidadania. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cidadania. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Argumentos contra Formação Cívica e Área de Projeto

roda crianças formação cívica

Todos os governos têm feito a mesma coisa na educação: identificam coisas que acham erradas e fazem mudanças avulsas e mal preparadas que geralmente pioram a situação. Trocam coisas boas por coisas piores e corrigem mal coisas más. O atual governo já fez algumas dessas mudanças desastrosas e prepara-se para fazer outras. Um exemplo notório das que já foram feitas é a extinção dos exames no 1º e 2º Ciclo. Relativamente às que aí vêm, a pior (pelo menos enquanto não tentarem abolir as reprovações) é o regresso de disciplinas como Área de Projeto e Formação Cívica (neste caso no secundário, pois já existe nos Ciclos anteriores). Felizmente nem tudo é mau e há pelo menos duas intenções boas: reduzir o tamanho dos programas e redistribuir as cargas horárias das disciplinas, dado que algumas têm muitos tempos letivos e outras poucos. Veremos se essas intenções se concretizam e, caso se concretizem, se a redução e a redistribuição são bem feitas.

Quase toda a gente reconhece que os alunos têm aulas a mais e passam demasiadas horas na escola. Isso repercute-se por exemplo no peso das mochilas, que – como tem sido denunciado – é excessivo e prejudicial à saúde. Mas se é assim, é absurdo criar novas disciplinas. Novas disciplinas implicam mais tempo na escola e mochilas ainda mais pesadas.

Contudo, há argumentos mais fortes contra a existência desse género de disciplinas. Um deles é que, como mostra a experiência passada, não são eficazes.

Os alunos não aprendem a fazer trabalhos de pesquisa nem desenvolvem a sua autonomia fazendo trabalhos sobre temas vagos e desligados dos temas curriculares, como é típico de uma coisa chamada Área de Projeto. A interdisciplinaridade assim conseguida geralmente é nominal e não real: é apenas algo que fica escrito nos papéis que os professores são obrigados a preencher, mas não acrescenta nem competências nem conhecimentos aos alunos. Um inquérito a alunos que há anos atrás tiveram Área de Projeto no 12º ano e a alunos que têm disciplinas afins (com nomes diversos) na Universidade mostraria que a maioria deles as veem como disciplinas menores e até desprezíveis. Para que os alunos desenvolvam competências de pesquisa nada melhor que pedir-lhes trabalhos nas disciplinas curriculares e acompanhá-los na sua realização, mas para isso é preciso reunir algumas condições, nomeadamente tempo (os programas não deverão ser tão extensos como atualmente) e um mínimo de articulação entre os programas das várias disciplinas, para que a interdisciplinaridade não seja uma miragem que nunca sai do papel.

Quanto à Formação Cívica: a autêntica educação para a cidadania não é a “catequese” politicamente correta que geralmente faz parte dos programas dessa disciplina, mas sim um bom ensino das outras disciplinas. Na Filosofia, nas línguas estrangeiras, no Português, na Biologia, na História, entre várias outras disciplinas, há muitos temas cuja lecionação pode promover eficazmente – se incluir informação rigorosa e imparcial, debate dos aspetos polémicos, etc. – os valores democráticos, os direitos humanos e o respeito pela natureza, entre outras atitudes estimáveis. Fornecer, numa aula de Biologia, informações rigorosas sobre a genética e as raças é muito mais eficaz no combate ao racismo do que pedir aos alunos, em Formação Cívica, trabalhos de grupo panfletários sobre a igualdade racial. Discutir o relativismo cultural numa aula de Filosofia (por exemplo: criticar a excisão e o casamento de crianças implica desrespeitar os povos que têm esses costumes?) faz mais pela compreensão da importância dos direitos humanos do que a sua apologia em tom de sermão numa aula de Formação Cívica.

Por isso, uma boa maneira de aliviar as tardes e as costas dos alunos seria não fazer regressar essas disciplinas. Quanto à Formação Cívica que atualmente existe devia mudar o nome para Assuntos da Direção de Turma, que é a sensata função que muitos diretores de turma atualmente lhe dão.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A diferença entre educação (moral) e doutrinação

A Lição de Salazar Uma casa portuguesa Deus Pátria Família

«A educação moral genuína (…) não é o que os políticos têm em mente quando pensam em transmitir, por exemplo, “valores ecológicos” às crianças, ou quando pensam na “educação para a cidadania”. Este género de educação é doutrinação, e não educação moral. A genuína educação moral é ensinar a raciocinar em termos de fins e meios, a ponderar razões e a justificar corretamente o que valorizamos – em suma, ensinar a pensar eticamente, e não ensinar a repetir slogans ecológicos, igualitários, nacionalistas, multiculturalistas ou outros.»

Desidério Murcho, 7 ideias filosóficas que toda a gente devia conhecer, Bizâncio, Lisboa, 2011, pág. 55.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Parlamento dos jovens: as listas dos alunos da ESPR




Datas a ter em conta:
- 6 de Janeiro (10.40, debate com a deputada Rita Rato, onde poderão colocar questões e esclarecer dúvidas);
- 13 e 14 de Janeiro, campanha eleitoral das listas;
- 16 de Janeiro, votação;
- 22 de Janeiro, às 14.30, sessão escolar: escolha do projeto de recomendação e dos deputados que irão representar a escola na sessão distrital.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Trazer o parlamento às escolas do agrupamento Pinheiro e Rosa

                                                      

Parlamento dos jovens cartaz de divulgação do secundário. by dmetódica

O Parlamento dos Jovens é uma iniciativa institucional da Assembleia da República, desenvolvida ao longo do ano lectivo com as Escolas de todo o país que desejarem participar, Ensino Básico e Ensino Secundário, culminando com duas Sessões Nacionais que se realizam anualmente, na Assembleia da República.

O tema aprovado, pela Comissão de Educação e Ciência da Assembleia da República, para esta edição do Ensino Secundário é

"Crise demográfica (emigração, natalidade, envelhecimento)”.

No ensino básico, o tema é "Drogas – evitar e enfrentar as dependências".

Podem inscrever-se para participar no Programa Parlamento dos Jovens – Ensino Secundário 2013/2014, todas as Escolas do universo do ensino público, privado e cooperativo, abrangendo o Continente, Regiões Autónomas e os Círculos da Europa e fora da Europa. A decisão de inscrição cabe ao Órgão de Gestão de cada Escola, em articulação com o Conselho Pedagógico, formalizando-se com o envio dum formulário de inscrição (on-line), até ao dia 18 de Outubro de 2013.

As inscrições devem ser realizadas no sítio da AR: http://app.parlamento.pt/webjovem2014/index.html

***

Nota: Alguns dos trabalhos e actividades, dos alunos do ano passado, podem ser consultados: AQUI, AQUI, AQUI, AQUI e AQUI.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Um novo ano e o fim de um projeto

Este ano, por razões que explico no blogue de Ciência Política (para aceder clicar na imagem), vou suspender a publicação de posts no "Homo politicus" .

Um breve intervalo imposto pelas circunstâncias, espero poder voltar no próximo ano letivo.

image

terça-feira, 25 de junho de 2013

Reportagem: dois dias no Parlamento dos jovens

image(2)

A aluna Ana Sofia Cadete (do 12º E) - que foi a repórter de serviço, na sessão nacional do "Parlamento dos jovens" 2013 - conta-nos como foi a sua experiência, o que viu e aprendeu. Vale a pena ler!

Reportagem Sobre o Parlamento, Da Autoria Da Aluna Ana Sofia Cadete by dmetódica

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Maria Filomena Mónica sobre Boaventura Sousa Santos

  image    image

A socióloga Maria Filomena Mónica escreveu um artigo de opinião, publicado no jornal Público de 07/12/2012, intitulado: "O evangelizador de Coimbra".

O interesse, parece-me, prende-se com o facto de em Portugal abundarem "intelectuais" como este que ela critica. Destacam-se por exibirem, entre outras "qualidades", um discurso palavroso que ninguém percebe porque é vazio de ideias. Mas muita gente em Portugal faz de conta que percebe, desculpando-se com a forma, quando na realidade se trata do vazio de ideias, ideias erradas ou deturpadas (e que não são neutras ideologicamente, apesar de serem apresentadas como se fossem).  As citações que ela faz falam por si e frontalidade com que expõe casos concretos também.

Vale mesmo, mesmo a pena ler!

«Para evitar polémicas inúteis, começo por uma declaração. Os meus adversários naturais, os poderosos, não suscitam em mim a fúria que dedico a certas franjas da esquerda. Tendo sido educada numa faculdade dominada pela ideologia salazarista e conhecido, no estrangeiro, uma instituição onde a discussão era livre, não suporto a ideia de poder vir a ser obrigada a aturar novas ortodoxias. Nas Humanidades, o risco de se confundir política e ciência é elevado.
Relembro o que anda esquecido. O fim da Universidade não consiste em formar meninos não racistas, não sexistas e não imperialistas, mas em transmitir o saber da forma mais objectiva possível. Jamais poderemos libertar-nos de todos os preconceitos, mas devemos tentar. Há uns anos, visitei a catedral de Christ"s Church em Oxford, onde se encontra um memorial em honra de J. Locke. Eis o que lá está escrito: "Sei que a verdade, por oposição à falsidade, existe e que, se as pessoas quiserem e se pensarem que a busca vale o esforço, pode ser encontrada." É por partilhar esta visão que julgo que, nas salas de aula, os docentes não podem difundir ideais políticos. A instituição académica não é um cantinho de Hyde Park onde cada um monta a sua banca. Claro que, cá fora, podemos falar de política: mas não devemos fazê-lo diante de alunos. Estes não são hereges a converter, mas jovens a quem devemos inculcar a paixão pelo saber.
Tudo isto vem a propósito de uma entrevista que Boaventura Sousa Santos, o evangelizador de Coimbra, deu à Análise Social, nº204. Dirigida por João Pina-Cabral, esta publicação pertence ao meu instituto, o ICS. Fundada por Adérito Sedas Nunes em 1963, tem um passado notável. Mesmo depois do 25 de Abril, quando as suas páginas correram o risco de ser inundadas por escrita panfletária, manteve-se fora da política.
O facto de que hoje me ocupo - a conversa conduzida por Helena Mateus Jerónimo e José Neves, directores adjuntos da revista - é revelador de mudanças profundas na instituição. Tudo começa com a primeira a recordar, em tom reverencial, a autodefinição de Sousa Santos como "um optimista trágico que procura ser um rebelde competente". Depois desta reminiscência nietzscheana, seguem-se uma análise primária sobre os malefícios das "sociedades capitalistas" e a resposta aos que o têm acusado de confundir o papel de sociólogo e o de político. Segundo ele, quem tal escreveu alimentaria no espírito "uma crença serôdia no positivismo", opção que serviria para esconderem a sua "viragem nas convicções políticas, da esquerda para a direita". Tais pessoas, argumenta, revelariam ainda "uma grande ignorância dos debates epistemológicos contemporâneos, sobretudo das epistemologias feministas e pós coloniais". Ser-me-á isto dirigido? Serei eu anti-femininista e pró-imperialista? Ou, pior ainda, de direita? Deixemos este desvio narcísico, para nos concentrarmos no que ele defende, as "epistemologias do sul". De início, imaginei que se estava a referir ao Sul geográfico, que acompanha o sal e o sol, mas não: o seu "sul" é uma entidade etérea localizada algures no firmamento da contracultura.
Passo por cima do seu desprezo pela tradição ocidental e da sua proposta para a criação - imagino que com sede no Equador - de uma Universidade Popular dos Movimentos Sociais, onde a discussão intelectual estaria canalizada para "a eficácia política das lutas sociais". O mais chocante surge quando menciona os actuais governantes portugueses, aos quais nada me liga. Para Sousa Santos, dentro do conceito de povo não cabem pessoas como Vítor Gaspar ou António Borges: "À luz deste conceito, não são parte do "povo" pessoas que têm passaporte português mas nada os vincula a Portugal senão aquilo que lhes é ditado pelos seus patrões internacionais." Será que, nas minhas costas, o Estado criou um SEF ideológico em Coimbra?
À medida que me aproximava do fim, o meu espanto crescia: "O Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, tem passaporte português, mas não tem mais do que isso." A razão é clara: "Realmente, ele está ao serviço do capital financeiro alemão em cujos bancos se educou." E vai por aí fora: "E o mesmo se pode dizer de António Borges, que se tiver oportunidade e poder causará graves danos ao país. Entre ele, Mário Draghi, Mário Monti ou Lucas Papademos não há grandes diferenças. Têm passaportes diferentes, mas a sua lealdade última, o seu verdadeiro país, é a companhia majestático-colonial Goldman Sachs a que todos pertenceram ou pertencem." O objectivo do Governo de Passos Coelho consistiria, por conseguinte, em aproveitar a crise para conseguir que Portugal volte ao 24 de Abril. Os dislates não ficam por aqui: na sua opinião, a rua é a nova esfera pública, os cientistas sociais devem escrever "com" e não "sobre" os oprimidos e é urgente elaborar-se "uma teoria geral sobre a impossibilidade de uma teoria geral". Alguém entende esta última frase?
Desde há alguns anos que uma parte significativa do poder académico tem vindo a ser ocupada por antigos revolucionários. Os novos mandarins não são melhores do que os antigos. A sua obsessão é igualmente com o recrutamento de colaboradores obedientes, com a arregimentação ideológica dos pupilos e, novidade decorrente da globalização, com o uso de redes internacionais de financiamento. É por saber isto que li, sem espanto, as benesses que Sousa Santos foi acumulando, a última das quais um subsídio de 2,42 milhões de euros atribuído pelo European Research Council, para um projecto intitulado "ALICE - Espelhos estranhos, lições imprevistas: definindo para a Europa um novo modo de partilhar as experiências do mundo", a ser executado no seu Centro de Estudos Sociais, onde trabalham 223 investigadores, subsidiados pelo Estado. O novo estudo centrar-se-á em quatro áreas, entre as quais "a democratização da democracia".
Sousa Santos não entende que a liberdade académica não é compatível com a transformação das aulas em comícios. Imagino que tenha lido Max Weber, mas o seu cérebro não integrou o que o nosso famoso antepassado disse sobre a diferença entre a vocação do político e do cientista. Vale ainda a pena reparar como estes advogados da sociedade sem classes estão atentos a questões ligadas ao seu status social. Quem não acredite veja a pose de Sousa Santos na fotografia publicada na revista. Finalmente, a sua defesa de que se deve pensar "com" e não "sobre" as massas populares é meramente retórica, uma vez que não faz a mínima tenção de viver entre os pobres - o seu trabalho de campo sobre as favelas do Rio de Janeiro apenas durou três meses -, aproveitando-se antes da "causa" para a obtenção de confortos materiais. Termino com uma citação de Voltaire, alguém que sabia do que falava: "Aqueles que conseguem fazer com que acrediteis em teses absurdas conseguirão mais tarde que façais atrocidades." Convém estar atento ao que se passa nos meios académicos.»

Maria Filomena Mónica

terça-feira, 26 de junho de 2012

Discutir ideias

O ensino da filosofia pode ser entendido como uma negação da primeira afirmação: não é preciso ser um génio para discutir ideias.

discutir ideias

sábado, 25 de setembro de 2010

sábado, 26 de setembro de 2009

Defesa do voto e crítica da abstenção

Amanhã há eleições legislativas em Portugal. Em diversas eleições passadas a percentagem de eleitores que se absteve foi elevada. Por exemplo: 35,7% nas últimas eleições legislativas e 63,5% nas últimas eleições para o Parlamento Europeu.

votar Na minha opinião, as pessoas que valorizam o facto de viverem num país democrático deviam votar sempre e nunca se abster. A existência de eleições livres é uma das principais diferenças entre uma democracia e uma ditadura. As pessoas que votam, além de escolherem quem vai exercer o poder, exprimem simultaneamente o seu apoio à democracia e à existência de eleições livres. Quem se abstém e não vota faz uma escolha que pode ser interpretada como uma rejeição da democracia ou, pelo menos, como indiferença perante o facto de viver numa democracia ou numa ditadura.

Algumas pessoas justificam o facto de se absterem nas eleições com a circunstância de discordarem de todos os candidatos. É perfeitamente possível, e até razoável (atendendo ao que se vê e ouve em muitas campanhas eleitorais), que um eleitor discorde de todos os candidatos. No entanto, a abstenção não é a melhor maneira de exprimir essa discordância. O voto em branco exprime de modo mais claro e inequívoco uma tal discordância, pois, contrariamente à abstenção, o voto em branco não pode ser confundido com a rejeição da democracia ou com a demissão cívica das pessoas que não vão votar porque preferem ir passear. Quem vota em branco está a dizer que recusa votar naquelas candidatos, mas que quer votar e que é favorável à existência de eleições e de democracia.

Tal não significa, porém, que (como sucede nalguns países) o voto deva ser obrigatório. Se existir uma qualquer sanção para quem não for votar, isso diminuirá o significado político do acto de votar. Este deixará de exprimir um apoio do eleitor à existência de eleições e de democracia. Mesmo as pessoas que rejeitam a democracia ou que lhe são indiferentes tenderão a ir votar para evitar a sanção, pelo que esse acto não poderá ser visto como uma escolha inteiramente livre – em que o cidadão, além de escolher quem exercerá o poder, manifesta o seu apoio ao regime democrático em que vive.

Seja quem for o vencedor das eleições de amanhã, seria bom que a percentagem da abstenção fosse baixa e que quase todos os 9,4 milhões de leitores (ver mais detalhes aqui) fossem votar. Se tal sucedesse seria a democracia que ganharia as eleições.

(A respeito deste assunto vale a pena espreitar aqui.)

sábado, 1 de agosto de 2009

Fazem figuras destas e depois dizem que é preciso ensinar aos jovens o valor da democracia!

Não há educação para a cidadania capaz de explicar estas coisas a uma pessoa (nem aos seus filhos) que se levanta de manhã cedo para trabalhar e mesmo assim tem dificuldade em pagar as contas no final do mês. Leia aqui para perceber porque é que a abstenção é tão elevada em Portugal.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Ligações políticas

Todos os anos verifico que a grande maioria dos meus alunos acha a política uma grande chatice. Acreditam também que é algo que pouco ou nada tem a ver com eles.
Por outro lado, ninguém lhes tira da cabeça que os políticos são todos mentirosos e corruptos. A análise lógica e filosófica de falácias indutivas como a generalização precipitada e a amostra tendenciosa diminui drasticamente o número de alunos dispostos a dizer “Todos os X são ladrões” ou “Todos os Y traficam droga”. Mas os recursos da Lógica revelam-se sempre insuficientes para convencer esses alunos a serem mais cuidadosos com as generalizações acerca dos políticos.
É preciso reconhecer que as figuras tristes que muitos políticos costumam fazer, nomeadamente na televisão, não ajudam esses alunos (nem muitos outros portugueses) a desfazer os seus preconceitos. Nas aulas de Filosofia aprendem que o argumento ad Hominem e a falácia do Homem de Palha são característicos da chamada persuasão irracional ou manipulação, mas quase todos os dias vêem alguns políticos a atacarem-se pessoalmente e a distorcerem as ideias uns dos outros, sem se preocuparem minimamente com a validade dos seus argumentos nem com a verdade das suas afirmações.
Para tentar mostrar que o argumento “alguns políticos são corruptos, mentirosos e manipuladores, logo todos os políticos são corruptos, mentirosos e manipuladores” é falacioso e que a sua conclusão é falsa, o Dúvida Metódica passará a incluir algumas “Ligações políticas”.
Numa sociedade democrática o confronto racional de ideias diferentes é salutar e útil. Por isso, das “Ligações políticas” constarão – além do velho e pouco alinhado Abrupto – 2 blogues de esquerda (Arrastão e Rui Tavares) e 2 blogues de direita (Blasfémias e O cachimbo de Magritte).
Boas leituras. E votos de pouca manipulação.

sábado, 13 de dezembro de 2008

O sono da razão produz monstros


Demitir-nos de utilizar a nossa capacidade de pensar e argumentar, na nossa vida privada e na vida pública, leva-nos a ficar prisioneiros de monstros. Estes podem surgir sob formas diferentes: emoções, preconceitos, crenças irracionais, a opinião da maioria, o prazer imediato, a autoridade de alguém, o poder, etc.
Qualquer que seja o caso, para resistir a essa submissão, um pouco de cepticismo (duvidar até compreender e saber justificar racionalmente) é saudável e ajuda-nos a não perder o pé, a não esquecer aquilo que é verdadeiramente importante.
Estou a pensar, por exemplo, na minha actividade de professora, em que o essencial consiste
- segundo me parece - em preparar adequadamente (com correcção científica e pedagógica) as aulas, de modo a fornecer conhecimentos e a desenvolver nos alunos uma atitude crítica e em incutir-lhes o gosto pelo saber e alguns hábitos de trabalho.
Muitas vezes, no meio da ideologia veiculada pelo Ministério da Educação, da ausência de quaisquer ideias correctas acerca do que é educar, da balbúrdia legislativa, da exaustão física, é difícil resistir e evitar a sonolência da razão.
Mas há que não esquecer o essencial, sob pena dos monstros…
Nota: A gravura é do pintor espanhol Goya (1784-1828) e intitula-se "O sono da razão produz monstros".