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quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Ficha de Trabalho - Argumentos

a) Diga se os exemplos a seguir apresentados constituem ou não argumentos.

b) Caso sejam argumentos, diga qual é a conclusão.

c) Caso possuam premissas ocultas, explicite quais são.

1. O aborto é justo na perspectiva de algumas pessoas e injusto na perspectiva de outras. Há também pessoas que têm opiniões intermédias.

2. “A maior parte das pessoas que visitam galerias de arte, lêem romances e poesia, vão ao teatro e ao ballet, vêem cinema ou ouvem música, já perguntaram a si próprias, num momento ou outro, o que é a arte.” - Nigel Warburton, Elementos Básicos de Filosofia, Gradiva, pág. 218.

3. A pena de morte é errada, na medida em que pune um crime com outro crime.

4. Ou os alunos do 11º ano respeitam os direitos dos animais ou comem carne. Os alunos do 11º ano respeitam os direitos dos animais. Logo, os alunos do 11º ano não comem carne.

5. A liberdade é um valor mais importante que a segurança, mas há formas de combater a insegurança que limitam a liberdade dos cidadãos. Assim, pode-se dizer que há formas de combater a insegurança que devem ser proibidas.

6. “Hoje em dia, os astrónomos podem fazer coisas inacreditáveis. Por exemplo, se alguém acendesse um fósforo na Lua, eles seriam capazes de distinguir a chama.” - Bill Bryson, Breve História de Quase Tudo, Quetzal Editores, pág. 34.

7. “- Olha lá para cima! – exclamou um dos criados.
Repararam então nas peras que pendiam da árvore, recortando-se contra o céu ainda róseo com os primeiros tons da madrugada. E, ao verem as peras, foram todos presos pelo maior pânico. Porque os frutos não estavam inteiros, havia apenas as metades deles. Tinham sido cortados ao comprido, mas pendiam ainda do seu pedúnculo; cada pêra possuía apenas a metade direita (ou esquerda, conforme o ângulo por que fossem olhadas). Em todo o caso, havia só uma metade e a outra parte tinha desaparecido, cortada ou talvez mesmo mordida.” - Italo Calvino, O Visconde Cortado ao Meio, Editorial Teorema, pp. 27-28.

8. Ítalo Calvino escreveu três livros muito bons para incutir o gosto pela leitura em pessoas que não têm hábitos de leitura. Os seus nomes são: O Visconde Cortado ao Meio, O Barão Trepador e O Cavaleiro Inexistente.

9. “Uma sociedade aberta valoriza os seus membros descontentes e dissidentes porque precisa de pensamento criativo, maior amplitude de alternativas, novas hipóteses e, em geral, do vigoroso diálogo provocado por novas ideias.” - Luís Rodrigues e outros, Filosofia – 11º, Plátano Editora, pág. 22.

10. “A batalha começou pontualmente às dez da manhã. Do alto da sua cela, o lugar-tenente Medardo contemplava a amplidão das fileiras cristãs, a postos para o ataque. E estendia o rosto, oferecendo-o ao bafejo do vento da Boémia, que espalhava um aroma de folhas, como se estivessem numa enorme eira poeirenta.” - Ítalo Calvino, O Visconde Cortado ao Meio, Editorial Teorema, pág. 15.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Entimema: conceito e exemplos

Um entimema é um argumento que contém pelo menos uma premissa não formulada, habitualmente designada por premissa implícita. Pode-se também dizer que se trata de uma premissa subentendida ou oculta. Por exemplo: no argumento “o Heitor é advogado, logo o Heitor tem formação universitária” a premissa implícita é “os advogados têm formação universitária”. Sem esta premissa o argumento não seria válido. (Há entimemas que continuam a ser argumentos inválidos mesmo após a explicitação das premissas subentendidas, pois encerram outras incorrecções.)

No dia-a-dia os entimemas são muito frequentes. Habitualmente, o que leva alguém a não explicitar todas as premissas de um argumento é o facto de considerar que se trata de algo tão óbvio que seria monótono e inútil fazer essa explicitação. Quem está por dentro do contexto em que decorre a argumentação em causa normalmente percebe quais são as ideias subentendidas.

Contudo, o que para uma pessoa é óbvio nem sempre é óbvio para as outras. Como isso pode suscitar confusões e incompreensões (nomeadamente na discussão de assuntos polémicos como sucede com a generalidade dos problemas filosóficos), é aconselhável explicitar as premissas implícitas. Essa explicitação torna os argumentos mais claros. Assim, “Descobrir as premissas implícitas das nossas ideias ou das ideias dos filósofos é uma parte importante do trabalho filosófico.” (Dicionário Escolar de Filosofia)

Lemon limão Exemplo de um entimema.

Há anos atrás eu e um amigo íamos a percorrer uma avenida de Lisboa (Av. Almirante Reis) quando vimos um homem a comprar um limão. Disse imediatamente ao meu amigo, como se fosse uma enorme evidência: “Ele está a comprar um limão, logo é drogado”. Como o meu amigo duvidou da conclusão (achando que o facto de uma pessoa comprar um limão não é razão suficiente para concluirmos que é drogada), vi-me obrigado a explicitar as várias razões (premissas) que não tinha formulado por as achar óbvias. Ei-las:

  • Normalmente as pessoas compram mais do que um limão, mas não seria prático um toxicodependente fazer isso.
  • O sumo de limão costuma ser usado para preparar doses de heroína.
  • Aquele indivíduo tinha um certo ar pálido e macilento que caracteriza muitos toxicodependentes.
  • Aquela zona era um lugar de passagem quase contínua de toxicodependentes que iam comprar droga ao bairro da Curraleira (que na época era uma conhecida zona de tráfico).

Perante essas razões adicionais que explicitei, o meu amigo ficou convencido: “Deves ter razão”.

No entanto, mesmo reforçada com essas razões a conclusão é apenas uma consequência provável (e não necessária) das premissas – como é característico dos argumentos não dedutivos.

Embora isso não fosse provável, podia suceder que as premissas fossem todas verdadeiras e a conclusão falsa. Por exemplo: o facto de só comprar um limão podia explicar-se pela circunstância de partir de férias no dia seguinte e não querer deixar em casa produtos perecíveis; o ar pálido e macilento podia dever-se a uma doença qualquer; etc.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O que é um argumento?


“Um argumento é um conjunto de proposições que utilizamos para justificar (provar, dar razão, suportar) algo. A proposição que queremos justificar tem o nome de conclusão; as proposições que pretendem apoiar a conclusão ou a justificam têm o nome de premissas.” (António Padrão, “Algumas noções de lógica”, www.criticanarede.com)

As premissas são as informações, os dados que à partida temos sobre um problema; a conclusão é uma consequência que, ao raciocinar, tiramos. Assim, a conclusão corresponde à nossa opinião sobre o problema, à nossa tese e as premissas são a maneira que temos de justificar a conclusão a que chegámos.

Um argumento possui uma conclusão e uma ou várias premissas.

Os argumentos são conjuntos de proposições, mas nem todos os conjuntos de proposições são argumentos. Um argumento é mais do que uma lista de proposições. Para se tratar de um argumento as proposições têm de estar organizadas de um modo tal que uma delas (a conclusão) se apresente como a consequência das outras (as premissas). Dito por outras palavras: as premissas devem apresentar-se como uma justificação ou apoio da conclusão. Essa relação existe no exemplo A mas não no B. Por isso, este não é um argumento.

Exemplo A: Hoje estou cansado e, dado que amanhã tenho muito que fazer, devo descansar. Por isso, não irei ao cinema.

Exemplo B: A Cecília é simpática e vive em Loulé. Além disso, a Cecília quer ir para a Universidade.

A expressão “Por isso” (usada em A) é um indicador de conclusão. Normalmente diz-nos que a frase a seguir apresentada constitui a conclusão. Há outras palavras e expressões que também têm esse papel: “Logo”, “Portanto”, “Consequentemente”, etc.

A expressão “dado que” (usada em A) é um indicador de premissa. Normalmente diz-nos que a frase a seguir apresentada constitui uma premissa. Há outras palavras e expressões que também têm esse papel: “Pois”, “Porque”, “Devido a”, etc.

Uma vez que num argumento a conclusão é uma consequência das premissas, a forma mais clara e explícita (a forma padrão ou a expressão canónica, como dizem os lógicos) de apresentar o argumento é apresentar primeiro as premissas e depois a conclusão – antepondo-lhe a palavra “Logo” para não restarem quaisquer dúvidas.

Todavia, no dia-a-dia as pessoas pensam e falam de modo mais livre e espontâneo e habitualmente não usam a expressão canónica dos lógicos. Assim, além dos argumentos em que a conclusão surge no final, podem-se encontrar argumentos em que a conclusão surge no início ou mesmo no meio.

Exemplo C: Todos os cidadãos com direito de voto devem votar, pois só votando poderão ter uma palavra a dizer nas decisões políticas. Ora, numa democracia os cidadãos devem ter uma palavra a dizer nas decisões políticas.

Exemplo D: Ler livros estimula a inteligência e melhora a capacidade de expressão, como tal deves ler livros. Além disso, os livros não são caros.

No exemplo C a conclusão é “Todos os cidadãos com direito de voto devem votar” e no exemplo D é “deves ler livros”. O que conta para uma frase ser a conclusão de um argumento não é a posição que nele ocupa, mas a relação que tem com as outras frases. As frases referidas constituem a conclusão dos seus argumentos pois derivam das outras frases, são consequências delas e são por elas justificadas.

No dia-a-dia também é frequente surgirem argumentos em que não existem indicadores de premissa nem de conclusão. É o que sucede no exemplo E, a seguir apresentado. A sua conclusão é “As guerras deviam acabar”, pelas razões referidas no parágrafo anterior.

Exemplo E: As guerras deviam acabar. Numa guerra morrem sempre inocentes e a morte de inocentes é uma grande injustiça.

Outra situação frequente é surgirem argumentos contendo uma ou mais premissas ocultas (implícitas, subentendidas). Esses argumentos chamam-se entimemas. Como essas premissas omitidas podem dar origem a confusões, ao reescrever o argumento para o expressar de modo canónico devemos explicitar tais premissas. No exemplo F, a seguir apresentado, a premissa oculta é: “As coisas que violam os direitos humanos devem ser proibidas”. Note que, se essa ideia não fosse subentendida, não se conseguiria justificar a conclusão – que é “A mutilação genital feminina devia ser proibida”.

Exemplo F: A mutilação genital feminina devia ser proibida, porque constitui uma violação dos direitos humanos.

Aplique os seus conhecimentos.

a) Diga se os exemplos a seguir apresentados constituem ou não argumentos.
b) Caso sejam argumentos, diga qual é a conclusão.
c) Caso possuam premissas ocultas, explicite quais são.

1. “Estava um cão no estábulo e, apesar de alguém lá ter estado e ter levado para lá um cavalo, o cão não ladrou. É óbvio que o visitante era alguém que o cão conhecia bem.” Sherlock Holmes, em A Aventura de Silver Blaze, de Conan Doyle.

2. Não podemos permitir o aborto porque é o assassínio de um inocente.

3. «[Depois do terrível ataque efectuado pelos orcs e por um troll] Aragorn levantou Frodo, que estava caído junto da parede, e dirigiu-se para a escada, a empurrar Merry e Pippin à sua frente. Os outros seguiram-nos. Mas Gimli teve de ser arrastado por Legolas; apesar do perigo, o anão parara junto do túmulo de Balin [seu primo], de cabeça baixa. Boromir puxou a porta oriental, a ranger nos gonzos.» J.R.R. Tolkien, O Senhor dos Anéis – A Irmandade do Anel, Publicações Europa-América, pág. 374.

4. Sócrates não era um Deus. Com efeito, os deuses são imortais, ao passo que Sócrates não era imortal.

5. A interrupção voluntária da gravidez resulta da liberdade de escolha, que é um direito democrático. Como tal, não deve ser penalizada.

6. “Um protão é uma infinitésima parte de um átomo, que em si próprio já é também uma coisa insubstancial. Os protões são tão pequenos que a porção de tinta usada para pôr a pinta neste i pode conter qualquer coisa como 500 000 000 000 protões, mais que do que o número de segundos em meio milhão de anos.” [Bill Bryson, Breve História de Quase Tudo, Quetzal Editores, pág. 25]

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Objecção a Descartes: o Cogito é um entimema e não uma crença básica

Segundo Descartes, o Cogito (o “Penso, logo existo”) é uma crença básica. Ou seja: trata-se da crença numa ideia cuja verdade é tão evidente que não precisa de uma justificação exterior; com base nela podemos justificar outras ideias, mas ela mesma não precisa de ser justificada por outras ideias: autojustifica-se.

Graças a essa característica do Cogito é possível, segundo Descartes, refutar o argumento céptico da regressão infinita da justificação.

Porém, é duvidoso que o Cogito seja realmente uma crença básica. Vejamos porquê.

“Penso, logo existo”: conseguiríamos compreender a ideia expressa por essa frase se antes não compreendêssemos outras ideias? A verdade dessa ideia seria tão evidente se não conhecêssemos previamente a verdade de outras ideias? Dificilmente.

O que se passa é que dizemos “Penso, logo existo” sem explicitar todas as ideias envolvidas. O que na realidade pensamos ao dizer tal frase é isto:

Se penso, então existo.
Penso.
Logo, existo.

Sem a ideia contida na primeira premissa não seria possível afirmar “Penso, logo existo”. Por isso, o Cogito é, afinal, um entimema: um argumento com uma premissa subentendida. Explicitando esta obtemos um Modus Ponens (afirmação do antecedente).

O que essa primeira premissa diz é que pensar é uma condição suficiente da existência e que, portanto, todos os que pensam existem. O pensamento exige um pensador, um autor do pensamento. Mas essa relação não é recíproca: é falso que se “existo, logo penso”, pois posso existir e não pensar (por exemplo se estiver num sono muito profundo ou em estado vegetativo). A evidência do “Penso, logo existo” é uma consequência dessas ideias.

Ou seja: o conhecimento do Cogito resulta de uma inferência, de um raciocínio. Trata-se de um conhecimento derivado. Ora, uma crença básica tem de ser conhecida directamente – tem de ser um conhecimento primitivo (não inferencial). Por isso, o Cogito não é uma crença básica.

Se o Cogito não é uma crença básica, então Descartes não conseguiu refutar o argumento céptico da regressão infinita da justificação.

Se Descartes não conseguiu refutar o argumento céptico da regressão infinita da justificação, então não conseguiu demonstrar que o conhecimento humano é possível.

Bibliografia:

Aires Almeida e outros, “A Arte de Pensar – 11º Ano”, Didáctica Editora, Lisboa, 2008.

Simon Blackburn, “Pense – Uma Introdução à Filosofia”, Gradiva, 2001.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Ficha de Trabalho - Argumentos



a) Diga se os exemplos a seguir apresentados constituem ou não argumentos.

b) Caso sejam argumentos, diga qual é a conclusão.

c) Caso possuam premissas ocultas, explicite quais são.

1. O aborto é justo na perspectiva de algumas pessoas e injusto na perspectiva de outras. Há também pessoas que têm opiniões intermédias.

2. “A maior parte das pessoas que visitam galerias de arte, lêem romances e poesia, vão ao teatro e ao ballet, vêem cinema ou ouvem música, já perguntaram a si próprias, num momento ou outro, o que é a arte.” - Nigel Warburton, Elementos Básicos de Filosofia, Gradiva, pág. 218.

3. A pena de morte é errada, na medida em que pune um crime com outro crime.

4. Ou os alunos do 11º ano respeitam os direitos dos animais ou comem carne. Os alunos do 11º ano respeitam os direitos dos animais. Logo, os alunos do 11º ano não comem carne.

5. A liberdade é um valor mais importante que a segurança, mas há formas de combater a insegurança que limitam a liberdade dos cidadãos. Assim, pode-se dizer que há formas de combater a insegurança que devem ser proibidas.

6. “Hoje em dia, os astrónomos podem fazer coisas inacreditáveis. Por exemplo, se alguém acendesse um fósforo na Lua, eles seriam capazes de distinguir a chama.” - Bill Bryson, Breve História de Quase Tudo, Quetzal Editores, pág. 34.

7. “- Olha lá para cima! – exclamou um dos criados.
Repararam então nas peras que pendiam da árvore, recortando-se contra o céu ainda róseo com os primeiros tons da madrugada. E, ao verem as peras, foram todos presos pelo maior pânico. Porque os frutos não estavam inteiros, havia apenas as metades deles. Tinham sido cortados ao comprido, mas pendiam ainda do seu pedúnculo; cada pêra possuía apenas a metade direita (ou esquerda, conforme o ângulo por que fossem olhadas). Em todo o caso, havia só uma metade e a outra parte tinha desaparecido, cortada ou talvez mesmo mordida.” - Italo Calvino, O Visconde Cortado ao Meio, Editorial Teorema, pp. 27-28.

8. Ítalo Calvino escreveu três livros muito bons para incutir o gosto pela leitura em pessoas que não têm hábitos de leitura. Os seus nomes são: O Visconde Cortado ao Meio, O Barão Trepador e O Cavaleiro Inexistente.

9. “Uma sociedade aberta valoriza os seus membros descontentes e dissidentes porque precisa de pensamento criativo, maior amplitude de alternativas, novas hipóteses e, em geral, do vigoroso diálogo provocado por novas ideias.” - Luís Rodrigues e outros, Filosofia – 11º, Plátano Editora, pág. 22.

10. “A batalha começou pontualmente às dez da manhã. Do alto da sua cela, o lugar-tenente Medardo contemplava a amplidão das fileiras cristãs, a postos para o ataque. E estendia o rosto, oferecendo-o ao bafejo do vento da Boémia, que espalhava um aroma de folhas, como se estivessem numa enorme eira poeirenta.” - Ítalo Calvino, O Visconde Cortado ao Meio, Editorial Teorema, pág. 15.