“As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar, senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento.” John Stuart Mill
sábado, 5 de setembro de 2020
Contas à vida
sábado, 2 de maio de 2020
Morrer de fome
sábado, 10 de junho de 2017
Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas
NA PRAIA
Raça de marinheiros que outra coisa vos chamar
senhoras que com tanta dignidade
à hora que o calor mais apertar
coroadas de graça e majestade
entrais pela água dentro e fazeis chichi no mar?
Ruy Belo
domingo, 21 de maio de 2017
Três palavras estranhas
As três palavras mais estranhas
Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando pronuncio a palavra Silêncio, destruo-o.
Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe no que ainda não existe.
Wislawa Szymborska
terça-feira, 21 de março de 2017
Dia Mundial da Poesia: uma divisa de vida
"Fazer o mais honesto, empenhar-se
ao máximo, sabendo que é completamente irrelevante.
É essa a grandeza do ser humano."
Manuel António Pina
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017
Quais são os prazeres superiores?
Stuart Mill distinguiu entre prazeres superiores e prazeres inferiores. Vamos tentar testar essa distinção. Se tivesse de escolher entre uma pizza e esta música de Handel, o que escolheria? E entre a pizza e o poema de Yeats?
Handel: He Shall Feed His Flock
Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;
Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;
Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.
W.B. Yeats, Uma antologia, tradução de José Agostinho Baptista, Lisboa, Assírio & Alvim.
sábado, 11 de fevereiro de 2017
Nada mesmo?
Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito
como coisa natural.
Pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural.
Nada deve parecer impossível de mudar.
Bertold Brecht
segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
Poemas de quem não morreu
O poeta brasileiro, Ferreira Gullar, morreu ontem aos 86 anos.
Cantiga para não morrer
Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.
Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.
Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.
E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.
Os mortos
os mortos vêem o mundo
pelos olhos dos vivos
eventualmente ouvem,
com nossos ouvidos,
certas sinfonias
algum bater de portas,
ventanias
Ausentes
de corpo e alma
misturam o seu ao nosso riso
se de fato
quando vivos
acharam a mesma graça
Traduzir-se
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?
O Trenzinho do Caipira
Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade noite a girar
Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra, vai pela serra, vai pelo mar
Cantando pela serra do luar
Correndo entre as estrelas a voar
No ar, no ar, no ar... (...)
Ferreira Gullar
(Poemas cantados por Adriana Calcanhoto).
sexta-feira, 17 de junho de 2016
Ninguém é uma ilha
terça-feira, 10 de maio de 2016
Uma voz voando
Descrever a voz e o modo único como Amália Rodrigues cantava não é fácil. Há anos atrás Miguel Esteves Cardoso quase conseguiu quando lhe chamou “voz de Deus”. Não sei quem o poeta brasileiro Ferreira Gullar tinha em mente quando escreveu este poema, contudo os seus versos descrevem Amália Rodrigues na perfeição.
UMA VOZ
Sua voz quando ela canta
me lembra um pássaro mas
não um pássaro cantando:
lembra um pássaro voando.
sexta-feira, 8 de abril de 2016
O que andamos a fazer no mundo
TOMA E LÊ
Podes estudar história,
Enigmas, boatos e mexericos,
Páginas de electrónica maluca,
E de repente deparas-te
Com um mendigo à chuva e deixas
De saber o que andas a fazer no mundo.
Um fantasma ganha temperatura ao teu lado
E dá-te um toque no ombro.
Chuva de ouro, Dánae na espuma,
A cintilação da vida.
Estão a abraçar-te; o sol irrompe.
Alguém decifrou uma nova escrita
Cuneiforme, os miúdos andam de Vespa
Numa perseguição louca às vestais.
Tudo custa e tudo é insignificante.
Tolle, lege, Santo Agostinho,
Toma este poema e lê.
Não nos incluas
Nas tuas insuportáveis preces:
Não foi por nós
Que o teu Deus sofreu.
Stefan Hertmans
(versão de Vasco Gato)
Fotografia de Lee Jeffries.
quinta-feira, 31 de março de 2016
Vemos as coisas como elas realmente são?
“acaso saberão aquela história da rapariguinha
saindo do seu jardim com todo o barulho que sabia
para depois pé ante pé nele entrar só para ver
como era o jardim na sua ausência?”João Miguel Fernandes Jorge 1
É claro que a rapariguinha não conseguiu ver como era o jardim na sua ausência, pois não estava ausente e só estando presente se consegue ver alguma coisa, nomeadamente um jardim.
Por detrás desta história está uma velha questão filosófica: o mundo exterior será realmente como o percecionamos? 2
Como é que podemos saber se as coisas são realmente como as percecionamos? Não se poderá dar o caso de serem diferentes?
Afinal de contas, não temos maneira de comparar o modo como percecionamos as coisas com as coisas em si mesmas. Não temos outro acesso às coisas senão através da perceção que temos delas.
Podemos dizer se um desenho representa ou não corretamente um certo objeto pois podemos comparar o desenho com as perceções visuais que temos do objeto – com o original, por assim dizer. Mas como podemos saber se essas perceções representam corretamente o próprio objeto? Nesse caso já não temos um original como termo de comparação, só temos as perceções. Por isso, a rapariguinha do poema não poderia garantir que o jardim na sua ausência é semelhante ao jardim que vê.
Dando mais um passo, podemos duvidar não só da veracidade das nossas perceções como também da existência das próprias coisas. As perceções são representações mentais, supostamente de coisas existentes no mundo exterior, mas, se não podemos garantir que representam fielmente essas coisas, como podemos garantir sequer que representam alguma coisa? Talvez as nossas perceções sejam como os sonhos ou as alucinações e não correspondam a nada real. Por isso, a rapariguinha do poema não poderia garantir que o jardim que vê existe realmente. 3
1 Trata-se de uma parte de um poema sem título do livro Turvos Dizeres. Pode ser lido na página 70 do volume 2 da Obra Poética do autor (Editorial Presença, Lisboa, 1987). Não vou analisar o poema todo. Nem sempre é fácil entender os poemas de João Miguel Fernandes Jorge, pois este tem uma técnica de escrita peculiar: é como se os poemas fossem colagens de elementos diferentes e aparentemente sem relação (o que por vezes produz poemas que o autor talvez devesse ter reescrito ou deixado na gaveta, mas outras vezes origina a poemas inesperados e belos, como por exemplo este). Mas, apesar dessa dificuldade, julgo que o resto do poema não tem relevância filosófica ou pelo menos não ajuda a perceber a história da rapariguinha. De qualquer modo, eis o poema na sua totalidade:
Ganho com o tempo aquilo que
o tempo o espaço me reduz
Caminho e
tenho quase muitos anos durar é o meu maior problema
irresistível simulação de quem olha para os astros
e provoca pequenos desvios. Jogando quero abrir os
meus brinquedos
brinco e como toda a criança brincandoestão sentados os gémeos do café Londres
um pouco mais à frente aqueles dois rapazes
- de que morrerão eles?
Incerta é a serenidade com que dizem sim e não
aceitam uma paz em fundo de guerra
- acaso saberão aquela história da rapariguinha
saindo do seu jardim com todo o barulho que sabia
para depois pé ante pé nele entrar só para ver
como era o jardim na sua ausência?Estas coisas foram ditas para que saibam que
Jesus é o filho de Deus. Acreditem.
2 Chama-se perceção à representação de alguma coisa através dos sentidos (nomeadamente a visão, a audição e o tato), eventualmente “ajudados” pelo pensamento.
3 Fotografia de Sebastião Salgado. Representa uma menina sem terra num acampamento em Rio Bonito do Iguaçu, Paraná, 1996.
domingo, 20 de março de 2016
Se Deus existisse mesmo
a morte é mesmo estranha:
morre-se todos os dias
e enquanto se morre pede-se uma esmola para matar a fome de outra vida,
e dão-nos pelo amor de Deus uma pequena moeda de nenhum país,
e não há ranhura onde a moeda entre, nem a ranhura de uma velha caixa de música, e no entanto estremeço
e falta-me o ar, sim sim
arrebatavam-me as músicas de J.S. Bach
no silêncio das naves através da catedral inteira,
vozes e vozes dos rapazes castrados
e de repente um baixo monstruoso,
e isto se Deus existisse mesmo, punhal fundo no músculo coração,
e depois quente chôro pela cara abaixo
- oh porque me abandonaste?
mas na verdade ninguém me abandonara
Herberto Helder, Letra Aberta
Segundo o DN, o livro Letra Aberta é uma recolha póstuma de poemas inéditos de Herberto Helder. Será publicado na próxima quarta-feira, dia 23 de abril, um ano após a sua morte.
quinta-feira, 4 de junho de 2015
Como um rio
Delta
if you have taken this rubble for my past
raking through it for fragments you could sell
know that i long ago moved on
deeper into the heart of the matter
if you think you can grasp me, think again;
my story flows in more than one direction
a delta springing from the riverbed
with its five fingers spread.
Adrienne Rich
Se tomaste estes escombros pelo meu passado
vasculhando por fragmentos que possas vender
sabe que há muito me desloquei
mais para o fundo na essência da questãoSe pensas que me podes abarcar, desengana-te:
a minha história flui em mais que uma direcção
um delta a jorrar do leito do rio
com os seus cinco dedos bem abertos.Tradução de Mário Gonçalves, publicada no blogue O Livro de Areia.
sexta-feira, 1 de maio de 2015
O preço da liberdade
Este diálogo – entre dois “pássaros” ou de um “pássaro” consigo próprio – é frequente em Portugal. Ocorre em muitas instituições, nomeadamente em escolas e em empresas. Pergunto-me se Odyr Berrnardi (genial cartoonista brasileiro) conhece o poema “Perfilados de Medo”, de Alexandre O'Neill.
Odyr Berrnardi
Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.
Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.
Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.
Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido...
Alexandre O'Neill
sexta-feira, 10 de abril de 2015
Eu não gosto do bom gosto
Senhas
Adriana Calcanhotto
Eu não gosto do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até rigores
Eu não tenho pena dos traídos
Eu hospedo infratores e banidos
Eu respeito conveniências
Eu não ligo pra conchavos
Eu suporto aparências
Eu não gosto de maus tratos
Mas o que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até os modernos
E seus segundos cadernos
Eu aguento até os caretas
E suas verdades perfeitas
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Eu não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu aguento até os estetas
Eu não julgo competência
Eu não ligo pra etiqueta
Eu aplaudo rebeldias
Eu respeito tiranias
E compreendo piedades
Eu não condeno mentiras
Eu não condeno vaidades
O que eu não gosto é do bom gosto
Eu não gosto de bom senso
Não, não gosto dos bons modos
Não gosto
Eu gosto dos que têm fome
Dos que morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem
Eu gosto dos que têm fome
E morrem de vontade
Dos que secam de desejo
Dos que ardem
terça-feira, 24 de março de 2015
Um nome muito estrangeiro
Os Animais Carnívoros
Dava pelo nome muito estrangeiro de Amor, era preciso chamá-lo
sem voz - difundia uma colorida multiplicação de mãos, e aparecia
depois todo nu escutando-se a si mesmo, e fazia de estátua durante um
parque inteiro, de repente voltava-se e acontecera um crime, os jornais
diziam, ele vinha em estado completo de fotografia embriagada, desco-
bria-se sangue, a vítima caminhava com uma pêra na mão, a boca estava
impressa na doçura intransponível da pêra, e depois já se não sabia o
que fazer, ele era belo muito, daquela espécie de beleza repentina e
urgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer às
nossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso, e então
os dias cruzavam-se uns pelos outros e no meio habitava uma montanha
intensa, e mais tarde às noites trocavam-se e no meio o que existia agora
era uma plantação de espelhos, o Amor aparecia e desaparecia em todos
eles, e tínhamos de ficar imóveis e sem compreender, porque ele era
uma criança assassina e andava pela terra com as suas camisas brancas
abertas, as suas camisas negras e vermelhas todas desabotoadas.
Herberto Helder
(Herberto Helder morreu hoje, dia 24 de março de 2015. Tinha 84 anos.)
quarta-feira, 18 de março de 2015
Um poema de Amália em duas vozes: Kátia Guerreiro e António Zambujo
Amor de mel, amor de fel
Tenho um amor
Que não posso confessar...
Mas posso chorar
Amor pecado, amor de amor,
Amor de mel, amor de flor,
Amor de fel, amor maior,
Amor amado!
Tenho um amor
Amor de dor, amor maior,
Amor chorado em tom menor
Em tom menor, maior o Fado!
Choro a chorar
Tornando maior o mar
Não posso deixar de amar
O meu amor em pecado!
Foi andorinha
Que chegou na Primavera,
Eu era quem era!
Amor pecado, amor de amor,
Amor de mel, amor de flor,
Amor de fel, amor maior,
Amor amado!
Tenho um amor
Amor de dor, amor maior,
Amor chorado em tom menor
Em tom menor, maior o Fado!
Choro a chorar
Tornando maior o mar
Não posso deixar de amar
O meu amor em pecado!
Fado maior
Cantado em tom de menor
Chorando o amor de dor
Dor de um bem e mal amado!
Amália Rodrigues
quinta-feira, 1 de janeiro de 2015
Um Ano Novo que mereça este nome
“Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.”
sexta-feira, 12 de dezembro de 2014
Odeia a luz que começa a morrer
Um poema citado no filme "Interstellar" (uma sugestão de cinema para as férias!)
Não entreis docilmente nessa noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;
odeia, odeia a luz que começa a morrer.
No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,
porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles
não entram docilmente nessa noite serena.
Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia
o brilho das suas frágeis ações ter dançado na baia verde,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.
E os loucos que colheram e cantaram o voo do sol
e aprenderam, muito tarde, como o feriram no seu caminho,
não entram docilmente nessa noite serena.
Junto da morte, homens graves que vedes com um olhar que cega
quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegres,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.
E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.
Não entres docilmente nessa noite serena.
Odeia, odeia a luz que começa a morrer.
Dylan Thomas
Tradução: Fernando Guimarães
Podem ouvir uma leitura do autor do poema:




