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terça-feira, 26 de dezembro de 2023

O passado cheira mal

«Na época a que nos referimos [séc. XVIII] dominava nas cidades um fedor dificilmente imaginável para o homem dos tempos modernos. As ruas tresandavam a lixo, os saguões tresandavam a urina, as escadas das casas tresandavam a madeira bolorenta e a caganitas de rato e as cozinhas a couve podre e a gordura de carneiro; as divisões mal arejadas tresandavam a mofo, os quartos de dormir tresandavam a reposteiros gordurosos, a colchas bafientas e ao cheiro acre dos bacios. As chaminés cuspiam fedor a enxofre, as fábricas de curtumes cuspiam o fedor dos seus banhos corrosivos e os matadouros o fedor a sangue coalhado. As pessoas tresandavam a suor e a roupa por lavar; as bocas tresandavam a dentes podres, os estômagos tresandavam a cebola e os corpos, ao perderem a juventude, tresandavam a queijo rançoso, leite azedo e tumores em evolução. Os rios tresandavam, as praças tresandavam, as igrejas tresandavam e o mesmo acontecia debaixo das pontes e nos palácios. O camponês cheirava tão mal como o padre, o operário como a mulher do mestre artesão, a nobreza tresandava em todas as suas camadas, o próprio rei cheirava tão mal como um animal selvagem e a rainha como uma cabra velha, quer de verão quer de inverno.»

Patrick Süskind, ‘O Perfume’, Ed. Presença, Lisboa, 2023, pp. 9-10.

Pintura: Étienne Jeaurat, ‘Les Écosseuses de pois de la Halle’ (1763).


domingo, 24 de janeiro de 2016

Abstenção

abstenção «Há anos, num documentário acerca do 5 de Outubro de 1910, foi exibido um filme da proclamação da República na varanda da Câmara de Lisboa. As imagens focam os revolucionários vitoriosos, mas, ao fundo, vislumbram-se carros de bois ladeados por agricultores que, pacatamente, se dirigiam para o centro da cidade a fim de venderem os seus produtos.
Nem uma só vez aqueles homens e mulheres pararam para testemunharem a história diante de si nem viraram a cara com mera curiosidade. Tal como os bovinos que puxavam os carros, devem ter ido para casa sem saberem que já não havia rei. Certamente, julgavam que nada daquilo lhes dizia respeito – era só política.»
Carlos Abreu Amorim, no blogue Blasfémias.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

"A noite cairá" - hoje às 23.30 na RTP 1

«Esta noite muitas televisões do mundo passam “A Noite Cairá”, um documentário incrível com muitas das primeiras imagens recolhidas no campo de concentração pelas tropas aliadas. Na verdade, "A noite cairá" é um documentário sobre um documentário (com dedo de Hitchcock), que esteve demasiados anos na gaveta e por acabar, tal era a força e o choque das imagens recolhidas.

A 27 de janeiro de 1945, as tropas soviéticas entravam no campo de concentração de Auschwitz - foi há precisamente 70 anos. Para assinalar um dia histórico, o Expresso disponibiliza online um texto publicado originalmente a 28 de janeiro de 1995, onde alguns dos sobreviventes evocam o drama e se reflete sobre um episódio julgado impensável.»
Ler mais: http://expresso.sapo.pt/oficio-de-matar=f908141#ixzz3Q4829tCH

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Aprender história no mosteiro dos Jerónimos

Os alunos do 11º D e E realizaram uma visita de estudo a Lisboa e puderam escolher, livremente, o tema do trabalho. A Mariana Guerreiro e Miguel Rodrigues (do 11º D) escolheram falar do mosteiro dos Jerónimos. Este trabalho foi feito no âmbito das disciplinas de História e Filosofia (neste caso, mais de História). As fotografias e o texto (que não foi editado) são da autoria de ambos os alunos. Ei-los:

A Igreja de Santa Maria de Belém - Mariana Nº20, Miguel R Nº28, 11ºD(2) by SaraRaposo

segunda-feira, 17 de março de 2014

Os esquecidos da História

QUEM CONSTRUIU TEBAS DE SETE PORTAS?

Quem construiu Tebas de sete portas?
Nos livros estão os nomes dos reis.
Foram os reis que arrastaram os blocos de pedra?
E as várias vezes destruída Babilónia —
Quem é que tantas vezes a reconstruiu?
Em que casas da Lima fulgente
de oiro moraram os construtores?
Para onde foram os pedreiros na noite em que ficou pronta
a Mu­ralha da China? A grande Roma
está cheia de arcos de triunfo. Quem os levantou?
Sobre quem triunfaram os césares?
Tinha a tão cantada Bizâncio
Só palácios para os seus habitantes?
Mesmo na lendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu bramavam os
afogados pelos seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Ele sozinho?
César bateu os Gálios.
Não teria consigo um cozinheiro ao menos?
Filipe da Espanha chorou, quando a armada se afundou.
Não chorou mais ninguém?
Frederico II venceu na Guerra dos Sete Anos —
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhou o banquete da vitória?
Cada dez anos um Grande Homem.
Quem pagou as despesas?
Tantos relatos
Tantas perguntas. 

Bertolt Brecht

(Tradução de Paulo Quintela)

El juramento de los siete jefes de Alfred Church

O Juramento dos sete chefes, de Alfred Church

(inspirado num episódio da tragédia de Ésquilo Os Sete Contra Tebas).

terça-feira, 30 de abril de 2013

Há guerras justas?

Da disciplina de Ciência Política (uma opção do 12º ano, nos cursos científico humanísticos) faz parte a discussão de problemas filosóficos, um exemplo disso é o problema da guerra. Se quiserem saber mais sobre o assunto, podem consultar o blogue Homo politicus, em que disponibilizo os recursos utilizados nessas aulas.

Um exemplo de uma actividade é a que se segue.

No dia 1 de Setembro de 1939, os alemães invadiram a Polónia. Dois dias mais tarde, a França e a Grã Bretanha declararam guerra à Alemanha, inicia-se assim a  2ª Guerra Mundial.

Dois políticos ingleses, o chefe de Estado (o rei Jorge VI) e o primeiro ministro (Winston Churchill)  proferiram dois discurso históricos, explicando à população os motivos que levavam o país a entrar neste conflito.

Serão os argumentos a favor da guerra, presentes nestes discursos, aceitáveis do ponto de vista ético?

 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A alegoria do Bom Governo

Este é um post convidado da minha colega Carla Faustino, professora de História.

Trata-se da análise histórica de uma pintura de Ambrogio Lorenzetti (séc. XIV), intitulada "Alegoria do Bom Governo". A escolha deste quadro deve-se ao facto de Carla Faustino considerar que ele se relaciona com a conjuntura em que vivemos e por ela pensar que "precisamos de governantes com virtudes!"

O esquema seguido na análise da obra pode ser consultado na nota (*) que se encontra no final deste post.

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Alegoria do Bom Governo (c. 1337-1340).

1. Quem produziu a obra? Quem é o Emissor?

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Ambrogio Lorenzetti (c. 1290 – 1348?), pintor de profissão, nascido na cidade de Siena (atual Itália).

2. Para quem? Quem é o Recetor?

Para a Junta dos Nove Governantes da cidade de Siena. Tratava-se de um grupo de banqueiros e comerciantes que tomou o poder em 1287 (ficou conhecida por “revolução comunal”) e que expulsou da cidade grande parte da nobreza. Após a conquista do poder, esta junta lançou um ambicioso programa de modernização da cidade, no qual se destacava a construção de um grande palácio, sede do novo poder comunal. Esta pintura encomendada a Lorenzetti foi pintada numa das paredes do novo palácio.

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3. Análise formal (CANAL)

Suporte: parede (pintura mural)

Técnicas específicas de aplicação: afresco

Consistia na aplicação de pigmentos de cor diluídos em água diretamente na parede enquanto a argamassa ainda está húmida. A imagem torna-se então parte integral da construção arquitetónica onde foi pintada.

4. Análise funcional (CÓDIGO)

Identificação do tema: profano (Alegoria do Bom Governo).

Descrição da pintura (abreviada).

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Lorenzetti coloca o rei virtuoso à direita do observador e representa-o como um velho barbudo. Vestido de preto-e-branco (as cores de Siena), ele simboliza tanto a cidade de Siena como o bem-estar público. O monarca apresenta um escudo, que simboliza o universo e a própria fé cristã. O Bom Governo ainda segura com a sua mão direita um cetro da justiça.

Acima do Bom Governo, três anjos coroados. Um anjo avermelhado representa a Caritas (Caridade), mas, segundo alguns especialistas, esta figura simboliza também o Amor à Pátria. Este anjo vermelho está rodeado por outros dois. Um, com feições masculinas e com uma cruz, simboliza a Fé e o outro, feminino, com longas tranças douradas é a Esperança.

Sentadas ao lado do Bom Governo estão as seis virtudes, representadas como rainhas coroadas. Elas apoiam o rei.

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À sua esquerda, a Magnanimidade, a Temperança (com uma ampulheta) e a Justiça (com uma espada numa das mãos, uma coroa e uma cabeça cortada no colo).

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À sua direita, de branco, a Paz, segura um ramo de oliveira, descansando, tranquilamente ociosa e recostada numa almofada, com outra aos seus pés. A seu lado encontra-se a Fortaleza, com um cetro na mão e um grande escudo protetor na outra, e a Prudência, mais velha, com rugas na face, aponta para a coroa que tem no colo. A Prudência guarda o trono. Todas as virtudes estão protegidas por cavaleiros armados com lanças.

Função: pedagógica e de propaganda

Na Idade Média a finalidade pedagógica era a primeira função da imagem. De facto, através do material artístico, o homem medieval entrava em contato com representações literárias acessíveis somente à minoria letrada. O fiel entrava em comunicação com o texto, invisível para ele (DUBY: 1997, 108).

O afresco de Lorenzetti personificava, tanto para os governantes de Siena como para o público que frequentava o Palácio Comunal, as virtudes (necessárias ao bom governo) e os vícios (que estes deveriam evitar) representados noutra pintura de Lorenzetti da mesma sala, designada de “Alegoria do Mau Governo”. Todos aprendiam pelas imagens.

Além de cumprir essa função, esta pintura enaltecia o poder sienense, representado nesta obra por 24 conselheiros, chefes das casas notáveis da cidade, que seguram uma longa corda que os une e que simboliza a amizade. Segundo o historiador George Duby, esta pintura realçava esse poder, dava-lhe visibilidade, justificava-o (DUBY: 1997, 16)

Qual a intencionalidade do pintor? (o que o autor pretendia com a obra).

Lorenzetti quer mostrar aos governantes o bom caminho? Criticá-los? Ele teria liberdade para isso? O historiador Georges Duby tenta encontrar uma resposta para esta questão:

“Alguns documentos esclarecem as relações entre quem faz a encomenda e quem a executa. São contratos lavrados em presença de tabelião. O artista compromete-se a respeitar fielmente as cláusulas que regulam não só os seus honorários, a qualidade dos materiais que irá utilizar, mas também o pormenor, a maneira de desenvolver o tema.” (DUBY: 1998, 106).

Por isso, esta é a mão do artista, guiada (e paga) por homens de Estado, conclui Duby. No entanto, há que ter em conta que a consciência individual dos artistas se afirma neste período e que por isso recusam ser considerados como meros artífices, executores, e exigem ser reconhecidos como parte determinante na criação da obra de arte.

Para finalizar…

fica aqui a “Alegoria do Mau Governo”, também pintada por Lorenzetti, para ser analisada … e desfrutada.

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Bibliografia:

- Costa, Ricardo da (2003), Um Espelho de Príncipes artístico e profano: a representação das virtudes do Bom Governo e os vícios do Mau Governo nos afrescos de Ambrogio Lorenzetti (c. 1290-1348?)in Utopía y Praxis Latinoamericana - Revista Internacional de Filosofìa Iberoamericana y Teoría Social, Maracaibo (Venezuela): Universidad del Zulia, vol. 8, n. 23, octubre de 2003, p. 55-71

- Janson, H.W., (1989) História da Arte, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian.

(*) NOTA: A análise da pintura de Ambrogio Lorenzetti, a  "Alegoria do Bom Governo", foi realizada de acordo com o esquema seguinte.

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quinta-feira, 24 de março de 2011

Visita de estudo: Informações (1)

No próximo dia 1 de Abril, as turmas do 10º C e do 11º A irão realizar uma visita de estudo a Lisboa. Disponibilizo, seguidamente, informações (clicar nas palavras com links para aceder) acerca dos locais a visitar e das actividades a realizar.

Vale a pena consultar esta informação antes da visita, não só  para perceber o que iremos ver e fazer, como para compreender que se trata de uma oportunidade para conhecer mais, experimentar e, é claro, conviver.

Espero assim ter despertado a vossa apetência para desfrutar, a sério, este evento. 

1. Museu da Electricidade (10º C).

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2. Museu Calouste Gulbenkian (11º A).

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3. Outros locais e actividades de interesse na Fundação Calouste Gulbenkian (que os alunos poderão explorar livremente à hora do almoço).

  •  Exposição: A Perspectiva das Coisas. A Natureza-morta na Europa
    Segunda parte: 1840 – 1955.

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Fotografias das esculturas e dos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian.

terça-feira, 16 de março de 2010

Ver para além do imediato

Contrariando o ambiente em que se valoriza o imediatismo mediático e o vazio das ideias, o historiador José Mattoso escreveu na revista Ípsilon a propósito da "História de Portugal" coordenada por Rui Ramos e editada pela Esfera dos Livros, uma elogiosa recensão crítica em que afirma o seguinte:

“A obra foi apresentada em Dezembro com grande relevo publicitário, mereceu um rasgado e incondicional elogio do Prof. António Barreto, conseguiu vendas suficientes para suscitar quatro edições e chamou a atenção do público como uma notável novidade editorial. Já não se fala dele; mas isso não quer dizer nada: a importância de um acontecimento não se mede pelo sucesso imediato, mas pela duração das suas repercussões. Creio que esta obra continuará durante muito tempo a ser tomada como obra de referência, não só pela quantidade e pela pertinência das suas informações, mas também pelo papel que atribui à História no plano do pensamento e da cultura.” 

E se os actuais responsáveis políticos aplicassem esta ideia às políticas implementadas no domínio da educação em Portugal?

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Problemas filosóficos e problemas não filosóficos

Um certo fenómeno pode ser estudado simultaneamente por diferentes disciplinas. A religião, por exemplo, interessa nomeadamente à Sociologia, à Psicologia, à História e à Filosofia. Todavia, isso não significa que estudem a mesma coisa. Os problemas de que se ocupa a Filosofia da Religião são muito diferentes dos problemas de que se ocupam os estudos sociológicos (ver o post Estudo da religião: a parte da Sociologia e a parte da Filosofia), históricos e psicológicos da religião. Contrariamente à Filosofia, nenhuma dessas disciplinas procura determinar se, por exemplo, a afirmação “Deus existe” é verdadeira ou falsa.

Outro exemplo possível é a pena de morte.

«Vamos considerar como as diferentes Ciências Sociais podem abordar o tema polémico da pena de morte. Os historiadores estariam interessados no desenvolvimento [nos EUA] da pena capital do período colonial até ao presente. Os economistas poderiam fazer uma pesquisa para comparar os custos das pessoas encarceradas durante toda a vida com as despesas dos recursos que ocorrem nos casos de pena de morte. Os psicólogos observariam os casos individuais e avaliariam o impacto da pena de morte na família da vítima e na do preso executado. Os cientistas políticos estudariam as diferentes posições assumidas pelos políticos eleitos e as implicações dessas posições nas suas campanhas para a reeleição.

E qual seria a abordagem dos sociólogos? Eles poderiam verificar [entre outros aspectos] como a raça e a etnia afectam o resultado dos casos de pena de morte. De acordo com um estudo publicado em 2003, 80% dos casos de pena de morte nos Estados Unidos envolvem vítimas de cor branca, apesar de apenas 50% de todas as vítimas de assassinato serem brancas. Parece que a raça da vítima influencia a decisão sobre se o réu será condenado à pena capital (...). Assim, o sistema de justiça criminal parece tender a impor penas mais pesadas quando as vítimas são brancas do que quando elas pertencem a uma das minorias.”

Richard T. Schaefer, Sociologia, 6ª edição, McGraw-Hill, São Paulo, 2006, pp. 6-7.

Por seu turno, os filósofos discutem se a pena de morte é justa ou injusta, ou seja, se é certa ou errada em termos morais.

Mas porque é que problemas como “será que Deus existe?” ou “a pena de morte é justa ou injusta” são filosóficos e, por exemplo, a relação entre a raça das vítimas e a aplicação da pena de morte não é um problema filosófico?

terça-feira, 16 de junho de 2009

Como manter o poder?

«E, de repente, alguém obcecado pela mania dos segundos sentidos, pega em Heródoto. Quantas pistas lá encontrará! São nove livros que compõem Histórias e cada um deles está cheio de segundos sentidos. Por exemplo, casualmente abre o livro V e lê que em Corinto, depois de trinta anos de governo sanguinário, morreu o tirano chamado Cípselos, que foi substituído pelo filho Periandros, este ainda mais cruel que o pai. Periandros, sendo ainda um ditador novato, queria saber qual a melhor forma de ficar com o poder e mandou um mensageiro a Trasíbulos, ditador de Mileto, perguntando o que era preciso fazer para amedrontar as pessoas como escravos subjugados.

Trasíbulos, escreve Heródoto, levou o arauto de Periandros para fora da cidade e entrou na sua companhia num campo cultivado; percorrendo um trigal, ele interrogava repetidamente o arauto a respeito da sua vinda de Corinto, e ao mesmo tempo cortava todas as espigas que aos seus olhos pareciam ultrapassar as outras em altura; uma vez cortadas essas espigas Trasíbulos jogava-as ao chão, até que, agindo dessa maneira, havia destruído as espigas mais belas e mais carregadas de grão entre todas as existentes na seara. Percorrido o campo, e sem dar uma palavra sequer de conselho Trasíbulos mandou o arauto embora. Quando este regressou a Corinto Periandros procurou saber ansiosamente saber qual tinha sido o conselho tão esperado. O arauto respondeu que Trasíbulos não lhe havia dado conselho algum; ele manifestou estranheza pelo facto de Periandros tê-lo mandado procurar um homem como aquele, desequilibrado e destruidor das suas próprias coisas, e em seguida relatou o que vira Trasíbulos fazer. Periandros compreendeu o sentido desse procedimento, e percebeu que o conselho de Trasíbulos era mandar matar todos os cidadãos que sobressaíssem entre os outros; e desde então ele mostrou toda a espécie de malignidade em relação aos Coríntios. Tudo o que Cípselos havia deixado inacabado em matéria de assassínio e banimento Periandros terminou.»

Ryszard Kapuscinski, Andanças com Heródoto, Editora Campo das Letras, Porto, 2007, pp 11-12.

Ryszard Andanças com Heródoto Herodoto Histórias livro 1

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Tudo pela nação e nada contra a nação???

«O nacionalismo é um mal. Provoca guerras e tem as suas raízes na xenofobia e no racismo. (…) Disfarçado de patriotismo e amor pelo país, tira partido da sem-razão da psicologia de massas para fazer parecer aceitável, e mesmo honroso, vários horrores. Por exemplo, se alguém lhe dissesse: ‘Vou mandar o teu filho matar o filho dos teus vizinhos’, com certeza protestaria veementemente. tudo pela nação selo Mas deixe seduzir-se com os seus gritos de ‘Rainha e Nação!’, ‘A Pátria!’, ‘O meu país, com razão ou sem ela!’ e vai dar consigo a permitir que ele mande todos os seus filhos matar não apenas os filhos de outras pessoas, como outras pessoas indiscriminadamente – que é o que fazem as bombas e as balas.

Os demagogos sabem muito bem o que fazem quando pregam o nacionalismo. Hitler disse: ‘A eficácia do chefe verdadeiramente nacionalista está em evitar que o seu povo disperse a atenção, mantendo-a assestada num inimigo comum’. E ele sabia a quem apelar: Goethe observara há muito que os sentimentos nacionalistas ‘conhecem a sua maior força e violência junto das pessoas com menor grau de cultura’. (…)

A ideia de nacionalismo depende da ideia de ‘nação’. A palavra não tem sentido: todas as ‘nações’ são híbridas, no sentido em que mais não são que uma mistura de imigrações e miscigenação de povos ao longo do tempo. Assim, a ideia de etnia é sobretudo cómica, excepto nos locais onde se pretende que a comunidade permaneceu tão remota e isolada (…) durante a maior parte da história, que conseguiu manter a sua reserva genética ‘pura’ (um cínico diria ‘consanguínea’).

estado novo nacionalismo Diz-se muitos disparates sobre as nações enquanto entidades: Emerson referiu o ‘génio’ de uma nação como algo independente dos seus cidadãos numéricos; Giraudoux descreveu o ‘espírito da nação’ como ‘a expressão dos seus olhos’; e abundam as afirmações sem sentido deste género.

As nações são construções artificiais cujas fronteiras foram traçadas no sangue das últimas guerras. E não se deve confundir cultura e nacionalidade: não existe país no mundo que não albergue mais do que uma cultura diferente mas geralmente coexistente. Património cultural não é a mesma coisa que identidade nacional.»

A. C. Grayling, O significado das coisas, Lisboa, 2002, Edições Gradiva, pp. 99-101.

Nota: “Tudo pela nação, nada contra a nação” era um slogan do Estado Novo, da autoria de Salazar (inspirado, creio, em Mussolini).