quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Estudo da religião: a parte da Sociologia e a parte da Filosofia

O 1º e o 2º parágrafos do texto apresentam alguns dos aspectos que, no estudo da religião, interessam à Sociologia. O 3º parágrafo refere alguns dos aspectos que, nesse estudo, interessam à Filosofia.

«Em 2002, o Pew Center, uma empresa de opinião pública (…), perguntou a pessoas de 44 países em que medida a religião era importante para elas. Nos EUA 59 % disseram que a religião desempenhava um papel “muito importante” na sua vida. Esta percentagem é invulgarmente alta. Em Inglaterra, apenas 33 por cento disseram que a religião era importante. Noutros países, as percentagens foram as seguintes: 27% em Itália, 21 % na Alemanha, 12% no Japão e 11 % na França. No entanto, as percentagens relativamente à Bolívia, à Venezuela e ao México foram semelhantes à dos EUA, o que levou os analistas a concluir, de forma pouco generosa, que as atitudes norte-americanas “estão mais próximas das atitudes das pessoas das nações em vias de desenvolvimento do que das pessoas das nações desenvolvidas”.

Entretanto, na sondagem Gallup International Millenium Survey, perguntou-se a pessoas de 60 países se acreditavam em Deus. Apenas 45 % disseram acreditar num Deus “pessoal”, ao passo que outros 30 % disseram acreditar “numa espécie de espírito ou força vital”. A sondagem Gallup mostrou não só que a crença religiosa é mais forte nos mais velhos e nos que têm menos educação, mas também que o índice de crença é mais elevado na África Ocidental, onde predomina o Islão. Aí, 99 % acreditam num Deus pessoal. Nos EUA, 86 % têm essa crença, enquanto os europeus, conclui a sondagem, “são os mais agnósticos”. (…)

No entanto, não queremos apenas saber no que acreditam as pessoas – queremos saber se as crenças religiosas são verdadeiras. (…) Existirá alguma boa razão para acreditar que o mundo foi criado por uma divindade todo-poderosa? (…) Será possível apresentar boas razões que apoiem a crença em Deus?»

James Rachels, Problemas da Filosofia, tradução de Pedro Galvão, Gradiva, Lisboa, 2009, pp.27-29.

Se clicar no nome do livro e na imagem, poderá ler informações úteis sobre o mesmo.

james rachels problemas da filosofia

11 comentários:

Catia disse...

A sério que as sondagens mostraram isso? Hummm... eu não acredito muito. Acho que não podemos cair em generalizações precipitadas. Há uma série de variáveis que são são consideradas, mas que (pelo menos na minha opinião) são de extrema importância. O que nos leva a ser ou não crentes é o facto de encontrarmos ou não o nosso lugar na religião. A forma como até lá somos guiados é de extrema importância. Vejamos este exemplo: na minha freguesia são significativos os jovens da minha idade (17 anos-ou de 2 a 3 anos mais velhos) que são crentes. Porém, é dificil encontrar jovens crentes mais novos do que eu (mesmo que seja apenas um ano). E porquê? Porque nós ainda apanhamos o antigo padre (que nos incentivava muito a participar bem como aos nossos pais) ao passo que este já não o faz.

Quanto à parte do estudo da religião ligada à filosofia é ai que entra o argumento ontológico, o argumento do desígnio, o armunto da causa primeira, o argumento do Descartes, entre outros que eu acho deveras interessante.

Joao disse...

"O que nos leva a ser ou não crentes é o facto de encontrarmos ou não o nosso lugar na religião"

Mas isso não torna a crença verdadeira. Acho que é pegar mal na questão.

Carlos Pires disse...

Cátia:

As sondagens são generalizações - mas, se estiverem bem feitas (se, entre outros factores, a amostra for representativa), não são precipitadas.
As instituições referidas no texto são habitualmente reconhecidas como credíveis.
Seja como for, uma generalização é um argumento não dedutivo que nunca consegue estabelecer com certeza a verdade da sua conclusão, mas a penas a sua probabilidade. (Um argumento não dedutivo válido é um argumento em que sendo verdadeiras as premissas é improvável - mas não impossível - que a conclusão seja falsa).
O que a Cátia refere como sendo importante para alguém ser crente sucede certamente em alguns casos - mas não vejo como pode isso invalidar os resultados das sondagens referidas.

Por outro lado, a observação do João é pertinente e aponta para o que é relevante filosoficamente: que razões temos para considerar verdadeira a crença de que Deus existe? E as outras crenças que também fazem parte das religiões?

Obrigado pelos comentários, Cátia e João.

Catia disse...

Eu acho que Deus existe , porém já acreditei no contrário. O que me levou a acreditar nele foi o ter encontrado o meu lugar e função dentro da religião. Por isso eu acho que Deus existe e que cada um de nós (de certa forma) até sabe que Ele está mesmo lá. Mas o que nos leva ser crentes ou não é a nossa identificação com essa realidade. Não sei se me fiz entender, mas é desta forma que eu penso.

LUIS QUARESMA disse...

Excelente discussão. Todavia a religiosidade não está só na perspectiva monoteísta de crer em um deus, ela está também nas crenças pessoais, superstições e etc. Além de que a Sociologia não procura saber qual crença é verdadeira, pois para cada um a sua crença é verdadeira, mas procura saber como as pessoas veem a religião. Quanto a mim, pertenço àquela pequena percentagem de europeus que creem num Deus pessoal. Cumprimentos.

Carlos Pires disse...

Luís:

É verdade que a religião é mais do que a crença em Deus. Inclui também outras crenças (por exemplo, no cristianismo a ideia de que Cristo é filho de Deus) e práticas (por exemplo, no cristianismo o baptismo). Contudo, essas outras crenças e práticas não costumam ser analisadas pelos filósofos, pois não existe qualquer justificação racional para elas e dependem inteiramente da fé.
Imagine que um dia destes se percebia que um dos argumentos filosóficos a favor da existência de Deus é cogente e prova realmente a sua existência. Isso não nos diria qual das religiões monoteístas é verdadeira, se é que alguma é. Mesmo que se provasse a existência de Deus isso não nos diria se devemos ou não ir à missa ao domingo.

Luis Quaresma disse...

Penso ter lido num livro de A Giddens, e espero que a memória não me atraiçoe, que quase toda a gente tem uma creça ou valor religioso, ou superstição mais abstrata como "dar azar partir um espelho" ou "passar debaixo de uma escada", mas além disso o "peso" da religião na sociedade mede-se também pelo estatuto social (influência, riqueza e prestígio) que as entidades religiosas têm, e pela adesão das pessoas a entidades religiosas, ou seja pela forma como as pessoas relacionam as suas crenças com instituições religiosas , que é um pouco o que nos conta a Cátia que diz: "O que nos leva a ser ou não crentes é o facto de encontrarmos ou não o nosso lugar na religião". Cumprimentos.

Patrícia Pereira disse...

Hm, sociologia não é só sondagens. Sociologia também se preocura com um estudo aprofundado das razões pelas quais aquilo acontece

Carlos Pires disse...

Patrícia:

Claro que sim. A Sociologia procura as causas sociais das crenças religiosas, tal como procura descobrir as causas sociais do alcoolismo. Mas a filosofia discute se, independentemente da sociedade, essas crenças são verdadeiras e se têm justificação.

Anónimo disse...

Quem não acredita em Deus deve repensar sua existência, a dos outros e o mundo em sua volta. Onde encontrar-se-ia reposta para tamanho universo de complexidades... Eu acredito em Deus! Sei que Ele existe!

Anónimo disse...

Alguém tem o mail dos criadores este site, se alguém tiver pode publicar, é que precisava mesmo de ajuda!