Mostrar mensagens com a etiqueta Ética. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ética. Mostrar todas as mensagens

domingo, 5 de abril de 2020

Um dilema ético gerado pela covid-19

«Imagine-se que amanhã chegam três pacientes em estado grave a um hospital com recursos escassos: um rapaz de 15 anos com diabetes, uma mãe de 25 anos sem historial de doenças e um avô com 80 anos. Por causa do novo coronavírus, eles estão a lutar pela vida e só nos resta um ventilador. A quem o devemos administrar? Qual é a acção correcta? Este não é um cenário meramente ficcional de uma aula teórica de ética; é algo que já está a acontecer em Itália, Espanha e, em breve, é provável suceder em Portugal.
Como possível resposta para esse dilema ético, há duas teorias éticas rivais: o consequencialismo das regras e a deontologia. Essas duas teorias aceitam que uma acção é moralmente correcta se, e só se, não infringir as regras morais correctas. Onde há desacordo é na concepção e fundamentação do que são “regras morais correctas”. Para o consequencialista das regras, tudo o que importa para determinar a correcção moral de uma determinada regra são as suas consequências, ao passo que, para o deontologista, há regras morais que não podemos quebrar mesmo que tenham as melhores consequências.
Por um lado, de acordo com o consequencialismo das regras, com raízes em Stuart Mill, as “regras morais correctas” são aquelas que, a serem adoptadas por todas ou quase todas as pessoas, mais promovem o bem de uma forma imparcial no máximo grau possível. Assim, devemos seguir aquelas regras que têm as melhores consequências. Para sabermos se uma regra moral é correcta, devemos imaginar como seria o mundo se todos ou quase todos a aceitassem. Se descobrirmos que a aceitação geral de uma regra seria prejudicial para a promoção do bem geral, teremos de considerá-la incorrecta. Mas se entendermos que a sua aceitação geral teria um impacto muito positivo no bem geral, então poderemos considerá-la correcta.
Por outro lado, de acordo com o deontologismo, com raízes em Kant, as “regras morais correctas” são (1) aquelas que podemos querer que sejam adoptadas universalmente e (2) aquelas que nos levam a tratar as pessoas como fins e não como meros meios. A ideia da cláusula (1) não consiste em ver se teria boas ou más consequências que todos agissem de acordo com uma determinada regra. Consiste, antes, em mostrar se é ou não possível todos agirem segundo uma tal regra. Já a cláusula (2) salienta que, seguindo uma regra moral correcta, nunca poderemos manipular as pessoas, ou instrumentalizá-las para alcançar os nossos objectivos.
Seguindo essas teorias éticas, que regra devemos adoptar para solucionar o dilema ético inicial? A quem devemos administrar o nosso único ventilador? Em Itália adoptou-se a seguinte regra para resolver esses casos: dar prioridade àqueles doentes com maior probabilidade de sucesso e esperança de vida. Mas será essa uma regra moral correcta, de acordo com as teorias acima descritas?
Podemos dizer que sim. Pois, por um lado, seguindo a ética consequencialista das regras, se violarmos essa regra e adoptarmos uma regra alternativa em que aplicamos o nosso único ventilador ao doente que tem menos probabilidade de recuperar, gera-se um estado de coisas que tem piores consequências: nessa situação é provável que todos morram. Por outro lado, seguindo a ética deontológica, pode-se argumentar que naquela situação de recursos escassos é possível todos agirem de acordo com a regra adoptada pela Itália e, além disso, será implausível defender que, ao adoptar-se uma tal regra, estamos a “instrumentalizar” as pessoas com menos probabilidade de sucesso de recuperação para alcançar os nossos objectivos. Simplesmente, dada a situação ilustrada pelo nosso dilema inicial, seria impossível dar a mesma assistência médica aos três doentes. Portanto, as duas principais tradições rivais da ética acabam por concordar nesta situação trágica.»

Domingos Faria, Jornal Público, 5 / 4 / 2020


domingo, 22 de setembro de 2019

Só os instruídos são livres?

Escada(Homem subindo escada em preto e branco
Epicteto (um filósofo romano que durante muitos anos foi escravo) disse:
“Não devemos acreditar nos muitos que afirmam que só as pessoas livres devem ser instruídas, mas devemos antes acreditar nos filósofos que dizem que só os instruídos são livres” (Dissertações).
Epicteto tinha razão.

segunda-feira, 10 de junho de 2019

A moralidade muda

Dave Robinson, Ética no Quotidiano – Guia Prático

«A moralidade é passada de geração em geração sem ser muito questionada. Mas pode mudar. Em tempos, a maioria das pessoas pensava que nada havia de errado em observar um urso a ser despedaçado por uma matilha de cães – dava um esplêndido dia de lazer para toda a família. Hoje, ficamos mais alarmados e perturbados com a crueldade desnecessária com os animais e pensamos que a perseguição aos ursos é uma coisa errada. Muitos de nós hoje pensam que a caça à raposa é provavelmente também cruel. E a maioria das pessoas deixou de pensar que a homossexualidade é perversa. Parece que a sociedade progrediu. Mas não há razão para nos tornarmos demasiado complacentes. Os seres humanos não estão necessariamente a ficar demasiado agradáveis, ano após ano. Ainda fazemos coisas más. E continuam a surgir novos problemas morais com que não sabemos lidar. Deveríamos permitir que o governo prendesse as pessoas sem julgamento, no caso de serem terroristas? Deveríamos permitir que torturassem suspeitos para obter mais informações?

Então, porque mudam desta maneira as crenças morais? De onde vêm, já agora?»

Dave Robinson, Ética no Quotidiano – Guia Prático, Gradiva, Lisboa, maio de 2019, pp. 9-10.

Algumas pessoas consideram que, dos factos referidos por Dave Robinson, se infere que a moral é relativa. Mas não é o caso do próprio autor: após a passagem citada ele acrescenta que dizer que as crenças morais vêm da sociedade “é a resposta fácil”.

Vale a pena ler mais!

https://www.gradiva.pt/catalogo/46314/etica-no-quotidiano

quarta-feira, 20 de março de 2019

O dever de ajudar


Este argumento não foi escrito a propósito de Moçambique e das cheias que já mataram mais de 200 pessoas e deixaram milhares de outras a precisar de ajuda urgente. Mas podia ter sido. Chamo a atenção para a terceira premissa.

Primeira premissa: O sofrimento e a morte por falta de alimento, abrigo e cuidados médicos são maus.
Segunda premissa: Se está em seu poder impedir que algo mau aconteça, sem sacrificar nada de importância semelhante, é errado não o fazer.
Terceira premissa: Ao contribuir para organizações humanitárias pode prevenir o sofrimento e a morte por falta de alimento, abrigo e cuidados médicos, sem sacrificar nada de importância semelhante.
Conclusão: Se não fizer contribuições a organizações humanitárias está a fazer algo de errado.

Peter Singer, A Vida Que Podemos Salvar, Gradiva, Lisboa, 2011, pp. 31–32.

domingo, 17 de março de 2019

Matriz do 5º teste do 10º ano

kant e mill

Ano letivo: 2018/2019

Duração: 90 minutos.

Estrutura: contém itens de escolha múltipla, itens de resposta curta, itens de resposta restrita e itens de resposta extensa.

Objetivos:

1. Explicar em que consiste o problema da fundamentação da moral.

2. Explicar porque é que o utilitarismo de Stuart Mil é uma ética consequencialista.

3. Explicar porque é que o utilitarismo de Stuart Mil é uma ética hedonista.

4. Distinguir prazeres inferiores e superiores.

5. Explicar o que é, segundo Stuart Mill, o princípio da utilidade.

6. Aplicar o princípio da utilidade a casos concretos e determinar se a ação em causa é moralmente correta ou incorreta.

7. Explicar porque é que, para o utilitarismo de Stuart Mil, os deveres não são absolutos.

8. Explicar porque é que o utilitarismo não é uma ética relativista.

9. Explicar as objeções ao utilitarismo de Stuart Mil estudadas.

10. Explicar porque é que a ética defendida por Kant é deontológica.

11. Explicar o que é, segundo Kant, o imperativo categórico.

12. Explicar a primeira fórmula (chamada fórmula da lei universal) do imperativo categórico.

13. Explicar a segunda fórmula (chamada fórmula da humanidade) do imperativo categórico.

14. Aplicar as duas fórmulas do imperativo categórico a casos concretos e determinar se a ação em causa é moralmente correta ou incorreta.

15. Explicar porque é que ética deontológica não é uma ética relativista.

16. Distinguir ações contrárias ao dever, ações por dever e ações em conformidade ao dever (motivadas por sentimentos e motivadas pelo interesse).

17. Explicar porque é que, para Kant, o motivo é que confere valor moral às ações.

18. Distinguir imperativo categórico e imperativo hipotético.

19. Explicar porque é que, para Kant, os deveres são absolutos.

20. Explicar o que entende Kant por boa vontade.

21. Distinguir autonomia e heteronomia.

22. Explicar as objeções à ética deontológica de Kant estudadas.

23. Comparar e avaliar a ética de Stuart Mill e a ética de Kant.

24. Aplicar os conteúdos de lógica relevantes, nomeadamente as formas argumentativas válidas.

Para estudar:

- PDF´s.

- No manual: partes assinaladas das páginas 133, 134, 136, 137, 138, 145 e 151.

- No blogue Dúvida Metódica:

O eléctrico desgovernado: discussão de um dilema moral

Mentir é sempre errado? (exemplo em vídeo)

Apontamento sobre o Utilitarismo  (tópicos)

Os imperativos de Kant (esquema)

As pessoas não são instrumentos (exemplos da fórmula da humanidade)

Agir bem para evitar problemas (BD)

Por dever ou apenas em conformidade ao dever? (caso real)

Opcional

O imperativo categórico é consequencialista? (Objeção)
Três minutos com Kant (vídeo)
Discussão de um dilema moral: qual seria a ação correta? (exemplo real)
Ser livre é obedecer à lei moral (excertos deste texto foram incluídos num PDF sobre Kant)

domingo, 19 de março de 2017

Matriz do 4º teste do 10º ano

dilema-do-trem dilema do trolley

Duração: 90 minutos + 10 minutos de tolerância.

Objetivos:

1. Explicar em que consiste o problema da fundamentação da moral.

2. Explicar porque é que o utilitarismo de Stuart Mil é uma ética consequencialista.

3. Explicar porque é que o utilitarismo de Stuart Mil é uma ética hedonista.

4. Distinguir prazeres inferiores e superiores.

5. Explicar o que é, segundo Stuart Mill, o princípio da utilidade.

6. Aplicar o princípio da utilidade a casos concretos e determinar se a ação em causa é moralmente correta ou incorreta.

7. Explicar porque é que, para o utilitarismo de Stuart Mil, os deveres não são absolutos.

8. Explicar porque é que o utilitarismo não é uma ética relativista.

9. Explicar as objeções ao utilitarismo de Stuart Mil estudadas.

10. Explicar porque é que a ética defendida por Kant é deontológica.

11. Explicar o que é, segundo Kant, o imperativo categórico.

12. Explicar a primeira fórmula (chamada fórmula da lei universal) do imperativo categórico.

13. Explicar a segunda fórmula (chamada fórmula da humanidade) do imperativo categórico.

14. Aplicar as duas fórmulas do imperativo categórico a casos concretos e determinar se a ação em causa é moralmente correta ou incorreta.

15. Explicar porque é que ética deontológica não é uma ética relativista.

16. Distinguir ações contrárias ao dever, ações por dever e ações em conformidade ao dever (motivadas por sentimentos e motivadas pelo interesse).

17. Explicar porque é que, para Kant, a intenção é que confere valor moral às ações.

18. Distinguir imperativo categórico e imperativo hipotético.

19. Explicar porque é que, para Kant, os deveres são absolutos.

20. Explicar o que entende Kant por boa vontade.

21. Distinguir autonomia e heteronomia.

22. Explicar as objeções à ética deontológica de Kant estudadas.

23. Comparar e avaliar a ética de Stuart Mill e a ética de Kant.

24. Aplicar os conteúdos de lógica.

Natureza das questões:

Escolha múltipla; identificação e avaliação de exemplos; questões de resposta curta e de resposta extensa.

Para estudar:

Partes assinaladas das seguintes páginas do Manual: 132-134, 136-138, 140-145.

PDF’s dados aos alunos.

No blogue Dúvida Metódica:

Links: Stuart Mill e Kant

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Matriz do 3º teste–10º ano

Relativismo cultural

Duração: 90 minutos + 10 minutos de tolerância.

Objetivos:

1. Distinguir juízos de facto e juízos de valor.

2. Identificar em exemplos juízos de facto e juízos de valor.

3. Distinguir juízos de valor morais (ou éticos) de outros juízos de valor.

4. Apresentar o problema da natureza dos juízos de valor morais: são subjetivos, culturalmente relativos ou objetivos?

5. Explicar a resposta do Subjetivismo Moral ao problema da natureza dos juízos de valor morais.

6. Explicar e discutir as objeções ao Subjetivismo Moral que estudou.

7. Explicar e exemplificar o que é a diversidade cultural.

8. Explicar e exemplificar o que é o etnocentrismo.

9. Explicar a perspetiva do Relativismo Cultural quanto ao problema da natureza dos juízos de valor morais.

10. Explicar as objeções ao Relativismo Cultural que estudou.

11. Explicar a perspetiva do Objetivismo moral quanto ao problema da natureza dos juízos de valor morais.

12. Explicar as objeções ao Objetivismo moral que estudou.

13. Comparar e discutir o Subjetivismo Moral, o Relativismo Cultural e o Objetivismo moral.

14. Justificar a opinião própria sobre o problema da natureza dos juízos de valor morais.

15. Aplicar os conteúdos de lógica.

Natureza das questões:

Escolha múltipla; identificação e avaliação de exemplos; questões de resposta curta e de resposta extensa.

Para estudar:

Partes assinaladas das seguintes páginas do Manual: 93, 96, 97*, 98*,da 102 à 107, 109, 114, 115.

* Onde no livro se disser “subjetivismo axiológico” leiam “subjetivismo moral”.

PDF’s dados aos alunos.

No blogue Dúvida Metódica:

Links sobre os valores

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Será correto sacrificar uma pessoa para salvar centenas?

Dois Caminhos

Uma doença muito grave está a matar imensas pessoas na Terra da Boa Vida, uma região muito isolada e de difícil acesso. Já morreram algumas centenas de pessoas e prevê-se que morrerão muitas mais nas próximas semanas. Na Terra da Boa Vida há uma única pessoa imune à doença e um cientista descobre que poderia fazer um medicamento capaz de curar a doença utilizando algum sangue dessa pessoa. Mas há um problema: essa pessoa tem uma outra doença e esta faz com que não possa perder mais sangue. Se lhe retirarem um litro de sangue para fazer o medicamento ela morre. Esta não se oferece como voluntária.

Deverão as autoridades obrigá-la a dar sangue? Será correto obrigá-la, sabendo que isso causará a sua morte? Coloque-se no lugar das autoridades: o que decidiria? Porquê?

domingo, 22 de janeiro de 2017

Ética automóvel

A programação de carros autónomos coloca problemas morais similares ao célebre problema do trolley. Como se pode ler no jornal Observador: “Os carros autónomos vão ser programados para escolher quem atropelar em caso de acidente inevitável. Uma grávida ou um idoso? Um rico ou um pobre? Um peão ou dez?”

Na sua opinião como deve um carro desses ser programado? O Instituto de Tecnologia de Massachusetts, mais conhecido por MIT, criou um site chamado Moral Machine em que são apresentadas situações em que assumimos a posição de um automobilista prestes a ter um acidente e em que temos de decidir o que fazer: atropelar um adulto ou uma criança, uma pessoa ou duas, etc.

Segundo o Observador, “o MIT já tem em seu poder milhões de respostas, oriundas de 160 países”, podendo-se concluir que a maioria dos indivíduos se inclina em favor do mal menor. Parece que a maneira como as pessoas responderem aos dilemas éticos apresentados em Moral Machine serão tidas em conta pelos programdores dos automóveis. 

Quem disse que as teorias e discussões filosóficas não têm consequências práticas?

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Um dilema moral da Medicina

O neurocirurgião, João Lobo Antunes, descreve neste vídeo um dilema ético da Medicina. Suponhamos que só há uma cama disponível nos cuidados intensivos de um hospital e chegam dois pacientes: um com 67 anos (ou mais) e um de 18 anos.
Quem tem direito a essa cama?
Qual deles devem os médicos salvar?
Que critério devem utilizar?
A resposta não é evidente, o critério ético utilizável também não. Vejam porquê ouvindo as palavras deste médico. Depois podem pensar na resposta à questão seguinte:
O critério ético utilizado relaciona-se com a teoria ética de Kant ou de Stuart Mill?



domingo, 14 de agosto de 2016

Liberdade de expressão

banksy-gray-ghost-1

«”Desprezo o que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito a dizê-lo.”

Esta declaração, atribuída a Voltaire, condensa a ideia nuclear deste livro: a liberdade de expressão é algo que vale a pena defender vigorosamente, mesmo quando detestamos o que é expresso. Defender a livre expressão envolve proteger não só o discurso que queremos escutar, mas também aquele que não queremos escutar. (…)

A livre expressão é particularmente valiosa numa sociedade democrática. Numa democracia, os eleitores têm interesse em escutar e contestar uma grande diversidade de opiniões e ter acesso a factos e interpretações, bem como a perspetivas contrastantes, mesmo quando acreditam que as perspetivas expressas são política, moral ou pessoalmente ofensivas. Essas opiniões podem nem sempre ser diretamente comunicadas por meio dos jornais, da rádio e da televisão, mas são amiúde apresentadas em romances, poemas, filmes, desenhos e letras de canções. Podem também ser expressas simbolicamente por atos como queimar uma bandeira, ou, como fizeram muitos manifestantes contra a guerra do Vietname, queimando um cartão de recrutamento. Os membros de uma democracia têm também interesse em que um grande número de cidadãos participe ativamente no debate político, em vez de receber de forma passiva uma política transmitida a partir de cima.»

Nigel Warburton, Liberdade de Expressão: Uma breve introdução, Gradiva, Lisboa, 2015, pp. 9 e 11.

Imagem: Banksy.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Ser livre é obedecer à lei moral

kant

Somos livres quando obedecemos à lei moral 1. Quando li essa afirmação de Kant, por volta dos 16 anos, fiquei muito espantado. E impressionado. Ser livre é obedecer a uma lei?

Geralmente as pessoas associam a liberdade à ausência de regras ou mesmo à sua desobediência. Daí a surpresa.

O nome dado por Kant à lei moral é quase célebre: imperativo categórico 2. Trata-se de um critério que permite distinguir as ações certas das ações erradas e desse modo descobrir o que devemos e o que não devemos fazer.

Uma das maneiras de formular a lei moral, ou imperativo categórico, é semelhante à célebre regra de ouro: não faças aos outros o que não queres que te façam a ti. Ou seja: as ações certas são aquelas em que as pessoas são respeitadas (na linguagem de Kant: em que as pessoas são consideradas fins em si mesmas) e as ações erradas são aquelas em que as pessoas são usadas como se fossem apenas meios, ou seja, são instrumentalizadas. A lei moral não é, portanto, uma regra de conduta específica, mas um critério, uma espécie de teste mental que, em cada situação, nos indica o que está certo – tal como uma bússola indica o norte. Por exemplo: pedir dinheiro emprestado a um amigo sem ter a intenção de o devolver será certo ou errado? Aplicando o critério descrito é fácil de ver que é errado, pois implica considerar o amigo como se fosse uma coisa, um mero meio de resolver as dificuldades do agente e sem qualquer consideração pelo seu ponto de vista.

Kant considerava esse género de ações erradas mesmo que o agente tivesse um objetivo supostamente bom, pois pensava que os fins não justificam os meios e que, portanto, nunca temos motivos suficientes para usar e manipular as pessoas.

Mas como é que isso se relaciona com a liberdade?

Se, através do teste da lei moral, percebemos que uma ação é correta então devemos mesmo fazê-la. Não para obter qualquer vantagem pessoal (por exemplo, ficar bem visto) mas apenas porque é isso que está certo. Kant achava que as ações só têm valor moral quando fazemos o dever pelo dever, sem nenhum outro motivo.

Se percebo o que está certo mas não o faço, porque vai contra os meus interesses, desejos ou sentimentos, então não sou livre. Sou, pelo contrário, um escravo desses interesses, desejos e sentimentos – a que Kant chamava “inclinações”. Por exemplo, se sei que a ação X é errada mas ainda assim a faço, empurrado por exemplo pelo medo ou pelo ciúme, não sou livre 3. Só sou livre quando faço aquilo que tenho a obrigação moral de fazer. Assim, não basta escolher para ser realmente livre, é preciso escolher bem.

Só sou livre quando faço aquilo que tenho a obrigação moral de fazer… Já não tenho 16 anos, mas continuo a achar esta ideia impressionante.

Para Kant isso não é contraditório. Somos seres racionais e é a razão que nos faz perceber a lei moral. Obedecer à razão, e àquilo que ela ordena, é obedecer a nós próprios e não a algo exterior. Kant pensava que, enquanto seres racionais, cada um de nós é como se fosse co-autor da lei moral. Por isso, se decido não fazer a referida ação X revelo uma vontade autónoma e livre. Autonomia significa, de acordo com a sua etimologia, “dar lei a si próprio”.

Talvez paradoxalmente, Kant considerava que obedecer aos nossos desejos e sentimentos não é obedecermos a nós próprios, pois, apesar de sermos também animais e o nosso corpo ter imensa importância, é a racionalidade que nos define. Para ele, obedecer às “inclinações” era equivalente a obedecer a outra pessoa. Era sinal de heteronomia e não de autonomia.

Uma das muitas críticas que se fazem a Kant é que ele desvalorizou os desejos e os sentimentos e esqueceu que devemos escutar o corpo e não apenas a razão.

Essa crítica é plausível e precisamos certamente de uma maneira de entender as pessoas que não oponha a racionalidade e a afetividade, como Kant fazia. Mas, ainda assim, continua teimosamente a fazer sentido a ideia de que só somos verdadeiramente livres quando conseguimos ter força de vontade para escolher o que está certo. Ou, pelo menos, o que julgamos estar certo.

----

1 Kant, Immanuel“, Fundamentação da Metafísica dos Costumes, tradução de Paulo Quintela, Introdução de Pedro Galvão, 2009, Lisboa, Edições 70, pág. 100. A expressão usada é: “vontade livre e vontade submetida a leis morais são uma e a mesma coisa”.

2 Segundo Kant, se existisse um ser racional dotado de uma vontade perfeita ou santa (Deus, por exemplo) a lei moral não lhe surgiria sob a forma de um imperativo ou dever, pois a sua vontade seria sempre determinada pela razão e ele escolheria sempre o bem (se é que isso seria escolher). Mas, para seres comos nós (que temos uma vontade imperfeita que tanto pode ser determinada pela razão como pelos sentimentos e desejos), a lei moral surge como imperativo ou dever. Daí que no nosso caso se possa identificar lei moral e imperativo categórico. Kant, op.cit., pp. XXXVI e 89.

3 Mas sou, ainda assim, responsável, pois, como ser racional conhecedor da lei moral, tinha em aberto a possibilidade de agir de outro modo. Kant, op.cit., pág. LII e nota da pág. 100.

sexta-feira, 4 de março de 2016

O que é a vontade boa?

Kantian_hero
«Na moral, o ponto de partida de Kant é o de que o único bem irrestrito é uma vontade boa. Talento, carácter, autodomínio e fortuna podem ser usados para alcançar maus fins; até mesmo a felicidade pode corromper. O que constitui o bem de uma vontade boa não é o que esta alcança; a vontade boa é um bem em si e por si (...)
Não foi para procurar a felicidade que os seres humanos foram dotados de vontade; para isso, o instinto teria sido muito mais eficiente. A razão foi-nos dada para originar uma vontade boa não enquanto meio para outro fim qualquer, mas boa em si. A vontade boa é o mais elevado bem e a condição de possibilidade de todos os outros bens, incluindo a felicidade.
Que faz, pois, uma vontade ser boa em si? Para responder a esta questão, temos de investigar o conceito de dever. Agir por dever é exibir uma vontade boa face à adversidade. Mas temos de distinguir entre agir de acordo com o dever e agir por dever. Um merceeiro destituído de interesse pessoal ou um filantropo que se deleite com o contentamento alheio podem agir de acordo com o dever. Mas acções deste tipo, por melhores e por mais agradáveis que sejam não têm, de acordo com Kant, valor moral. O nosso carácter só mostra ter valor quando alguém pratica o bem não por inclinação mas por dever — quando, por exemplo, um homem que perdeu o gosto pela vida e anseia pela morte continua a dar o seu melhor para preservar a sua própria vida, de acordo com a lei moral (…).
O que é, pois, agir por dever? Agir por dever é agir em função da reverência pela lei moral; e a maneira de testar se estamos a agir assim é procurar a máxima, ou princípio, com base na qual agimos, isto é, o imperativo ao qual as nossas acções se conformam. Há dois tipos de imperativos: os hipotéticos e os categóricos. O imperativo hipotético afirma o seguinte: se quisermos atingir determinado fim, age desta ou daquela maneira. O imperativo categórico diz o seguinte: independentemente do fim que desejamos atingir, age desta ou daquela maneira. Há muitos imperativos hipotéticos porque há muitos fins diferentes que os seres humanos podem propor-se alcançar. Há um só imperativo categórico, que é o seguinte: "Age apenas de acordo com uma máxima que possas, ao mesmo tempo, querer que se torne uma lei universal" (…).
Kant oferece uma formulação complementar do imperativo categórico. "Age de tal modo que trates sempre a humanidade, quer seja na tua pessoa quer na dos outros, nunca unicamente como meios, mas sempre ao mesmo tempo como um fim." Kant pretende, apesar de não ter convencido muitos dos seus leitores, que este imperativo é equivalente ao anterior e que permite retirar as mesmas conclusões práticas. Na verdade, é mais eficaz do que o anterior para expulsar o suicídio. Tirar a nossa própria vida, insiste Kant, é usar a nossa própria pessoa como um meio de acabar com o nosso desconforto e angústia.»
Anthony Kenny, História Concisa da Filosofia Ocidental, Ed. Temas e Debates.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Então e os direitos humanos?

refugiados

O que a Declaração Universal dos Direitos Humanos diz acerca dos refugiados é muito claro.

“Artigo 13.º

1. Toda a pessoa tem o direito de livremente circular e escolher a sua residência no interior de um Estado.

2. Toda a pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar ao seu país.

Artigo 14.º

1. Toda a pessoa sujeita a perseguição tem o direito de procurar e de beneficiar de asilo em outros países.”

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A diferença entre educação (moral) e doutrinação

A Lição de Salazar Uma casa portuguesa Deus Pátria Família

«A educação moral genuína (…) não é o que os políticos têm em mente quando pensam em transmitir, por exemplo, “valores ecológicos” às crianças, ou quando pensam na “educação para a cidadania”. Este género de educação é doutrinação, e não educação moral. A genuína educação moral é ensinar a raciocinar em termos de fins e meios, a ponderar razões e a justificar corretamente o que valorizamos – em suma, ensinar a pensar eticamente, e não ensinar a repetir slogans ecológicos, igualitários, nacionalistas, multiculturalistas ou outros.»

Desidério Murcho, 7 ideias filosóficas que toda a gente devia conhecer, Bizâncio, Lisboa, 2011, pág. 55.