sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Um Ano Novo com lucidez ... e esperança!

“A esperança é uma arma poderosa mesmo quando nada mais resta.”

É habitual desejarmos nesta altura: Um Bom Ano Novo!

Contudo, o próximo ano dificilmente será bom. Em termos económicos e sociais, muito provavelmente será péssimo. Os motivos desta previsão realista são públicos: uma crise económica interna duradoira (Portugal é um país endividado, pouco produtivo, os dinheiros vindos de Bruxelas não foram investidos de forma a gerar riqueza para o país, há corrupção, não há investimento….) e a crise externa.

O meu principal desejo – utópico – para o próximo ano diz respeito a algo que  poderia ajudar, senão a acabar, pelo menos a diminuir a crise: que a indiferença, da maioria das pessoas perante as decisões dos políticos seja substituída por uma atitude atenta e crítica.

Eis alguns alvos possíveis dessa atenção:

- o modo como são aplicados os dinheiros públicos (pelo governo e pelas autarquias, por exemplo);

- o modo como estão a ser distribuídos os sacrifícios que se pedem, em nome da crise, aos portugueses;

- o modo como são responsabilizados, do ponto de vista jurídico, os políticos cujas decisões prejudicam os interesses do país;

- o modo como é aplicada a justiça e garantida a igualdade dos cidadãos perante a lei.

Deixo-vos uma sugestiva reflexão de Nelson Mandela sobre o exercício do poder político, após ter sido presidente da África do Sul. Ele não se refere a nenhum político português, mas…

“De facto, quando os regimes reaccionários foram por fim derrubados, os libertadores tentaram com todas as suas capacidades e com os recursos de que dispunham concretizar esses nobres objectivos e introduzir formas de governo transparentes, livres de todas as formas de corrupção. Os membros do grupo oprimido tinham a esperança de que os seus sonhos mais acalentados iriam por fim ser alcançados, e de que, chegado o momento, iriam recuperar a dignidade humana que lhes fora negada durante décadas ou mesmo séculos.

Mas a história não deixa de pregar partidas mesmo aos mais experientes e mundialmente famosos combatentes pela liberdade. Com alguma frequência, antigos revolucionários têm cedido à cupidez e a tendência para se apropriarem de recursos públicos para seu próprio enriquecimento acabou por dominá-los. Ao acumularem riqueza pessoal, e ao traírem os nobres objectivos que lhes granjearam fama, acabaram por abandonar as massas populares e por se juntar aos antigos opressores, eles próprios enriquecidos graças à espoliação impiedosa dos mais pobres entre os pobres.”

Nelson Mandela, “Arquivo íntimo” , Lisboa, 2010, Editora Objectiva, págs. 176 e 406.

Arquivo íntimo de Nelson Mandela: uma leitura inspiradora

Nelson Mandela Arquivo intimo

Para saber mais, clicar na imagem.

“Dediquei toda a minha vida à luta do povo africano. Tenho lutado contra o domínio dos brancos, tal como tenho lutado contra o domínio dos negros. Sempre defendi o ideal de uma sociedade democrática e livre, em que todas as pessoas possam viver juntas em harmonia e dispor das mesmas oportunidades. É por esse ideal que espero viver para um dia o concretizar. Mas se necessário for, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer.” (Excerto do final do discurso que Nelson Mandela proferiu no banco dos réus no julgamento de Rivonia, a 20 de Abril de 1964)

É fácil ter, independentemente das convicções políticas de cada um, uma enorme admiração por Nelson Mandela – o primeiro presidente eleito democraticamente na África do Sul, que esteve preso mais de vinte e sete anos em nome da luta pelos direitos humanos. Se à partida o leitor já possui alguma consciência da grandeza deste homem, quando acabar de ler este livro, estou certa, esta ideia terá sido reforçada.

Os diferentes textos que fazem parte do “Arquivo íntimo” não foram escritos com o intuito de serem publicados em livro. São cartas, entrevistas, notas (em agendas e blocos de apontamentos) dispersos. Dizem respeito à vida pessoal e política do antigo presidente e foram, só agora, reunidos. Estes documentos encontravam-se arquivados, na sua maior parte, no Centro de Memória e diálogo Nelson Mandela e a sua organização foi coordenada por Verne Harris.

O livro está organizado em quatro partes: pastoral, drama, epopeia e tragicomédia. Em cada uma das partes há capítulos que versam, entre outros, sobre temas como “Comunidade” (capítulo 2) “Não há razão para matar” (capítulo 4); “As cadeias do corpo” (capítulo 6); “Homem inadaptado” (capítulo 7); “Táctica” (capítulo 10); “Tempo de calendário” (capítulo 11) e “Em viagem” (capítulo 13). O prefácio do livro é escrito por Barack Obama, o presidente dos Estados Unidos.

Através das palavras do mais conhecido prisioneiro de Robben Island testemunhamos acontecimentos da história recente da África do Sul. O mais impressionante é a sua capacidade de resistir, com coragem, serenidade, gentileza e lucidez, às mais terríveis adversidades,  físicas e psicológicas. Mandela nunca desistiu de dialogar, mesmo nas condições mais extremas. Perante guardas que tratavam os prisioneiros políticos como seres não humanos, submetendo-os a tortura e a humilhações sistemáticas, ele procura, através de argumentos racionais e de forma persistente, convencê-los a mudar o seu comportamento para com os presos.

Nas cartas e entrevistas transcritas encontram-se reflexões sobre a natureza humana, a política, o sentido da vida, a resistência  às injustiças sociais, o exercício do poder político, por exemplo. A simplicidade e a clareza com que são apresentadas as ideias e a coerência que Mandela tem mantido, ao longo da sua vida,  em relação aos ideais políticos da democracia, da igualdade e da justiça, fazem dele um homem admirável.

Com humildade, ele alerta-nos para a possibilidade de, por ter passado tanto tempo na prisão, ter projectado, involuntariamente, uma falsa imagem de si. E repete, diversas vezes ao longo desta obra, que nunca foi um santo, mas sim um ser humano falível e inseguro.

Como ele próprio explica: “Sempre me movimentei em círculos onde o senso comum e a experiência prática eram importantes, e onde elevadas qualificações académicas não eram necessariamente decisivas. Pouco do que me tinha sido ensinado na faculdade parecia directamente relevante no meu novo ambiente. Qualquer professor médio evitava temas como a opressão racial, a falta de oportunidades para os negros e as inúmeras indignidades a que estão sujeitos na vida do dia-a-dia. Nenhum professor me disse alguma vez como erradicar os malefícios dos preconceitos raciais, nem me indicou livros que eu poderia ler sobre este assunto, ou as organizações políticas a que me poderia associar se quisesse fazer parte de um movimento de libertação disciplinado. Tive de aprender todas estas coisas aleatoriamente e através de tentativas e erros.”                 

Nelson Mandela, “Arquivo íntimo” , Lisboa, 2010, Editora Objectiva, págs. 122 e 27.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Um Natal *****

Como o melhor do Natal são, entre outras coisas, as canções, um presente para os leitores.

A canção foi tirada do filme Pesadelo antes do Natal, de Tim Burton.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Milagre ou falácia?

Notícia do jornal Correio da Manhã:

“Milagre de Madre Maria Clara foi aprovado. Médicos não encontram explicação científica para cura ocorrida em 2003.”

É certamente improvável que se trate de um milagre. Mas, mesmo que fosse milagre, o raciocínio continuaria a ser falacioso. 

Qual é a falácia cometida? Porquê?

domingo, 19 de dezembro de 2010

Indicações para o trabalho sobre falácias informais - turmas B e D do 11º

O trabalho é individual.

O trabalho consiste na análise de um anúncio publicitário ou discurso político. Nessa análise o aluno deve:

- Descrever aspectos relevantes desse anúncio ou discurso.

- Identificar as falácias informais presentes nesse anúncio ou discurso.

- Explicar em que consistem essas falácias.

- Mostrar porque é que essas falácias ocorrem nesse anúncio ou discurso.

- Discutir se esse anúncio publicitário ou discurso político seria persuasivo sem essas falácias.

O aluno deve identificar todas as falácias informais estudadas que ocorram no anúncio ou discurso escolhido. Caso também ocorram falácias informais não estudadas o aluno não será penalizado se não as identificar (mas se as identificar isso será valorizado).

O anúncio publicitário ou discurso político não pode ser inventado pelo aluno. Pode ser apresentado em papel, vídeo ou áudio. O aluno deve sempre apresentar o trabalho escrito em papel, mesmo que apresente o anúncio publicitário ou discurso político em vídeo ou áudio.

Critérios de avaliação:

- Correcta identificação das falácias.

- Explicação dos conceitos filosóficos utilizados.

- Rigor conceptual.

- Estruturação do texto.

- Clareza do texto.

- Correcção linguística.

- Capacidade crítica.

- Aspectos formais (bibliografia, etc.)

O trabalho será avaliado no âmbito das Fichas e Trabalhos e terá peso 2.

Não será solicitado a todos os alunos que apresentem oralmente o trabalho. Essa apresentação será apenas pedida a alguns alunos em cada turma: alguns dos melhores e alunos cujo trabalho possa eventualmente suscitar dúvidas quanto à autoria ou qualquer outra dúvida pedagogicamente relevante.

Podem colocar-me eventuais dúvidas através da publicação de comentários neste post (e não por email, para que os outros alunos também possam beneficiar do esclarecimento prestado).

Bibliografia:

- O Manual de Filosofia adoptado na escola: A Arte de Pensar – 11º Ano.

- Dicionário Escolar de Filosofia: http://www.defnarede.com/

- Guia das falácias de Stephen Downes: http://criticanarede.com/falacias.htm

- Posts do Dúvida Metódica, nas etiquetas Falácias e Falácias informais.

Data de entrega: segunda aula do segundo período.

BOM TRABALHO!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

É preciso prestar atenção aos preconceitos

imagePara saber mais sobre este livro, ver aqui.

«Porque é que não basta seguirmos os nossos sentimentos, ou “seguir o instinto”, quando pensamos no que deveríamos fazer ou como deveríamos viver?

Os sentimentos são essenciais, como é evidente. Uma vida sem amor, agitação e até mesmo dor não é vida. Nenhuma ética em consonância com a vida é capaz de o negar. Só que os sentimentos não são tudo. Podem ser o começo mas não são o fim. Também deve haver um certo tipo de pensamento.

Vejamos o caso do preconceito. Ser preconceituoso é ter um forte sentimento negativo em relação a alguém pertencente a uma diferente etnia, sexo idade, classe social, etc. Se a ética fosse apenas uma questão de sentimentos, nada haveria a fazer contra tais preconceitos. Seria perfeitamente moral discriminar pessoas das quais não gostássemos.

O instinto diz sim. A ética diz não. Em contrapartida, a ética pode desafiar esses mesmos sentimentos. “Preconceito” quer dizer literalmente “pré-conceito”: é uma forma de não prestar realmente atenção. Mas é preciso prestar atenção. É preciso perguntar-nos porque é que nos sentimos de uma determinada maneira, se as nossas convicções ou sentimentos são verdadeiros ou justos, como nos sentiríamos na pele de outra pessoa, e assim por diante. Em resumo, precisamos de nos perguntar se os nossos sentimentos se justificam e, quando não, que sentimentos alternativos os deviam substituir.

Assim, a ética pede para pensarmos cuidadosamente, até mesmo sobre sentimentos que podem ser muito fortes. A ética pede para vivermos atentamente: preocuparmo-nos com o modo com agimos e até mesmo como sentimos.»

Anthony Weston, Ética para o dia-a-dia, Esquilo Editora, 1ª Edição, Lisboa, 2002, págs. 15-16.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Questionário: análise de preconceitos sobre a homossexualidade

Ficha de tabalho - análise de preconceitos em relação à homossexualidade

Análise e discussão de preconceitos sobre a homossexualidade

Análise e discussão de preconceitos sobre a homossexualidade.

Guião de análise do filme “Os juncos silvestres”

Este filme (para saber mais, ver aqui), do francês André Téchiné, foi realizado em 1994. O seu visionamento tem como objectivo - no âmbito do projecto de Educação Sexual – dar a conhecer e discutir alguns aspectos fundamentais da adolescência, nomeadamente a questão da identidade sexual. Pretende-se, sobretudo, analisar e discutir alguns dos preconceitos mais frequentes que  levam a atitudes discriminatórias em relação aos homossexuais.

Guião de análise do filme Os juncos silvestres

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Uma abordagem literária do problema do livre-arbítrio

image

Chigurh - um sinistro assassíno,  personagem principal do romance Este país não é para velhos de Cormac Mc Carthy - antes de eliminar mais uma das suas vítimas oferece-lhe a possibilidade escolher entre a vida e a morte, atirando uma moeda ao ar. Profere, então, o discurso seguinte:

“(…) Não me coube a mim decidir. Cada momento das nossas vidas é uma encruzilhada e é também uma escolha. Fizeste algures uma escolha. Tudo o que veio a seguir conduziu a isto. A contabilidade é rigorosa. A forma está traçada. Não se pode apagar uma só linha. Eu não tinha fé na tua capacidade de mover uma moeda de acordo com os teus desejos. Como seria isso possível? O caminho de uma pessoa neste mundo raramente se altera e é ainda mais raro alterar-se abruptamente. E o traçado do teu caminho era visível desde o princípio.

Ela soluçava. Abanou a cabeça.

E todavia, embora eu te pudesse ter dito de antemão como é que tudo isto iria terminar, achei que não era excessivo proporcionar-te um derradeiro lampejo de esperança neste mundo, para te alegrar o coração antes que tombe o véu, as trevas. Compreendes?

Oh, meu Deus, disse ela. Oh, meu Deus.

Sinto muito.

Ela olhou-o pela derradeira vez. Não és obrigado, disse. Não és. Não és.

Ele abanou a cabeça. Estás a pedir-me que me torne vulnerável, e isso é coisa que eu nunca poderei fazer. Só tenho uma maneira de viver, que não admite casos excepcionais. Uma moeda ao ar no máximo. Sem grande utilidade neste caso. A maioria das pessoas não acredita que possa existir alguém assim. Isso deve constituir para elas um grande problema, como facilmente entenderás. Como levar a melhor sobre uma coisa que nos recusamos a conhecer. Compreendes? Assim que eu entrei na tua vida, a tua vida terminou. Teve um começo, um meio e um fim. O fim é agora. Dirás que as coisas poderiam ter sido diferentes. Que podiam ter corrido de outra maneira. Correram desta. Estás a pedir-me que desminta o mundo. Percebes?

Sim, disse ela, a soluçar. Percebo. A sério que percebo.

Ainda bem, disse ele. Óptimo. Depois deu-lhe um tiro.”

Mas este discurso sobre o livre-arbítrio  poderá ser, de facto, percebido?

Não defenderá Chigurh ideias contraditórias?

Conhecer as teorias filosóficas do determinismo (radical e moderado) e do libertismo poderá ajudar a responder a esta questão.

 

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Bailado em Faro: COPPÉLIA

cartaz bailado Coppélia_thumb[3] “COPPÉLIA” – Bailado em 2 Actos, inspirado num conto de E.T.A. Hoffmann.

Local: Teatro das Figuras

Horários:

Sessões para escolas:

Dia 16 – 16h00

Dia 17 – 10h30

Sessões para o público em geral:

Dia 17 – 21h30

Dia 18 – 21h30

Interpretação: Companhia de Dança do Algarve

Direcção Artística: Evgueni Beliaev

Coreografia: E. Beliaev, N. Abramova

Música: L. Delibes

Cenografia e Figurinos: Carolina Cantinho, Evgueni Beliaev

Co-Produção: Beliaev Centro Cultural e Teatro Municipal de Faro

Sinopse: Swanilda está noiva de Franz, mas este está encantado por uma linda rapariga que vê na janela da casa do Doutor Coppélius, velho fabricante de brinquedos. Swanilda promete vingar-se. Entra na casa do Doutor e verifica que Coppélia é uma boneca. Finge ser, também, uma boneca, quando Franz invade a casa, atrás de Coppélia. O dono da casa surpreende-os e desfaz o equívoco. Descoberta a verdade, celebra-se o casamento de Swanilda e Franz.

Nota: vários alunos da Escola Secundária de Pinheiro e Rosa fazem parte da Companhia de Dança do Algarve.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

É preciso discutir?!

Nesta notícia do jornal Público diz-se, citando o jornalista francês Hervé Kempf, que  «para salvar a democracia é preciso desligar a televisão e ir para o café discutir».

É verdade que em Portugal existem muitos cafés, mas…

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A arte de ser feliz

Nuvem

A arte de ser feliz

Houve um tempo em que minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crianças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles

sábado, 4 de dezembro de 2010

Qual será a ideia fundamental da próxima década? Porquê?

image A imagem foi tirada daqui.

A revista americana, The Chronicle Review, fez a pergunta, que está no título deste post, a professores de áreas diferentes e também a ilustradores.

As respostas dadas podem ser consultadas aqui.

Os artigos são escritos em inglês e vale a pena lê-los!

O filósofo Peter Singer defendeu a seguinte ideia: “A Internet libertar-te-á”.

Teremos boas razões para pensar que essa ideia é verdadeira?

Filosofia aplicada

Filosofia aplicada no blogue a filosofia vai ao cinema: dois casos reais de insucesso escolar para discutir o problema do livre-arbítrio. Vale a pena espreitar e pensar.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A alegoria da caverna e o Facebook: a opinião dos alunos

Facebook

Coloquei um desafio (aqui) aos meus alunos do 10º ano: turmas C, D e F. Agradeço a todos os que se empenharam e se atreveram a expressar publicamente as suas opiniões.

Os melhores trabalhos sobre o vídeo 2 , ainda que existam outros cuja leitura também vale a pena, foram realizados pelos alunos: Katayoune Shahbazkia (turma C) e David Afonso (turma D).

Ei-los:

As redes sociais virtuais são grupos ou espaços específicos na Internet que permitem partilhar dados e informações, sendo estas de carácter geral ou específico e nos mais diversos formatos (textos, arquivos, imagens fotos, vídeos, etc.). Incluem igualmente jogos, debates, testes e outros tipos de entretenimento virtuais. Embora seja um meio de interacção e comunicação que comporta inúmeras vantagens, engloba igualmente diversas desvantagens – quando usado por pessoas que possuem uma atitude acrítica (não pensam de forma coerente e apresentam ideias injustificadas).

A facilidade com que alguns indivíduos divulgam informações pessoais e aceitam como “verdades” o que lhes aparece no ecrã, passando inúmeras horas neste tipos de rede - que se torna viciante e causa dependência - são exemplos que ilustram as consequências negativas da utilização acrítica das redes sociais, em particular do Facebook. Outros aspectos negativos resultantes do mau uso das redes sociais podem ser: deficiência de interacção não-virtual, insucesso profissional e escolar, publicidade dirigida (após analise de perfis de diversas pessoas), perseguições por pessoas indesejáveis, chantagens, perda de privacidade e danos na reputação.

Na Alegoria da Caverna, Platão exprime a diferença entre a atitude crítica e acrítica, sublinhando que cada um de nós é livre de escolher ficar preso ou libertar-se. Para fazer esta diferenciação relata a história de homens que viveram desde sempre numa caverna escura, presos por correntes. Não vêem nada a não ser uma das paredes da caverna, onde são projectadas – graças a uma fonte de luz que se encontra atrás deles – figuras que provêm de objectos e pessoas que estão nas suas costas. Quando um dos prisioneiros é liberto, exposto à luz, começa por pensar que o que vê é irreal, convencido que as projecções da caverna são a vida real. Porém, ao longo do tempo, compreende que a verdade é precisamente o contrário, que as projecções não passam de ilusões, e que a realidade é fora da caverna, na liberdade. Decide voltar para persuadir os companheiros de prisão que tivera de que o que pensam não é verdade, contando-lhes a realidade, mas eles gozam com ele, não querendo acreditar no que ele diz.

Analisando esta história relatada por Platão, podemos afirmar que o prisioneiro liberto é a pessoa que pensa e age criticamente, os outros prisioneiros são os que não pensam por si próprios, presos a correntes – que são nem mais nem menos do que as suas próprias mentes quadradas e convencidas da verdade – e envoltos nas sombras, permanecendo, sem ter consciência, na ignorância.

Se examinarmos com atenção, podemos relacionar o modo acrítico com que algumas pessoas usam as redes sociais com os prisioneiros, que são igualmente possuidores de uma atitude acrítica e dogmática. A deficiência de interacção não-virtual pode ser comparada com o isolamento dos prisioneiros em relação ao mundo real. O insucesso profissional e escolar é equivalente ao facto dos prisioneiros se encontrarem embrenhados nas sombras, sem manifestarem qualquer tipo de interesse intelectual por compreender verdadeiramente o mundo que os rodeia. A publicidade dirigida, as chantagens e as perseguições (por pessoas indesejáveis que, de certa forma usaram a atitude acrítica e dogmática da vítima para a alcançar, sendo isto um género de manipulação) encaixam perfeitamente na ideia das pessoas estarem a ser manipuladas e enganadas, tal como os prisioneiros que são levados a pensar que o mundo real é apenas o espaço que eles conhecem da caverna.

As relações sociais podem ser bem mais difíceis no mundo real que no virtual. Mas não será preferível a verdade à ilusão?

Katayoune Shahbazkia (turma C)

Se admitirmos que os prisioneiros descritos na Alegoria da Caverna são semelhantes a nós, podemos estabelecer algumas relações entre o modo como algumas pessoas usam as recentes descobertas tecnológicas e a situação dos prisioneiros. Por exemplo, o uso do computador para aceder às redes sociais.

Actualmente, as redes sociais são usadas para diversos fins. Por exemplo, para manter contacto com as pessoas que têm uma localização geográfica muito distante, para comunicar sobre os mais variados assuntos, para jogar os vários jogos, etc. Este meio também pode ser usado – de forma muito eficaz - pela comunicação social e outras organizações para transmitir determinadas notícias ou petições relacionadas a determinado assunto.

De acordo com esta fonte, seis anos após a criação do Facebook, o número de utilizadores já chega aos 400 milhões. Esta rede social teve,  desde o início da sua criação, uma grande adesão. Todavia, apesar das redes sociais poderem ser bem utilizadas, podem também ter um impacto negativo na vida das pessoas, se elas passarem aí demasiado tempo e deixarem de conviver presencialmente com os outros. Estes utilizadores podem vir a sofrer de vários problemas a nível social e psicológico.

Algumas pessoas aceitam acriticamente a informação que lhes é transmitida nestas redes, não se questionando acerca da sua veracidade. Deste modo, podemos comparar a situação dos prisioneiros - que estão presos com correntes de metal e pensavam que as sombras eram a realidade – descrita por Platão na Alegoria da Caverna com o modo como algumas pessoas utilizam o Facebook. Neste caso, não estão presas por correntes de metal, mas pela ignorância, pela falta de espírito crítico, pelos preconceitos, etc.

Os utilizadores do Facebook partilham informações pessoais e fotografias no seu perfil e adicionam “amigos”, alguns deles conhecidos apenas na Internet, sem pensarem que podem estar a praticar acções cujas consequências na sua vida real podem ser graves: serem vítimas de crimes como a invasão da privacidade, a pedofilia, entre outros.

David Afonso (turma D)

A alegoria da caverna e a televisão: a opinião dos alunos

A alegoria da caverna e a televisão

Coloquei um desafio (aqui) aos meus alunos do 10º ano: turmas C, D e F. Agradeço a todos os que se empenharam e se atreveram a expressar publicamente as suas opiniões.

Os melhores trabalhos sobre o vídeo 1, ainda que existam outros cuja leitura também vale a pena, foram realizados pelas alunas:  Alina Dahmen (turma C) e Filipa Santos (turma D).

Ei-los:

O vídeo “Mito da Caverna – por Maurício de Souza” retrata uma realidade que pode identificar-se com o que acontece nos dias de hoje.

Os três velhos deste vídeo ocupavam a sua vida a observar a sombra das pessoas e dos animais que passavam à frente da parede da caverna, tal como os presos da Alegoria da Caverna viam as sombras projectadas dos objectos que passavam atrás das suas costas. Estes velhos (ou os prisioneiros da alegoria da caverna) assumiam como realidade todas as sombras que viam passar e não pensavam sequer que existisse qualquer coisa diferente para conhecerem.

A vida deles passava-lhes “à frente dos olhos”, sem que eles participassem activamente nela. Podem, portanto, ser considerados “espectadores da vida” (tal como Maurício de Souza refere). Por pensarem conhecer toda a realidade, ridicularizaram e perseguiram o seu “salvador” por este lhes querer mostrar a verdadeira vida e a realidade, ou seja, o exterior da caverna, os objectos e os seres vivos em três dimensões, aqueles que davam origem às sombras.

Era mais fácil para eles continuarem na ignorância do que fazer o esforço para alcançar o conhecimento e questionar as sombras, a ilusão vivida. Esses “prisioneiros das sombras”, semelhantes aos prisioneiros da caverna de Platão, representam todas as pessoas que dependem da televisão e que preferem aceitar os “conhecimentos” transmitidos por esta a pensarem por si próprios. Na maior parte das vezes, os espectadores nem se questionam se estes conhecimentos são ou não verdadeiros. A televisão tem, também, grande poder de influência. Se existem dois produtos alimentares de diferentes marcas, por exemplo um azeite, e uma das marcas tiver publicidade em vários canais televisivos, o outro produto - de uma marca menos conhecida mas com ingredientes de melhor qualidade - venderá menos. Se uma pessoa, diante os dois produtos, tiver de decidir qual deles comprar, provavelmente, escolherá o primeiro, pois este é “aconselhado” pela televisão. A publicidade é apenas um dos muitos exemplos do poder da televisão. Esta, além de informar, pode também manipular, se não adoptarmos um ponto de vista crítico.

Alina Dahmen (turma C)

Platão, filósofo grego, na Alegoria da Caverna, afirma que os prisioneiros são semelhantes a nós. Significa que, tal como os prisioneiros, também nós confundimos a aparência com a realidade e julgamos ser verdadeiro o conhecimento que  é, na realidade, falso. A diferença reside no facto de nós não estarmos presos da mesma maneira que os prisioneiros descritos por Platão estão, visto que nos encontramos presos psicologicamente, e não fisicamente.

Na Alegoria da Caverna, Platão descreve um grupo de homens que se encontram acorrentados no interior de uma habitação subterrânea, onde tudo o que conseguem ver são sombras e, por isso mesmo, julgam que estas são a realidade, dado que esta é a única a que têm acesso. Esses prisioneiros representam os indivíduos que, na nossa sociedade, têm uma atitude acrítica e dogmática. As sombras, tidas ilusoriamente como a realidade, correspondem às crenças que a maior parte de nós possui e julga serem incontestáveis.

Um dos prisioneiros consegue libertar-se, caminhando em direcção à luz: o conhecimento. Tem, no início, muita dificuldade em olhar para a luz, mas tenta com muito esforço habituar-se a ela. Falando, filosoficamente, ele passou a ser capaz de pôr em causa as crenças, que antes possuía e aceitava acriticamente, e procurou uma justificação racional para estas.

Quando o prisioneiro liberto regressa à caverna, não é bem aceite pelos outros. Estes consideram-no um louco e poderiam até tentar matá-lo, diz Platão. Isto acontece porque eles estão convencidos que conhecem a realidade e possuem a verdade e, por isso, não se sentem à vontade quando alguém os tenta chamar à razão, como fez o prisioneiro já solto.

Este texto, escrito por Platão, faz-nos pensar que se optarmos por um ponto de vista filosófico, não seguiremos a opinião da maioria só porque é mais fácil e não requer qualquer esforço da nossa parte, mas sim pensaremos pela nossa cabeça justificando racionalmente as nossas ideias.

Depois de ter feito um pequeno resumo da Alegoria da Caverna e uma breve interpretação da mesma, posso então dizer que o tema que escolhi foi o do artista brasileiro Maurício de Souza que criou uma pequena banda desenhada ("As Sombras da Vida"). Ele compara os prisioneiros com as pessoas que se tornam dependentes da televisão e acabam por confundir as imagens televisivas com a sua vida. Neste caso, as pessoas aceitam como verdadeira uma ''realidade imaginária'', artificial e programada com o objectivo, muitas vezes, de manipular as suas ideias e emoções. Vivem a vida dos personagens em vez de viverem a sua própria vida.

Podemos estabelecer uma relação entre o modo como algumas pessoas usam as recentes descobertas tecnológicas, nomeadamente a televisão,  e a situação dos prisioneiros. Tal como Platão refere, há dois caminhos possíveis: deixar-se levar pela fantasia e pela ilusão, aceitando, sem reflectir, o conhecimento que nos é transmitido ou, então, esforçar-nos por obter conhecimentos que nos permitam analisar criticamente a informação transmitida. Cabe a cada um de nós escolher.

Filipa Santos (turma D)

sábado, 27 de novembro de 2010

Quem é que está contra o Contra?

De acordo com esta notícia do jornal Público, o programa da RTP Contra-Informação, que existe há quinze anos, vai acabar. Sinal da crise, sinal dos tempos políticos que correm ou ….?

É caso para dizer :( 

Vai fazer-nos  muita falta. Às vezes a realidade é tão triste que rir é mesmo o melhor remédio!

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A resposta do determinismo moderado (4)

Acerca dos argumentos apresentados pelo determinismo moderado e de possíveis objecções a esta teoria pode ler aqui e aqui.

A resposta do libertismo (3)

Os libertistas resolvem o conflito entre o livre-arbítrio e o determinismo rejeitando o determinismo. A sua ideia mestra é que as pessoas são especiais. A marcha da ciência, subjugando os fenómenos observados a leis sem excepções, está limitada ao domínio não humano. Para os libertistas, a ciência é boa naquilo que consegue alcançar, mas nunca conseguirá prever completamente o comportamento humano. Os seres humanos, e só os seres humanos, transcendem as leis da natureza: são livres.

(…) Alguns libertistas tratam este problema postulando um tipo especial de causalidade que só os seres humanos têm, a chamada causalidade do agente. A causalidade mecânica comum, o tipo de causalidade que se estuda na Física e nas outras ciências puras, obedece a leis. As causas mecânicas são repetíveis e previsíveis: se repetir a mesma causa, uma e outra vez, é garantido que o mesmíssimo efeito ocorre de cada vez. A causalidade do agente, por outro lado, não obedece a leis. Não há como dizer de que modo um ser humano livre irá exercer a sua causalidade do agente. A mesmíssima pessoa em circunstâncias exactamente semelhantes pode, por causalidade do agente, causar coisas diferentes. Segundo a teoria da causalidade do agente, o leitor age livremente quando 1) a sua acção não é causada no sentido comum, mecânico, mas 2) a sua acção é causada por si – por causalidade do agente.”

Theodore Sider, Livre arbítrio e determinismo, (capítulo 6), págs. 153-155.

Nota: Neste blogue pode também ler sobre os argumentos a favor do libertismo (aqui e aqui) e objecções a esta teoria.

A resposta do determinismo radical (2)

A estratégia mais simples para resolver este conflito é rejeitar uma das crenças que o produzem. Podemos rejeitar o livre-arbítrio ou rejeitar o determinismo.

À rejeição do livre-arbítrio perante o determinismo chama-se determinismo radical (…).

Será que podemos viver com esta filosofia deprimente? Os filósofos têm de procurar a verdade, por mais difícil que esta seja de aceitar. Talvez o determinismo radical seja uma dessas verdades difíceis. Os deterministas radicais poderiam tentar «minimizar os estragos», argumentando que a vida sem liberdade não é tão má como se poderia pensar. A sociedade poderia ainda punir os criminosos, por exemplo. Os deterministas radicais têm de negar que os criminosos merecem punição, visto que os crimes não foram cometidos livremente. Mas podem dizer que a punição tem ainda uma utilidade: punir os criminosos afasta-os das ruas e desencoraja os crimes futuros. Ainda assim, aceitar o determinismo radical é quase impensável. Tão-pouco é claro que púdessemos deixar de acreditar no livre-arbítrio ainda que quiséssemos fazê-lo. Se o leitor encontrar alguém que afirma acreditar no determinismo radical, eis uma pequena experiência a ensaiar. Dê-lhe um murro na cara com muita força. Depois tente convencê-lo a não o culpar. Afinal, segundo ele, o leitor não teve escolha senão esmurrá-lo! Prevejo que terá muita dificuldade em convencê-lo a praticar o que prega.”

Theodore Sider, Livre arbítrio e determinismo, (capítulo 6), págs. 152 à 153.

Formulação do problema do livre-arbítrio (1)

Enigmas da existência

Para saber mais sobre o livro, ver aqui.

Compreender algumas das principais teorias filosóficas (já estudadas nas aulas) sobre o problema do livre-arbítrio e discutir os argumentos apresentados para as defender, pode ser mais fácil do que parece.

Experimentem a ler os posts seguintes (aconselho, vivamente, aos meus alunos que o façam antes do próximo teste), onde transcrevo passagens do excelente livro “Enigmas da existência” de Earl Conee e Theodore Sider e, no final, verificarão como o discurso filosófico pode ser claro, acessível e, imaginem só, até ter sentido de humor!

“Todos pensamos que temos livre arbítrio. Como poderíamos não pensar? Renunciar à liberdade significaria deixar de fazer planos para o futuro, pois de que adianta fazer planos se não temos a liberdade para mudar o que acontecerá? Significaria renunciar à moralidade, pois só quem age livremente merece censura ou castigo. Sem liberdade percorremos caminhos predeterminados, incapazes de controlar os nossos destinos. Uma vida assim não vale a pena.

No entanto, a liberdade parece entrar em conflito com um certo facto evidente. Por incrível que pareça, este facto não é segredo; na sua maioria as pessoas estão perfeitamente cientes dele (…).

Eis o facto: todo o acontecimento tem uma causa. Este facto é conhecido como «determinismo».

(…) A nossa crença no determinismo é bastante razoável porque todos vimos a ciência ser bem-sucedida, uma e outra vez, na procura das causas subjacentes às coisas. As inovações tecnológicas devem a sua existência à ciência: arranha-céus, vacinas, naves espaciais, a Internet. A ciência parece explicar tudo o que observamos: a mudança das estações, o movimento dos planetas (…). Dado este registo de êxitos, esperamos razoavelmente que a marcha do progresso continue; esperamos que a ciência venha a dada altura descobrir as causas de tudo.

A ameaça à liberdade vem quando nos apercebemos de que esta marcha acabará por nos apanhar. Do ponto de vista científico, as escolhas e os comportamentos humanos são apenas uma parte do mundo natural. Como as estações, os planetas, as plantas e os animais, as nossas acções são estudáveis, previsíveis, explicáveis, controláveis. É difícil dizer quando terão os cientistas aprendido o suficiente sobre o que faz os seres humanos funcionar, de modo a prever tudo o que fazemos, se é que se chegará aí. Mas independentemente de quando se irá descobrir as causas do comportamento, o determinismo garante-nos que essas causas existem.

É difícil aceitar que as nossas próprias escolhas estão sujeitas a causas. Suponhamos que fica sonolento e se sente tentado a pousar este livro. As causas tentam fazê-lo dormir. Mas resiste-lhes! É forte e continua a ler mesmo assim. Terá frustrado as causas e refutado o determinismo? Claro que não. O continuar a ler tem a sua própria causa. Talvez o seu amor pela metafísica supere a sonolência. Talvez os seus pais o tenham ensinado a ser disciplinado. Ou talvez seja apenas teimoso. Seja qual for a razão, houve uma causa.

Pode responder: «Mas não senti qualquer compulsão de ler ou de não ler; simplesmente decidi fazer uma outra coisa. Não senti qualquer causa.» É verdade que não sentimos que muitos pensamentos, sentimentos e decisões são causados. Mas, na verdade, isso não põe em causa o determinismo. Por vezes as causas das nossas decisões não são conscientemente detectáveis, mas existem ainda assim. Algumas causas do comportamento são funções pré-conscientes do cérebro, como ensina a Psicologia contemporânea, ou talvez mesmo desejos subconscientes, como pensava Freud. Outras causas de decisões podem nem sequer ser mentais. O cérebro é um objecto físico incrivelmente complicado, e pode «desviar-se» para esta ou aquela direcção em resultado de certos movimentos das suas partes mais minúsculas (…). Não podemos esperar ser capazes de detectar todas as causas das nossas decisões apenas por introspecção (…).

Duas das nossas crenças mais arreigadas, a nossa crença na ciência e a nossa crença na liberdade e na moralidade, parecem contradizer-se. Temos de resolver este conflito.”

Theodore Sider, Livre arbítrio e determinismo, (capítulo 6), págs. 145 à 151.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

A data da greve geral

Creio que a greve geral pode ser justificada por diversas boas razões e, por isso, farei greve amanhã.

Contudo, discordo da data. Amanhã é quarta-feira e em breve (a 1 a 8 de Dezembro) existirão dois feriados que calham à quarta-feira. Assim, num curto espaço de tempo haverá três quartas-feiras sem aulas, sem consultas médicas e sem outras actividades que se costumam realizar nesse dia da semana. Por exemplo: uma turma que tenha aula de uma certa disciplina à quarta-feira ficará com menos três aulas do que uma turma que tenha essa aula noutro dia. O facto de os sindicatos não terem marcado a greve geral para outro dia da semana mostra que não estão muito preocupados com a produtividade nem com o desenvolvimento do país.

Aliás, essa falta de preocupação também caracteriza o actual governo (e caracterizou os anteriores). Caso contrário, alguns feriados já teriam sido abolidos, pois é manifesto que há demasiados feriados e que muitos deles já não têm nenhum simbolismo nem função social (muitas vezes as pessoas nem sabem porque é que é feriado). E não haveria também tantas tolerâncias de ponto.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Refutação humorística da homeopatia

Em Portugal muitas pessoas, entre as quais um número considerável de professores e de alunos, acreditam em pseudociências como a astrologia e a homeopatia.

Neste vídeo, o cientista e humorista David Marçal explica com humor e inteligência porque é que essas pessoas deviam rever a sua crença na homeopatia.

 Via

 

Noutra ocasião, o mesmo David Marçal apontou as baterias à charlatanice da moda: as ridículas pulseiras quânticas. Aqui.

sábado, 20 de novembro de 2010

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A importância da discussão

Diálogo

Ontem foi Dia Mundial da Filosofia. Uma das formas de o comemorar teria sido partilhar ideias e  discutir opiniões: o que muitas  pessoas em Portugal não fazem, nem valorizam.

Constato com  frequência - por exemplo na política e na escola - que a salutar divergência de pontos de vista é interpretada como ataque pessoal, arrogância, agressividade, atentado à estabilidade política e ao poder instituído, desrespeito pela autoridade (seja ela de que natureza for) exibicionismo e por aí adiante. Contudo,  projectar preconceitos e temores no interlocutor para o desqualificar, em vez de argumentar, chama-se desonestidade intelectual e não discussão.

O que importa numa discussão é analisar se temos boas razões  para aceitar um determinado ponto de vista ou se, pelo contrário, temos boas razões para o refutar. E isto só é possível se ouvirmos e analisarmos racionalmente os argumentos dos outros.

sábado, 13 de novembro de 2010

Dois desafios: escolham um!

Segundo Platão, os prisioneiros descritos na alegoria da caverna são semelhantes a nós.

Se admitirmos a verdade desta ideia, será que podemos estabelecer alguma relação entre o modo como algumas pessoas usam as recentes descobertas tecnológicas - a televisão, o computador (as redes sociais e os jogos, por exemplo) e a situação dos prisioneiros? Porquê?

Escolham o tema de um dos vídeos e argumentem!

Informação aos alunos: a data limite para o envio do comentário é dia 24 de Novembro. Como vos disse, só publicarei os vossos comentários depois desta data.

Bom trabalho!

Nota: Sobre a alegoria da caverna e a televisão pode ler, no Dúvida Metódica, aqui.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A greve dos alunos

Vale a pena ler estas sábias palavras sobre a greve dos alunos. Por exemplo: os alunos que percebem quais são os seus verdadeiros interesses não gritam “abaixo os exames”.

No blogue Um Mundo Infestado de Demónios.

sábado, 6 de novembro de 2010

Indiscrições do sucesso

“No que diz respeito a teorias políticas e filosóficas, bem como a pessoas, o sucesso revela falhas e fraquezas que o fracasso poderia ter escondido da observação.”

John Stuart Mill, Sobre a Liberdade, Lisboa, Edições 70, 2006,  pág. 30.

Indisciplina na universidade

Ultimamente ouvi várias histórias deste género:

«Uma professora universitária que conheço, experiente, competente, dinâmica, desempoeirada e, além disso, pessoa brilhante e de grande qualidade moral, anda desanimadíssima dizendo que não pode mais com muitos dos alunos que tem agora. Conversam continuamente nas aulas, não ligam nenhuma às advertências, não sabem coisas elementares nem mostram interesse em saber e são até insolentes e grosseiros. De tal modo que já uma vez ou outra abandonou a aula por não poder suportar mais o ambiente.» (Via)

De quem é a culpa?

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Duas experiências estéticas distintas

Este post é dedicado aos meus alunos do 11º C.

Já observei várias vezes, ontem numa das minhas turmas foi apenas mais uma, que muitos alunos (talvez a maioria) tendem a rejeitar certo tipo de música, por exemplo jazz e música clássica. Consideram-na - cito o que já ouvi – antiquada e pouco adequada aos gostos musicais da juventude actual. Em suma, gostos de pessoas mais velhas, sem qualquer interesse…

Bem, só há um facto curioso: se os jogos  de computador ou os filmes tiverem como banda sonora essa enfadonha música clássica, então aí, o que antes era uma experiência estética pouco suportável (ou mesmo insuportável), torna-se algo não só audível como até susceptível de ser apreciado.

Oiçam as duas músicas, vejam as imagens dos vídeos seguintes e expliquem-me qual é a diferença?

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O valor da disciplina – a opinião de um pai sensato

“Uma professora brava”: Crónica do jornalista João Miguel Tavares, descoberta no blogue A Educação do meu Umbigo. Vale a pena ler e reler.

«Eu ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente a nova professora da minha filha mais velha, mas já gosto dela por antecipação. Três dias depois de ter entrado para a primária, a Carolina declarou solenemente: “A minha professora é brava”. Brava?!?, perguntei eu. “Sim, brava. Ela não me deixa espreguiçar, ela não me deixa bochechar [a Carolina queria dizer ‘bocejar’], ela não me deixa beber água [a Carolina queria dizer ‘ela não me deixa interromper a aula para fazer o que me apetece’]. É muito brava”.

Eu, que estava com algum receio de colocar a Carolina no ensino público, respirei de alívio. “Ufa, parece que lhe saiu a professora certa”, comentei com a minha excelentíssima esposa. Receava que lhe tivesse calhado alguém que falasse com ela como a ministra Isabel Alçada falou connosco no famoso vídeo de início do ano lectivo: como se o nosso cérebro estivesse morto e todo o acto de aprendizagem tivesse de ser um desmesurado prazer.

A Carolina vinha de um infantário fantástico, que tem feito maravilhas pelos nossos filhos, mas onde era mais mimada do que o menino Jesus no presépio. Ora, chega uma fase na vida em que as crianças têm de perceber o que significa a disciplina, o esforço, a organização, o silêncio, o saber estar numa sala de aula, e toda uma vasta parafernália de actividades que não são tão agradáveis como comer Calippos de morango ou gerir o guarda-roupa das Pollys – mas que ainda assim são essenciais para viver em sociedade.

A minha filha está na idade certa para aprender que tem a obrigação de gastar 20 minutos diários a fazer o trabalho de casa. Para perceber que uma irmã mais velha tem mais privilégios mas também mais deveres do que os seus irmãos. Para compreender que com muito poder vem muita responsabilidade (sábias palavras do tio do Homem-Aranha). É essencial que estes valores – que atribuem o devido mérito à liberdade e ao esforço individual – estejam alinhados entre a casa e a escola.

Isso nem sempre acontece. A nossa escola passou num piscar de olhos da palmada no rabo à palmadinha nas costas. Ninguém tem saudades da palmatória, mas quando perguntam aos pais o que eles mais desejam para a escola dos seus filhos, a resposta costuma ser esta: regras claras e maior exigência. Os professores bravos fazem muita falta. Hoje a Carolina protesta. Amanhã irá agradecer-lhe.»

Tesouros diante do nariz

“Plínio, o Jovem, observou que as pessoas viajam longe para ver coisas que, se estivessem debaixo dos seus narizes, seriam negligenciadas e desprezadas. Isto sugere que devíamos habitar a nossa vida como viajantes, curiosos e alerta, procurando a estranheza nas coisas, por forma a vê-las pela primeira vez.”

A. C. Grayling, O significado das coisas, Lisboa,  Gradiva, 2002,pág. 242.

Música mesmo, mesmo a condizer: After the rain, de John Coltrane.

domingo, 31 de outubro de 2010

A verdade prevalece?

xkcd a verdade e a mentira O cartoon foi tirado daqui.

A democracia é, nas palavras atribuídas a Winston Churchill,  “o pior sistema político, com excepção de todos os outros”. A liberdade de expressão é uma das condições para a existência de um regime democrático. Contudo, como se pode verificar nos meios de comunicação social, a fronteira entre a informação e a manipulação nem sempre é clara. Por vezes, as notícias têm o propósito de servir interesses que nada têm a ver com a verdade. Ocultam-se  intencionalmente determinados factos ou  exploram-se os sentimentos e a ignorância das pessoas em relação a certos assuntos.

O filósofo Stuart Mill considerou que, embora a verdade possa não prevalecer contra o uso da força,  “uma opinião é verdadeira, pode ser extinta uma, duas ou até mais vezes, mas no decorrer do tempo haverá geralmente pessoas que a redescubram, até algum dos seus ressurgimentos calhar numa altura em que, devido a circunstâncias favoráveis, escape à perseguição até ter adquirido ímpeto suficiente para aguentar todas as tentativas subsequentes de a suprimir.”

Porém, em democracia, onde pode existir um livre confronto de opiniões,  a verdade não deveria prevalecer sobre a mentira mais rapidamente e sem tantos entraves?

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Links filosóficos

Páginas Amarelas vá pelos seus dedosO blogue Páginas de Filosofia publicou uma extensa lista de ligações para sítios de filosofia. Alguns são mais interessantes que outros, mas trata-se de uma lista muito útil. Clique aqui e, como se dizia a propósito das Páginas Amarelas, “vá pelos seus dedos”.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Mais cinema: Cães Vadios


Na sessão de hoje do Clube de Cinema da ESPR pode ver, às 17 horas, o filme "Cães Vadios" de Marziyeh Meshkini. Mais informações aqui, no blogue do clube.


terça-feira, 26 de outubro de 2010

Os líderes políticos, a preguiça e a obediência

 poder01quino

Cartoon da autoria de Quino.

A actual situação política - as fotografias que observei num jornal de hoje e um certo sentimento de descrença e de cepticismo em relação ao futuro – explicam a escolha do texto a seguir citado. Cabe ao leitor avaliar se as ideias a seguir transcritas têm, nem que seja remotamente, algo a ver com a realidade.

«Tanto Aristóteles como Cícero acreditavam que ninguém podia ser bom chefe se não tivesse antes aprendido a obedecer. Esta opinião vigora ainda no seio dos partidos políticos, onde, para trepar o pau ensebado da ambição, é necessário primeiro obedecer às ambições partidárias. Poder-se-ia perguntar se a capacidade de adaptar as opiniões próprias e ser-se conformista são qualidades desejáveis num chefe, mas um cínico diria que, porque na política os princípios são um estorvo e a hipocrisia uma virtude, poderá ter de assim ser (…).

Alguns dizem que um chefe que seja amável, revele consideração e esteja disposto a dar o exemplo será seguido de bom grado e lealmente. Mas também é verdade, como Homero diz, na tradução de Alexander Pope, que “o chefe que se confunde com as hostes vulgares/Perde-se nas massas da matéria comum”. (…) Contudo, espíritos igualmente sábios notam que, quando o chefe é obrigado – como tantas vezes sucede – a tomar decisões impopulares e executar acções desagradáveis, aquilo que era obediência leal e voluntária transforma-se num maior descontentamento, quando o chefe não tem com os seus seguidores uma relação meramente pragmática.

Segundo algumas opiniões, a principal razão por que a história está juncada de demagogos é a preguiça e a fraqueza das massas (…). Colectivamente, as pessoas parecem apreciar um chefe firme, um timoneiro, um Führer. Pensam que a sua mão férrea as colocará ao abrigo de uma maior degradação – que todas as gerações crêem iminente – da sua ordem social, moral e económica, cujo período áureo ocorreu no passado (ou talvez tenha coincidido com o das suas infâncias).»

A. C. Grayling, O significado das coisas, Lisboa, 2002, Edições Gradiva, pp. 223-225.

sábado, 23 de outubro de 2010

A vida real ou virtual?

O modo como as pessoas, em particular as crianças, utilizam a Internet e os computadores pode estar a alterar não só o funcionamento do cérebro humano como a interacção social. Quais são os aspectos da vida quotidiana em que essas alterações são notórias?

A resposta a esta questão pode, eventualmente, ser encontrada se o caro leitor  reflectir acerca do que acontece consigo e com algumas das pessoas que o rodeiam.

domingo, 17 de outubro de 2010

A autêntica educação para a cidadania

A autêntica educação para a cidadania não é a “catequese” politicamente correcta que pulula nas escolas portuguesas, mas sim um bom ensino da Matemática, da Filosofia, da Física, do Inglês,  etc.  No “etc” incluem-se disciplinas como a Química, a História, o Português ou a Biologia, mas não disciplinas sem conteúdos, como, por exemplo, Área de Projecto.

Argumentos a favor dessa ideia aqui.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O modelo de avaliação dos professores: a opinião de Rosário Gama

A directora da escola Secundária Infanta D. Maria em Coimbra, a escola pública que obteve a melhor média nos exames nacionais (em terceiro lugar da lista do ranking), apresenta algumas críticas ao modelo de avaliação dos professores agora em vigor. Pode lê-las aqui.

Vale a pena reflectir sobre os motivos que levam a directora desta escola a contestar o actual modelo. E, também, perguntar-nos como poderá este tipo de avaliação do desempenho dos professores contribuir para uma melhoria da qualidade – em termos científicos e pedagógicos - do ensino em Portugal.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Os livros e as escolas

AntinooA escultura, de um autor anónimo, retrata o jovem Antínoo.  Foi descoberta neste sítio (que vale mesmo a pena espreitar).

“O verdadeiro lugar do nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo: as minhas primeiras pátrias foram os livros. Num grau inferior as escolas. (…) A escola de Terêncio Scauro, em Roma ensinava mediocremente os filósofos e os poetas, mas preparava bastante bem para as vicissitudes da existência humana: (…) cada um enredado nos estreitos limites do seu saber, desprezava os colegas que, tão estreitamente como eles, sabiam alguma coisa. Estes pedantes enrouqueciam em disputas de palavras. As querelas, as intrigas e as calúnias familiarizaram-me com o que eu devia encontrar depois  em todas as sociedades em que vivi (…).”

Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, Editora Ulisseia, Lisboa, 1997, pág. 34.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Cinema na ESPR: A ONDA

filme a ondaNa próxima quarta-feira, dia 13 de Outubro, o Clube de Cinema da Escola Secundário de Pinheiro e Rosa exibe o filme A ONDA, de Dennis Gansel.

Não vi o filme, mas, a avaliar pelo trailer e pela sinopse, parece ser muito interessante.

Sinopse:

Alemanha, nos dias de hoje. No âmbito da Área de Projecto, o professor de liceu Rainer Wenger (Jurgen Vogel) propõe uma experiência, para explicar aos seus alunos como é que funcionavam os governos totalitários. Começa assim um jogo de personagens, cujos resultados serão trágicos. Ao fim de algum tempo, o que começou com inofensivas noções sobre disciplina e vivência em comunidade transforma-se num verdadeiro movimento: "A Onda". Ao terceiro dia, os estudantes começam a ostracizar-se e a ameaçarem-se uns aos outros. Quando o conflito finalmente estala em violência, o professor decide interromper a experiência. Mas é demasiada tarde. "A Onda" está fora de controlo...

Ficha Técnica:

Realização:  Dennis Gansel
Com:  Jürgen Vogel, Frederick Lau, Max Riemelt
Género: Drama
Distribuição:  Ecofilmes/Vitória Filme
Classificação: M/16
Alemanha, 2008
Duração: 101 minutos
Data de estreia nacional: 8 de Janeiro de 2009

Para mais informações contactar os professores André Ramos e Sara Carvalho, do Clube de Cinema.