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quinta-feira, 27 de março de 2014

Futuras Lições

Eis Algumas páginas do futuro 50 LIÇÕES DE FILOSOFIA, 11.º ANO.

Numa delas encontra-se uma fotografia do quadro “A incredulidade de São Tomé”, de Caravaggio, e uma legenda relacionando São Tomé e o seu célebre “ver para crer” com o empirismo.

Caravaggio São Tomé ver para crer

“Quando disseram a São Tomé que Jesus Cristo tinha ressuscitado dos mortos, ele respondeu que só poderia acreditar nisso depois de o ver com os seus próprios olhos e de tocar nas suas feridas. «Ver para crer» diria São Tomé. Como poderia ele saber se Jesus Cristo estava outra vez entre os vivos, sem o ter visto e sem ter alguma vez encontrado alguém que tenha ressuscitado? Os empiristas, como David Hume, também pensam que, a confiar em algo, só pode ser nos nossos sentidos.”

terça-feira, 11 de março de 2014

Exemplos de inferências causais

"Quando lanço um pedaço de madeira seca numa lareira, o meu espírito é imediatamente levado a conceber que ele vai aumentar as chamas, não que as vai extinguir. Esta transição de pensamento da causa para o efeito não procede da razão […]. E como parte inicialmente de um objeto presente aos sentidos, ela torna a ideia ou conceção da chama mais forte e viva do que o faria qualquer devaneio solto e flutuante da imaginação."

  “(...) por muito que se pense no arrefecimento da água, nunca deduziremos a sua congelação e aquele que nunca tiver visto gelo, achará absurdo que a água ao arrefecer se torne dura e sólida”.

David Hume, «Investigação sobre o Entendimento Humano», in Tratados Filosóficos I, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2002.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Sol vai nascer amanhã? Não podemos saber!

«(…) a minha experiência de regularidades no passado é tomada como justificação de crenças acerca de coisas de que não tenho experiência. É importante notar que este tipo de raciocínio é apresentado muitas vezes como relativo apenas ao nosso conhecimento do futuro, o que não é correto. Os argumentos indutivos dizem respeito ao futuro, ao presente e ao passado (…)

É importante que estejamos cientes da natureza radical da tese de Hume. Ele argumenta que todo o raciocínio indutivo é inválido: não temos razões a priori ou empíricas para aceitar crenças baseadas em inferências indutivas. Não temos justificação para acreditar que o Sol vai nascer amanhã. O ponto crucial é este: se eu afirmar que o Sol vai nascer amanhã e o meu amigo afirmar que ele se vai transformar num ovo estrelado gigante, a minha crença não é, de acordo com Hume, mais justificada do que a do meu amigo.

Claro que eu não tenho amigo algum que acredite nisso, e Hume tem uma explicação para esse facto. Devido ao “costume” ou ao “hábito”, todos pensamos em termos indutivos. Contudo, este tipo de pensamentos não é justificado; resulta apenas de certas disposições psicológicas que criaturas como nós possuem: “não é, portanto, a razão que é o guia da vida, mas sim o costume” (…). No seu Tratado de 1739, Hume sustenta esta tese fornecendo uma explicação causal rudimentar para o facto de termos as crenças que temos (…). Os animais também têm essas disposições: são guiados pelo costume e esperam que as regularidades que experienciaram continuem. Contudo, como observa Russell (1912), a galinha a que o agricultor dá de comer todos os dias pode ser degolada amanhã. A nossa posição é análoga à da galinha: esperamos que o Sol nasça todas as manhãs tal como a galinha espera o seu alimento, mas nenhum de nós tem qualquer justificação para as nossas crenças ou comportamento.

Uma resposta comum a esta posição céptica é que sabemos que o Sol irá nascer amanhã porque temos uma explicação científica para que tal aconteça, descrevendo o movimento da Terra em relação ao Sol. Aqui, no entanto, podemos ver todo o alcance do argumento de Hume. Chegámos à nossa narrativa através de sucessivas observações astronómicas. A nossa explicação do nascer do Sol é, portanto, indutiva, pelo que está igualmente sujeita ao argumento de Hume. De acordo com Hume, o cientista não pode justificar a sua crença de que a gravidade continuará a manter os corpos celestes nas órbitas que até agora temos observado.»

Dan O´ Brien, Introdução à teoria do conhecimento, Gradiva Editora, Lisboa: 2013, págs. 227-28.

1. Esclareça, a partir de exemplos, o que são argumentos indutivos.

2. Quais são as razões que levam Hume a considerar que os argumentos indutivos não se encontram justificados nem racionalmente nem empiricamente?

3. Explique o título atribuído a este post: “Não podemos saber se o Sol vai nascer amanhã.”

4. As inferências indutivas, para Hume, baseiam-se no hábito ou costume. Explique porquê.

5. Porque motivo a explicação científica do nascimento do Sol não permite ultrapassar as objeções cépticas de Hume?

6.  O cepticismo de Hume quanto à explicação científica dos fenómenos é refutável? Como?

Hume e a relação causa-efeito

“Todos os nossos raciocínios relativos a questões de facto, defende Hume, se baseiam na relação de causa e efeito. Mas como chegamos ao nosso conhecimento das relações causais? (…) Ao olhar apenas para a pólvora, nunca poderíamos descobrir que é explosiva; é preciso experiência para saber que o fogo queima as coisas. Mesmo as mais simples regularidades da natureza não poder estabelecidas a priori porque uma causa e um efeito são dois acontecimentos totalmente diferentes e um não pode ser inferido do outro. Vemos uma bola de bilhar a mover-se na direcção de outra e esperamos que transmita movimento à outra. Mas porquê?

A resposta, obviamente, é que descobrirmos as regularidades da natureza através da experiência. Mas Hume leva a sua indagação mais além. Mesmo depois de termos a experiência das operações de causa e de efeito, pergunta, que bases existem na razão para inferir conclusões dessa experiência? A experiência apenas nos dá informação sobre ocorrências passadas: porque haveria de ser alargada a objectos futuros, que, tanto como sabemos, só se assemelham aos objectos passados na aparência? O pão alimentou-me no passado, mas que razões tenho para acreditar que o irá fazer no futuro?"

Anthony Kenny, Ascenção da Filosofia moderna, Edições Gradiva, Lisboa 2011, págs. 170-171.

A crença nas superstições implica estabelecer nexos causais entre acontecimentos diferentes que não têm qualquer relação entre si. Por exemplo:

Vi um gato preto na rua (causa) e, logo a seguir, parti um pé (efeito).
Tive negativa no teste de Filosofia (efeito) porque este foi realizado numa sexta-feira, dia 13 (causa).

Esta crença em causalidades fictícias tem um fundamento subjectivo (é uma crença irracional do sujeito) e não se baseia nem na experiência nem na razão.

Segundo Hume, as relações causais efectuadas no âmbito do quotidiano e da ciência dependem de factores psicológicos como o hábito e não têm, por isso, uma justificação racional ou empírica. Assim sendo, no âmbito do conhecimento vulgar e do científico, adquirimos a crença que a água vai aquecer com base na experiência passada.

Como é que podemos refutar esta ideia defendida por Hume? Será que podemos mostrar que as explicações científicas estão racionalmente justificadas?

Outros posts sobre a causalidade:

O problema da causalidade

A crença na causalidade é instintiva

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Uma folha de papel em branco

“Suponhamos então [uma vez que não existem ideias inatas] que a mente seja, como se diz, um papel branco, vazio de todos os caracteres, sem quaisquer ideias. Como chega a recebê-las? De onde obtém esta prodigiosa abundância de ideias (…)? De onde tira todos os materiais da razão e do conhecimento? A isto respondo com uma só palavra: da EXPERIÊNCIA. Aí está o fundamento de todo o nosso conhecimento; em última instância daí deriva todo ele.”

John Locke, Ensaio sobre o Entendimento Humano, Livro II, cap. 1, vol. 1, F.C. Gulbenkian, Lisboa, 1999, Pág. 106.

folha de papel em branco a mente

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Matriz do 5º teste de Filosofia do 11º Ano (turmas B, D, E e F)

Temas:

A resposta de Descartes ao desafio céptico. A teoria do conhecimento de David Hume. Senso comum e conhecimento científico. O problema da demarcação: o critério verificacionista e o critério falsificacionista.

Matriz do 5º teste 11 C09

Matriz do 5º teste 11 C09 - 3

terça-feira, 28 de abril de 2009

Impressões e ideias

"Hume utiliza o termo ‘percepção’ para referir quaisquer conteúdos da mente (…). As percepções ocorrem quando o indivíduo observa, sente, recorda, sente, recorda, imagina, e assim por diante, sendo que o uso actual da palavra cobre um leque muito menos vasto de actividades mentais. Para Hume, existem dois tipos básicos de percepções: impressões e ideias.

impressão táctil mão a tocar bolo

As impressões constituem as experiências obtidas quando o indivíduo observa, sente, ama, odeia, deseja ou tem vontade de algo. Hume descreve este tipo de percepções como sendo mais ‘vívido’ do que as ideias, termo com que o filósofo parece querer afirmar que as impressões são mais claras e mais pormenorizadas do que as ideias. As ideias, por sua vez, são cópias das impressões. Trata-se dos objectos do pensamento humano quando os indivíduos recordam a sua experiência ou exercitam a sua imaginação. [Como se verá, no primeiro caso são ideias simples e no segundo são ideias complexas.]

Assim sendo, neste preciso momento, por exemplo, tenho uma impressão da minha caneta a movimentar-se pela página e de ouvir alguém a virar as páginas de um livro, atrás de mim, na biblioteca. Tenho, ainda, uma impressão da textura do papel a tocar na minha mão. Estas experiências sensoriais são vívidas (…). Mais tarde, enquanto estiver a escrever estas linhas no meu computador, lembrar-me-ei, sem dúvida, deste momento e recordarei as minhas impressões. Nessa altura, estarei a ter ideias e não impressões, ideias que não serão marcadas pela mesma vividez (ou vivacidade) que caracteriza as impressões que estou a sentir neste momento e das quais as ideias serão cópias.

(…) Segundo Hume, não existem ideias inatas, todas as ideias humanas são cópias de impressões. Por outras palavras, é impossível aos seres humanos ter uma ideia de algo que não tenham primeiro experimentado enquanto impressão.3 sereias

Como lidaria, então, Hume com a capacidade de um indivíduo imaginar uma montanha dourada [ou uma sereia] embora nunca tenha visto uma e, logo, nunca tenha tido a impressão de uma? A resposta baseia-se numa distinção entre ideias simples e ideias complexas. As ideias simples derivam [directamente] das impressões. (…) As ideias complexas são combinações de ideias simples. Deste modo, a ideia de uma montanha dourada nada mais é do que uma ideia complexa composta pelas ideias mais simples de ‘montanha’ e de ‘dourado’. E estas ideias simples derivam, em última análise, da experiência tida pelo indivíduo de montanhas e de objectos dourados.”

Nigel Warburton, “Grandes livros de filosofia”, Edições 70, Lisboa, 2001, pp. 98-99.