segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Entimema: conceito e exemplos

Um entimema é um argumento que contém pelo menos uma premissa não formulada, habitualmente designada por premissa implícita. Pode-se também dizer que se trata de uma premissa subentendida ou oculta. Por exemplo: no argumento “o Heitor é advogado, logo o Heitor tem formação universitária” a premissa implícita é “os advogados têm formação universitária”. Sem esta premissa o argumento não seria válido. (Há entimemas que continuam a ser argumentos inválidos mesmo após a explicitação das premissas subentendidas, pois encerram outras incorrecções.)

No dia-a-dia os entimemas são muito frequentes. Habitualmente, o que leva alguém a não explicitar todas as premissas de um argumento é o facto de considerar que se trata de algo tão óbvio que seria monótono e inútil fazer essa explicitação. Quem está por dentro do contexto em que decorre a argumentação em causa normalmente percebe quais são as ideias subentendidas.

Contudo, o que para uma pessoa é óbvio nem sempre é óbvio para as outras. Como isso pode suscitar confusões e incompreensões (nomeadamente na discussão de assuntos polémicos como sucede com a generalidade dos problemas filosóficos), é aconselhável explicitar as premissas implícitas. Essa explicitação torna os argumentos mais claros. Assim, “Descobrir as premissas implícitas das nossas ideias ou das ideias dos filósofos é uma parte importante do trabalho filosófico.” (Dicionário Escolar de Filosofia)

Lemon limão Exemplo de um entimema.

Há anos atrás eu e um amigo íamos a percorrer uma avenida de Lisboa (Av. Almirante Reis) quando vimos um homem a comprar um limão. Disse imediatamente ao meu amigo, como se fosse uma enorme evidência: “Ele está a comprar um limão, logo é drogado”. Como o meu amigo duvidou da conclusão (achando que o facto de uma pessoa comprar um limão não é razão suficiente para concluirmos que é drogada), vi-me obrigado a explicitar as várias razões (premissas) que não tinha formulado por as achar óbvias. Ei-las:

  • Normalmente as pessoas compram mais do que um limão, mas não seria prático um toxicodependente fazer isso.
  • O sumo de limão costuma ser usado para preparar doses de heroína.
  • Aquele indivíduo tinha um certo ar pálido e macilento que caracteriza muitos toxicodependentes.
  • Aquela zona era um lugar de passagem quase contínua de toxicodependentes que iam comprar droga ao bairro da Curraleira (que na época era uma conhecida zona de tráfico).

Perante essas razões adicionais que explicitei, o meu amigo ficou convencido: “Deves ter razão”.

No entanto, mesmo reforçada com essas razões a conclusão é apenas uma consequência provável (e não necessária) das premissas – como é característico dos argumentos não dedutivos.

Embora isso não fosse provável, podia suceder que as premissas fossem todas verdadeiras e a conclusão falsa. Por exemplo: o facto de só comprar um limão podia explicar-se pela circunstância de partir de férias no dia seguinte e não querer deixar em casa produtos perecíveis; o ar pálido e macilento podia dever-se a uma doença qualquer; etc.

11 comentários:

eros thanatos disse...

No conceito de entimema há a expressão:-¨há anos atrás¨- no brasil se considera uma forma erronea tal expressão, pois quando se diz: há anos, já está explicito que é passado, o que a palavra atrás acrescida seria uma redundância para ser benigno com a falha da expressão, a menos que voces estejam usando a figura de linguagem chamada pleonasmo, diga-se de passagem, o que não acredito...

Carlos Pires disse...

eros thanatos:

Se tivesse razão isso não seria apenas verdade no Brasil.
Mas claro que o Eros não tem razão.
As redundâncias como a referida não são "erróneas", são...redundâncias. Algo que é redundante em termos gramaticais ou mesmo lógicos pode não ser redundante em termos informativos. E algumas coisas que são redundantes em termos informativos podem não ser redundantes no que diz respeito à comunicação.
Parece-me, por isso, que o seu comentário é irrelevante, para não dizer mesquinho. Não houve - já agora - nenhum outro aspeto do texto que lhe chamasse a atenção?

Anónimo disse...

Realmente irrevelante a observação de Eros, apenas tentando se impor como superior por ter percebido uma simples redundância.
Muito mais me espanta, um suposto usuário padrão da língua portuguesa "brasileira", não saber que, em seu texto, deveriam ser feitas, na sequência, as seguintes alterações:
- Vírgula após a palavra entimema;
- tirar os travessões separando a expressão entre aspas (este travessão não possui qualquer valor sintático-semântico);
- o país "Brasil" deveria ser grafado com letra maiúscula;
- a palavra "errônea" deve vir acentuada;
- a expressão "há anos" deveria vir entre aspas;
- a palavra "explícito" deveria vir acentuada;
- aspas na palavra "atrás";
- mudar a construção "a palavra atrás acrescida" - completamente sem sentido (que tal: "o acréscimo da palavra 'atrás'");
- a palavra "vocês" deveria vir acentuada;
- Sem contar os demais erros de pontuação que vou suprimir, para evitar tamanha extensão da lista.

Caro Eros, lembre-se de que quando você aponta um dedo para o outro, há quatro dedos apontando para você.
Carlos Pires, excelente texto, excelente blogue.

Parabéns pelo trabalho!

Ricardo Penna - Brasil

Anónimo disse...

Tanta coisa a apontar os erros grámaticas ou não :s
e o mais importante publicado neste blog sem sombra de dúvidas é a informação acerca dos argumentos não dedutivos.
Não se sobreponham uns aos outros.
Paz irmãos!

Paulão disse...

Eu sou brasileiro, aqui está cheio de imbecis como esse que comentou. Esse tipo se coloca numa posição superior, mas como o Anônimo acima expôs, na verdade não passa de um analfabeto.

lordundertaker disse...

Para cada purista que surge e que tenta iluminar os obscuros desvãos da incompreensão sobre determinado assunto, há uma multidão que foge a bom trote, pelo efeito indesejado da intenção do incauto sujeito.
Ao invés de iluminar, consome em chamas abrasadoras, o objeto ao qual se aferra.
Defensores da forma, em detrimento da ideia.
E sempre foi assim...
E sempre será...

Anónimo disse...

Ao menos para mim, o comentário do Eros não foi tão sem relevância assim. Não pelo comentário em si, mas pela réplica do Carlos, que me foi muito esclarecedora.

indianajaime disse...

A expressão "há anos" não remete necessariamente para o pretérito. Em rigor significa "existem anos". Há anos de boas colheitas e há anos de más colheitas. Há anos bissextos. Esta proposição tanto se refere ao passado, como ao presente, como ao futuro. Dizer há anos atrás esclarece de forma mais nítida o sentido da frase declarativa. Enfim, não é muito relevante, mas o importante é que as pessoas que visitam estas páginas e estes temas são pessoas interessadas no conhecimento, que é uma tarefa sem fim.

Ciro Giovenazzi disse...

Espanta-me ninguém ter percebido a metalinguagem nesta ligeira discussão gramatical: a expressão "há anos" no Brasil é aferida por seu caráter entimemático. Se "há anos" assume o significado de "faz anos" no português tupiniquim partimos da premissa que caminhamos impreterivelmente do agora em direção ao passado. Logo a inclusão do advérbio "atrás" (há anos atrás/faz anos atrás), que reiteraria o tempo corrido do presente ao passado, nada mais seria que uma adição óbvia, cansativa, de inútil explicitação dentro do contexto da construção léxica da frase. Partindo da premissa de que está subentendido que o trecho "há anos" refere-se ao tempo sempre atrás, dizer ¨há anos atrás" anularia o potencial entimemático da construção.

Todavia, noutras construções onde "há anos" toma outros sentidos que não o de tempo corrido (ex. existem anos bissextos) essa premissa seria falsa. Por assim, deve ser comum que outros territórios não considerem essa redundância um erro tal qual aqui (Brasil) uma vez que ela não é coesa em todo contexto possível. Concluir o termo "atrás" desnecessário à frase é apenas uma consequência provável.

Alfredo Duende disse...

Carlos Pires está errado.

«Entrámos para o euro há dez anos atrás», «Deveriam ter sido tomadas medidas adequadas há muito tempo atrás»: este tipo de frases ouve-se cada vez mais, havendo quem considere correcta a utilização da palavra atrás como forma de intensificar a ideia de passado.

Ora, expressões do tipo «há anos atrás», «há meses atrás», «há muito tempo atrás» estão incorrectas. Nem podemos sequer considerar que há uma redundância aceitável.

Nestas frases, o verbo haver significa «existir» e usa-se para indicar a existência de um período que decorreu desde o momento em que se passou a acção referida até ao momento em que a frase é proferida. O verbo haver no presente do indicativo («há») indica o tempo presente, indica o que acontece no presente (e não atrás), o que acontece ou o que existe no momento em que se está a falar: no caso da expressão «há dez anos», tal significa que no momento em que a frase está a ser proferida (hoje) existem dez anos, completaram-se dez anos desde que algo aconteceu.

Alguns exemplos:

1. Há cinco anos que não o vejo. = Existe um período de cinco anos em que não o vejo. = O período em que não o vejo é de cinco anos. = Passaram-se cinco anos durante os quais não o vi.
2. Encontrei-o há uns dois meses. = Existe um período de dois meses entre o momento actual e aquele em que o encontrei. Passaram-se dois meses desde o momento em que o encontrei.
3. Isto aconteceu há quinze dias. = Existe um período de quinze dias entre o momento actual e aquele em que o facto aconteceu. Passaram-se quinze dias desde o momento em que o facto aconteceu.


Repare-se, pois, que a utilização do verbo haver no presente do indicativo (há) indica precisamente o que acontece no momento actual, indica que no momento actual se completaram cinco anos, dois meses ou quinze dias desde que algo aconteceu. Ora, não se poderá dizer que «decorreram cinco anos atrás» ou que «se completaram dois meses atrás» ou que «se passaram quinze dias atrás».

Dito de outra forma, o verbo haver associado a expressões de tempo indica o tempo decorrido entre o momento em que algo aconteceu e o momento em que a frase é proferida ou escrita, e esse tempo não existe «atrás», existe no momento de produção da frase: «atrás», antes, o período de tempo seria diferente.

Exemplos retirados da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira: «havia dois anos que morava naquela casa», «vi há pouco o nosso vizinho», «tempo é de abolir essa lei de há dois séculos», «encontrara-o havia duas horas», «Nunca leu um livro que ele escreveu há anos (…)?»

E uma sugestão para esclarecer qualquer eventual dúvida: transformemos as frases, mantendo a ideia, e veremos que o advérbio atrás é inaceitável. Exemplos:

1. «Entrámos para o euro há dez anos (atrás).» = «Há dez anos que entrámos para o euro.»
2. «Devíamos ter tomado medidas há muito tempo (atrás).» = «Há muito tempo que devíamos ter tomado medidas adequadas.»


Assim, a frase correcta é «Entrámos para o euro há dez anos», e não «Entrámos para o euro há dez anos atrás»: quando se utiliza o verbo haver com expressões de tempo, não deverá incluir-se o advérbio atrás.

https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/artigos/rubricas/idioma/ha-anos-atras/2346

Marcio Henrique Nassif disse...

Aplauso!