domingo, 28 de dezembro de 2014

A máquina de experiências agradáveis

Ignorance is bliss Cypher filme Matrix

A máquina de experiências de Robert Nozick é uma das experiências mentais mais célebres da filosofia. É referida em imensos livros, habitualmente como objeção ao utilitarismo e à ideia de que a felicidade é o bem supremo. Chegou inclusivamente ao cinema: no filme Matrix, dos irmãos Wachowski, um homem (Cypher) pede para ser ligado à Matrix - um programa de computador muito avançado que simulava a realidade – e para lhe atribuírem uma “vida” falsa muito agradável, mas sem consciência de que não era real.

Eis a máquina de experiências nas palavras de Nozick:

«Suponhamos que havia uma máquina de experiências que proporcionaria ao leitor a experiência que desejasse. Neuropsicólogos superfixes podiam estimular o seu cérebro de maneira a pensar e sentir que escrevia um grande romance, fazia uma amigo, ou lia um livro interessante. Durante todo o tempo, estaria a flutuar numa cuba, com eléctrodos ligados ao cérebro. Dever-se-ia ligar esta máquina durante toda a vida, pré-programando as suas experiências de vida? Se está preocupado com a perda de experiências desejáveis, podemos supor que as empresas investigaram exaustivamente a vida de muitos outros. O leitor pode escolher a partir da sua imensa biblioteca ou bufete dessas experiências, seleccionando as suas experiências de vida para, digamos, os dois anos seguintes. Após dois anos, poderia passar dez minutos ou dez horas fora da cuba, para seleccionar as experiências dos seus dois anos seguintes. Evidentemente, enquanto está na cuba não saberá que ali está; pensará que tudo aquilo acontece efectivamente. Os outros podem também ligar-se e ter as experiências que quiserem, pelo que não há necessidade de estar desligado para os servir. (Ignore problemas como o de saber quem cuidará das máquinas se todos se ligarem.) Ligar-se-ia? O que mais pode ter importância para nós, além do modo como são as nossas vidas a partir de dentro? Tão-pouco se devia abster por causa dos escassos momentos de angústia entre o momento em que decide e aquele em que já está ligado. O que são alguns momentos de angústia comparados com uma vida inteira de felicidade (se é isso que o leitor escolhe), e porque sentir angústia se a sua decisão é a melhor?
O que tem para nós importância, além das nossas experiências?»

Robert Nozick, Anarquia, Estado e Utopia, trad. Vítor Guerreiro, Lisboa, Edições 70, Novembro de 2009, pp. 74-75.

Não esqueça a pergunta de Nozick: ligar-se-ia?

sábado, 27 de dezembro de 2014

Pensar de A a Z

Pensar de A a Z, de Nigel Warburton.
Tradução de Vítor Guerreiro. Revisão científica e prefácio de Desidério Murcho.
Editorial Bizâncio, Setembro de 2012, 240 pp
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Nigel Warburton Pensar de A a Z

Imagine que um colega seu afirma que uma certa ideia - por exemplo que se deve apostar na produção de vinho - é falsa pois Salazar também a defendia. O leitor compreende que há algo de errado nessa afirmação, mas tem dificuldade em explicar porquê.

E como mostrar o erro de um vizinho que nega a existência de Deus alegando que é ridículo acreditar num velho de barbas brancas sentado numa nuvem?

O livro Pensar de A a Z, do filósofo inglês Nigel Warburton, poderia dar-lhe uma ajuda. Ensinar-lhe-ia, por exemplo, que o seu colega cometeu a falácia das más companhias e o vizinho a falácia do espantalho. Com uma linguagem clara e simples, Warburton explica o que é uma falácia (um argumento que parece correto mas não é) e analisa algumas das falácias mais frequentes. Assim, a falácia das más companhias ocorre quando se rejeita uma ideia apenas porque foi defendida por alguém muito censurável (claro que Warburton não dá o exemplo de Salazar mas sim de Hitler) e a falácia do espantalho ocorre quando alguém caricatura ou distorce uma perspectiva rival para a derrubar mais facilmente. Mas essa ajuda também poderia vir, por exemplo, das páginas dedicadas à falácia democrática, à falácia do custo perdido ou à falácia de Van Gogh.

Pensar de A a Z, além das falácias, aborda vários outros tópicos importantes da chamada lógica informal: estratégias de persuasão como a culpa partilhada, o advogado do diabo e envenenar o poço; erros como a confusão entre alguns e todos, a confusão entre correlação e causa e a precisão inapropriada; e conceitos lógicos fundamentais como validade, dedução e indução.

As explicações dadas por Nigel Warburton são sempre ilustradas com exemplos muito esclarecedores e não pressupõem conhecimentos prévios, pelo que podem ser compreendidas por leitores sem formação filosófica.

Nas palavras do autor, o livro é “uma introdução ao pensamento crítico” e oferece “alguns instrumentos básicos para o raciocínio claro acerca de qualquer assunto”. A intenção é ajudar o leitor a identificar falácias e outros erros argumentativos comuns, de modo a não se enganar nem ser enganado, mas sobretudo ajudá-lo a defender melhor as suas ideias e a pensar pela sua própria cabeça.

O livro está organizado por ordem alfabética e com entradas que remetem muitas vezes para outras entradas (por exemplo, mentir remete para parcimónia com a verdade e pedantismo, por sua vez, remete para ambiguidade e retórica), pelo que pode ser lido do princípio ao fim ou começando numa entrada interessante e depois seguindo essas referências cruzadas.

Inclui ainda um “Prefácio à edição portuguesa” da autoria de Desidério Murcho, que, além de esclarecer de modo breve mas rigoroso muitos conceitos lógicos, explica a importância da lógica para a reflexão e para a argumentação.

Por isso, a leitura deste livro pode ser proveitosa para pessoas muito diferentes. Como é dito no prefácio, os tópicos que aborda estão presentes “não só na nossa vida diária, como também na nossa vida económica, científica, tecnológica, artística, religiosa, política e pessoal” e sem dominá-los “não é fácil ter uma vida humana plenamente realizada”.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Abraços sem braços

Francine é uma mulher do Burundi cujo cunhado lhe amputou os braços. Motivo? Deu à luz uma menina em vez de um menino.

Mais pormenores e fotografias aqui: How a Mother With Amputated Arms Became an Angel in Her Daughter’s Eyes.

mulher sem braços ajudado pelo filho a lavar os dentes

abraçar sem braços

How a Mother With Amputated Arms Became an Angel in Her Daughter’s Eyes

Fotografias de Martina Bacigalupo.

Turner: retrato de um pintor

Joseph Mallord William Turner (1775-1851), auto-retrato.

Eis um filme que vale a pena ver e se encontra em exibição nas salas de cinema portuguesas.

Um dos quadros de Turner que pode ser contemplado no museu Gulbenkian em Lisboa.

William Turner, "Naufrágio de um cargueiro".

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Semelhanças entre a democracia e a ciência e a filosofia

Quino Mafalda e a Borracha de apagar ideologias

Os praticantes da ciência são “capazes de ser tão baixos quanto o resto das pessoas”. Mas “o que é grandioso na ciência — como na democracia — não é o facto de ser feita por pessoas impolutas, mas o facto de ter mecanismos públicos de crítica, por cultivar a liberdade e por não aceitar o peso da autoridade sem o peso do argumento razoável, publicamente discutível. Tal como a diferença entre a democracia e a ditadura não reside no carácter dos governantes — Cavaco Silva, por exemplo, tem o perfil típico de ditadores como o Salazar — mas antes no sistema que não os deixa fazer todo o mal que gostariam de fazer, também na ciência e na filosofia analítica se instituíram sistemas de controle de erros precisamente porque a natureza humana deixa bastas vezes muito a desejar.”

Desidério Murcho, “Façanha matemática” * - http://criticanarede.com/lds_aczel.html

* Sobre o livro: O Último Teorema de Fermat: À descoberta do segredo de um problema matemático secular, de Amir D. Aczel.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O que é mais importante que a felicidade?

sound of music música no coração felicidade

«A questão da felicidade é por vezes dramatizada sob a forma de uma pergunta [da autoria de John Stuart Mill]: ‘O que preferia ser: um Sócrates infeliz ou um porco feliz?’ Claro que preferiríamos ser um Sócrates feliz, mas o que se pretende demonstrar é que ter autonomia de espírito, ter consciência do mundo, e fazer escolhas próprias é melhor, de longe, do que ser passivamente feliz em prejuízo destas coisas. É por isso que nós – ou, de qualquer forma, a maior parte de nós – coloca objeções às vias fáceis de acesso à felicidade, como seja ingeri-la sob a forma química, pois desse modo não é muito diferente do esquecimento.»

A. C. Grayling, O significado das coisas, Lisboa, 2002, Edições Gradiva, pág. 96.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Odeia a luz que começa a morrer

Um poema citado no filme "Interstellar" (uma sugestão de cinema para as férias!)

 

Não entreis docilmente nessa noite serena,
porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;
odeia, odeia a luz que começa a morrer.

No fim, ainda que os sábios aceitem as trevas,
porque se esgotou o raio nas suas palavras, eles
não entram docilmente nessa noite serena.

Homens bons que clamaram, ao passar a última onda, como podia
o brilho das suas frágeis ações ter dançado na baia verde,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E os loucos que colheram e cantaram o voo do sol
e aprenderam, muito tarde, como o feriram no seu caminho,
não entram docilmente nessa noite serena.

Junto da morte, homens graves que vedes com um olhar que cega
quanto os olhos cegos fulgiriam como meteoros e seriam alegres,
odiai, odiai a luz que começa a morrer.

E de longe, meu pai, peço-te que nessa altura sombria
venhas beijar ou amaldiçoar-me com as tuas cruéis lágrimas.
Não entres docilmente nessa noite serena.
Odeia, odeia a luz que começa a morrer.

Dylan Thomas


Tradução: Fernando Guimarães
Podem ouvir uma leitura do autor do poema:

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

A falta de consenso não impede o rigor

menina na janela de dali

Salvador Dali, Rapariga de pé à janela

Na matemática e nas ciências da natureza existem “teorias, amplamente consensuais, que a humanidade foi desenvolvendo ao longo do tempo. A diferença, no caso da filosofia, é que as teorias que temos não são consensuais: são, na verdade, especulativas. São-no por boas razões: porque não temos em filosofia o género de processo de prova ou confirmação que temos noutros domínios. Porém, a especulação pode ser feita com mais rigor ou com menos rigor; em filosofia, desenvolvemos teorias especulativas, mas muitíssimo rigorosas. E submetemos essas teorias a uma crítica tenaz, para evitar tanto quanto possível os erros. Assim, apesar da teorização filosófica ser especulativa, não se confunde de modo algum com a mera opinião subjetiva; a filosofia não é uma espécie de jornalismo das ideias.”

Aires Almeida e Desidério Murcho, Janelas para a Filosofia, Lisboa, Gradiva, Novembro de 2014, pág. 19.

Mais informações sobre o livro: Abrir Janelas.

Janelas para a filosofia de aires almeida e desidério murcho

domingo, 7 de dezembro de 2014

Pesadelo antes do Natal

Eis um filme que tive de rever por razões profissionais (as aulas de Filosofia para crianças) e que aconselho vivamente aos leitores que ainda não conheçam. Um excelente filme para adultos e crianças, a partir dos sete ou oito anos.

«O Estranho Mundo de Jack (no original em inglês: The Nightmare Before Christmas, mais tarde promovido como Tim Burton's The Nightmare Before Christmas) é um filme de animação norte-americano de 1993, dirigido por Henry Selick, produzido e co-escrito por Tim Burton. Conta a história de Jack Skellington da "Cidade do Halloween" que abre um portal para a "Cidade do Natal". Danny Elfman escreveu as músicas da banda sonora, desde da voz de Jack, bem como de outros personagens. O elenco de voz principal inclui Chris Sarandon, Catherine O'Hara, William Hickey, Ken Page e Glenn Shadix.»

Informação tirada DAQUI.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Flor do deserto: guião de análise do filme


Título original do filme: Desert Flower
De: Sherry Horman
Com: Liya Kebede, Sally Hawkins, Anthony Mackie, Timothy Spall
Género: Drama
GB, 2009, Cores,
O filme, Flor do deserto, é baseado na história da modelo somali Waris Dirie.  Ela nasceu numa família nómada da Somália  e  foi submetida a uma prática vulgar no seu país e em vários outros, chamada mutilação genital feminina ou excisão. Mais tarde, quando se tornou conhecida internacionalmente, escreveu um livro e tornou-se uma activista contra essa tradição cultural.
Após o visionamento do filme, responda às seguintes questões:

1. Dê três exemplos que ilustrem as diferenças existentes entre a cultura inglesa e a da Somália.
2. Enuncie dois juízos morais, cujo valor de verdade seja diferente para uma pessoa que aceite o código moral dominante na sociedade inglesa e uma que aceite o código moral na sociedade somali.
3. Com base em que valores da cultura somali se justifica a prática da excisão?
4. De acordo com os valores morais dominantes nos países europeus, como é avaliada, do ponto de vista moral, a prática da excisão?
5. Na sua opinião, haverá ações que possam ser moralmente boas ou más, independentemente do contexto cultural? Porquê?
6. Indique duas passagens do filme que justifiquem a seguinte afirmação: a defesa das ideias do relativismo moral e cultural conduz ao conformismo.
7. Ao condenar a prática da excisão no seu país, a modelo somali admite que os valores morais dependem apenas da cultura? Porquê?
8. A defesa dos direitos humanos e do relativismo serão compatíveis? Justifique.
9. Explique o significado do título atribuído ao filme: "Flor do deserto".
10. Gostou do filme? Explique porquê.
A professora: Sara Raposo

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Dia Mundial da Filosofia: as opiniões dos alunos

Os textos, enviados para a caixa de comentários, sobre o problema proposto no Dia Mundial da Filosofia já se encontram disponíveis, podem ser lidos AQUI.

Um obrigada a todos os alunos que participaram (do 11º A, 11º B e 10º D)!

Os autores dos dois melhores comentários - a quem se será entregue o livro "Logicomix" da Gradiva - serão conhecidos na primeira semana de aulas do 2º período. Nessa data também serão publicados neste blogue os dois textos seleccionados.