“As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar, senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento.” John Stuart Mill
terça-feira, 8 de novembro de 2016
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Formalização e identificação de argumentos (11º ano)
1. Formalize cada um dos argumentos apresentados.
2. Indique se as formas argumentativas são válidas ou inválidas.
A. Caso o sofrimento insuportável e sem esperança de cura seja moralmente errado, alguns doentes devem ser ajudados a morrer. Mas se alguns doentes devem ser ajudados a morrer, então a eutanásia deve ser legalizada. Portanto, se o sofrimento insuportável e sem esperança de cura é moralmente errado, a eutanásia deve ser legalizada.
B. Se o teu amor é autêntico, então envolve confiança e partilha. Mas o teu amor não envolve confiança e partilha. Por isso, o teu amor não é autêntico.
C. Os professores são avaliados ou o seu mérito não será reconhecido. Ora, os professores não são avaliados. Como tal, o seu mérito não será reconhecido.
D. Se X é membro da espécie humana, então tem direitos. Ora, X não é membro da espécie humana. Logo, X não tem direitos.
E. Defendemos a paz ou lutamos de armas na mão. Se defendemos a paz, não gostamos da guerra. Se lutamos de armas na mão, não gostamos da guerra. Logo, não gostamos da guerra.
F. Se queremos uma Polícia eficiente e bons Hospitais públicos, então devemos pagar impostos. Ora, de facto queremos uma Polícia eficiente e bons Hospitais públicos. Consequentemente, devemos pagar impostos.
G. Se cometeste um erro, é preferível assumir e corrigir o que fizeste. Consequentemente, se não é preferível assumir e corrigir o que fizeste, então não cometeste um erro.
H. Se há mal desnecessário no mundo, então é difícil justificar a crença num Deus omnipotente e bom. Se é difícil justificar a crença num Deus omnipotente e bom, então o problema da existência de Deus não está resolvido e não faz sentido matar em nome de Deus. Logo, se há mal desnecessário no mundo, o problema da existência de Deus não está resolvido e não faz sentido matar em nome de Deus.
I. Caso Deus exista, a realidade não é apenas natural e observável. Como tal, se a realidade não é apenas natural e observável, então Deus existe.
J. Se X tem uma atitude crítica, então discute os problemas. Ora, X discute os problemas. Logo, X tem uma atitude crítica.
K. Neste país existe um Estado forte ou cai-se no caos e na degradação moral. Ora, como neste país não existe um Estado forte, é lógico que se caiu no caos e na degradação moral.
L. Se a pena de morte consiste em punir um crime com outro crime e pode ser aplicada por engano, bom… então é moralmente errada. Ora, é um facto que a pena de morte pune um crime com outro crime, tal como é um facto que há erros judiciais. Como tal, a pena de morte é um crime injusto do ponto moral.
M. Um bebé tem direitos se e só se é senciente e tem deveres. Ora, um bebé embora não tenha deveres é senciente. Por isso, tem direitos.
N. “Não é possível ter uma atitude crítica em Filosofia sem compreender cabalmente o que é a argumentação. Não é possível compreender cabalmente o que é a argumentação sem dominar os elementos básicos da lógica formal. E não é possível dominar os elementos básicos da lógica formal sem compreender corretamente a noção de forma lógica. Logo, não é possível ter uma atitude crítica em Filosofia sem compreender corretamente a noção de forma lógica.”
Desidério Murcho, O Lugar da Lógica na Filosofia, Plátano, 2003, pág. 39.
Bom Trabalho!
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
A negação das proposições universais e a noção de argumento
Para os alunos do 10º E, C e D.
Textos, exemplos e exercícios, podem ser encontrados nos links dos textos seguintes:
1. Identificação, classificação e negação de proposições
2. Proposições contraditórias: análise de exemplos
5. Entimema: conceito e exemplos 
Nota para os alunos do 10º E - A resolução dos exercícios do final da aula:
1. A. Particular negativa.
B. Particular afirmativa.
C. Singular afirmativa.
D. Particular afirmativa
E. Universal negativa.
2. Negação das proposições universais.
E. Algumas prisões são à prova de fuga.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Um anúncio contra o racismo
Eis o trabalho que as alunas, Catarina Bárbara e Maria Bumbuk, do 11º F fizeram sobre um anúncio publicitário.
Vale a pena ver e ler!
O racismo corresponde a um preconceito e conduz a atitudes discriminatórias. Este anúncio pretende levar as pessoas a repensar algumas das suas ideias e a compreender os efeitos negativos que estas podem ter nos outros e em si próprias. No anúncio vemos uma rapariga a aplicar, ao espelho, um creme (Racism) aparentemente para lhe fazer bem à “pele” e ficar mais bela.
No entanto, os efeitos produzidos são o contrário dos desejados, pois com o passar dos dias a rapariga apresenta olheiras, alergia, vermelhidão e borbulhas e começa a ter feridas, chegando a ficar com a cara completamente desfigurada. Assim, apesar deste “creme” a ir desfigurando, ela continua a aplicá-lo, sem se aperceber do mal que este lhe faz. O mesmo se passa com as pessoas com ideias racistas, também elas não se apercebem que ao discriminarem os outros de forma repetida, esses atos acabam por lhes moldar o carácter transformando-as em pessoas “feias” (moralmente desprezíveis). Trata-se, portanto, de um argumento por analogia. Neste caso é um argumento fraco porque a fealdade física e moral não são comparáveis, as diferenças são maiores que as semelhanças.
Os argumentos implícitos no vídeo podem expressar-se do seguinte modo:
Modus ponens
Se és racista, então vais ficar feio.
És racista.
Logo, ficaste feio.
Modus tollens
Se és racista, então vais ficar feio.
Não ficaste feio.
Logo, não és racista.
A principal mensagem transmitida ao espectador é que não devemos ser racistas. O termo “feio” é utilizado em sentido moral: é algo condenável por ser contrário ao bem e ao dever. Na prática, o racismo deixa marcas, bastante más até, especialmente na vítima, mas também no indivíduo que tem este tipo de atitudes, pois ele em vez de se tornar uma pessoa melhor, regride, tornando-se irreconhecível para si próprio, tal acontece à rapariga do anúncio.
Neste vídeo utilizam-se, de forma implícita, falácias informais (argumentos em que as premissas não sustentam a conclusão - em virtude do seu conteúdo e/ou da sua forma - embora isso não pareça acontecer). Exemplos:
- Apelo às consequências: o autor para mostrar que uma crença (o racismo) é falsa aponta as consequências desagradáveis que advirão em sua defesa (o facto das pessoas ficarem feias (ou seja moralmente desfiguradas, com dificuldade em se reconhecerem a si próprias).
- Ataque pessoal: em vez de se apresentarem razões para justificar porque motivo esta é uma crença falsa, ataca-se as pessoas racistas dizendo que elas são feias. Quando o que importava era demonstrar que o racismo não tem qualquer fundamento racional.
A nosso ver, este anúncio é apelativo e faz as pessoas (algumas pelo menos) repensarem as suas atitudes. Este anúncio não foi feito para promover um tipo de alimento, uma marca, ou outros objectos, mas sim para despertar as pessoas: aquelas que ainda permanecem na ignorância, pensando que certos indivíduos são superiores a outros devido às suas características físicas. Recentes investigações provam que a “raça” é um conceito inventado. A noção de “raça” não possui qualquer fundamento biológico. Não existe nenhuma prova científica da existência de raças diferentes. A biologia só identificou uma raça: A RAÇA HUMANA.
Catarina Bárbara e Maria Bumbuk
domingo, 4 de dezembro de 2011
Argumento por analogia
Um argumento por analogia é um argumento não dedutivo, muito frequente na vida quotidiana e na filosofia.
Num argumento por analogia defende-se que, se duas coisas são semelhantes em alguns aspetos, é provável que também sejam semelhantes noutros. Uma das premissas é uma analogia entre duas coisas, ou seja, apresenta semelhanças conhecidas entre elas. Com base nisso infere-se que entre elas devem existir outras semelhanças menos óbvias.
Por exemplo:
O Henrique e o Heitor usam meias e sapatos.
O Heitor é rico.
Logo, o Henrique também é rico.Este doente tem diarreia, dores abdominais, náuseas, vómitos e anúria. As pessoas com esses sintomas geralmente têm cólera.
Logo, este doente tem cólera.
Os argumentos por analogia têm a seguinte forma lógica (ou outras análogas):
x é como y.
y é A.
Logo, x é A.
Se as semelhanças referidas nas premissas forem numerosas e significativas, e se não existirem diferenças muito relevantes, é improvável que a conclusão seja falsa.
O que sucede com o segundo exemplo apresentado, mas não com o primeiro. Neste as semelhanças são escassas e pouco significativas, pelo que a probabilidade da conclusão ser falsa apesar das premissas serem verdadeiras é elevada. Trata-se, portanto, de um argumento por analogia inválido ou fraco.
(A respeito da validade não dedutiva ver o post Generalizações e previsões.)
Bibliografia:
- Dicionário Escolar de Filosofia, Organização de Aires Almeida - http://www.defnarede.com/
- Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos, direção de João Branquinho e Desidério Murcho, Gradiva, Lisboa, 2001.
- Desidério Murcho, O Lugar da Lógica na Filosofia, Plátano, Lisboa, 2003.
Generalizações e previsões
As induções são argumentos não dedutivos que podem ser generalizações ou previsões. Trata-se de argumentos muitos usados na vida quotidiana e nas ciências, mas não na filosofia.
Numa generalização conclui-se que, se algumas coisas possuem uma certa característica, então todas as coisas dessa classe possuem essa característica. As premissas de uma generalização são menos gerais que a conclusão: referem-se a alguns casos e depois, na conclusão, a ideia é estendida a todos os casos.
As generalizações têm a seguinte forma lógica (ou outras análogas):
Alguns A são B.
Logo, todos os A são B
Por exemplo:
Alguns políticos dizem mentirem.
Logo, todos os políticos dizem mentiras.As pessoas que até à data caíram de uma altura superior a 50 metros morreram.
Logo, qualquer pessoa que caia de uma altura superior a 50 metros morre.
Quantos mais numerosos e representativos forem os casos referidos nas premissas mais provavelmente verdadeira é a conclusão da generalização.
Parece claro que o primeiro exemplo apresentado não respeita essas regras.
Habitualmente, uma previsão é um argumento cujas premissas se baseiam no passado e cuja conclusão se refere ao que acontecerá no futuro – no próximo ou nos próximos casos. Se em várias ocasiões sucedeu algo conclui-se que na próxima (ou próximas) ocasião sucederá o mesmo. A conclusão de uma previsão é menos geral que as premissas.
(Por vezes, as previsões incidem em casos desconhecidos do presente ou do passado.)
Por exemplo:
Alguns vendedores enganam-se nos trocos.
Por isso, da próxima vez que eu entrar numa loja o vendedor enganar-se-á nos trocos.As gaivotas que nasceram até hoje tinham menos de 10 quilos.
Por isso, a próxima gaivota que nascer na ilha da Berlenga terá menos de 10 quilos.
Tal como sucede com a generalização, quanto mais numerosos e representativos forem os casos considerados mais provavelmente verdadeira é a conclusão da previsão.
Parece claro que o primeiro exemplo apresentado não respeita essas regras.
Contudo, por muito provável que seja a conclusão de uma generalização ou de uma previsão (tal como sucede nos outros argumentos não dedutivos), a sua verdade nunca está completamente garantida. Contrariamente ao que sucede nos argumentos dedutivos válidos, nos argumentos não dedutivos a verdade de todas as premissas não chega para garantir a verdade da conclusão – apenas a torna provável ou plausível. (As regras referidas são condições necessárias mas não suficientes.)
Essa probabilidade pode ser maior ou menor, pelo que a validade não dedutiva é uma questão de grau. As generalizações, as previsões e os outros argumentos não dedutivos podem ser mais ou menos válidos. Outra maneira de exprimir essa ideia é falar de força em vez de validade: os argumentos não dedutivos podem ser mais ou menos fortes.
Por outro lado, a validade das generalizações e das previsões (e de qualquer outro argumento não dedutivo) é informal. Contrariamente ao que sucede com os argumentos dedutivos que analisámos nas aulas, não basta inspecionar a forma lógica para determinar se uma generalização ou uma previsão é válida ou inválida, sendo necessário considerar o conteúdo do argumento para fazer essa avaliação.
Bibliografia:
- Dicionário de Filosofia, direção de Thomas Mautner, Edições 70, Lisboa, 2010.
- Dicionário Escolar de Filosofia, Organização de Aires Almeida - http://www.defnarede.com/
- Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos, direção de João Branquinho, Desidério Murcho e Nelson Gonçalves Gomes, artigo “Indução” - http://criticanarede.com/docs/etlf_inducao.pdf
Desidério Murcho, O Lugar da Lógica na Filosofia, Plátano, Lisboa, 2003.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Afirmação da antecedente e negação da consequente
A afirmação da antecedente (Modus ponens) e a negação da consequente (Modus tollens) são duas formas argumentativas válidas muito frequentes, tanto na vida quotidiana como na filosofia.
Afirmação da antecedente:
Se P então Q
P
Logo, Q
Se não P então Q
Não P
Logo, Q
Se P então não Q
P
Logo, não Q
Se não P então não Q
Não P
Logo, não Q
Negação da consequente:
Se P então Q
Não Q
Logo, não P
Se não P então Q
Não Q
Logo, P
Se P então não Q
Q
Logo, não P
Se não P então não Q
Q
Logo, P
Não se deve confundir estas formas válidas com formas parecidas mas inválidas. Como é o caso da Negação da antecedente e da Afirmação da consequente. Ei-las, respetivamente:
Se P então Q
Não P
Logo, não Q
Se P então Q
Q
Logo, P
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Ficha de Trabalho - Argumentos
a) Diga se os exemplos a seguir apresentados constituem ou não argumentos.
b) Caso sejam argumentos, diga qual é a conclusão.
c) Caso possuam premissas ocultas, explicite quais são.
1. O aborto é justo na perspectiva de algumas pessoas e injusto na perspectiva de outras. Há também pessoas que têm opiniões intermédias.
2. “A maior parte das pessoas que visitam galerias de arte, lêem romances e poesia, vão ao teatro e ao ballet, vêem cinema ou ouvem música, já perguntaram a si próprias, num momento ou outro, o que é a arte.” - Nigel Warburton, Elementos Básicos de Filosofia, Gradiva, pág. 218.
3. A pena de morte é errada, na medida em que pune um crime com outro crime.
4. Ou os alunos do 11º ano respeitam os direitos dos animais ou comem carne. Os alunos do 11º ano respeitam os direitos dos animais. Logo, os alunos do 11º ano não comem carne.
5. A liberdade é um valor mais importante que a segurança, mas há formas de combater a insegurança que limitam a liberdade dos cidadãos. Assim, pode-se dizer que há formas de combater a insegurança que devem ser proibidas.
6. “Hoje em dia, os astrónomos podem fazer coisas inacreditáveis. Por exemplo, se alguém acendesse um fósforo na Lua, eles seriam capazes de distinguir a chama.” - Bill Bryson, Breve História de Quase Tudo, Quetzal Editores, pág. 34.
7. “- Olha lá para cima! – exclamou um dos criados.
Repararam então nas peras que pendiam da árvore, recortando-se contra o céu ainda róseo com os primeiros tons da madrugada. E, ao verem as peras, foram todos presos pelo maior pânico. Porque os frutos não estavam inteiros, havia apenas as metades deles. Tinham sido cortados ao comprido, mas pendiam ainda do seu pedúnculo; cada pêra possuía apenas a metade direita (ou esquerda, conforme o ângulo por que fossem olhadas). Em todo o caso, havia só uma metade e a outra parte tinha desaparecido, cortada ou talvez mesmo mordida.” - Italo Calvino, O Visconde Cortado ao Meio, Editorial Teorema, pp. 27-28.
8. Ítalo Calvino escreveu três livros muito bons para incutir o gosto pela leitura em pessoas que não têm hábitos de leitura. Os seus nomes são: O Visconde Cortado ao Meio, O Barão Trepador e O Cavaleiro Inexistente.
9. “Uma sociedade aberta valoriza os seus membros descontentes e dissidentes porque precisa de pensamento criativo, maior amplitude de alternativas, novas hipóteses e, em geral, do vigoroso diálogo provocado por novas ideias.” - Luís Rodrigues e outros, Filosofia – 11º, Plátano Editora, pág. 22.
10. “A batalha começou pontualmente às dez da manhã. Do alto da sua cela, o lugar-tenente Medardo contemplava a amplidão das fileiras cristãs, a postos para o ataque. E estendia o rosto, oferecendo-o ao bafejo do vento da Boémia, que espalhava um aroma de folhas, como se estivessem numa enorme eira poeirenta.” - Ítalo Calvino, O Visconde Cortado ao Meio, Editorial Teorema, pág. 15.
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
terça-feira, 29 de março de 2011
Análise filosófica de um anúncio publicitário (2)
Apelo à Piedade (Ad Misericordium)
Esta falácia consiste em apelar a sentimentos, em vez de boas razões, para levar à aceitação da conclusão. Na maior parte dos casos, a pena não é uma boa justificação para aceitar a conclusão de um argumento. Imagine-se, por exemplo, que um aluno fez directa para terminar um trabalho e reclama da nota baixa que teve, invocando a sua dedicação e sacrifício. Ora, será essa uma boa razão para ter uma boa nota?
Não, essa é uma boa razão para admirar o esforço do aluno, porém este nada tem a ver com o conteúdo do trabalho. Esse argumento destina-se apenas a invocar um sentimento de pena que leve o professor a subir a nota sem apresentar, no entanto, qualquer justificação racional para tal.
No anúncio considerado, encontra-se também presente uma falácia do apelo à piedade. A cena de apedrejamento a uma mulher desperta certamente sentimentos de pena por esta, os quais são, devido à comparação facilmente perceptível (e discutível como foi referido anteriormente), alargados aos touros. Pretende-se assim influenciar a opinião dos espectadores a respeito das touradas, apelando apenas à reacção emocional despoletada por este anúncio.
Neste caso, a pena pelos animais até é uma boa razão para considerar as touradas imorais se partirmos do princípio de que eles sentem dor. No entanto, o que aqui se tenta fazer não se trata de persuasão racional mas sim de manipulação, visto que o objectivo não é fazer as pessoas pensar acerca da dor que os animais sentem mas sim chocá-las com as imagens apresentadas, ao ponto de as suas emoções se sobreporem ao pensamento. Além disso, o anúncio não nos mostra uma tourada mas sim uma pessoa a ser apedrejada e as únicas imagens de touros são mostradas apenas no final. Porque será? Talvez porque algo que toda a gente está habituada a ver não é de maneira alguma chocante pelo que não teria um impacte emocional tão grande na audiência.
Apelo à Tradição
Esta falácia, também presente no anúncio, consiste na justificação de acções ou opiniões apelando a tradições. Ou seja, afirma-se que por algo ser praticado há muito tempo, está correcto. Podemos considerá-lo como sendo um argumento de autoridade falacioso em que a autoridade à qual se apela é a tradição. Ora esta é não qualificada, pois o simples facto de algo ser tido como correcto ou praticado há muito tempo não constitui prova alguma da sua correcção ou veracidade. De facto, existem inúmeros exemplos de ideias que, após séculos de certeza, foram provadas erradas. Um exemplo bastante conhecido, e que retrata bem a situação, é o da posição da Terra relativamente ao Sol. O geocentrismo vigorou durante séculos baseado nos princípios religiosos. Contudo, mais tarde, provou-se a incorrecção de tal ideia e admitiu-se a posição heliocêntrica como correcta.
Neste anúncio, a falácia referida não é apresentada de forma explicita. É antes transmitida na parte falada do texto e é contradita pelas imagens e pelo final do anúncio.
O argumento expresso é:
As touradas fazem parte da nossa tradição há muito tempo.
Logo, a realização de touradas deve ser aceite por todos.
Ora, o que se faz no anúncio é refutar tal argumento, dizendo que uma tradição não é razão para se considerar algo como sendo moralmente correcto e dever ser praticado. Aliás, este apelo à tradição é, em parte, o que inspirou a comparação presente no anúncio: tal como na Península Ibérica temos esta tradição de realizar touradas, também os países do Médio Oriente têm a tradição de apedrejar as mulheres que, por exemplo, cometem adultério. Ora, se afirmamos que temos de respeitar a prática de touradas porque se trata de uma tradição, temos de afirmar o mesmo relativamente a tais tradições. No entanto, não o fazemos. Consideramos que tais práticas são completamente imorais, pois existem razões óbvias para o fazer. Apesar disso, os habitantes desses países continuam a fazê-lo porque é uma tradição. Do mesmo modo, realizamos touradas em Portugal porque foi algo que “sempre se fez”. Uma das coisas que o anúncio tenta mostrar - e com a qual concordo plenamente – é que o facto de as touradas serem uma tradição nacional não as torna moralmente correctas. O facto de se realizarem há muito tempo nada tem a ver com as razões que há para o fazer ou não. Aquilo que é relevante e deveria ser discutido é o sofrimento dos animais ou a sua inexistência.
Trabalho realizado por: Ana Marta Nunes e Inês Ambrósio, 11º C.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Onde está a conclusão?
Num argumento, palavras e expressões como “Pois” e “Dado que” normalmente indicam que a frase a seguir apresentada é uma premissa. Palavras e expressões como “Logo” e “Por conseguinte” normalmente indicam que a frase a seguir apresentada é a conclusão.
No entanto, a análise de argumentos não é uma tarefa automática que se possa fazer seguindo uma receita. É preciso pensar. No post “O que é um argumento?” foram analisadas diversas situações que demonstram essa necessidade de pensar quando se analisam argumentos e se tentam identificar as premissas e a conclusão. Eis outra situação.
As palavras e expressões que habitualmente funcionam como indicadores de premissa ou de conclusão podem, em certos contextos, ter outros sentidos.
Considere a esse respeito o seguinte argumento (que é apresentado de modo colectivo por várias personagens do livro infantil “Olha antes de saltar”, da série Winnie the Pooh, numa tentativa de convencer outra personagem a ser mais cuidadosa):
“- Tigre, deves ser mais cuidadoso quando andas a saltar e a pular pela floresta – disse o Coelho.
- Se caíres em cima de uma tartaruga ela esconde-se na carapaça – disse o Winnie.
- Se assustares uma doninha ela deita-te aquele líquido malcheiroso – acrescentou o Piglet.
- E se pisares um cardo magoas-te na pata – concluiu o Igor. Além disso, podes estragar o meu jantar.”
O narrador diz “concluiu o Igor”, mas isso não significa que o Igor tenha apresentado a conclusão do argumento desenvolvido pelas personagens. A conclusão foi apresentada pelo Coelho e é: “deves ser mais cuidadoso quando andas a saltar e a pular pela floresta”. Naquele contexto, dizer “concluiu o Igor” significa apenas que ele foi o último a falar – e ao fazê-lo apresentou duas razões a favor da conclusão e não a conclusão.
Outro exemplo. A palavra “Então” é um indicador de conclusão e pode em qualquer argumento substituir o “Logo” ou o “Portanto” sem alteração de sentido. Todavia, essa palavra surge em imensos argumentos sem ter a função de indicador de conclusão: é o caso dos argumentos que incluem proposições condicionais. Considere a esse respeito o seguinte argumento: "Se a liberdade de expressão é um direito dos cidadãos, então não deve existir censura. Ora, a liberdade de expressão é de facto um direito dos cidadãos. Logo, não deve existir censura.” Como é evidente, a conclusão do argumento é a frase que se encontra a seguir à palavra “Logo” e não a frase que se encontra a seguir à palavra “então” (que é a consequente da proposição condicional que constitui a primeira premissa do argumento – um Modus Ponens ou Afirmação do Antecedente).
Assim, para percebermos se, num argumento, uma frase é uma premissa ou uma conclusão temos de avaliar as relações entre as ideias (ou proposições) expressas por essa e pelas outras frases. Uma frase não é uma conclusão simplesmente porque é antecedida por uma palavra que normalmente funciona como indicador de conclusão, mas sim porque expressa ideias que – pretende o argumento – derivam das ideias que servem de premissas.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Entimema: conceito e exemplos
Um entimema é um argumento que contém pelo menos uma premissa não formulada, habitualmente designada por premissa implícita. Pode-se também dizer que se trata de uma premissa subentendida ou oculta. Por exemplo: no argumento “o Heitor é advogado, logo o Heitor tem formação universitária” a premissa implícita é “os advogados têm formação universitária”. Sem esta premissa o argumento não seria válido. (Há entimemas que continuam a ser argumentos inválidos mesmo após a explicitação das premissas subentendidas, pois encerram outras incorrecções.)
No dia-a-dia os entimemas são muito frequentes. Habitualmente, o que leva alguém a não explicitar todas as premissas de um argumento é o facto de considerar que se trata de algo tão óbvio que seria monótono e inútil fazer essa explicitação. Quem está por dentro do contexto em que decorre a argumentação em causa normalmente percebe quais são as ideias subentendidas.
Contudo, o que para uma pessoa é óbvio nem sempre é óbvio para as outras. Como isso pode suscitar confusões e incompreensões (nomeadamente na discussão de assuntos polémicos como sucede com a generalidade dos problemas filosóficos), é aconselhável explicitar as premissas implícitas. Essa explicitação torna os argumentos mais claros. Assim, “Descobrir as premissas implícitas das nossas ideias ou das ideias dos filósofos é uma parte importante do trabalho filosófico.” (Dicionário Escolar de Filosofia)
Há anos atrás eu e um amigo íamos a percorrer uma avenida de Lisboa (Av. Almirante Reis) quando vimos um homem a comprar um limão. Disse imediatamente ao meu amigo, como se fosse uma enorme evidência: “Ele está a comprar um limão, logo é drogado”. Como o meu amigo duvidou da conclusão (achando que o facto de uma pessoa comprar um limão não é razão suficiente para concluirmos que é drogada), vi-me obrigado a explicitar as várias razões (premissas) que não tinha formulado por as achar óbvias. Ei-las:
- Normalmente as pessoas compram mais do que um limão, mas não seria prático um toxicodependente fazer isso.
- O sumo de limão costuma ser usado para preparar doses de heroína.
- Aquele indivíduo tinha um certo ar pálido e macilento que caracteriza muitos toxicodependentes.
- Aquela zona era um lugar de passagem quase contínua de toxicodependentes que iam comprar droga ao bairro da Curraleira (que na época era uma conhecida zona de tráfico).
Perante essas razões adicionais que explicitei, o meu amigo ficou convencido: “Deves ter razão”.
No entanto, mesmo reforçada com essas razões a conclusão é apenas uma consequência provável (e não necessária) das premissas – como é característico dos argumentos não dedutivos.
Embora isso não fosse provável, podia suceder que as premissas fossem todas verdadeiras e a conclusão falsa. Por exemplo: o facto de só comprar um limão podia explicar-se pela circunstância de partir de férias no dia seguinte e não querer deixar em casa produtos perecíveis; o ar pálido e macilento podia dever-se a uma doença qualquer; etc.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
O que é um argumento?
“Um argumento é um conjunto de proposições que utilizamos para justificar (provar, dar razão, suportar) algo. A proposição que queremos justificar tem o nome de conclusão; as proposições que pretendem apoiar a conclusão ou a justificam têm o nome de premissas.” (António Padrão, “Algumas noções de lógica”, www.criticanarede.com)
As premissas são as informações, os dados que à partida temos sobre um problema; a conclusão é uma consequência que, ao raciocinar, tiramos. Assim, a conclusão corresponde à nossa opinião sobre o problema, à nossa tese e as premissas são a maneira que temos de justificar a conclusão a que chegámos.
Um argumento possui uma conclusão e uma ou várias premissas.
Os argumentos são conjuntos de proposições, mas nem todos os conjuntos de proposições são argumentos. Um argumento é mais do que uma lista de proposições. Para se tratar de um argumento as proposições têm de estar organizadas de um modo tal que uma delas (a conclusão) se apresente como a consequência das outras (as premissas). Dito por outras palavras: as premissas devem apresentar-se como uma justificação ou apoio da conclusão. Essa relação existe no exemplo A mas não no B. Por isso, este não é um argumento.
Exemplo A: Hoje estou cansado e, dado que amanhã tenho muito que fazer, devo descansar. Por isso, não irei ao cinema.
Exemplo B: A Cecília é simpática e vive em Loulé. Além disso, a Cecília quer ir para a Universidade.
A expressão “Por isso” (usada em A) é um indicador de conclusão. Normalmente diz-nos que a frase a seguir apresentada constitui a conclusão. Há outras palavras e expressões que também têm esse papel: “Logo”, “Portanto”, “Consequentemente”, etc.
A expressão “dado que” (usada em A) é um indicador de premissa. Normalmente diz-nos que a frase a seguir apresentada constitui uma premissa. Há outras palavras e expressões que também têm esse papel: “Pois”, “Porque”, “Devido a”, etc.
Uma vez que num argumento a conclusão é uma consequência das premissas, a forma mais clara e explícita (a forma padrão ou a expressão canónica, como dizem os lógicos) de apresentar o argumento é apresentar primeiro as premissas e depois a conclusão – antepondo-lhe a palavra “Logo” para não restarem quaisquer dúvidas.
Todavia, no dia-a-dia as pessoas pensam e falam de modo mais livre e espontâneo e habitualmente não usam a expressão canónica dos lógicos. Assim, além dos argumentos em que a conclusão surge no final, podem-se encontrar argumentos em que a conclusão surge no início ou mesmo no meio.
Exemplo C: Todos os cidadãos com direito de voto devem votar, pois só votando poderão ter uma palavra a dizer nas decisões políticas. Ora, numa democracia os cidadãos devem ter uma palavra a dizer nas decisões políticas.
Exemplo D: Ler livros estimula a inteligência e melhora a capacidade de expressão, como tal deves ler livros. Além disso, os livros não são caros.
No exemplo C a conclusão é “Todos os cidadãos com direito de voto devem votar” e no exemplo D é “deves ler livros”. O que conta para uma frase ser a conclusão de um argumento não é a posição que nele ocupa, mas a relação que tem com as outras frases. As frases referidas constituem a conclusão dos seus argumentos pois derivam das outras frases, são consequências delas e são por elas justificadas.
No dia-a-dia também é frequente surgirem argumentos em que não existem indicadores de premissa nem de conclusão. É o que sucede no exemplo E, a seguir apresentado. A sua conclusão é “As guerras deviam acabar”, pelas razões referidas no parágrafo anterior.
Exemplo E: As guerras deviam acabar. Numa guerra morrem sempre inocentes e a morte de inocentes é uma grande injustiça.
Outra situação frequente é surgirem argumentos contendo uma ou mais premissas ocultas (implícitas, subentendidas). Esses argumentos chamam-se entimemas. Como essas premissas omitidas podem dar origem a confusões, ao reescrever o argumento para o expressar de modo canónico devemos explicitar tais premissas. No exemplo F, a seguir apresentado, a premissa oculta é: “As coisas que violam os direitos humanos devem ser proibidas”. Note que, se essa ideia não fosse subentendida, não se conseguiria justificar a conclusão – que é “A mutilação genital feminina devia ser proibida”.
Exemplo F: A mutilação genital feminina devia ser proibida, porque constitui uma violação dos direitos humanos.
a) Diga se os exemplos a seguir apresentados constituem ou não argumentos.
b) Caso sejam argumentos, diga qual é a conclusão.
c) Caso possuam premissas ocultas, explicite quais são.
1. “Estava um cão no estábulo e, apesar de alguém lá ter estado e ter levado para lá um cavalo, o cão não ladrou. É óbvio que o visitante era alguém que o cão conhecia bem.” Sherlock Holmes, em A Aventura de Silver Blaze, de Conan Doyle.
2. Não podemos permitir o aborto porque é o assassínio de um inocente.
3. «[Depois do terrível ataque efectuado pelos orcs e por um troll] Aragorn levantou Frodo, que estava caído junto da parede, e dirigiu-se para a escada, a empurrar Merry e Pippin à sua frente. Os outros seguiram-nos. Mas Gimli teve de ser arrastado por Legolas; apesar do perigo, o anão parara junto do túmulo de Balin [seu primo], de cabeça baixa. Boromir puxou a porta oriental, a ranger nos gonzos.» J.R.R. Tolkien, O Senhor dos Anéis – A Irmandade do Anel, Publicações Europa-América, pág. 374.
4. Sócrates não era um Deus. Com efeito, os deuses são imortais, ao passo que Sócrates não era imortal.
5. A interrupção voluntária da gravidez resulta da liberdade de escolha, que é um direito democrático. Como tal, não deve ser penalizada.
6. “Um protão é uma infinitésima parte de um átomo, que em si próprio já é também uma coisa insubstancial. Os protões são tão pequenos que a porção de tinta usada para pôr a pinta neste i pode conter qualquer coisa como 500 000 000 000 protões, mais que do que o número de segundos em meio milhão de anos.” [Bill Bryson, Breve História de Quase Tudo, Quetzal Editores, pág. 25]
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Matriz do 10º ano (turmas B, D, E e F)
| ESCOLA SECUNDÁRIA DE PINHEIRO E ROSA FILOSOFIA – 10ºANO Ano Lectivo: 2009-2010 Matriz do 1º Teste (Outubro) O Professor: Carlos Pires
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| Duração: 90 minutos. Temas: Quais são as questões da Filosofia? O que é a filosofia? Lógica – os instrumentos da actividade filosófica. |
| Objectivos: 1. Conhecer a etimologia da palavra “filosofia”. 2. Conhecer a época e o lugar em que a filosofia surgiu. 3. Indicar os elementos centrais da filosofia: problemas, teorias e argumentos. 4. Conhecer exemplos de problemas filosóficos e distinguir problemas filosóficos de problemas não filosóficos. 5. Explicar e exemplificar o conceito de crença básica. 6. Mostrar em que medida a filosofia constitui uma reflexão acerca das nossas ideias e crenças mais básicas. 7. Mostrar em que medida a filosofia tem um carácter crítico e argumentativo. 8. Mostrar em que medida a filosofia é um estudo a priori ou conceptual. 9. Explicar em que medida, apesar do carácter conceptual da filosofia, as informações empíricas podem ter utilidade na reflexão filosófica. 10. Saber que as respostas dadas aos problemas filosóficos raramente são consensuais. 11. Conhecer argumentos a favor e contra a pena de morte. 12. Utilizar esses argumentos para justificar uma opinião pessoal acerca do carácter justo ou injusto da pena de morte. 13. Indicar o objecto de estudo da Lógica. 14. Explicar o que são proposições. 15. Analisar exemplos, distinguindo frases que expressam proposições de frases que não expressam proposições. 16. Conhecer exemplos de frases que expressem uma única proposição e de frases que expressem, cada uma delas, várias proposições. 17. Distinguir diferentes tipos de proposições: afirmativas e negativas; universais, particulares e singulares; disjuntivas e condicionais. 18. Analisar exemplos, identificando neles os diferentes tipos de proposições. 19. Reescrever frases para colocar as proposições na sua expressão canónica. 20. Explicar em que consiste a negação de uma proposição. 21. Explicar como se negam proposições universais, particulares e singulares (tanto afirmativas como negativas) e proposições condicionais. 22. Efectuar a negação de proposições apresentadas. 23. Explicar o que são proposições contraditórias. 24. Explicar a utilidade da negação na argumentação. 25. Explicar como se podem refutar proposições universais através de contra-exemplos. 26. Explicar o que é um argumento. 27. Analisar exemplos, distinguindo argumentos de não argumentos. 28. Analisar argumentos, distinguindo premissas e conclusão. 29. Conhecer indicadores de premissa e indicadores de conclusão. |
| Leituras obrigatórias no Manual: Da página 11 à página 14. Página 21.Da página 31 à página 37. Da página 42 à página 45. Leituras aconselhadas no Manual: texto 4, página 27 e 28. Leituras obrigatórias no blogue Dúvida Metódica: “Problemas filosóficos e problemas não filosóficos”, “Estudo da religião: a parte da Sociologia e a parte da Filosofia”, “O que é a Filosofia?” e “Identificação, classificação e negação de proposições”. Leituras aconselhadas no blogue Dúvida Metódica: “Discutir ideias em vez de repetir frases”. |
| Bom Trabalho! |
sábado, 17 de janeiro de 2009
O que é um argumento bom (ou cogente)? - 1
Dito de modo mais coloquial: temos um argumento quando defendemos uma ideia (a conclusão) relacionando-a com outras ideias (as premissas).
Argumentamos para convencer alguém, para lhe mostrar que a ideia contida na conclusão é verdadeira. Muitas vezes argumentamos para convencer outras pessoas, mas pode também suceder que ao pensar num argumento estejamos a tentar convencer-nos a nós próprios.
(Alguns argumentos têm só uma premissa, mas por facilidade de expressão utilizarei a palavra no plural.)
Um argumento para ser bom ou cogente tem de reunir três condições: ser válido, ter premissas verdadeiras e ter premissas mais plausíveis que a conclusão.
Vejamos a importância de cada uma dessas condições.
Um argumento válido é um argumento que possui a seguinte característica: se as premissas são todas verdadeiras é impossível (no caso dos argumentos dedutivos) ou improvável (no caso dos argumentos não dedutivos) que a conclusão seja falsa. Isso significa que há uma conexão lógica tal entre as premissas e a conclusão que esta se segue daquelas.
(Uma explicação mais completa da validade implicaria explicar o conceito de forma lógica e distinguir argumentos formais e informais, bem como argumentos dedutivos e não dedutivos. Para perceber esses conceitos o leitor pode consultar o DEF e os posts do Dúvida Metódica publicados com a etiqueta validade.)
Se, ao conversarmos com alguém, utilizarmos argumentos inválidos, não seremos levados a sério. Ainda que o nosso interlocutor aceite as nossas razões (ou seja, considere verdadeiras as premissas) poderá rejeitar a conclusão.
A invalidade de alguns argumentos não é nada evidente e a sua detecção implica conhecimentos de Lógica (os argumentos inválidos que parecem válidos chamam-se falácias).
Mas no caso de outros argumentos essa detecção é mais fácil e, mesmo que se trate de uma pessoa sem conhecimentos de Lógica e até desconhecedora da palavra “inválido”, poderá dizer: “Uma coisa não tem nada a ver com a outra”.
Por exemplo. Tentando convencer a mãe a dar-lhe mais dinheiro, um rapaz disse-lhe: “A Vera disse que gosta muito de mim, mas já não quer namorar comigo. Além disso, tenho um TPC de Matemática para fazer para amanhã. Portanto, seria justo que me aumentasses a mesada.”
Por pouco que a mãe saiba de Lógica, poderá facilmente retorquir: “Lamento que ela não queira namorar contigo e espero que faças um TPC muito bom, mas não vejo que relação tenha isso com a mesada ser ou não aumentada”. Se a mãe desse rapaz fosse professora ou estudante de Filosofia, e tivesse portanto alguns conhecimentos de Lógica, poderia simplesmente dizer-lhe: “o teu argumento é inválido e por isso nada prova”.
Se formalizarmos o argumento do rapaz a falta de conexão entre premissas e conclusão (a invalidade, portanto) torna-se ainda mais óbvia: P & ¬Q, R╞ S. É óbvio que, sejam quais forem as proposições que substituam essas variáveis, é possível que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. No caso do argumento apresentado pelo rapaz, as premissas são (nas circunstâncias descritas) verdadeiras, mas a conclusão pode ser falsa: imagine que a mesada já é elevada e até foi aumentada recentemente, apesar de a mãe não nadar em dinheiro; nessas circunstâncias o aumento da mesada não seria certamente justo.
No entanto, não basta a validade para um argumento ser bom ou cogente. A validade é uma condição necessária mas não suficiente da cogência. É também necessário que o argumento tenha premissas verdadeiras.
Por exemplo. Todos os deficientes portugueses são cidadãos da República Portuguesa. Todos os cidadãos da República Portuguesa beneficiam da igualdade de oportunidades em termos sociais, profissionais e políticos. Logo, todos os deficientes portugueses beneficiam da igualdade de oportunidades em termos sociais, profissionais e políticos.
O argumento é válido, mas é mau: a segunda premissa é claramente falsa e por isso a conclusão é também falsa. Dizer que é válido significa dizer que caso todas as premissas fossem verdadeiras a conclusão também seria verdadeira. Mas, como de facto uma das premissas é falsa, esse argumento não consegue assegurar a verdade de conclusão.
Se tentarmos convencer uma pessoa de que “todos os deficientes portugueses beneficiam da igualdade de oportunidades em termos sociais, profissionais e políticos” ela poderá justificar a sua discordância dizendo: “isso é falso, pois também é falso que todos os cidadãos da República Portuguesa beneficiam da igualdade de oportunidades em termos sociais, profissionais e políticos”.
Sendo assim, além de ser válido, um bom argumento tem de ter premissas verdadeiras. A um argumento válido com premissas verdadeiras chama-se argumento sólido.
No entanto, a solidez não basta para um argumento ser bom ou cogente: a solidez é uma condição necessária, mas não suficiente. Um argumento pode ser sólido e, no entanto, ser um mau argumento.
Para um argumento ser bom ou cogente tem de possuir, além da solidez, premissas mais plausíveis que a conclusão.
Essa terceira condição será explicada noutro post.
Bibliografia:
Aires Almeida e outros, A Arte de Pensar – 11º Ano, Didáctica Editora, Lisboa, 2008.
Desidério Murcho, “Argumentos Sólidos”, De Rerum Natura.
DEF – Dicionário Escolar de Filosofia, direcção de Aires Almeida.
domingo, 30 de novembro de 2008
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Ficha de revisão: identificação de argumentos não dedutivos
A. Os seres humanos que existem actualmente (e também os que já existiram) são incapazes de respirar (de modo natural, sem usar aparelhos) debaixo de água. Por consequência, pode-se dizer que pelo menos as próximas gerações de seres humanos não conseguirão respirar naturalmente debaixo de água.
B. Os seres humanos e os chimpanzés têm muitas semelhanças de carácter biológico: são mamíferos, primatas, partilham noventa e tal por cento dos genes, muitas das suas estruturas cerebrais são parecidas, etc. Os seres humanos, quando são alvo de choques eléctricos, sentem dor e medo. Pode-se, portanto, afirmar que os chimpanzés quando apanham choques eléctricos sentem dor e medo.
C. Os seres humanos e os gorilas têm muitas semelhanças biológicas e comportamentais: são mamíferos (as mães aleitam os filhos), primatas, partilham noventa e tal por cento dos genes, muitas das suas estruturas cerebrais são parecidas, pegam nos filhos ao colo, etc. Os seres humanos sofrem quando são separados dos pais e dos filhos. Pode-se, portanto, afirmar que os gorilas sofrem quando são separados dos pais e dos filhos.
D. Os seres humanos que existem actualmente (e também os que já existiram) são incapazes de respirar (de modo natural, sem usar aparelhos) debaixo de água. Consequentemente, nenhum ser humano poderá jamais respirar naturalmente debaixo de água.
E. Diversas equipas de astrónomos declaram ter observado (de modo indirecto) planetas fora do Sistema Solar. Como tal, podemos afirmar que existem planetas fora do Sistema Solar.
F. Quando o filho lhe perguntou se há pássaros com mais ou menos de duas patas, o Sr. Leopoldo respondeu: “Já vi muitos milhares de pássaros e todos tinham duas patas; por isso, os pássaros só podem ter duas patas.”
G. Tal como Luís de Camões, João Miguel Fernandes Jorge (que tem – neste ano de 2007 – mais ou menos 50 anos) é um bom poeta, uma pessoa inteligente e dotada de espírito crítico. E, à semelhança do autor d’ Os Lusíadas, é português, culto e bem informado. Ora, João Miguel Fernandes Jorge sabe navegar na Internet. Por isso, Luís de Camões também sabia navegar na Internet.
H. David Hume foi passar férias a Florença, na Itália. Após 30 minutos de passeio nas belas ruas de Florença, já tinha visto 17 automobilistas realizarem manobras perigosas. Face a isso, David Hume disse à esposa: “Restam poucas dúvidas que os italianos são maus condutores.”
I. Tenho sete irmãos mais velhos. Os professores de Filosofia dos meus irmãos gostavam de uma banda desenhada chamada Zits. Por isso, aposto que, quando for para o 10º ano, terei um professor de Filosofia que gosta dos livros da série Zits.
J. Nas lojas onde compro materiais para desportos radicais e nas lojas onde compro livros e discos, já fui várias vezes atendido por empregados de bigode que se enganaram nos trocos. Parece-me, por isso, que as pessoas de bigode não sabem fazer contas.
K. Péricles, abanando a cabeça e gesticulando (tinha a cara vermelha e parecia zangado) disse ao seu amigo Diógenes: “Não e não! Não concordo consigo, ó Diógenes! O futebol é um jogo belo e interessante, porque… Enfim! Repare que inúmeros intelectuais e artistas gostam de futebol. Ponha os olhos, por exemplo, no Camilo José Cela, vencedor do prémio Nobel da Literatura – veja bem! Ele adorava futebol… Até escreveu umas histórias, uns contos, com futebol pelo meio.”




