quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

O que é um argumento?


“Um argumento é um conjunto de proposições que utilizamos para justificar (provar, dar razão, suportar) algo. A proposição que queremos justificar tem o nome de conclusão; as proposições que pretendem apoiar a conclusão ou a justificam têm o nome de premissas.” (António Padrão, “Algumas noções de lógica”, www.criticanarede.com)

As premissas são as informações, os dados que à partida temos sobre um problema; a conclusão é uma consequência que, ao raciocinar, tiramos. Assim, a conclusão corresponde à nossa opinião sobre o problema, à nossa tese e as premissas são a maneira que temos de justificar a conclusão a que chegámos.

Um argumento possui uma conclusão e uma ou várias premissas.

Os argumentos são conjuntos de proposições, mas nem todos os conjuntos de proposições são argumentos. Um argumento é mais do que uma lista de proposições. Para se tratar de um argumento as proposições têm de estar organizadas de um modo tal que uma delas (a conclusão) se apresente como a consequência das outras (as premissas). Dito por outras palavras: as premissas devem apresentar-se como uma justificação ou apoio da conclusão. Essa relação existe no exemplo A mas não no B. Por isso, este não é um argumento.

Exemplo A: Hoje estou cansado e, dado que amanhã tenho muito que fazer, devo descansar. Por isso, não irei ao cinema.

Exemplo B: A Cecília é simpática e vive em Loulé. Além disso, a Cecília quer ir para a Universidade.

A expressão “Por isso” (usada em A) é um indicador de conclusão. Normalmente diz-nos que a frase a seguir apresentada constitui a conclusão. Há outras palavras e expressões que também têm esse papel: “Logo”, “Portanto”, “Consequentemente”, etc.

A expressão “dado que” (usada em A) é um indicador de premissa. Normalmente diz-nos que a frase a seguir apresentada constitui uma premissa. Há outras palavras e expressões que também têm esse papel: “Pois”, “Porque”, “Devido a”, etc.

Uma vez que num argumento a conclusão é uma consequência das premissas, a forma mais clara e explícita (a forma padrão ou a expressão canónica, como dizem os lógicos) de apresentar o argumento é apresentar primeiro as premissas e depois a conclusão – antepondo-lhe a palavra “Logo” para não restarem quaisquer dúvidas.

Todavia, no dia-a-dia as pessoas pensam e falam de modo mais livre e espontâneo e habitualmente não usam a expressão canónica dos lógicos. Assim, além dos argumentos em que a conclusão surge no final, podem-se encontrar argumentos em que a conclusão surge no início ou mesmo no meio.

Exemplo C: Todos os cidadãos com direito de voto devem votar, pois só votando poderão ter uma palavra a dizer nas decisões políticas. Ora, numa democracia os cidadãos devem ter uma palavra a dizer nas decisões políticas.

Exemplo D: Ler livros estimula a inteligência e melhora a capacidade de expressão, como tal deves ler livros. Além disso, os livros não são caros.

No exemplo C a conclusão é “Todos os cidadãos com direito de voto devem votar” e no exemplo D é “deves ler livros”. O que conta para uma frase ser a conclusão de um argumento não é a posição que nele ocupa, mas a relação que tem com as outras frases. As frases referidas constituem a conclusão dos seus argumentos pois derivam das outras frases, são consequências delas e são por elas justificadas.

No dia-a-dia também é frequente surgirem argumentos em que não existem indicadores de premissa nem de conclusão. É o que sucede no exemplo E, a seguir apresentado. A sua conclusão é “As guerras deviam acabar”, pelas razões referidas no parágrafo anterior.

Exemplo E: As guerras deviam acabar. Numa guerra morrem sempre inocentes e a morte de inocentes é uma grande injustiça.

Outra situação frequente é surgirem argumentos contendo uma ou mais premissas ocultas (implícitas, subentendidas). Esses argumentos chamam-se entimemas. Como essas premissas omitidas podem dar origem a confusões, ao reescrever o argumento para o expressar de modo canónico devemos explicitar tais premissas. No exemplo F, a seguir apresentado, a premissa oculta é: “As coisas que violam os direitos humanos devem ser proibidas”. Note que, se essa ideia não fosse subentendida, não se conseguiria justificar a conclusão – que é “A mutilação genital feminina devia ser proibida”.

Exemplo F: A mutilação genital feminina devia ser proibida, porque constitui uma violação dos direitos humanos.

Aplique os seus conhecimentos.

a) Diga se os exemplos a seguir apresentados constituem ou não argumentos.
b) Caso sejam argumentos, diga qual é a conclusão.
c) Caso possuam premissas ocultas, explicite quais são.

1. “Estava um cão no estábulo e, apesar de alguém lá ter estado e ter levado para lá um cavalo, o cão não ladrou. É óbvio que o visitante era alguém que o cão conhecia bem.” Sherlock Holmes, em A Aventura de Silver Blaze, de Conan Doyle.

2. Não podemos permitir o aborto porque é o assassínio de um inocente.

3. «[Depois do terrível ataque efectuado pelos orcs e por um troll] Aragorn levantou Frodo, que estava caído junto da parede, e dirigiu-se para a escada, a empurrar Merry e Pippin à sua frente. Os outros seguiram-nos. Mas Gimli teve de ser arrastado por Legolas; apesar do perigo, o anão parara junto do túmulo de Balin [seu primo], de cabeça baixa. Boromir puxou a porta oriental, a ranger nos gonzos.» J.R.R. Tolkien, O Senhor dos Anéis – A Irmandade do Anel, Publicações Europa-América, pág. 374.

4. Sócrates não era um Deus. Com efeito, os deuses são imortais, ao passo que Sócrates não era imortal.

5. A interrupção voluntária da gravidez resulta da liberdade de escolha, que é um direito democrático. Como tal, não deve ser penalizada.

6. “Um protão é uma infinitésima parte de um átomo, que em si próprio já é também uma coisa insubstancial. Os protões são tão pequenos que a porção de tinta usada para pôr a pinta neste i pode conter qualquer coisa como 500 000 000 000 protões, mais que do que o número de segundos em meio milhão de anos.” [Bill Bryson, Breve História de Quase Tudo, Quetzal Editores, pág. 25]

9 comentários:

Anónimo disse...

um pequeno lapso, a expressão "dado que" não é a usada em B

Carlos Pires disse...

Obrigado. Detectei há pouco durante a aula e já corrigi.

Anónimo disse...

também encontrei um lapso mas não digo qual é. os colegas terão de descobri-lo.

Carlos Pires disse...

Obrigado pelo aviso.
Suponho que o facto de não dizer qual é o erro seja bem-intencionado: provavelmente um estímulo à atenção e à perspicácia.
Volte mais vezes e avise sempre que quiser.

Cumprimentos

Anónimo disse...

Sou mãe de uma aluna sua, que tem este ano Filosofia pela primeira vez. Tomei conhecimento deste blogue através dela. Apenas quero aqui deixar um elogio e agradecer o facto de existirem professores como o Professor Carlos Pires!!

Dúvida Metódica disse...

Obrigado pelas suas palavras.

ATCM disse...

“Estava um cão no estábulo e, apesar de alguém lá ter estado e ter levado para lá um cavalo, o cão não ladrou. É óbvio que o visitante era alguém que o cão conhecia bem.” Sherlock Holmes, em A Aventura de Silver Blaze, de Conan Doyle.

Como poderiamos tornar este texto num argumento distinguindo as premissas da conclusão?
Através do modus tollens?

Se entrar alguém desconhecido no estábulo, o cão ladra.
Mas o cão não ladrou.
Logo, quem entrou no estábulo era conhecido.

Solicito ajuda e peço desculpa pelo incomodo.

Dúvida Metódica disse...

ATCM:

O texto tal como foi apresentado já é um argumento. Só que tem uma premissa omitida ou oculta.
O seu Modus Tollens só tem um defeito: põe de lado algumas informações relevantes (pelo menos no contexto da história).
Reescrevendo o argumento apresentado por SH, de modo a apresentar a premissa omitida, obtemos o seguinte:

Estava um cão no estábulo.
Esteve alguém no estábulo e levou para lá um cavalo.
O cão não ladrou.
GERALMENTE OS CÃES LADRAM AOS DESCONHECIDOS.
Logo, quem esteve no estábulo era alguém que o cão conhece.

ATCM disse...

Ah, bom. Não chegaria lá. Então é um entimema. Hum :) Foi muito útil a vossa ajuda, não estava muito convencido com o modus tollens, pois realmente omitia dados. Muito obrigado :) E gostei muito do blogue, muito compensatório tanto a n+ivel educacional, tanto a nível da intelectualidade pessoal.