terça-feira, 13 de outubro de 2009

Discutir ideias em vez de repetir frases

Uma proposição é a ideia (ou pensamento) expressa por uma frase declarativa com sentido.

Frases diferentes podem exprimir a mesma proposição. Por exemplo, as três frases seguintes exprimem exactamente a mesma proposição: A pena de morte é moralmente errada. A pena de morte é incorrecta em termos morais. The death penalty is morally wrong.

Este não é um mero pormenor “técnico” e sem interesse filosófico. Pelo contrário. Na filosofia analisam-se e discutem-se proposições. Ou seja: analisam-se e discutem-se ideias e não as frases que as transmitem. Não é propriamente a frase escrita pelo filósofo X ou Y que interessa, mas sim a ideia por ela transmitida – será uma ideia verdadeira ou falsa?

Do mesmo modo, um aluno não se deve preocupar especialmente com a frase que o professor disse ainda há pouco e que ele não conseguiu escrever no caderno, mas sim com o que o professor queria dizer com essa frase; ou seja, com a proposição – que pode ser expressa através de outra frase diferente. O que esse professor, caso tenha um entendimento correcto da filosofia, esperará do aluno é que este compreenda a ideia e a discuta – e não que repita a sua frase tintim por tintim.

4 comentários:

Cafeína Desvairada disse...

Sabe uma coisa que eu não gosto? Citação. Uma pena que eu cito.

João Pedro disse...

Gostei muito deste post. É uma explicação bastante clara de que quando "dizemos pelas nossas próprias palavras" ainda não começámos a pensar. Parabéns.

Carlos Pires disse...

Cafeína:

Citar para exibir erudição ou a falta de ideias próprias é uma péssima prática intelectual.
Mas citar - com parcimónia - quando a ideia contida na citação é relevante e não conseguimos exprimi-la de modo mais claro que o autor citado, é uma questão de honestidade intelectual.

cumprimentos

Carlos Pires disse...

João Pedro:

De facto o "diga pelas suas próprias palavras" pode ser - e infelizmente na maior parte das vezes é de facto - um mero convite à repetição acrítica.

Todavia, pode também ser um exercício pedagogicamente útil. Tentar exprimir uma ideia por outras palavras (ou - dito por outras palavras! - exprimir uma proposição através de uma frase declarativa diferente da apresentada) pode ajudar a compreender melhor a ideia (nomeadamente se se trata de um aluno com dificuldades).

Fazer isso não significa que não se faça aquilo que é filosoficamente relevante: discutir a ideia, tentar justificá-la ou refutá-la.

Condenar sumariamente toda e qualquer recurso ao "diga pelas suas próprias palavras" é, num âmbito mais restrito, quase tão errado como a desastrosa recusa da memorização (por exemplo da tabuada) e promovida pelos teóricos do "eduquês".
Nuno Crato tem escrito de modo eloquente acerca dos efeitos nefastos que essa recusa teve no ensino e da aprendizagem da Matemática.
Um exemplo comparável é a condenação de toda e qualquer aula expositiva, também promovida por esses teóricos.

cumprimentos