domingo, 23 de janeiro de 2011

Criticar não é o mesmo que arrotar

Discutir

A falácia ad hominem (atacar pessoalmente os indivíduos de quem discordamos em vez de discutir as suas ideias, aludindo a aspectos pessoais irrelevantes para o argumento) é frequente, nomeadamente na política e na vida profissional. Mas, felizmente, a sua utilização é muitas vezes denunciada.

Contudo, essa denúncia nem sempre é justificada. Algumas pessoas, incomodadas com o facto de alguém questionar as suas ideias, declaram-se ofendidas na sua honra. Confundem as críticas com insultos e consideram como um ataque pessoal o desafio que lhes foi feito para debater e argumentar.

Por vezes essa atitude constitui apenas uma fuga oportunista ao trabalho de argumentar e à possibilidade de refutação. Mas outras vezes é sincera: as pessoas sentem-se mesmo atacadas pessoalmente e ficam mesmo aborrecidas.

Sincera ou não, essa atitude é favorecida por uma tradição cultural como a portuguesa, onde a discussão e a crítica não são vistas como tentativas de chegar à verdade e à clareza, mas sim como algo negativo e desagradável. Por isso, em Portugal quando alguém – por exemplo numa reunião de professores – apresenta uma objecção ao que foi dito é frequente instalar-se algum mal-estar: a pessoa cuja opinião foi criticada manifesta incómodo e este é partilhado por muitos dos ouvintes. Como se discordar de modo claro e frontal fosse indelicado e tão socialmente inadequado como arrotar ruidosamente.

Claro que nesses ambientes se admite que as pessoas não estejam de acordo. Contudo, considera-se que o desacordo não deve ser expresso através de um frontal “a tua opinião é falsa: X não é Y”, mas sim através de frases mais relativistas e capazes de tornar o desacordo inócuo: “na minha perspectiva X não é Y, mas é só a minha opinião, a minha maneira de ver, eu respeito todas as opiniões”. A cantilena repetitiva do “na minha perspectiva” destina-se a tornar claro que não se está a contestar a outra opinião e que se considera todas as opiniões legítimas e respeitáveis – já que, supostamente, tudo é uma questão de perspectiva. Parece que assim ninguém se sente pessoalmente atacado.

Infelizmente, esse procedimento não exclui apenas a falácia ad hominem, mas também a possibilidade de debater realmente ideias.

Escusado será dizer que criticar os comportamentos ou a competência (por exemplo profissional) de alguém sem ser acusado de estar a praticar um ataque pessoal é ainda mais difícil do que quando se tenta apenas discutir ideias.

2 comentários:

Patrícia Castro disse...

Perfeito! Parabéns pela lucidez com que conduz suas ideias, por sinal, muito bem fundamentadas. Grande abraço.

Carla disse...

Muito pertinente seu texto. Realmente o tema denota um atraso, já que a aceitação de críticas poderia ser útil para uma série de perspectivas não observadas.

abraços