quinta-feira, 4 de março de 2010

O mal deve-se a Deus ou ao homem?





Deus existe? Em resposta a esta questão filosófica já foram apresentados inúmeros argumentos. Um deles relaciona-se com inegável existência do mal no mundo. Não só os seres humanos praticam, de forma voluntária, actos imorais que provocam sofrimento (mal moral) como há catástrofes naturais e doenças (mal natural), por exemplo.
Como é, então, possível compatibilizar a existência do mal com a perfeição do criador? Isto é: como pode Deus, entendido nas religiões teístas como um ser sumamente bom, que sabe tudo (omnisciente) e pode tudo (omnipotente), permitir que o mal exista? Ou será que Deus não existe?
Os teístas tentam refutar este argumento dizendo que Deus dotou os seres humanos de livre-arbítrio: podemos escolher praticar acções boas ou más e, portanto, somos moralmente responsáveis pelas consequências dos nossos actos. Mas será que o livre-arbítrio existe mesmo? E, supondo que existe, como se explica, então, o mal natural?
No vídeo, o aluno baseia-se numa analogia com o que acontece nalguns fenómenos naturais para explicar a existência do mal. Será um bom argumento? Ou constituirá antes uma falácia informal, designada por falsa analogia?
Nota: Agradeço aos meus alunos André Wallace, Cristina Soares e João Manhita o facto de me terem dado a conhecer este vídeo.

7 comentários:

Daniel Foschetti Gontijo disse...

Adorei o vídeo! Cheguei a me arrepiar...

Mas não sei se é coerente afirmar que frio, escuridão e mal não existem simplesmente porque são "a ausência de algo". Fome existe? Se não, temos um problema mundial a menos para nos preocupar. A escuridão existe e suas implicações são claras. O "mal" é um conceito escorregadio mas, se tratado sem ambiguidades, pode existir perfeitamente. Animais matam ou causam sofrimento a outruem para que possam sobreviver. Também fazemos isso, embora muitas vezes dentro dos limites (leis) e senso moral. Às vezes as mães precisam ser rígidas com seus filhos, tirar a sobremesa, bater, colocar de castigo. Mas essas coisas são institucionalizadas: são praticadas legalmente e pela comunidade em geral. Mas para outros tipos de maldade o agente corre riscos de ser penalizado.

A questão do mal para questionar a existência de Deus é, no meu ponto de vista, muito fraca. Deus só "é" perfeito e bom porque assim o queremos. Como debater se coisas como maldade e liberdade existem sem sequer ter um conceito ou evidência precisos de que Deus existe?

Deuses podem ser muitos. Maldades também. E quase tudo brota da nossa cabeça.

Espero não ter sido ríspido em minhas colocações. Gosto deste blog e de suas postagens, e ele já está adicionado em minha página.

Um abraço!

Sara Raposo disse...

Daniel:
Agradeço o seu comentário e as palavras simpáticas.

Neste anúncio faz-se referência a alguns argumentos filosóficos a favor e contra a existência de Deus que são discutíveis. Tal como referiu, a concepção do Deus teísta é problemática, as qualidades que se atribuem a este ser têm de ser as qualidades humanas no seu grau máximo porquê? Não será Deus um mero produto da imaginação humana, ou seja, a projecção de qualidades perfeitas num ser imaginário?

O argumento baseado na existência do mal pressupõe a ideia de Deus como um ser perfeito, mas este modo de entender o divino não é uma evidência, como observou.
Em Filosofia abordam-se problemas que não se encontram resolvidos pela ciência, procuram-se justificar racionalmente com argumentos certas posição, mas como não existe uma resposta objectiva para os problemas em causa, qualquer perspectiva que se defenda é refutável. O que importa é, portanto, perceber quais são as melhores razões para defendermos um certo ponto de vista sobre a existência de Deus, a liberdade, a justiça, a pena de morte…

O mal natural e moral existem: é um facto. Podemos dar muitos exemplos em que os seres humanos foram capazes de infligir aos outros, de forma consciente e voluntária, o sofrimento. Considerando que a maior parte das pessoas religiosas existentes no mundo segue religiões monoteístas (e partilham a concepção teísta de Deus), então o argumento do mal talvez não seja um mau argumento para demonstrar que Deus não existe. Não acha?

Cumprimentos.

André Rodrigues disse...

Acompanho o blog (que é excelente, por sinal)há algum tempo, e resolvi deixar um comentário. Espero não parecer arrogante. Não é essa a minha intenção.

O texto diz:

"como há catástrofes naturais e doenças (mal natural)"

Mal natural? Se me permite discordar, a natureza não pode ser boa ou ruim. Fazer um juízo de valor moral é ato tipicamente humano. Uma doença ou uma catástrofe, apesar de serem causa de mortes e tragédias, não possuem vontade, no sentido estrito do termo. A idéia de sofrimento decorre da razão humana. Decorre da idéia de crueldade, ou seja, sofrimento desnecessário. Um animal irracional não pode ser cruel pois não é dotado de razão. Ele pode poupar a vida de outro animal, mas o faz ancorado em premissas exclusivamente instintivas, casuais, nada além disso.

Quanto ao vídeo, é ótimo realmente. Discute novamente uma tese levantada pelos pensadores da Escolástica que vira e mexe reaparece.

Fica contudo o aviso: a forma como o debate sobre a existência de Deus foi proposto neste post, e em outros que acompanhei, é a mais impregnada possível de um exclusivo racionalismo (o que na minha opinião é um erro). O que não é nada anormal, até pela proposta do próprio blog. Não sei se é a forma adequada de se estudar a questão, mas, apóio a tentativa.

De resto, só elogios, é um ótimo blog.

Sara Raposo disse...

André:

Agradeço seu comentário e as palavras elogiosas.

Neste blogue não consideramos as discordâncias como arrogância, pelo contrário valorizamos aqueles que apresentam pontos de vista divergentes, desde que argumentem (veja a citação que se encontra no início do blogue do filósofo Stuart Mill, nós procuramos praticar essas ideias e não apenas teorizar).

Quanto à sua observação - a designação de mal natural - refere-se aos acontecimentos da natureza que não dependem dos seres humanos e causam sofrimento, como por exemplo: doenças e catástrofes naturais. Não se confunde, como é óbvio, com o mal moral que só existe quando se praticam acções conscientes e voluntárias.

Sem dúvida que a abordagem da questão da existência de Deus é feita aqui de forma racional: como poderia ser de outra forma se este é um blogue de Filosofia?
Tratar filosoficamente um problema significa discuti-lo com argumentos racionais e lógicos. Isso é, do seu ponto de vista um erro, porquê? Há outra forma mais adequada de estudar a questão? Qual é?

Os pensadores da escolástica, por exemplo S. Tomás de Aquino, partiam do princípio que Deus existia e colocavam a argumentação filosófica ao serviço da fé religiosa. Contudo, a existência de Deus será um tão facto óbvio como o consideraram os pensadores cristãos? Quais são as evidências que apoiam esta ideia?

Se a resposta for dada recorrendo a dogmas aceites sem justificação racional, então estamos no domínio da religião e não da filosofia.

Cumprimentos.

André Rodrigues disse...

Olá novamente professora Sara!

Como o tema é bastante complexo, deixo dois convites pra todos os interessados no debate dessa questão:

Primeiro e mais importante, recomendo a leitura atenta de toda obra do escritor italiano Luigi Giussani, em especial o livro "O Senso Religioso" que encerra categoricamente essa questão do método, do modo de encarar uma experiência religiosa (e consequentemente a problemática de Deus);

e segundo, não tão essencial assim, recomendo uma visita ao meu blogue. Tratei em várias oportunidades desse tema e, mesmo não sendo tão genial quanto Giussani, esclareço o meu ponto de vista.

Um abraço e obrigado!

Sara Raposo disse...

André:

Na minha opinião a questão da experiência religiosa e da existência de Deus não podem, citando as suas palavras, ser encerradas de forma categórica.
A abordagem religiosa, como já referi anteriormente, é distinta da filosófica. A filosofia da religião é uma reflexão em que se recorre a argumentos. Ora, os textos que referiu pressupõem que se aceitem determinadas verdades (nomeadamente a existência desse ser perfeito que é Deus), cuja evidência é bastante discutível.

Para mim é importante compreender, quando me pedem para não o fazer e limitar-me a aceitar sem compreender, reconheço a minha incapacidade em acompanhar esse tipo de discurso. O que, como é óbvio, não significa desrespeito para com o ponto de vista de quem é religioso.

Cumprimentos.

Arthur Golgo Lucas disse...

Saudações, professores!

Sabem o que eu acho engraçado? Que alguém tente "provar" a existência ou inexistência de Deus através de um raciocínio, seja ele qual for.

Ninguém tenta provar a existência ou inexistência dos ornitorrincos - ou dos unicórnios - através de raciocínios.

A prova da existência dos ornitorrincos é a apresentação de um exemplar. A prova da existência de Deus deveria ser diferente?

Já a prova da inexistência dos unicórnios é bem mais complexa: como os unicórnios supostamente são entidades físicas e biológicas, ela só seria possível através do mapeamento completo do espaço de possível ocorrência dos unicórnios, ou da demonstração que a definição da entidade unicórnio possui características incompatíveis com a física e com a biologia. Neste segundo caso, entretanto, tudo que se pode dizer é que unicórnios, tal como o definimos, não podem existir. Mas e se existirem unicórnios com características ligeiramente diferentes mas ainda reconhecíveis como tais?

Deus está na mesma categoria lógica dos unicórnios: ambas entidades cuja existência foi alegada mas nunca provada. Existe, é claro, uma diferença de grau entre uma alegação e outra, mas ainda assim permanecem sendo alegações.

Portanto, tudo que se pode fazer é provar que não existe um Deus segundo esta ou aquela definição, mas não que não exista em absoluto um Deus. Por exemplo, o famoso paradoxo lógico "Deus pode criar uma pedra tão pesada que nem ele pode erguer?" mostra perfeitamente que é impossível existir uma entidade onipotente. Se Deus existir, Ele certamente não é o que dizem dEle. (*)

Do ponto de vista científico, a inexistência de prova não é prova de inexistência. Entretanto, o ônus da prova cabe à alegação de existência. Portanto, a existência ou inexistência de Deus pode ser um objeto válido de investigação científica, mas permanece na categoria de hipótese não provada.

Conclui-se portanto que a existência ou inexistência de Deus não é objeto válido de investigação filosófica e que pelo menos por enquanto a ciência nada tem a dizer a este respeito.

Um grande abraço!

Arthur

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(*) As maiúsculas vão por conta da Aposta de Pascal. Respeito é bom e ninguém quer ir pro inferno, né? :-)