sábado, 20 de junho de 2009

A harmonia dos contrários

“A doença torna a saúde agradável e boa, como a fome a saciedade, e o trabalho o descanso.”

“Não saberiam o nome da justiça, se não fora a injustiça.”

Heraclito

Fragmentos Diels 111 e 23, retirados de: Hélade – Antologia da Cultura Grega, 5ª edição, organizada e traduzida do original por Maria Helena da Rocha Pereira, Coimbra, 1990, pág. 125.

(O link no título remete para uma edição mais recente, das Edições Asa.)

4 comentários:

Catia disse...

Os contrários são indispensáveis. Se não fosse a doença nunca se daria valor à saúde porque simmplesmente não saberiamos o que estar a dar valor. Não podemos dar verdadeiro valor à saúde até contactarmos com a falta dela (em nós próprios ou em alguém próximo). Apesar de por vezes ser tarde demais quando nos apercebemos da importância de algumas coisas é esta dualidade que dá piada e o valor à nossa vida. Se não fosse ela isto seria bastante monótono.



Parabéns pelo blog, adoro!!!

Peregrino disse...

Confunde-se contrarios com contraditório, contrários com constranste. A Injustiça é a ausência de justiça, as duas na realidade e em verdade não coexistem de forma alguma, a injustiça é a ausência da justiça, de modo que não se pode haver justiça parcial ou relativa. Nas regras pode se permetir eventuais excessões, o que as desqualifica como lei, mas quando leis suas excessões podem se tornar regra, de modo que abri-las perante todos provoca a própria desvalorização de sistemas e regras. Aqui fica-se clara a diferença entre excessão e aberração. Talvez em parte porque alguns confundem ética com estética, fazendo-se tal apenas por sua vontade meramente, o que liga-se jamais a honra se não orgulho, conforme debatido em Codex Adágio. Orgulho jamais liga-se a valores morais e éticos, a um código rigido destas leis sejam de conduta ou não, o que aprovém a honra. Antes o orgulho liga-se diretamente ao ódio e soberba de não ser capaz de reconhecer o próprio erro.
A Justiça assim não é fruto da injustiça tão pouco, mas do equilibrio dos elementos destas leis em seu funcionamento harmônico, a injustiça é representada em suma como aberração como fruto da impunidade, ou seja, não cumprimento das leis, de modo que injustiça não é cometer um crime, mas sim não puni-lo.
O Orgulho aqui manifesta-se como uma torção do próprio super-ego que curiosamente não representa força se não contra si próprio onde a medida em que perdem argumentativamente equivalem em sua soberba em não reconhecer-se, permetindo que o próprio erro em questão cresça. Assim, ao se permetir a impunidade a um torna este ineputavel, passivel do mesmo a tal, como exemplificação da proliferação própria do caos social.
Os danos pseudo-adaptativos contra solidez demonstrará sempre o mesmo erro. Uma lei ou regra não pode ser fluída, mas fluir de forma fundamental em funcionamento apenas com bases sólidas.

Carlos Pires disse...

Obrigado Cátia.
Chamavam "Obscuro" a Heraclito pois algumas das suas afirmações são pouco claras. Mas se fosse por estas duas a fama seria injusta.

Anónimo disse...

Reflito sobre a Harmonia do Contrarios pela prática incessante dos ensinamentos da Arte do Karate-Do Goju-Ryu que trata do GO = Dureza e JU = Suavidade. Nos momentos em que pensamos ser melhor usar da força para o combate, nos vem a ideia de que a calma de nossa sabedoria talvez nos faça vencer tal combate. Nos instantes de ira, talvez a nossa paz desarme o oponente. A preocupação com o inimigo não o alveja tanto quanto a indiferença. A "Harmonia dos Contrários" é significadamente o que nos move em relação aos ensinamentos do Universo ao Homem.
João Carlos de Godoi