quinta-feira, 4 de junho de 2009

Citizen Kane: o dinheiro, o poder, a felicidade e o sentido da vida

Citizen Kane

Mostrei nas aulas, a propósito do problema do sentido da vida, o filme “Citizen Kane” (“O Mundo a Seus Pés”, em português) de Orson Welles.

Ainda que alguns alunos tenham achado, inicialmente, uma certa ousadia da minha parte passar na aula um filme a preto e branco realizado em 1941, julgo que maioria deles acabou por não ficar indiferente à história relatada e ao fabuloso desempenho de Orson Welles.

Este filme permite-nos reflectir, entre outras coisas, acerca da relação entre o dinheiro, o poder e a felicidade.

O filme mostra que se pode possuir tudo aquilo que o dinheiro compra, ter poder para concretizar todos os desejos e acabar na mais completa solidão. Sendo assim, o que é verdadeiramente importante na vida?

É espantoso pensar que Orson Welles (simultaneamente realizador e actor principal) tinha apenas 25 anos quando o filme foi feito, tendo sido o primeiro  que realizou.

Bem, chega de palavras. Vejam o filme, que é, na minha opinião, genial.

citizenkane

5 comentários:

mancha negra disse...

O sentido da vida acho que é um prisma pessoal, tal como a "felicidade", se é que o termo encerra algum finalismo. Quanto ao filme, muito badalado entre quem gere fortunas e quem está sempre com o manto diáfano das relações e domínio de poderes. Exceptuando figuras com poder e dinheiro, não creio o que o filme chegue aos olhos do cidadão comum. Ainda assim, é uma excelente obra do Welles.

Sara Raposo disse...

Concordo quando diz que o cidadão comum poderá não aceder a algumas das ideias fundamentais do filme.
Permita-me discordar de si quanto às razões que evoca para explicar tal facto. Julgo que, contrariamente ao que diz, isso não tem a ver com facto do comum dos mortais não ter poder ou dinheiro. Penso que a questão é antes as ideias que as pessoas têm sobre a vida e o que é que as interessa verdadeiramente.
Por exemplo: alguns dos meus alunos têm como aspiração máxima participar em desfiles de moda e vivem obcecados com a aparência. Claro, que tal não é censurável, nem eu julgo ter qualquer superioridade por achar tudo isso medíocre - como referiu a resposta à questão do sentido da vida é pessoal e cada um gasta o tempo como lhe parece conveniente. Reflectirmos um pouco,talvez, possa ajudar-nos a descobrir um caminho que nos convenha mais. No entanto, como poderão pessoas (como estes meus alunos) com este tipo de compreensão do mundo, por exemplo, descobrir algum interesse num filme como este?
Não podem nem querem.
Uma das ideias que julgo relevante no filme é que a solidão e o poder (na política, por exemplo)são indissociáveis. Uma pessoa, como Kane, que instrumentaliza todos aqueles que lhe permitem aceder ao poder (alguns deles parasitas necessários como aqueles que vemos em todos os partidos políticos) passa ela própria a ser vista como um instrumento pelas outras pessoas: está sozinha e, em certa medida, não pode confiar em ninguém.

Nos "Pensamentos", Pascal (matemático e filósofo) falou sobre isto referindo-se à "solidão do rei", tema que é também abordado em várias peças de teatro, nomeadamente o Ricardo III.
Bem, já falei demais. Esta é, entre muitas outras, uma das razões que me fazem gostar muito deste filme.

mancha negra disse...

«Uma das ideias que julgo relevante no filme é que a solidão e o poder (na política, por exemplo)são indissociáveis. Uma pessoa, como Kane, que instrumentaliza todos aqueles que lhe permitem aceder ao poder (alguns deles parasitas necessários como aqueles que vemos em todos os partidos políticos) passa ela própria a ser vista como um instrumento pelas outras pessoas: está sozinha e, em certa medida, não pode confiar em ninguém.»

Sara, a meu ver, actualmente a sociedade moderna (Ocidental), passa pela gestão do poder individual. A Globalização, a economia de mercado, a Liberdade, a Democracia, trouxeram e justificaram vários e demasiados egoísmos. Uns de classe, outros de sistemas políticos/económicos. O liberalismo clássico que tutelou as sociedades "protestantes", pressupõe esse egoísmo, justifica esse egoísmo. A Globalização é uma consequência desse avanço. Em menor grau, todos nos identificamos com "Kane", porque na vida social/profissional
o individualismo impera. As sociedades de leste (do Bloco Soviético), impunham o colectivo.
É simples, Citizen Kane é o araúto do Ocidente, a decadência do "Ocidente", o lamento do Ocidente.

Kane tem outra abordagem, que quanto maior é o peso social e a responsabilidade, maior é a solidão do cargo.

Joao disse...

Aliás, verá, se vasculhar no meu blogue, que não uso a palavra "prova" ou "provado", acho eu.

Uso "evidencia" e "suporte ou não suporte" de hipotese.


O que acha?

Carlos Pires disse...

O comentário do João diz respeito ao post "A palavra ‘provado’ devia ser usada com mais cuidado!".