terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Se o determinismo radical for verdadeiro, salvar 155 pessoas não tem qualquer mérito


Segundo a notícia publicada no Jornal Público de 16 de Janeiro:

Um avião com 150 passageiros e pelo menos cinco tripulantes a bordo caiu no rio Hudson, em Nova Iorque, mas todos foram salvos. O aparelho ficou a flutuar nas águas do rio. O comandante e o co-piloto conseguiram concretizar com sucesso algo que é muito difícil e exige, além de conhecimentos técnicos, coragem e rapidez nas decisões: a amaragem do avião no rio.

A palavra “determinismo” exprime a ideia de que tudo o que acontece é o efeito ou o resultado de um acontecimento anterior. Assim, os acontecimentos não ocorrem devido ao acaso, têm sempre uma causa que, ao ser conhecida, nos permite compreender a razão de ser dos factos.

Assim, dizemos que o acontecimento X causou o acontecimento Y (por exemplo: ao largar uma caneta, a existência da força gravítica é a causa da sua queda para o solo). Assim, torna-se possível, conhecido o nexo causal entre determinados fenómenos, prever a sua ocorrência, pois supomos que há uma relação necessária entre a causa e o efeito, o que significa que a presença de um conduz inevitavelmente à ocorrência do outro. Esta concepção filosófica permite descrever, segundo a teoria do determinismo radical, não só os fenómenos da natureza como também as acções humanas.

Se admitirmos que as acções humanas são acontecimentos (efeitos explicáveis a partir de outros acontecimentos que os originaram - as causas, que podem ser factores de ordem educacional, psicológica, genética, por exemplo), então não faz sentido defender a existência daquilo que cada um de nós julga experienciar muitas vezes em determinadas circunstâncias: a possibilidade escolher o caminho por onde queremos ir - o livre-arbítrio.

O determinismo radical ao defender a inexistência do livre-arbítrio nega, consequentemente, a possibilidade de atribuir responsabilidade moral àquele que praticou a acção: uma pessoa só pode responder pelas consequências das acções se estas resultaram da sua livre escolha. Quando a causa destas reside em factores exteriores ao sujeito, que ele não domina (como por exemplo: a educação, as experiências anteriores, os factores genéticos) e o “obrigam”, sem que ele tenha consciência disso, a agir de um modo determinado, a atribuição do mérito ou da culpa deixa de fazer qualquer sentido.

Aplique esta teoria aos factos apresentados.

Como se explica a relutância que parecemos ter em aceitar as consequências desta teoria?


2 comentários:

F. Farias disse...

Não compreende-se deveras as reais implicações da teoria determinista. Obviamente, não há livre-arbítrio. É impossível que haja livre-arbítrio. É óbvio que quando eu escolho um quadro vermelho a um azul, é uma escolha minha, porém não livre, mas determinada por circunstâncias outras as quais me levam a escolher o quadro vermelho. Minha escolha pode variar, de fato, mas apenas se as circunstâncias mudam — o que não varia é o fato de que minha escolha não é livre, mas determinada pelas circunstâncias! O livre-arbítrio só existe enquanto ilusão. Ele representa a diferença que a miragem do deserto tem com relação à realidade e a imaginação. Ora, a miragem não uma imaginação, ela é uma ilusão, o que é diferente. Destarte, o livre-arbítrio (impossível, racionalmente) representa uma ilusão que temos. Sob as mesmas circunstâncias, sempre responderemos da mesma forma.

Não obstante, não é verdade que somos isentos de responsabilidade moral por conta do fato do determinismo. Não há que se olvidar que não somos comandados apenas por fatores externos, mas, outrossim, pela reunião dos fatores externos com nossa própria natureza, caráter ou personalidade... É fato, também, que essas características pessoais não são escolha nossa, não havendo livre-arbítrio! Mas, sendo a nossa real natureza, se é imoral, não é injusto que condenáveis por nossas ações imorais! E se é moral, não é injusto que sejamos bem recompensados por nossas ações morais... Não é como se, pelo fato de não haver livre-arbítrio, quiséssemos fazer o certo, mas fôssemos forçados a fazer o errado, como alguém que está possuído, por exemplo. Na verdade, aquilo (ou aquele?) que nos comanda, estabeleceu um sistema melhor de comando: Nos faz naturalmente fazermos o que ele quer, fazendo que queiramos isso - daí a ilusão de livre-arbítrio. Mas se pensarmos bem, veremos que não há livre-arbítrio.

Nada do que eu escolhi eu escolhi escolher. Minha profissão, a escolhi porque naturalmente gostava dela, o mesmo com minha esposa e tudo o mais. Mesmo a pessoa que para contradizer a teoria do determinismo escolha algo de que não goste, o fará pois já estava determinado que, sob essa circunstância (de tentar contradizer uma teoria), tal pessoa escolheria algo de que não gosta. Está "tudo escrito", embora isso não nos isente de responsabilidade moral, pois, embora na verdade a realidade seja o determinismo, vivemos, de fato, a ilusão do livre-arbítrio

F. Farias disse...

Não compreende-se deveras as reais implicações da teoria determinista. Obviamente, não há livre-arbítrio. É impossível que haja livre-arbítrio. É óbvio que quando eu escolho um quadro vermelho a um azul, é uma escolha minha, porém não livre, mas determinada por circunstâncias outras as quais me levam a escolher o quadro vermelho. Minha escolha pode variar, de fato, mas apenas se as circunstâncias mudam — o que não varia é o fato de que minha escolha não é livre, mas determinada pelas circunstâncias! O livre-arbítrio só existe enquanto ilusão. Ele representa a diferença que a miragem do deserto tem com relação à realidade e a imaginação. Ora, a miragem não uma imaginação, ela é uma ilusão, o que é diferente. Destarte, o livre-arbítrio (impossível, racionalmente) representa uma ilusão que temos. Sob as mesmas circunstâncias, sempre responderemos da mesma forma.

Não obstante, não é verdade que somos isentos de responsabilidade moral por conta do fato do determinismo. Não há que se olvidar que não somos comandados apenas por fatores externos, mas, outrossim, pela reunião dos fatores externos com nossa própria natureza, caráter ou personalidade... É fato, também, que essas características pessoais não são escolha nossa, não havendo livre-arbítrio! Mas, sendo a nossa real natureza, se é imoral, não é injusto que condenáveis por nossas ações imorais! E se é moral, não é injusto que sejamos bem recompensados por nossas ações morais... Não é como se, pelo fato de não haver livre-arbítrio, quiséssemos fazer o certo, mas fôssemos forçados a fazer o errado, como alguém que está possuído, por exemplo. Na verdade, aquilo (ou aquele?) que nos comanda, estabeleceu um sistema melhor de comando: Nos faz naturalmente fazermos o que ele quer, fazendo que queiramos isso - daí a ilusão de livre-arbítrio. Mas se pensarmos bem, veremos que não há livre-arbítrio.

Nada do que eu escolhi eu escolhi escolher. Minha profissão, a escolhi porque naturalmente gostava dela, o mesmo com minha esposa e tudo o mais. Mesmo a pessoa que para contradizer a teoria do determinismo escolha algo de que não goste, o fará pois já estava determinado que, sob essa circunstância (de tentar contradizer uma teoria), tal pessoa escolheria algo de que não gosta. Está "tudo escrito", embora isso não nos isente de responsabilidade moral, pois, embora na verdade a realidade seja o determinismo, vivemos, de fato, a ilusão do livre-arbítrio