quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Deus existe ou não? Vai uma aposta?

Enquanto empurrava o neto no baloiço uma senhora idosa ia conversando com uma senhora mais jovem.

- O que tu precisas, filha, é de Deus e não de comprimidos e psicólogos. Nem de cigarros, já agora.

- Quem a ouvisse pensaria que basta acreditar em Deus para os problemas desaparecerem. Seja como for, eu não acredito…

- Então começa a acreditar!

- Mas, mãe, como é que…

- O que tens a perder? Começa a acreditar… Reza, vai à missa, lê a Bíblia. Curas a depressão e ganhas a felicidade eterna.

- Não é assim que as coisas se passam. As pessoas não decidem acreditar: acreditam ou não acreditam, independentemente de quaisquer decisões.

- Porquê? Como te disse, não tens nada a perder. Repara: se acreditares em Deus e ele de facto existir estás do lado certo, por assim dizer. Ganhas a aposta, percebes?

- Aposta?

- É uma maneira de falar, Maria Francisca. Se Deus afinal não existir… Bem, paciência. Mas a confiança e a tranquilidade dadas pela fé já ninguém tas tirará.

Como resposta a Maria Francisca abanou a cabeça e acendeu um cigarro.

- Se há alguma coisa que eu sei, filha é que Deus existe. Mas não interessa o que eu sei. Exista ou não exista, ganhas em acreditar.

- Não percebo como é que uma pessoa tão religiosa como a mãe pode defender uma ideia dessas. Parece um negócio: arranjar fé porque dá lucro. Se Deus existe e é tão sábio e bondoso como a mãe acredita que é, aposto que não fica nada satisfeito com as pessoas que fazem isso… Esta aposta parece-me bem melhor que a outra.

Maria Francisca riu-se ao dizer estas últimas palavras. Não ouvi a resposta da mãe, pois acompanhei a retirada do meu filho do baloiço para o escorrega. Enquanto tentava acompanhar os seus rápidos passinhos, procurei recordar as palavras do filósofo e matemático francês Blaise Pascal (certamente um desconhecido para as duas senhoras) que, no século XVII, argumentou a favor da existência de Deus recorrendo à ideia de “aposta” – a aposta de Pascal.

“Deus existe ou não existe. Mas para que lado nos vamos inclinar [nós que somos tão imperfeitos e ignorantes]? (…) É preciso apostar. Pesemos as vantagens e as desvantagens de apostar na existência de Deus. Calculemos estes dois casos: se ganharmos, ganhamos tudo; se perdermos, nada perdemos. Apostemos então sem hesitar que ele existe.”

Pascal, Pensées, nº 233, Garnier-Flammarion, 1986, pág. 114.

9 comentários:

Joao disse...

Para não fazer um comentário demasado longo vou só criticar a maior ingenuidade da aposta de Pascal.

Qual Deus? É que se errarmos na religião escolhida, corremos o risco de fazer as coiasas erradas e ir parar ao inferno na mesma.

Mais vale ter a melhor moral possivel em termos terrenos e não perder tempo com apostas toscas.

Carlos Pires disse...

João:

O Pascal presume que a aposta incide no Deus cristão, mas claro que isso é injustificável.
Isso também sucede com outros argumentos a favor da existência de Deus (melhores que a aposta, apesar de tudo),que não se aplicam só ao Deus cristão e não permitem decidir qual é a religião que tem razão.

E concordo: tentar justificar a moral a partir da religião é errado. Não sou religioso mas desconfio que se fosse também pensaria assim.

Anónimo disse...

Eu nao acredito em deus, o mundo nao foi criado por deus, foi simplesmente o big bang. Eu nem sequer tenho religiao, simplesmente nao acredito em deus, acho isso uma perfeita tolice. Nao me importa se me dizem que irei para o inferno por nao acreditar em deus, pois nao acredito no inferno, ou no céu. Quando se morre simplesmente se deixa de existir, já nao há nada a fazer..deviamos ter feito em terra o que queriamos, porque depois da morte nao há nada. Há até quem diz que os anti-cristaos vao chegar um dia, e o mal ira governar o mundo, e que o que prova isso sao os ultimos acontecimentos no Haiti,Austrália,Funçal etc. Mas tudo isto nao passa de catastrofes naturais, ninguem as consegue provocar!Simplesmente acontece, Nao se sabe quando ou porque. Nada prova que deus existe. Eu só acredito quando o vir..!!!

Carlos Pires disse...

Caro anónimo:

eu não acreditaria em Deus mesmo que o "visse", pois o mais provável é que fosse uma ilusão.

Seja como for, há muitas perguntas por responder. Por exemplo: o 'big bang' criou o Universo, mas qual foi a causa do 'big bang'?

Anónimo disse...

A vida é a maior prova da existência de Deus, como explicar nossos sentimentos, como explicar a sabedoria do ser humano, como explicar as maravilhas existentes no mundo se não atraves da presença de Deus...
Acreditem, Deus existe,Ele todos os dias nos prova a sua existência por nos mesmos.

31193200 disse...

O problema não está na crença da existência ou não de Deus, pois se existimos é porque algo nos criou. O problema está na NATUREZA do criador. O Universo é INFINITO, portanto, nada pode criar o Infinito, uma vez que nada pode ser maior que ele. Então só nos resta uma alternativa: O próprio Universo é o criador. Mas para isso ele deve ser um CAMPO INFINITO DE ENERGIA (e cada dia se prova isso cientificamente). Uma Energia regida por uma linguagem matemática, logo INTELIGENTE, mas não Consciente, pois não faz sentido a existência de um ser que não conhece sua própria dimensão, já que é infinito (pelo menos, segundo Huberto Rohden esta forma de consciência que conhecemos). Para quem quer se aprofundar neste assunto escrevi o livro O MITO DO DEUS PAI publicado pela Editora Biblioteca 24X7 que discute o Universo Inteligente, senhor de sua própria criação. Entretanto, este não é um livro materialista, pois mostra que somos quantidades ínfimas de energia gerada pela vibração da Inteligência Infinita até adquirimos consciência através das sucessivas reencarnações em corpos materiais até evoluirmos para Seres Superiores (Espíritos de Luz).
Infelizmente, este é um assunto sobre o qual as pessoas se recusam a falar e até a pensar. Elas têm medo, horror mesmo do desconhecido e isso leva ao comodismo de aceitar as explicações burlescas dos religiosos inclusive de que quando se sofre é por que o deus pai gosta muito de nós e está nos pondo a prova para ver nossa o grau de nossa fé. Esta é a desculpa que os religiosos têm par justificar a miséria humana. Como psicanalista em formação posso assegurar que esta é uma atitude de transferência dos nossos pais biológicos que nos protege quando criança para um pai mais poderoso que nos protegerá quando adultos. Esta é a razão pela qual nossos antepassados tomaram os extraterrestres que assomaram em nosso céus como deus e sua comitiva de anjos que vieram trazer justiça à Terra, fazendo prosperar os bons e aniquilando os maus, imagem esta bem retratada nos textos bíblicos e que perdura até hoje, mas o Infinito não pode se reduzir ao finito (aspecto humano). Assemelho esta condição a de um personagem de nossa história (não sei se verdadeira) chamado Diogo Álvares que preso pelos índios inflamou um pouco de aguardente e apontou para o rio. Resultado: o mesmo que os nossos antepassados e ele acabou casando com a filha do cacique.
Pedro Cabral Cavalcanti – pcabralcavalcanti@gmail.com

Anónimo disse...

Muito interessante, esta sua reflexão. O texto está excelente, mas com um senão: como pode você ter a certeza de que, "certamente", nem a mãe nem a filha conheciam pascal? Foi algum deus que lhe disse?

Carlos Pires disse...

Caro anónimo:

apesar de eu valorizar muito a ironia, acho o seu comentário irrelevante.

JC de Castro Rios disse...

Todos nós cremos alguma coisa. Os ateus crêem que Deus não existe e conseqüentemente que não existe vida após a morte, enquanto que outros crêem na existência de Deus e que conseqüentemente existe outra vida além desta. Uma coisa está ligada a outra. Existe a suposição quando não há provas que podem ser observadas pelos órgãos do sentido; ver, tocar, inalar, saborear, pela física, pela química, pela cibernética, assim sendo, tanto se pode supor a não existência de Deus como também se pode se supor á sua existência. É uma questão de quer crer numa ou não outra coisa. È uma questão da vontade de cada pessoa. Existem ateus por razão ideológica, como os marxistas que adotam a teoria do materialismo dialético. Como disse Karl Marx “A religião é o ópio do povo”. Outros ainda recusam aceitar a idéia de um ser superior que tem o poder de fiscalizar e de julgar os seus atos, a existência de um Deus os incomoda. Ainda outros, que estão alheios a existência de Deus, pretendem simplesmente ignorá-lo, não tomar conhecimento da sua existência, assim eles podem pensar e agir livremente como bem entenderem; Deus não faz parte da vida deles vida, estão alheios a Ele. Assim sendo, como é uma questão optativa que tanto se pode não crer na existência de Deus e numa vida além túmulo como também se pode crer na existência de Deus e numa vida após a morte. Aqueles que acreditam na existência de Deus partem do princípio que não pode existir obra sem autor, que nada se faz por si mesmo. Uma casa não se constrói por sim mesma, alguém tem que construí-la. Não existe geração espontânea. Alguém acionou do nada o Big-Bang. Se os Bigs-Bangs são uma secessão de expansões e retrações do universo deve ter havido um primeiro Big-Bang, ou esse processo é eterno? Nunca teve principio... ...?
Caso Deus não exista e nem outra vida após esta, quando uma pessoa morre, deixa de existir, ela cai no vácuo do nada. Todos que morreram tiveram o mesmo fim foram reduzidos a nada, os grandes benfeitores da humanidade, os grandes cientistas, tiveram o mesmo destino dos maiores malfeitores da humanidade; assassinos cruéis, bandidos de toda espécie se igualaram na morte. Sem mencionar personagens ligadas a religião, mas criaturas como Mahatma Gandhi, o casal Curie, Madre Teresa de Calcutá, Braile, Albert Sabin, passaram a ter o mesmo fim de Nero, Calígula, Hitler, Stalin, todos se igualaram na morte. Se nada existir após a morte nunca, poderemos ficar sabendo. Ninguém, jamais, poderá pensar: — “Eu não disse que iria existir nada após a morte”, porque o defunto não mais um cérebro para raciocinar. Para os ateus isso é uma tranqüilidade, morrem sem nenhum sentimento de culpa. Mas, numa segunda suposição, se houver outra vida após a nossa morte imediatamente saberemos que ela existe e que conseqüentemente, Deus também. Na dúvida, é mais prudente, considerar esta hipótese. Hipótese por hipótese é melhor ficar com a última. Não haverá risco para uma decepção desastrosa e irreparável.
José Carlos de Castro Rios - São Paulo - SP. - jc.rios@globo.com