quarta-feira, 1 de julho de 2009

Sem Deus tudo seria permitido?

«Afirma-se muitas vezes que é prejudicial atacar uma religião, porque ela torna os homens virtuosos. Confesso que não estou convencido disso. Conheceis, por certo, a paródia que Samuel Butler fez deste argumento no sue livro Erewhon Revisited.

Estais recordados de que um certo Higgs chegou a uma remota região onde passa algum tempo e depois se escapa num balão. Vinte anos depois, tendo aí regressado, ficou Albrecht Durer's Praying Hands rezar surpreendido ao deparar com um novo culto no qual ele próprio era adorado sob o nome de Filho do Sol. Recorde-se que, com efeito, subiu aos céus. Estava para breve a celebração da Festa da Ascensão, quando ouviu (…) [dois] altos dignitários da religião dos Filhos do Sol confidenciar uma ao outro que nunca tinham visto o chamado Higgs e que esperavam que jamais isso acontecesse. Cheio de indignação, aproximou-se e disse-lhes: ‘Vou esclarecer neste dia toda esta mistificação e dizer ao povo de Erewhon que eu, Higgs, sou apenas um homem como os outros e que, simplesmente, me servi de um balão para deixar o vosso país.’ Responderam-lhe: ‘Não faças isso, porque todos os princípios morais deste povo estão ligados a esse mito, e se souberem que não subiste ao céu, transformar-se-ão todos em malfeitores’. Persuadido, abandonou o país silenciosamente.»

Bertrand Russell, Porque não sou Cristão, Brasília Editora, Porto, s/d, pp. 28-29.

Os sacerdotes convenceram Higgs a não dizer a verdade argumentando que sem a fé religiosa não haveria razões suficientemente fortes para convencer as pessoas a agir moralmente: cumprir regras, respeitar os outros e os seus bens, etc. O romancista russo Fiódor Dostoiévski exprimiu essa ideia através destas célebres palavras: “Sem Deus tudo seria permitido”.

A ideia de que as pessoas não agiriam moralmente se não tivessem uma motivação religiosa presta-se a objecções óbvias, nomeadamente esta: há imensas pessoas que não têm qualquer crença religiosa e mesmo assim procuram agir moralmente. Por isso, é possível que mesmo sem Deus nem tudo fosse permitido.

Mas, mesmo que admitíssemos a necessidade de uma tal motivação religiosa, isso não seria – como sugere a história contada por Bertrand Russell – uma prova a favor da existência de Deus ou de outro ser sobrenatural qualquer. Com efeito, para se adquirir esse tipo de motivação e para que esta seja eficaz, não é necessário que Deus exista – basta que as pessoas acreditem que existe.

[Uma discussão mais detalhada destas ideias levar-nos-ia a considerar vários tópicos filosóficos, nomeadamente a teoria dos mandamentos divinos (acerca da natureza dos juízos morais) e o argumento moral a favor da existência de Deus.]

Na imagem: Betende Hände, Desenho a pincel sobre papel azul de Albrecht Dürer (1471-1528).

6 comentários:

Carlos Botelho disse...

Só uma achega: Hitler disse uma vez que se tinha de acabar com o Judeu, porque (cito de memória) tinha sido ele o "inventor" da consciência moral (estaria a referir-se a Moisés e aos Mandamentos), que a consciência é uma cicatriz na alma humana, assim como a circuncisão é uma cicatriz no corpo.

Carlos Pires disse...

Obrigado Carlos.

Não conhecia essa afirmação.

Realmente o Hitler tinha muitas razões (muito mais que 6 milhões) para recear a consciência! E - tragicamente - o que fez para fugir ao seu veredicto ainda o agravou mais.

Lourenço disse...

Viva.

Pois...parece-me que uma grande fatia da população mundial continua - erradamente - a interligar os conceitos de moralidade e de religião, pois um não implica a existência do outro.

Numa pesquisa no domínio da Antropologia o Dr. Marc Hauser (biólogo de Harvard) e colegas seus adaptaram as suas experiências morais à tribo dos Kunas, uma tribo do Panamá que tem poucos contactos com os ocidentais e não possuem uma religião formal.

Os investigadores fizeram as respectivas adaptações à realidade local, submetendo os indivíduos a dilemas e situações de conflito. Os Kunas mostraram ter, com pequenas diferenças, juízos morais semelhantes aos nossos.

Ainda segundo Hauser:

“Por detrás dos nossos juízos morais há uma gramática moral universal, uma faculdade da mente que foi evoluindo ao longo de milhões de anos de maneira a incluir um conjunto de princípios que construísse um leque de sistemas.”

Noutro estudo (com o filósofo da moral, Peter Singer) sobre as diferenças de moral entre ateus e religiosos, concluiu que não existe diferença estatisticamente significativa entre eles quanto à formação destes juízos; tal é compatível com o ponto de vista segundo o qual não precisamos de Deus para sermos bons – ou maus.


Como diria Einstein: " Se as pessoas só são boas porque temem o castigo e esperam recompensa, estão somos mesmo uma triste cambada."

Saudações

Carlos Pires disse...

Olá Lourenço.

Não conhecia o estudo de Hauser. Vou pesquisar, pois parece interessante.

Há outras objecções contra a subordinação da moral à religião.

Uma delas pode ser resumida numa pergunta simples: qual religião? É que há tantas… E a maioria delas tem facções – cada qual com a sua versão do que Deus quer. Por isso, não é claro o que é que deve contar como “Palavra de Deus”.

Tenciono escrever em breve um post sobre uma outra objecção, conhecida como “o dilema de Êutifron”.

Obrigado pelo comentário.
Cumprimentos

Anónimo disse...

Apenas concordei com o argumento de que não é necessário que Deus exista e que basta que as pessoas acreditem que existe, para agirem moralmente. Eu acredito não por teoria apenas, mas também pelo que já vivenciei. Já ouvi muita gente dizendo que se Deus realmente não existisse, então poderia fazer o que quisesse, e aproveitar daqueles que creem para tirar vantagem disto. Por que será que muitos homens rejeitam tantos ensinos sábios que estão ligados a Bíblia, tornando-se mais egoístas? Acho que a resposta está aqui.

F. Farias disse...

Ateus costumam inverter o que afirmamos: Não afirmamos que é impossível se agir moralmente sem se crer em Deus. O que dizemos é que é necessária a existência de Deus para fundamentarmos certo e errado. Se Deus não existe, simplesmente não há certo e errado! Um ateu jamais poderá afirmar que um estuprador e assassino de crianças é errado, pois se Deus não existe, nada é errado. Ora, sabemos íntima e inequivocamente que estuprar, torturar e matar uma criança é errado. Logo, Deus existe. Ateus podem cometer ações corretas. Mas ao fazê-las e recomendá-las cometem hipocrisia filosófica, irracionalidade e mitologia