sexta-feira, 10 de julho de 2009

Conformismo: a diferença entre o que pensamos e o que dizemos

Descartes escreveu não sei onde (provavelmente numa carta a um amigo de confiança) estas palavras, úteis tanto na guerra como na paz:

“Não digo tudo o que penso, mas penso em tudo o que digo”.

Se as interpretarmos para além do significado mais imediato (ou seja, não se deve falar precipitadamente, deve-se ser capaz de justificar aquilo que se afirma, etc.), são palavras cautelosas. Talvez pouco corajosas.

metro cala-te Mesmo assim, fazem figura de declaração heróica quando comparadas com as palavras e as atitudes de algumas pessoas muito conformistas. Perante leis de que discordam e contra as quais têm fundamentadas objecções, não se limitam a dizer que a lei é para cumprir mesmo quando se discorda dela. Dizem também que não vale a pena discutir e protestar. No fundo, o que dizem é: devemos obedecer sem pensar.

Claro que essas pessoas estão erradas. Se toda a gente fosse assim, as leis nunca mudariam. Podemos cumprir as leis e, mesmo assim, discordar delas e promover debates e outras actividades susceptíveis de provocar a sua alteração. Ou seja: mesmo quando obedecemos devemos pensar. Fazer isso não significa que somos maus cidadãos e é defensável que constitui, pelo contrário, um dever cívico.

Pode mesmo suceder que consideremos certas leis, não apenas politicamente erradas, mas também moralmente erradas. E nesse caso existe a possibilidade de lhes desobedecermos, não por interesse pessoal, mas devido a essa discordância moral. A essa atitude chama-se “desobediência civil”. E, como é óbvio, para sabermos se se trata realmente de um caso de genuína desobediência civil, e não de interesse pessoal disfarçado, é preciso pensar e discutir o assunto com outras pessoas. (Se clicar aqui pode ler mais acerca do assunto.)

Por isso, apesar de ser social e psicologicamente impossível dizer tudo o que pensamos, é defensável considerar que o devemos fazer com muito mais frequência do que aquela que é aconselhada pelo conformismo.

Não dei propositadamente nenhum exemplo – mas devo dizer que pensei em vários, pois na sociedade portuguesa o fenómeno não é, infelizmente, raro. Se a cara leitora ou o caro leitor, conhecerem algum e quiserem dizer o que pensam… Pensem duas vezes mas não três: a caixa de comentários está à vossa inteira disposição.

A fotografia é da autoria de Rui Lebreiro e pode ser encontrada aqui.

5 comentários:

Manolo Heredia disse...

As leis foram feitas para lhes desobedecermos, se não estivermos de acordo com elas. Para que servem? – para resolver os conflitos entre pessoas, e a seguir lavar as mãos.

Carlos Pires disse...

Manolo:

Confesso que não compreendo o seu comentário.
Talvez por ser muito lacónico ou, eventualmente, porque o calor do Verão me está a afectar os neurónios.

Não quer explicitar melhor a sua ideia?

cumprimentos

Pedro Lopes disse...

a imagem que ilustra o texto é de Rui Lebreiro
www.flickr.com/photos/ohcaptain/1876272251/

ohcaptain disse...

Boa noite,

Antes de mais agradeço o interesse na minha fotografia.

Nestas situações costumo solicitar uma indicação do autor e se possível link para o meu stream no flickr (http://www.flickr.com/photos/ohcaptain/).

Agradeço desde já,
Rui Lebreiro

Carlos Pires disse...

Rui: peço desculpa pela omissão. Já corrigi. É uma bela fotografia, parabéns.

Pedro: obrigado pela chamada de atenção.