quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Se o solipsismo for verdadeiro o caro leitor não existe: eu é que existo


“O solipsismo é a perspectiva (...) de que apenas eu e as minhas próprias experiências são reais. Os objectos físicos e as outras mentes não têm existência a não ser na minha mente. Os críticos sublinham que, na prática, ninguém se comporta como um verdadeiro solipsista.” Aires Almeida, Dicionário Escolar de Filosofia

O matemático do cartoon comporta-se como “um verdadeiro solipsista”?

Um verdadeiro solipsista consideraria que só ele existe realmente: todas as outras pessoas e restantes coisas do mundo (e não apenas o George) não existiriam de facto, seriam apenas representações mentais suas.

Mas imaginemos que o matemático, além de dizer o que disse, também declarava a inexistência das outras pessoas e restantes coisas do mundo. Nesse caso, estaria a comporta-se como “um verdadeiro solipsista”?

Provavelmente não. Se o matemático acreditasse realmente que só ele existe porque falaria com o George? Porque lhe daria um nome? Porque efectuaria um cálculo matemático para demonstrar a sua inexistência?

Assim, uma pessoa que argumente para defender o solipsismo está simultaneamente a negá-lo, pois se argumenta (se apresenta razões para convencer) é porque afinal acredita que existe pelo menos outra pessoa.

A crença de que as coisas que vemos e sentimos são reais é uma crença básica. Tal como a crença que as outras pessoas existem realmente e têm mentes semelhantes à minha. Uma crença básica é uma crença em que as outras crenças se apoiam, ou seja, é uma crença que serve de justificação às outras.

Por exemplo: se não fosse a minha crença de que existem realmente outras pessoas e que elas têm mentes parecidas à minha não faria sentido a minha crença de que devo tentar evitar os erros de português, tal como não faria sequer sentido estar a escrever este post.

Utilizamos as crenças básicas para justificar outras crenças. Mas como podemos justificar as próprias crenças básicas? Qual é o seu fundamento? Por outras palavras: qual é a justificação da justificação?

Parece-nos muito evidente que as outras pessoas e as restantes coisas existem. Mas como é que podemos provar que realmente existem? E se tudo isso não passasse afinal de uma ilusão? Nos sonhos achamos que muitas coisas são claras, evidentes, reais... E se a nossa vida fosse uma espécie de sonho?

Nesse caso o solipsismo teria alguma razão de ser: o sonhador é real, mas as coisas com que sonha são meras representações mentais e não existem realmente.

Claro que se eu acreditasse que é realmente assim, nem sequer estaria a escrever isto. Mas isso não prova que aquilo em que acredito é real, pois eu poderia estar enganado - poderia estar a sonhar que não estou a sonhar. Como provar então que não estou enganado e que as pessoas e as coisas que vejo são reais?

Ou seja: como provar a minha crença de que o solipsismo é falso?

(O cartoon foi roubado no blogue De Rerum Natura.)

1 comentário:

Bruno Bochartt disse...

- Tudo que é poderia não ser.

Não existe nenhum fundamento, todo o sentido é construído de maneira local e restrita. Se "A" é justificado por "B" e "B" por "C" sempre existira a carência de um "D" ou no limite um "Z" formando assim uma cadeia de argumentos que flutuam no ar. Tão logo o homem percebeu esse carência criou Deus, ou o não deus(ateu) que na equação tem a mesma função.
A única maneira descente de viver é se agarrar na dúvida e na crença, alternando esses polos constantemente a luz dos objetos do pensamento. Dito isso penso que o solipsismo tem da minha parte meia dúvida e meia certeza, da dúvida porque não existe a verdade absoluta e a certeza porque todas as experiências e estudos me levam a suspeitar que existe algo fora da mente mas que aquilo que vejo,ouço,sinto e interpreto é exclusivamente particular.