quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Pêssegos e duelos: exemplos ilustrativos do problema do livre-arbítrio

As nossas acções são realmente livres ou são determinadas por causas anteriores que não controlamos? Escolhemos de facto o que fazemos ou um certo conjunto de factores físicos, biológicos, culturais, etc., é que nos leva a fazer aquilo que fazemos?

Numa apresentação um pouco simplificada, este é o problema do livre-arbítrio. Temos ou não livre-arbítrio?

Eis três exemplos ilustrativos do problema: Évarist Galois aceitou participar num duelo (que sabia que ia perder), Jaime Neves recusou participar num duelo, uma pessoa Y qualquer comeu uma fatia de bolo e não um pêssego – terão agido livremente?

O matemático francês Évarist Galois foi, em 1832, desafiado para um duelo por um rival amoroso (o despeitado noivo de uma senhora da qual se enamorou e com quem teve uma breve relação). De acordo com as crenças e costumes da época, recusar um duelo constituía uma desonra, uma vergonha pior que a morte. Temendo a censura e o desprezo da sociedade e da sua amada, Galois aceitou o duelo. Sabia, porém, que o seu adversário era muito mais hábil com as armas que ele e que tinha poucas hipóteses de sobreviver.

Por isso, passou a noite anterior ao duelo a escrever apontamentos de algumas das suas ideias matemáticas (misturadas com exaltadas declarações de amor à referida senhora e queixas desesperadas relativamente à falta de tempo para escrever as suas ideias e impedir que morressem com ele). As ideias registadas à pressa nesses apontamentos ainda hoje são estudadas por muitos matemáticos e tiveram um papel importante no desenvolvimento da Matemática, nomeadamente da Álgebra.

Quando chegou a hora marcada, Galois largou a pena e dirigiu-se ao local combinado para o duelo. Como seria de esperar, foi atingido e morreu. Tinha 20 anos.

No dia 25 de Abril de 1974 as forças chefiadas pelo major Jaime Neves cercaram um local (salvo erro, a Legião Portuguesa, na Penha de França, em Lisboa) onde estavam aquarteladas forças leais a Marcello Caetano. Inicialmente o comandante dessas forças recusou render-se. Este propôs a Jaime Neves que, em vez de um conflito que podia provocar a morte de muitos civis, resolvessem o problema como “dois cavalheiros, à maneira antiga”: com um duelo entre ambos.

Jaime Neves terá respondido: “Tenha juízo homem! Renda-se imediatamente senão mando os meus homens dispararem.” E esse comande rendeu-se.

Jaime Neves não se sentiu desonrado ao recusar o duelo e a sociedade portuguesa não o censurou nem desprezou por isso.

“Supõe que estás na bicha de uma cantina e que, quando chegas às sobremesas, hesitas entre um pêssego e uma grande fatia de bolo de chocolate com uma cremosa cobertura de natas. O bolo tem bom aspecto, mas sabes que engorda. Ainda assim, tiras o bolo e come-lo com prazer. No dia seguinte vês-te ao espelho, ou pesas-te, e pensas: ‘Quem me dera não ter comido o bolo de chocolate. Podia ter comido antes o pêssego’.”

Thomas Nagel, O que quer dizer tudo isto? – Uma iniciação à Filosofia, Gradiva, 1995, pág. 45.


(Na imagem: Évarist Galois.)

1 comentário:

Rafael Vieira disse...

O problema do livre arbítrio é um dos mais importantes problemas filosóficos e foi até considerado por Kant por um problema do qual nunca teríamos a certeza da resposta. Porém a justiça recorre muitas vezes a respostas dos problemas do livre arbítrio, para avaliar os processos jurídicos.
Para mim, o problema do livre arbítrio divide-se em 2 questões: São os pensamentos livres? São as nossas acções livres? Responder à primeira questão é complicado, pois não sabemos bem o que são pensamentos. Serão espontâneos? Resultam de processos biológicos? São o fruto do mais puro acaso da interacções entre partículas? Na minha perspectiva os pensamentos são espontâneos, pois surgem a qualquer hora, e são bastantes aleatórios quanto ao tema (tanto posso estar a pensar na morte da bezerra como no segundo a seguir pensar no problema do livre arbítrio) o que me leva a pensar que os pensamentos são o fruto das interacções entre as partículas (as partículas movem-se de modo determinado), sou forçado a admitir que o livre arbítrio não existe, e a apoiar o determinismo radical visto que os pensamentos sã o resultado de interacções entre os átomos.
Quanto à segunda questão (São as nossas acções livres?) a resposta é mais simples. As acções são a expressão dos pensamentos e antes de serem executadas passam por uma espécie de exame mental que avalia se vale ou não a pena, exprimir o pensamento. Por exemplo se pensar que vou voar, não vou automaticamente voar pela cidade fora, avalio a ideia e acabo por classificá-la como impossível de realizar na actualidade. No entanto se analisarmos o problema do pêssego e do bolo de chocolate vemos como existem 2 pensamentos que se contradizem gerando um dilema, o qual a pessoa vai analisar e chega à conclusão que vai comer o bolo de chocolate. Assim concluímos que as acções antes de serem executadas, são analisadas e depois é que são executadas.
Por fim concluo dizendo que as acções são determinadas por factores genéticos, sociais pela educação, entre outros, mas que o indivíduo possui em determinados momentos liberdade de escolha, como é o caso do exemplo da sobremesa. Conclusão, os pensamentos são determinados e as acções são livres ainda que influenciadas por outros factores.