domingo, 29 de maio de 2011

A leitura liberta

«Leio e estou liberto. Adquiro objectividade. Deixei de ser eu e disperso. E o que leio, em vez de ser um trajo meu que mal vejo e por vezes me pesa, é a grande clareza do mundo externo, toda ela notável, o sol que vê todos, a lua que malha de sombras o chão quieto, os espaços largos que acabam em mar, a solidez negra das árvores que acenam verdes em cima, a paz sólida dos tanques das quintas, os caminhos tapados pelas vinhas, nos declives breves das encostas.»

Fernando Pessoa - Bernardo Soares, Livro do Desassossego.

vaso grego Leitura

5 comentários:

Bípede Falante disse...

Leio e me liberto da vida, mas me escravizo em algumas histórias, em alguns livros e alguns leitores. Nada é tão simples e tão certo quanto parece. Nem mesmo ler.
beijo.
BF

Anónimo disse...

Gosto imenso d'O livro do desassossego porque há sempre um excerto destes, profundo e bonito. Aconselho vivamente "O filme do desassossego. Está bem feito e tem uma construção de cena muito boa mesmo.
Vim ao dúvida metódica procurar posts sobre o "Pleasantville"- o filme que vimos no 10º ano mas não encontrei nada. Já não o dá nas aulas professor? É que entretanto, agora numa cadeira de faculdade vou falar sobre o filme num trabalho adaptando o papel da mãe na "Teoria Espiral do Silêncio", gostei mesmo de o dar nas aulas de Filosofia e de fazer aquele trabalho.
Eurico Graça

Carlos Pires disse...

Olá Eurico.

Nunca mais mostrei esse filme, pelo que não posso ajudá-lo. Espero que consiga fazer um bom trabalho sobre a Espiral do Silêncio.
Nos links do DM há um blog chamado "A Filosofia vai ao Cinema" cujo autor - o professor Carlos Café - sabe muito de cinema e de livros sobre filmes. Faça-lhe uma visita: talvez ele possa dar-lhe alguma indicação útil.

Carlos Pires disse...

Bípede:

Suponho que, quando diz que se escraviza nalgumas histórias, esteja a usar uma metáfora e que isso não seja incompatível com a libertação referida por Fernando Pessoa.

Mas tem razaão quando diz que a relação não é simples. A leitura (e a cultura e educação em geral) não levam necessariamente à lucidez e à objectividade. Essa libertação pode nunca ocorrer. Por exemplo: havia torcionários nazis que liam imenso (Kant - Kant! - era o filósofo predilecto de vários.)

Henriqueta Branco disse...

Blog Perfeito!!!!