sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Avaliação dos professores: as razões do meu desacordo

Hoje é o dia em que a maioria dos sindicatos assinou um acordo de princípios para a revisão do estatuto da carreira docente e do modelo de avaliação. É necessário salientar que esse acordo foi conseguido sem discutir uma questão que me parece essencial: Como é que se pode avaliar de forma objectiva e credível o desempenho de um professor?

Parece-me que este deveria ser o problema central quando se discute a avaliação e o estatuto da carreira docente. Mas não é isso que tem sucedido. Nem os professores nas escolas, nem os sindicatos, nem o governo estão interessados em apresentar um modelo de avaliação que garanta transparência, imparcialidade e um efectivo reconhecimento do mérito. Se assim não fosse ter-se-iam empenhado em analisar e discutir os critérios de avaliação propostos pelo modelo anterior (o simplex), as escolas teriam feito um balanço (público, que não aconteceu) da sua aplicação e ter-se-ia comparado o modo como foi aplicado em escolas diferentes (para percebermos a dimensão da injustiça). Em suma, ter-se-ia proposto um modelo alternativo.

Aquilo que se passou na aplicação do modelo anterior foi não só injusto, como arbitrário e pouco transparente. Registo que no meu caso - e de uma pequena minoria de colegas da minha escola que não entregou os objectivos individuais - a avaliação foi efectuada por vontade do Director e a menção atribuída foi de Bom. Vale a pena dar a conhecer os critérios de avaliação que constam da Ficha de avaliação emanada do Ministério da Educação e que me foi entregue preenchida pelo Director da escola (com uma classificação de 0 a 10 à frente de cada um deles):

A. Nível de assiduidade e cumprimento do serviço distribuído.

C. Participação na vida do agrupamento/escola não agrupada

C. 1.1.1. Empenhamento e qualidade da participação docente

C. 1.1.1. Empenhamento e qualidade da participação docente nas estruturas de orientação educativa e nos órgãos de gestão

D. Participação do docente em acções de formação contínua

E. Relação com a comunidade

E. 1.1.1 Empenhamento e qualidade da participação do docente no desenvolvimento das relações entre a escola e a comunidade

No caso dos critérios A e D existem dados objectivos para justificar a classificação atribuída. Quanto aos restantes, eu pergunto: Como se pode garantir a sua aplicação com alguma objectividade?

Como se justifica atribuir a classificação de 3, 5, 8, 9 ou 10 ao desempenho de um professor? Quais são os critérios que permitem distinguir diferentes graus de empenhamento e de qualidade de participação do professor?

Como é que se pode comparar e distinguir quantitativamente (de 0 a 10) o empenho e a qualidade de cerca de uma centena de professores (no caso da minha escola) que organizam e participam, por exemplo em projectos e actividades, que são de natureza completamente diferente, consoante a da disciplina que leccionam? Quais são os projectos e as actividades que a direcção da escola considera mais relevantes? Que critérios permitem avaliar a sua qualidade (de 0 a 10)? É a olho?

Nunca encontrei explicação para estas questões nem nos papéis do Ministério, nem nas directrizes internas da escola.

Por outro lado, registo a falta de transparência com que todo este processo decorreu. Dentro das escolas, a avaliação tornou-se um assunto tabu, onde cada está naturalmente preocupado com o seu próprio umbigo. Quanto à responsabilidade política, como se vê, ninguém a assume. Algumas ideias absurdas e impraticáveis defendidas em leis anteriores sobre a avaliação, que me consumiram horas a ler papéis e em reuniões: é como se não tivessem existido. É como se as escolas e os alunos fossem uma espécie de cobaias das mentes iluminadas do Ministério da Educação. A aplicação das ideias fracassa, prejudica, a vida das pessoas, mas ninguém é responsável. Chama-se a isto, em Portugal, o exercício do poder político.

Se me perguntarem se tenho esperança que algo mude, respondo que não tenho. Creio que nada vai mudar enquanto o reconhecimento do mérito passar pela aplicação de um modelo que será uma adaptação do modelo simplex que vigorou anteriormente com resultados que, na prática, nada tiveram a ver com a valorização do mérito nem com a melhoria do desempenho (como em teoria se encontra legislado). A continuarmos com estes critérios vagos, em que a arbitrariedade, a prepotência e o amiguismo, podem ser facilmente justificados, tudo continuará como antes.

Para finalizar, registo o facto de no ano lectivo anterior ter considerado que valia a pena participar activamente na contestação à política do Ministério. Assumi posições públicas neste blogue (avaliação dos professores) e na escola contra o modelo de avaliação, procurei trocar ideias e confrontar argumentos.

Concluo que não vale a pena continuar a adoptar este tipo de atitude, pois a maior parte dos intervenientes, incluindo os meus pares, não está interessada em discutir aquilo que me parece ser o mais importante. Isto: Como é que se pode avaliar de forma objectiva e credível o desempenho de um professor?

Acho que a farsa irá continuar. Pela minha parte, só me resta concentrar-me nas aulas e nas matérias: a única coisa que verdadeiramente me interessa na escola.

12 comentários:

Aires Almeida disse...

Subscrevo cada uma das palavras deste post. Como a Sara, de há algum tempo para cá deixei pura e simplesmente de ligar ao assunto e de me envolver na discussão. Contento-me com as aulas e com a minha classificação de Bom (a mais baixa de todos os colegas de grupo e de todos os coordenadores de departamento, embora tenha sido acompanhado por alguns deles) e nem sequer pretendia mais do que isso, até porque também não apresentei objectivos individuais.

A verdade é que ninguém quer mesmo avaliar os professores, muito menos o ministério. Entre fingir que se avalia e não avaliar, acho que é mais honesto e menos prejudicial assumir que não deve nem vai haver avaliação.

Rolando Almeida disse...

Nunca fui aluno do Aires. Mas pelo que observo - e creio estarmos de acordo - se o Aires é um professor BOM então é injusto se eu for mais que suficiente. Porquê? Porque ele tem provas manifestas de que é bom professor, muito interessado na dua disciplina e com trabalho visível e publicado. Com todo o respeito que tenho pelo meu ex profe de filosofia do 12º ano ( e quase nenhum pelos do 10º e 11º), a verdade é que pelo que posso apurar o Aires Almeida é daqueles professores que eu gostava de ter tido. Quanto a mim este é um bom exemplo do que é que esta avaliação avalia realmente.
Creio não estar a exagerar no que digo do Aires. Infelizmente ele é um professor de filosofia com conhecimentos muito acima da média dos professores de filosofia. E digo infelizmente pois era bom termos mais professores como o Aires.

Sara Raposo disse...

Aires:
O teu caso permite-nos perceber em que medida a aplicação do modelo de avaliação anterior constitui uma fraude e nada tem a ver com o mérito profissional.

Deste, de certo, mais provas públicas de mérito do que muitas outras pessoas. Julgo que serás dos poucos que, ao longo dos últimos anos, contribuiu para a melhoria da qualidade do ensino da Filosofia em Portugal. Não só pelos Manuais e livros publicados, pelo DEF, pelas tuas funções na editora Gradiva, etc.

Poucos professores de Filosofia ousam, como tu, expressar com clareza e frontalidade as suas opiniões. Gostava de ter a possibilidade (e já agora tempo) de dialogar com mais interlocutores assim. Infelizmente não tenho. A maioria dos professores não tem a tua atitude, aceitam sem pensar as ordens sagradas do Ministério, mesmo que sejam erradas e manifestamente injustas. O número de professores que cederam as pressões do Ministério e dos Directores das escolas e acabaram por entregar os objectivos individuais, comprova isto mesmo.

Houve algo importante que percebi, digamos de forma mais empírica: se aqueles que são licenciados (supõe-se que mais esclarecidos que os outros cidadãos) e responsáveis pela educação se demitem de apresentar os seus pontos de vista e actuam deste modo, não podemos esperar muito…

Cumprimentos.

Sara Raposo disse...

Rolando:
Agradeço o teu comentário. Concordo com o que dizes.

Cumprimentos.

Aires Almeida disse...

Obrigado, Sara e Rolando, pelas vossas simpáticas palavras.

Quanto à minha avaliação, nada de especial aconteceu: ela deve-se, em parte, ao facto de não ter entregue os OI e, em parte, também ao facto de não esconder o meu desprezo pelas papeladas que circulam aos montes nas escolas e pelas questões burocráticas. Bem sabem como isso é importante numa escola.

As outras coisas que vocês referem sobre o meu trabalho não contam, até porque são em grande parte desconhecidas da direcção da escola e da maioria dos colegas. Excluo, claro, os de filosofia (devo dizer que tenho a sorte de ter na escola um grupo de filosofia excepcional; e os meus colegas até se fiam demasiado em mim, a ponto de insistirem em me escolher como representante do grupo). Mas, sinceramente, não me estou a lamentar seja pelo que for e o "bom" até acaba por nem ser nada mau.

De resto, creio que não há uma boa avaliação de professores sem uma boa avaliação dos alunos, o que inclui exames nacionais bem concebidos. E, ao contrário de muitos, não acho nada mal que os alunos (do secundário) avaliem também os professores. Não à balda, pois há maneiras aceitáveis de isso ser feito.

Mas bem sei que isto é já pedir de mais, de modo que estou pronto para tudo e não se fala mais nisso.

Abraços

rouxinol de Bernardim disse...

Falou mais alto o CORPORATIVISMO!

Anónimo disse...

Sara:
Gostei muito do seu post e de uma frase (rara de se ler) de um dos comentários: para avaliar bem os professores é preciso avaliar bem os alunos.
Certas circunstâncias da vida levam-me a estar próxima de alguns professores e por isso tenho um olhar mais por dentro que a maioria. Por isso, deixe-me que lhe diga que quase ninguém percebe o que se está a passar. As pessoa acham que este foi um bom acordo!
Não percebo muito de filosofia, mas parabéns pelo blog. fazer uma coisa taõ complexa e elaborada sozinha não deve ser fácil. Merecia EXCELENTE na avaliação, pois é excelente.
Continue! E muito obrigado! - digo eu na minha qualidade de cidadã portuguesa.

Antonieta Manuel

Sara Raposo disse...

Antonieta:

Agradeço as suas palavras amáveis.
Só uma correcção: em sou apenas uma das autoras do blogue, o meu colega, Carlos Pires, é outro dos autores.

Tem razão ao afirmar que mensagem que passou para a opinião pública não corresponde à verdade: nem a avaliação já efectuada corresponde a um reconhecimento do mérito, nem me parece (como expliquei) que aquela que aí vem venha a corresponder.

Cumprimentos.

Manolo Heredia disse...

O que está em causa é baixar o peso do custo da Educação estatal no orçamento de estado. Qualquer governo que ganhe as eleições vai ter que cumprir este objectivo. E também baixar os custos da Justiça, da transferências para Segurança Social, e aumentar os impostos às pequenas e médias empresas pela via da retirada de isenções fiscais (leia-se com atenção a lei do Código Contributivo).
Não há volta a dar, quem manda são os Bancos Credores Estrangeiros.
Se os nossos governantes não o fizerem, numa primeira fase acontece-nos o que aconteceu à Grécia e numa segunda fase vemo-nos a braços com cortes de crédito para comprar comidinha!
Portugal, como as famílias portuguesas endividados, só tem uma saída, apertar o cinto!
No tempo de Dr. M.Soares havia o escudo que foi desvalorizado, fazendo com que as coisas importadas fossem caríssimas. Hoje, que o endividamento ainda é maior, não há escudo, a única hipótese é fazer a classe-média apertar o cinto (é a única que não tem o cinto no último furo). Os professores são classe-média, reformam-se aos 55 anos com mais de 2.500 euros de reforma, mais de três vezes a reforma média.

Sara Raposo disse...

Manolo:

Agradeço o seu comentário.
Não considerou as ideias principais do post, nem as discutiu, a saber: o facto da aplicação do modelo anterior (simplex) não permitir distinguir o mérito e da maioria das pessoas (incluindo os professores) não parecer interessada em encontrar uma forma credível de avaliar, a sério, a qualidade do desempenho docente.

As ideias que transpareceram publicamente sobre a “pacificação” das escolas e o triunfo dos professores não correspondem à verdade. A balbúrdia instalou-se e vai continuar. A continuar o modelo anterior com as ditas quotas, onde não há critérios que permitam distinguir (com alguma objectividade, os melhores professores: científica e pedagogicamente, entenda-se) as escolas passam funcionar internamente um pouco à semelhança dos partidos políticos, isto é: salve-se quem puder.

Quanto ao argumento economicista que utiliza e, do seu ponto de vista qualquer governo terá de aplicar, eu concordaria consigo, só que:

1º Tenho 19 anos de serviço. Ganho mensalmente 1.400 euros. E tenho as seguintes condições de trabalho: sou professora de 5 turmas (tenho mais de 120 alunos), lecciono dois níveis diferentes, sou directora de turma. Além da componente lectiva passo várias horas por semana a desempenhar outras tarefas obrigatórias da componente não lectiva. Acrescento que levo muitas horas, à noite e aos fins de semana a corrigir as fichas, testes, trabalhos dos alunos e a preparar aulas. Não prevejo que me possa reformar aos 55 anos, nem o meu salário venha a ser de 2500 euros, como afirma. Acho que está mal informado. A maioria dos professores tem uma situação semelhante à minha ou pior. Quando diz que os “professores não têm o cinto no último furo, ao contrário de muitos portugueses”, não sei do que fala, nem de que professores está a falar (é provável que seja de um número de privilegiados que conhece, não os anónimos como eu, que constituem a maioria).

2º Como cidadã que paga os seus impostos, pergunto-lhe se não vê outras classes profissionais com maiores salários e outro tipo de benesses escandalosas (como ajudas de custos, despesas de representação, etc), onde fosse mais justo fazer cortes nos salários? Eu posso-lhe dar alguns exemplos: os gestores das empresas públicas, os altos cargos do Banco de Portugal, os salários dos políticos, as reformas (imorais dos políticos, cujo diminuto tempo de serviço, em comparação com o dos outros cidadãos, é escandaloso) entre outros.

3º Acrescento, repito como cidadã que paga os seus impostos, que assisto aos gastos exorbitantes em estádios e outros investimentos de duvidosa utilidade pública, incluindo fundações, cujos fins e a utilização do dinheiro são pouco transparentes. Assisto a esbanjamento de dinheiro dos contribuintes pela maior parte dos governantes, a uma promiscuidade entre a política e os negócios. E finalmente, a uma impunidade total: ninguém é responsável por coisa nenhuma. Pelo contrário, como se vê pelo prémio de desempenho atribuído à Ministra de Educação, nomeada pelo 1º ministro para dirigir uma fundação.
Certamente como recompensa pelos excelentes serviços prestados para a melhoria da educação em Portugal!

Como vê, tenho razões suficientes para dizer que esse seu argumento da crise e da necessidade do Estado poupar em diversas áreas, incluindo na educação, serve apenas para entregar uma factura aos portugueses tolos e distraídos (como eu) que pagam a crise, enquanto outros esbanjam o dinheiro dos impostos que eu pago.

Cumprimentos.

Sara Raposo disse...

Rouxinol:

Penso que o corporativismo é uma tolice. Há bons e maus profissionais em qualquer classe, a dos professores não é excepção. Só que para alguns o discurso fraterno em que somos todos iguais é uma hipocrisia preferível à análise lúcida da realidade.

Cumprimentos.

Aires Almeida disse...

Caro Manolo,

Permita-me o desabafo, mas é um pouco irritante ouvir insistentemente pessoas falar do que não sabem, repetindo ideias feitas que nunca se preocuparam e verificar se são realmente verdadeiras.

Assim, gostaria que anotasse o seguinte:

1. Nenhum professor, a não ser em condições especiais de doença ou incapacidade, se consegue reformar aos 55 anos. A idade de reforma dos professores é a mesma que para a maior parte dos outros trabalhadores e funcionários do estado.

2. Nenhum professor se consegue reformar e ficar a receber de reforma 2500 Euros líquidos por mês. Isso é pura e simplesmente falso.

3. Mesmo quando alguns professores antecipam a reforma, são penalizados na sua reforma com uma dada percentagem por cada ano de antecipação. Os professores que se estão a reformar antecipadamente não costumam sequer chegar aos 2000 Euros. Muitos deles ficam até muito longe disso.

Quanto ao resto, só quero acrescentar que é rara a semana em que trabalho para a escola menos de 42 horas. Eu e muitíssimos outros professores. E com 27 anos de serviço e formação superior não chego a ganhar 2000 euros por mês. Diga-me o Manolo em que outras funções em que se exige formação superior especializada, e ao fim de tanto tempo de serviço, se ganha assim? Quer dar exemplos?

Cordialmente