domingo, 20 de janeiro de 2013

Será que o som existe?

Charles Walters D Oyly - Tree Struck By Lightning

Pintura de Charles Walters Oyly,  intitulada "Tree Struck By Lightning", 1865.

Este é um post convidado da professora  de Física e Química Ana Paula Machado,  destacada, no presente ano letivo, no Centro de Ciência Viva do Algarve (um site e um espaço que vale a pena visitar).

Algures, nalguma parte recôndita do mundo, completamente desprovida de seres com ouvidos, uma árvore cai.

Ao começar a ler estas palavras, o leitor, possivelmente, começa a desenhar na sua cabeça uma frondosa floresta, com belas, lindas e altíssimas árvores. De acordo com a história, imagina, em seguida, que uma delas, talvez vítima de um fulminante raio, cai estrepitosamente no solo. Claro que o seu cérebro, além do acompanhamento visual que faz, também trata de adicionar os devidos efeitos especiais: o céu transbordante de nuvens escuras com enormes e poderosos raios a cruzar os céus numa barulheira aterradora (supondo que os raios seriam a causa da queda da árvore na história da sua imaginação!). Por fim, vem a imagem do inevitável tombar da árvore. A vítima da fúria dos céus, que outrora recortava majestosamente a paisagem, é atacada por um raio próximo que provoca a sua queda e, num último rasgo da sua orgulhosa existência, tomba ruidosamente.

É agora que surge o nosso problema: ruidosamente?!? Mas, perguntamo-nos, quem é que ouviu? Quem é que apreciou aquele final de uma vida longa? Quem é que pode reconhecer que realmente foi produzido som? Não havendo ouvidos para testemunhar que houve som, será que realmente foi produzido o som?

A nossa experiência diz-nos que sim. Intuitivamente, sabemos que o som seria uma componente importante daquele evento.

A física explica o funcionamento do som. Diz-nos que se as partículas de um meio (sólido, líquido ou gasoso) forem perturbadas, isto é, postas a oscilar em torno da sua posição de equilíbrio, estas irão transmitir essa vibração às suas vizinhas que passarão a executar o mesmo movimento e assim sucessivamente. É para isso que a ciência “física” serve. Explica-nos os fenómenos que nos rodeiam. Neste caso, o som. Noutros pode ser a causa “simples” de todos os astros do universo girarem em torno de um centro (imaginário ou real) ou a causa da mudança de estado físico das substâncias ou, ainda, como funcionam os supercondutores, tecnologia de ponta para muitos dos equipamentos que utilizamos no dia-a-dia.

Mas a filosofia também tem a sua palavra. Como? Pergunta o leitor. Qual poderá ser o árido contributo de uma área que “apenas” sabe levantar questões e argumentar?

É esse mesmo o contributo da filosofia. Importunar! É ela mesma que levanta a questão: então se não havia ouvidos para ouvir esse “som de proporções monumentais”, houve som?

Pois é. Houve ou não? Se não estava lá ninguém para ouvir, porque é que falamos em som?

Neste caso, não se pode dizer que houve som. Mesmo havendo perturbação das partículas do ar, porque isso aconteceu quando a árvore caiu, não se pode dizer que o “som” existiu porque a propagação da perturbação das partículas não atingiu nenhuma membrana de ouvido que, por sua vez, através do mecanismo da audição, é descodificado e transformado no som correspondente à queda da árvore.

A ciência procura responder aos porquês e torna-se muito assertiva nas respostas. Tudo tem de ter uma explicação. Mas é a filosofia que lança os porquês. Podemos dizer que todos os cientistas têm um pouco de filósofos ou que todos nós somos filósofos quando nos preocupamos com os “porquês” e nos matemos fiéis na procura da resposta. Somos o resultado de um conjunto de competências. Também podemos ser como uma árvore na floresta. Sozinhos, pouco fazemos, mas com o contributo de todos podemos ser uma “frondosa e bela floresta” onde é a variedade que permite a sua sobrevivência.

Ana Paula Machado

5 comentários:

Tétisq disse...

Eu não sou de filosofia mas tenho uma opção de filosofia "Estética" uma cadeira na qual fiz um trabalho baseado no texto : “A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica” de Walter Benjamin e também no texto “Ontologia da Imagem fotográfica” de André Bazin e Tive que traçar um pequeno percurso pela representação fotográfica (em repouso/estética) e pelo cinema - representação em movimento e numa revista (portuguesa)do inicio do século XX li a descrição de um autor que contava como o movimento e o som do Cinema sonoro assustava as pessoas. Dizia que a reprodução do som e a imagem que são ambos movimento era uma novidade estranha...
Achei curioso porque confesso que nunca tinha pensado no som assim - como movimento ...

Nemo disse...

Eu diria que aquilo que considera o funcionamento do som é a sua definição. Assim, não é necessária a existência de um órgão auditivo que capte as ditas perturbações. Basta saber que elas existiram para saber que houve som.

Fil disse...

Pois.. Se formos pela "definição", e se a definição disser algo equivalente a que "o som existe quando as árvores caem", então houve som! Mas só para quem presenciou a árvore a cair, ou de alguma forma interpretou que ela tivesse caído, correspondendo ao contexto da definição. Mas não seria qualquer habitante "surdo" desse planeta que saberia dizê-lo, ou quanto muito pensar no significado abstracto do "som".. Quem teria arranjado essa definição de "som"? Alguém desse planeta de "surdos" com tamanha imaginação, ou outro ser alheio ao planeta incompreensivelmente desconhecido?
Quem sabe se nós aqui neste mundo, "surdos" a muita outra coisa, não deixamos escapar que cada vez que ligamos um interruptor de electricidade é emitido um guezute! Se calhar até ninguém sabe o que é um guezute por, justamente, ninguém se ter apercebido disso.. Mas como distinguir isso de uma palavra inventada por mim? Será que o guezute existe? Na nossa definição de guezute, talvez não, admito. Mas e na de alguém de outro mundo?
Uma definição está então mais dependente de quem define ou de quem interpreta?

Amanda P. A. disse...

Gostei muito da reflexão e, notadamente, a "definição exata de som" está longe de ser o cerne de sua existência, posto que nós é quem a inventamos! É fundamentalmente maior, é o escrutínio de ideias e desconstrução de conceitos para poder entender radicalmente o que são não só como significado científico, isto é, empírico e teórico, mas tudo que há influente e influenciado ao seu "ser". Belo post, cheguei a ele pesquisando sobre a correlação silêncio e música. Grande abraço!

Unknown disse...

Não,isso são ondas sonoras,perturbações no ar,que o nosso tímpano decodifica e transforma naquilo que você "escuta"