sexta-feira, 23 de julho de 2010

O valor da liberdade

“Partisan” designa aqueles que durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) combateram contra a ocupação levada a cabo pela Alemanha nazi. Estes movimentos de resistência existiram em vários países ocupados pelos alemães, nomeadamente na Itália e na França.

Duas das canções mais conhecidas, que celebram os actos heróicos destes resistentes e o valor da liberdade contra a tirania, são “Bella Ciao” e “Partisan”. A primeira delas é uma canção popular italiana, interpretada aqui por Gómez Naharro. A segunda foi escrita e é cantada pelo cantor canadiano Leonard Cohen.

Quando nas aulas de Filosofia referimos os valores (como, por exemplo, a liberdade e a justiça) e o facto de estes orientarem as acções humanas, ao contrário do que possa parecer, não estamos a falar de algo vago sem qualquer relação com a realidade. Por exemplo, alguns destes homens e mulheres, durante a Segunda Guerra Mundial, morreram pela liberdade. Um ideal mais valioso para eles que outros - de certo mais fáceis de alcançar - como o poder.

Num regime democrático, como aquele em que vivemos, o respeito do Estado pelo valor da liberdade é um princípio fundamental. Vivemos, sem dúvida, num contexto histórico e num país em que a liberdade é bem mais fácil de alcançar do que o foi na época dos “Partisan”. Contudo, isso não faz com que seja um dado adquirido. Nem isenta os cidadãos de reflectirem sobre o seu significado e escrutinarem permanentemente as decisões dos políticos para garantir que esta é preservada.

A liberdade não deve ser apenas um valor abstracto referido nos manuais de Filosofia ou nos discursos políticos. Numa democracia, é para ser exercida na vida pública através da análise e da crítica.

Infelizmente isso nem sempre sucede em Portugal: muitas pessoas pensam duas vezes antes de criticarem alguém poderoso, receosas das consequências (nomeadamente profissionais), e muitos políticos quando são criticados em vez de discutirem ideias e de argumentarem a favor das suas posições preferem atacar pessoalmente os adversários e acusá-los de falta de patriotismo ou de qualquer outro ismo grandiloquente.

(Canção popular italiana, o autor é desconhecido. Foi criada  na Segunda Guerra Mundial, durante a ocupação alemã. Pode encontrar a letra da canção e uma tradução portuguesa – não sei avaliar se é boa ou má – aqui.)

(Pode encontrar a letra desta canção, escrita e cantada por Leonard Cohen, no original e em português, aqui.)

 

9 comentários:

Pedro Tordo disse...

É pena que no vídeo de Leonard Cohen o som não seja o melhor.

Pedro Tordo disse...

Sara:

É curioso que tenha escolhido a canção “Bella Ciao”. Depois de ler o seu texto estive a pesquisar um pouco e descobri que essa canção é um hino para os comunistas e esquerdistas radicais. Como já li outros textos seus sei, a não ser que tenha feito confusão, que não acha o comunismo um exemplo de liberdade.
Para mim o comunismo é tão mau como o fascismo.

andré disse...

Na minha opinião, lá por ser um hino para os comunistas ou esquerdistas radicais não é razão para deixar de ser usufruída ou de ser um hino à liberdade.

A obra ganha asas, separa-se do seu criador e ganha uma identidade própria...é preciso ser comunista para gostar de Saramago? É preciso gostar de Saramago para gostar do que o Saramago escreveu?

O que não falta por por aí são excelentes escritores, músicos, políticos, cientistas que foram/são asquerosas pessoas...mas é claro que o melhor e ser coerente na vida, nos pensamentos, na criação e na acção...

Sara Raposo disse...

Pedro:
Quanto ao som do vídeo, coloquei um link para a letra e a tradução portuguesa, onde poderá ouvir a canção com uma qualidade bem melhor que a do vídeo. Eu, sempre que posso, prefiro colocar os músicos ao vivo. Neste caso, acho interessante ver cantar o Leonard Cohen jovem.

Quanto à escolha da canção "Bella Ciao" foi propositada e nada tem a ver com a utilização política que foi feita da mesma pelos comunistas.

O valor do poema e da música enquanto criações artísticas - se experimentar a ler atentamente o poema não faz nenhuma alusão, explicita, à ideologia comunista - é independente do facto desta ter sido colada aos partidários de um certo tipo de regime político.

Aliás, eu aprendi esta canção com o meu filho mais velho (há quatro anos atrás e ele é aluno do ensino público em Portugal), que nas aulas de Educação Musical teve de a aprender a cantar. No livro de Educação Musical, esta canção era dada como um exemplo de uma música famosa que fazia parte da cultura musical de um país que era a Itália. Eram também apresentadas outras canções que, tal como esta, permitiam caracterizavam vários países europeus.

Admiro os resistentes ao nazismo. Foram verdadeiros heróis. Não simpatizo com qualquer forma de ditadura, seja esta de esquerda ou de direita.

Penso que, em geral as pessoas não valorizam suficientemente o facto de viverem em democracia pelos motivos que referi no post: este era o assunto que me interessava falar e discutir. A questão que levantou é interessante e legítima, mas não é a fundamental.
É como se a canção "Grândola Vila Morena" do Zeca Afonso não pudesse ser apreciada ou evocada por um não comunista como um símbolo da liberdade. Não acha?
Cumprimentos.

Keila Costa disse...

Grata pela visita Carlos! Difícil discorrer sobre apenas uma de suas postagens, posto que relevantes e simples ao mesmo tempo. Belo trabalho, sobretudo coexistir como um espaço para reflexão de alunos e outros mais! A propósito, meu namorado é professor de filosofia aqui no Brasil e também tem um blog: http://specullum.blogspot.com/
Quem sabe não trocam idéias...
Abraço grande e com tempo virei mais por aqui!

Sara Raposo disse...

André:
Concordo consigo. A apreciação que faço da obra de um artista é independente da sua personalidade ou das convicções políticas deste.
Cumprimentos.

serpai disse...

Sabes Sara, no es solo en Portugal que sucede... en Argentina también...:=)

Saludos,

Sergio.

Sara Raposo disse...

Sérgio:

Infelizmente, o facto de nos sentirmos acompanhados, neste caso, não ajuda muito. O problema da falta de civismo, como é óbvio, não existe apenas em Portugal e não se explica apenas por razões culturais. Há sempre quem esteja pior,dirão alguns. É verdade. Porém, eu gosto de pensar nos bons exemplos, como os da Holanda e da Noruega, pois à luz destes podemos perceber melhor o que falha e corrigir aquilo que é menos bom.

Cumprimentos.

Pedro Tordo disse...

Tem razão Sara.