sábado, 21 de abril de 2012

Um teste intermédio de Filosofia pouco filosófico

Preparei os alunos de três turmas do 11ºano para o teste intermédio de ontem. Nas aulas, tive em conta as informações do GAVE acerca do teste intermédio e as orientações para o exame nacional, como se pode perceber pelos materiais que aqui publiquei.

Defendo a existência de testes intermédios e de exames nacionais em Filosofia, pois - entre outras razões -  considero a sua aplicação importante para credibilizar o ensino de uma disciplina cuja imagem pública não é boa, mas que bem ensinada permite aos alunos adquirir competências fundamentais, como por exemplo a capacidade de argumentação e o pensamento crítico. Essas formas de avaliação externa contribuem para alcançar vários objetivos importantes: melhorar a qualidade do ensino, levar os alunos a estudarem mais, tornar mais justa a aplicação dos critérios de avaliação e, ainda, avaliar o trabalho dos professores de forma mais objetiva e rigorosa. Esses são alguns dos aspetos positivos mais relevantes, mas há outros.

O que não parece desejável é cada professor de Filosofia “inventar” para seu lado (com a desculpa de que “em Filosofia é tudo muito subjetivo” e, portanto, não se tem de justificar aquilo que se faz nas aulas) e não ter que prestar contas públicas pelos resultados obtidos. Parece-me que algumas pessoas, mas não todas claro, são contra os exames principalmente porque não querem expor as suas próprias fragilidades científicas e pedagógicas, para não falar da sua preguiça mental. Contudo, como diz um velho ditado: quem não deve não teme!

Esta é a minha posição de fundo. Por isso, mesmo criticando algumas das questões presentes neste teste intermédio, julgo que a existência deste tipo de avaliação é boa. Prefiro, apesar de tudo, um teste intermédio com defeitos à não existência de nenhum, deixando alguns professores de Filosofia entregues aos seus “devaneios” e a ensinarem tudo menos Filosofia. Pelo menos assim todos têm a ideia que, bem ou mal, os conteúdos programáticos são obrigatórios e têm de ser dados nas aulas. Claro que se os defeitos dos testes e dos exames forem demasiados, a existência destes deixa de se justificar porque isso nos obrigaria a ensinar mal os alunos para não os condenar a ter maus resultados.

Este teste não avaliou a capacidade crítica e exigiu  apenas competências mínimas ao nível da interpretação de textos e dos conhecimentos filosóficos. A propósito dos conceitos e teorias filosóficas era solicitado ao aluno apenas para explicar, comparar, indicar, diferenciar, nomear e identificar. Em nenhuma das questões era pedido que se avaliasse criticamente o que quer que fosse (apesar das informações do GAVE indicarem esta competência). Alguns dos meus alunos observaram, após o teste, e com razão: “a professora quer que nós saibamos apresentar argumentos a favor e contra cada tese; que sejamos capazes de dar a nossa opinião, mas isso não nos foi pedido.”

Tal como eles, eu também me sinto defraudada, sobretudo pelo facto do teste não ter em conta aquilo que é mais importante na Filosofia: a análise crítica e a discussão de argumentos.

A escolha dos temas das questões do teste também é criticável. Um dos temas centrais do programa, “a teoria do conhecimento de Descartes”, ficou praticamente de fora, se excetuarmos a questão 2.2. do grupo III, em que os alunos deveriam comparar as perspetivas de Descartes e David Hume quanto à origem do conhecimento. Ora, os professores gastam um número significativo de aulas a explicar a posição cartesiana, distinguindo-a da dos céticos e de David Hume. Como pode, então, atribuir-se tão pouco peso a estes conteúdos programáticos? Colocar, em vez de Descartes, questões sobre temas que são filosoficamente irrelevantes (pergunta 1. e 2. do grupo I e 1. do grupo III) e que não exigem um esforço de compreensão e reflexão comparável não foi uma opção correta. Acerca das três questões referidas, alguns alunos meus observaram – e muito bem - que as respostas dependiam apenas da análise dos textos, não requeriam nenhum dos conhecimentos filosóficos estudados, além de que eram vagas.

Em relação à problemática do conhecimento, existiam questões bem mais pertinentes e claras para se colocar do que sobre o “objeto do conhecimento”. Por exemplo, as que dizem respeito à definição tradicional de conhecimento e aos contraexemplos a esta definição.

A terminologia utilizada continha algumas imprecisões filosóficas, tal como os critérios de correção, que o Desidério Murcho e o Aires de Almeida já apontaram e analisaram aqui, aqui e aqui.

Tudo isto contraria o bom senso, além de revelar uma ideia errada acerca do que é, de facto, importante no ensino da Filosofia.

A verdade é que muitos professores, como eu, levaram a sério as orientações vindas do ministério para o exame nacional. Entre os alunos que fizeram o teste intermédio, há alguns que já se inscreveram para fazer o exame nacional de Filosofia. A classificação que obtiverem irá determinar, nalguns casos, se entram nos cursos universitários que pretendem. Por isso, é legítimo os alunos e os professores perguntarem, como me fez uma das minhas alunas: “Será que o exame também vai ser assim?

Não sei responder. Mas gostava de saber o que pensam os autores das orientações do programa para o exame nacional (Alexandre Sá, Manuela Bastos, Maria do Carmo Themudo, Pedro Alves e Ricardo Santos) sobre o teste intermédio que foi feito ontem e também se o exame nacional será elaborado nos mesmos moldes.

As pessoas que assinaram as orientações para o exame fizeram-no enquanto representantes de instituições ligadas à Filosofia e ao seu ensino. Deveriam ter, portanto, no exercício dessas suas funções, obrigação de prestar esclarecimentos públicos sobre este assunto. Aliás, não percebo porque não o fizeram já. Mais, tenho dúvidas se essas instituições fazem tudo o que devem para promover a qualidade do ensino da Filosofia. Se o fizessem perceberiam a importância do teste intermédio conter questões que apelassem à análise crítica e à discussão de argumentos.

Eu sou responsável pelos resultados dos meus alunos nos testes intermédios e no exame nacional. Porém, a responsabilidade não deve ser exigida só aos professores, mas também às instituições ligadas à Filosofia (cujos representantes assinaram as orientações para o exame nacional emanadas do ministério para as escolas) que também são responsáveis pela qualidade do seu ensino, nomeadamente pelos testes e exames aplicados a nível nacional. Ou não? Nesse caso, para que servem, então, essas instituições?

O que muitas pessoas ligadas à Filosofia (incluindo alguns dos professores de Filosofia do secundário) parecem não perceber é que caminhamos todos, alegremente, para o abismo. Ou seja, para o descrédito e para um novo desaparecimento do exame nacional de Filosofia... E, quem sabe, da própria disciplina.

É necessário e urgente que as várias instituições e pessoas responsáveis pelo ensino da Filosofia se sentem à mesa e procurem elaborar um novo programa de Filosofia - filosoficamente rigoroso e adequado à formação dos alunos do secundário. É necessário que entendam a importância de melhorar a qualidade do ensino da disciplina de Filosofia no ensino secundário. A Filosofia merece ser melhor tratada. Os alunos e os professores também.

Outros comentários acerca do teste intermédio: aqui e aqui.

6 comentários:

Anónimo disse...

A filosofia não vive de opiniões. E como é que num exame se analisaria justa e objectivamente o que o aluno acha acerca de algo? Muitos chegam a filosofia no ensino superior sem saber muitas noções básicas do tipo das que este teste intermédio põe à prova.

Anónimo disse...

eu creio que a crítica e o repensar a disciplina passa, sobretudo, pela revisão do programa, nomeadamente o do 11º ano. O programa do 11º ano é uma manta de retalhos-da Lógica, passa-se para a Argumentação, daqui para a Gnoseologia e Epistemologia sem que aja um nexo condutor. Assim o TI pareceu-me até equilibrado. Não corrigi ainda os testes todos mas creio que vou ter bons resultados...Reveja-se o programa. dê-se mais ênfase ao espírito crítico e depois ...voltamos a falar!

Joao disse...

"E como é que num exame se analisaria justa e objectivamente o que o aluno acha acerca de algo?"

Se não temos pessoas capazes de fazer isso era altura de as começar a formar...

anabela moutinho disse...

Cara colega,

subscrevo o seu (indignado) post. é facto que preparamos (pelo menos, eu tento) os nossos alunos para exercer o seu espírito crítico, de forma séria, sustentada e justificada, sobre conhecimentos ministrados, e testes como o de ontem não podem deixar de nos frustrar. os conhecimentos devem ser avaliados. mas as competências filosóficas não se esgotam aí.

o teste não me admirou minimamente - contava com algo exactamente assim, à luz do intermédio do ano passado e, desgraçadamente, daquilo em que tornaram a disciplina de Filosofia. sou do tempo em que não havia, sequer, uma única pergunta de escolha múltipla, por exemplo, nos testes de avaliação, nem tal ocorria a professor nenhum, por tão absurdo ser face aos objectivos e missão da nossa disciplina. nas actividades preparatórias de formação, sim. nos testes, os alunos deviam saber dominar as competências básicas mas sempre na perspectiva da compreensão, análise, síntese, relacionação, comentário e/ou problematização, e, através delas, testar(-se) o estado dos seus conhecimentos.

mudar o programa mas, muito para além disso, mudar a mentalidade dominante no gave (por sua vez dominado por paradigmas de avaliação que nada têm a ver com a nossa disciplina), o que passa por uma... revolução? :)

contudo, não creio que o objectivo do Ministério, sinistro e secreto, seja voltar a acabar com o exame na nossa disciplina. pelo que cabe-nos, enquanto docentes, e às associações que nos representam, forçar o Ministério a duas medidas:

- tornar o exame obrigatório (sem esta modalidade, sem jeito nenhum, de escolher 2 em 3);

- reformular os programas, aprofundando conteúdos em detrimento do número deles e, essencialmente, obrigando à LEITURA DE TEXTOS DOS FILÓSOFOS. (sim, sou tão velha que ainda leccionei a apologia de sócrates ou o discurso do método nos... 10º ano e 11º ano, respectivamente!)

o nosso Ministro, que para mim tem constituído uma grande desilusão, não é, contudo, desprovido de critérios de exigência (pelo menos, nas suas palavras públicas). é questão de lhe fazer chegar a mensagem.

(eu fiquei apoplética, não tanto com o teste - só no sentido de ser tão acessível -, mas com os critérios de avaliação, tão mal feitinhos que metem dó; seja nos descritores, seja nos cenários de resposta (pelo menos nalguns deles). desde erros científicos a enunciados ambíguos, imprecisos, incompletos, omissos, é um autêntico festival!)

mais uma vez cumprimento-a pelo seu trabalho e por este blog, que tão útil me tem vindo a ser. já o indiquei aos meus alunos e dele tenho retirado alguns textos, que uso, com adaptações e/ou aditamentos, nas minhas aulas. se desejar, envio-lhos para seu conhecimento.

cumprimentos.

anabela moutinho disse...

voltei para uma observação: a responsabilidade pelas notas dos nossos alunos não é só nossa, isso que fique claro. se os alunos não estudarem, não se aplicarem, não se esforçarem, até podemos ser os professores mais competentes do mundo que de nada servirá.

anabela moutinho disse...

voltei uma outra vez:
no formulário que iremos preencher de avaliação do teste intermédio, no site do gave, temos oportunidade de exprimirmos as nossas opiniões.

sei, de conhecimento seguro, que as observações dos professores costumam ser atendidas e reflectidas pela equipa do gave. pelo menos, é essa a experiência na minha Escola quanto às disciplinas que têm testes intermédios desde que eles foram lançados.

uma oportunidade que não irei desperdiçar.