domingo, 1 de agosto de 2010

Põe-te no lugar do touro

e se o touro fosse um homemUm dos argumentos que os defensores das touradas costumam apresentar é o argumento da tradição. Mas este é obviamente um mau argumento: o facto de uma certa prática ser tradicional não impede que seja errada. Há tradições erradas e a tradição não constitui justificação suficiente para uma prática. Por exemplo: se num certo país a escravatura for tradicional isso não a torna moralmente correcta.

Para mostrar a alguém que uma acção é errada, mesmo as pessoas que nunca ouviram falar da regra de ouro são capazes de perguntar: “Gostavas que te fizessem o mesmo?” Trata-se, de facto, de uma ideia muito comum. Imaginemos pois que ao planeta Terra chegavam uns extra-terrestres mais poderosos e desenvolvidos que os seres humanos e que eles adoravam um espectáculo muito parecido à tourada, só que em vez de touros preferiam utilizar seres humanos. As pessoas que gostam de tourada gostariam de ser utilizadas desse modo? Certamente que não – mesmo que os extra-terrestres garantissem que se tratava de uma tradição muito antiga e característica da sua cultura. Sendo assim, não deveriam aprovar que se faça isso aos touros. Os touros não raciocinam nem batem palmas, mas sentem dor – e essa é a característica relevante quando se discute uma actividade em que são espetados ferros pontiagudos no corpo de um animal.

22 comentários:

Rolando Almeida disse...

Na verdade, esse espectáculo com humanos já existiu no período romano e foi extinto por algumas boas razões morais.
abraços

Pedro Tordo disse...

Touradas não. Ok. E quanto a comê-los?

Patrícia Castro disse...

Parabéns pelo texto! Sua argumentação foi perfeita, concordo plenamente com você. Infelizmente, isso também ocorre num estado aqui próximo ao meu. Condeno essa prática, mas algumas pessoas, pensando no seu bel prazer, esquecem-se da brutalidade que são as touradas.
Agora, Pedro Tordo que me desculpe, porque comê-los não se trata de tradição e, sim, de sobrevivência. Há quem defenda uma alimentação sem carne, contudo ela é fraca, pobre em proteínas. E quem não come carne, necessita de comprimidos de suplemento comprados em farmácias que foram feitos de bois. Ou seja, é uma carne sintética. Quem pensa que pode passar a vida inteira sem comer carne e ainda assim conseguir ter uma vida com qualidade, engana-se, pois só a base de vegetais, não é possível. Ou come-se a carne ou o comprido suplementar(carne sintética), o que dá no mesmo, a diferença é onde é comprada, uma no açougue e a outra na farmácia.
Grande abraço!

DIFERENTES SOMOS TODOS NÓS disse...

Aplaudo o texto e o Blogue. Ambos excelentes.
Este é um Blogue institucional ou de dois docentes a título pessoal?
Peço desculpa pela questão. Só respondem se quiserem.

Bípede Falante disse...

Essas touradas são primitivas, animalescas, cruéis.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

O argumento da "tradição" para justificar a manutenção das touradas é dos mais abstrusos que conheço. Se fossemos por aí, ainda vivíamos no século XIX.

Sérgio Lagoa disse...

1. A alimentação ovo-lacto-vegetariana é perfeitamente equilibrada e saudável, evitando os incómodos a que se refere a Patrícia.
2. "Touradas não; e quanto a comê-los?" - pergunta o Pedro. São planos distintos. O que está em causa é o sofrimento do animal. É possível "produzir" (prefiro a palavra "criar") animais de forma não intensiva, num ambiente favorável, e abatê-los com o menor sofrimento possível, coisa que obviamente não acontece nos matadouros industriais.

Carlos Pires disse...

Rolando:

obrigado.

Carlos Pires disse...

Pedro:
Não sou vegetariano, mas tenho grande dificuldade em contrariar racionalmente os diversos argumentos contra o facto de comermos os animais não humanos. É contraditório da minha parte, reconheço.

Carlos Pires disse...

Patrícia:

Pelo que tenho lido, o Sérgio Lagoa tem razão quanto à possibilidade de uma alimentação saudável sem carne. Mas sei muito pouco sobre o assunto.

Carlos Pires disse...

Diferentes somos todos nós:

O DM é um projecto meu e da Sara. Mas, uma vez que os principais destinatários são os alunos tem um certo enquadramento institucional - é um dos vários projectos que existem na nossa escola.

Carlos Pires disse...

Carlos:

é verdade.

Carlos Pires disse...

Sérgio:

a criação de animais de modo não intensivo é possível, mas talvez não fosse suficientemente lucrativa para interessar os investidores. Não tenho a certeza.

Jessica Gomes disse...

Concordo com tudo o que foi dito. Se há algo de que não gosto mesmo nada, esse algo são as touradas. Já era altura de acabarem com essa tradição.

Carlos Pires disse...

Olá Jessica.
Eu também gostaria de assistir ao fim das touradas, sobretudo se isso não se devesse apenas a uma moda politicamente correcta mas a um efectivo respeito pelos animais não humanos.

Jessica Gomes disse...

Sim, é verdade, mas só que acabassem com as touradas eu já ficava satisfeita; claro que se fosse por respeito aos animais seria ainda melhor. Mas nem por respeito e nem por ser politicamente correcto... Simplesmente não acabam com elas. É triste, mas é verdade.

Carlos Pires disse...

É de facto lamentável, Jessica.

Anónimo disse...

Parabéns pela discussão levantada. Mas queria contrapor à ideia de que é preciso uma alimentação ovo-lacto para ser saudável. É possível ser vegano (não consumir nada de origem animal) e ser saudável. O único que é necessário é anualmente complementar a vit.B12. No mais, podemos ser saudáveis e éticos, deixando de explorar os animais, assim como deixamos de explorar humanos que em tempos remotos considerávamos escravos. Os animais são os escravos da atualidade e depende de nós libertá-los! abraços, Nazareth.

David Canário disse...

Acerca desta discussão, creio ser relevante esta carta a Margarida Netto (CDS/PP) que recentemente se pronunciou a favor da tauromaquia na AR. http://arcodealmedina.blogs.sapo.pt/131505.html

David Canário disse...

Acerca desta discussão, creio ser relevante esta carta a Margarida Netto (CDS/PP) que recentemente se pronunciou a favor da tauromaquia na AR. http://arcodealmedina.blogs.sapo.pt/131505.html

Cumprimentos aos leitores e ao Professor Carlos Pires.

Joao disse...

Eu evito comer carne de mamiferos (basicamente apenas o faço em casa de terceiros, porque neste país quem fica mal visto é quem recusa comer mamiferos mortos e não estou para ter discussões destas cada vez que sou convidado).

Mas para acima de tudo, uma coisa não deixa de ser errada só porque quem aponta o erro comete outros erros.

Senão bastava perguntar a alguém: "és infalivel e livre de macula?" para contrariar qualquer argumento.

Bem sei que Jesus apreguou que era assim que se devia fazer, mas isso resultou em 1000 anos de idade média em que uns auto-proclamados mensageiros da mensagem de deus (o puro) controlaram toda a população europeia, muitas vezes recorrendo à força com pretextos morais e religiosos. Foram 1000 anos em que a Europa se atrasou em relação ao resto do mundo de uma maneira muito mais dramatica que a de hoje...

Joao disse...

Patricia Castro:

A proteina pode ser obtida a partir da soja ou de ovos.

O problema é outro como alguem aqui também ja notou.

De facto os ovolactovegetarianos apresentam a maior longevidade de todas as formas de alimentação excepto dos que são peixivoros. Esses sacanas vivem mais que todos. Mas o peixe ainda sofre (se bem que eu defenda que não pode ter o mesmo grau de sofrimento que um mamifero, por não ter tanta consciencia do sofrimento)

Ser-se vegetariano estrito requer saber de nutrição e mesmo assim estes não vivem apenas o mesmo que... Os comedores de carne.

O Carlos Pires tem razão: Racionalmente não é defensável comer carne, mesmo em comprimidos. É preciso recorrer a uns apelos emocionais.