terça-feira, 1 de setembro de 2020

Em que pensa um homem livre?

pintura de rua de The Rebel Bear, em Glasgow, na Escócia

«O homem livre em nada pensa menos que na morte, e a sua sabedoria não é uma meditação da morte, mas da vida.

O homem livre, isto é, aquele que vive segundo o ditame da Razão, não é levado pelo medo da morte, mas deseja diretamente o bem, isto é, deseja agir, viver e conservar o seu ser segundo o princípio da utilidade própria; e, por conseguinte, em nada pensa menos que na morte, mas a sua sabedoria é meditação da vida.»

 Bento de Espinosa, Ética, IV (Proposição LXVII e respetiva Demonstração), Relógio d’ Água, Lisboa, 1992, pp. 423-424 (tradução de Joaquim de Carvalho).

Imagem: pintura de rua de The Rebel Bear, em Glasgow, na Escócia.  


domingo, 9 de agosto de 2020

Falsa dicotomia

Falso dilema estás connosco ou estás contra nós

«Uma falsa dicotomia [ou falso dilema] é uma perspetiva enganadora das alternativas disponíveis. Ocorre quando alguém apresenta uma dicotomia de tal modo que parece haver apenas duas alternativas quando na verdade há mais.

Por exemplo, na maioria dos contextos, a expressão “se não estás connosco, estás contra nós” [logicamente equivalente a “estás connosco ou estás contra nós”] é uma falsa dicotomia, visto que ignora uma terceira possibilidade (ser totalmente indiferente ao grupo em causa) e também uma quarta: a de não ter ainda não ter decidido *. (…)

As falsas dicotomias podem apresentar-se acidental ou deliberadamente (talvez isto seja também uma falsa dicotomia). Quando são acidentais, resultam de uma avaliação imprecisa das posições disponíveis; quando deliberadas são uma forma de sofística.»

Nigel Warburton, Pensar de A a Z, Editorial Bizâncio, Lisboa, 2012, pp. 147-148 (tradução de Vítor Guerreiro).

 * No cartoon é apresentada uma quinta possibilidade, de resto muito plausível.

 Fonte do cartoon: PhilosophyMatters

sábado, 8 de agosto de 2020

O desejo de saber

Alegoria da filosofia e da gramática, pintura de Gentile da Fabriano


«Um espírito cultivado – e não estou a pensar no de um filósofo, mas em qualquer um para o qual as fontes do conhecimento tenham sido abertas, e que tenha sido minimamente ensinado a exercer as suas faculdades – encontra fontes de inexaurível interesse em tudo quanto o rodeia; nos objetos da natureza, nos feitos da arte, nas imagens da poesia, nos incidentes da história, nos costumes da humanidade, do passado e do presente, e nas suas perspetivas futuras. (…)
Não há absolutamente qualquer razão na natureza das coisas para que uma quantidade de cultura do espírito suficiente para despertar um interesse inteligente nestes objetos de contemplação não seja a herança de todos quantos [tenham acesso à educação adequada] (…).» 

John Stuart Mill, Utilitarismo, Gradiva, Lisboa, 2005, pp. 59-60.

(Tradução de F. J. Azevedo Gonçalves.) 

Imagem: Alegoria da filosofia e da gramática, de Gentile da Fabriano.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

Chegar ao outro lado


Lendo as opiniões que muitos professores de Filosofia expressam nos jornais e nas redes sociais, e ouvindo certas conversas nas escolas, percebe-se rapidamente que há bastantes divergências acerca de coisas importantes como, por exemplo, as metodologias de ensino, as finalidades da avaliação e, naturalmente, a natureza da própria filosofia. 
Há várias linhas de separação, mas a principal talvez seja entre os defensores da chamada “filosofia analítica” e aqueles que a criticam ou, pelo menos, não se reveem nela. 
A existência de divergências de opinião não é um mal (antes pelo contrário), nomeadamente numa disciplina que se dedica há séculos a debater problemas em aberto e sem respostas consensuais. 
Mas, dado que existem também algumas incompreensões mútuas e as discussões parecem muitas vezes conversas de surdos, talvez fosse bom fazer alguma coisa para promover a compreensão mútua e tornar os debates mais profícuos. 
Até porque esses desentendimentos, que frequentemente tocam a hostilidade, têm uma dimensão prática importante, pois incidem muitas vezes nos documentos que têm orientado o ensino da disciplina [Programa de Filosofia - 10.º e 11.º anos; Aprendizagens Essenciais] e servido de referencial para o exame nacional de Filosofia. Tanto a qualidade como a legitimidade desses documentos têm sido postas em causa. Alguns professores criticam o Programa, outros criticam as Aprendizagens Essenciais e outros criticam ambas as coisas. Creio que essa situação não credibiliza os professores de Filosofia e não fornece poder reivindicativo junto do governo, por exemplo para reclamar mais tempo para a disciplina (não devemos esquecer que, em muitas escolas, a carga horária de Filosofia é apenas 150 m). 
Mas fazer o quê?
Parece-me que tem de ser algo mais do que publicar bons livros ou promover boas conferências explicando os méritos da filosofia analítica e da filosofia não analítica (chame-se-lhe “continental” ou outra coisa qualquer), pois isso não tem sido suficiente para chegar ao “outro lado”. 
Talvez algo mais prático. Por exemplo, um encontro de professores (se possível presencial) em que professores com perspetivas diferentes, nomeadamente “analíticos” e “não analíticos”, em total igualdade de condições, pudessem mostrar uns aos outros, e aos assistentes, experiências / propostas pedagógicas significativas e representativas da sua perspetiva. 
Isso não mudaria certamente (e ainda bem!) as ideias divergentes da maioria dos envolvidos, mas talvez mostrasse que é possível ensinar bem filosofia quer de modo analítico quer de modo não analítico, que as semelhanças são mais significativas que as diferenças e que não há razões filosóficas ou pedagógicas substanciais que impeçam a existência de um programa de Filosofia em que a generalidade dos professores, independentemente das suas perspetivas teóricas, se reconheça.  
Se as organizações representativas dos professores de Filosofia organizarem uma coisa do género, ou então algo diferente mas com a mesma intenção, eu inscrevo-me no próprio dia e pago sem refilar (embora ache que devia ser gratuito). 

Imagem: pormenor de A Escola de Atenas, de Rafael. 



terça-feira, 7 de julho de 2020

Um filósofo que começou a sua carreira a estudar Psicologia e o exame nacional de Filosofia



O filósofo Colin McGinn, apesar de se interessar por filosofia desde a adolescência, estudou psicologia na Universidade (provinha de uma família pobre e por isso pareceu-lhe necessário estudar algo mais prático e profissionalmente promissor). Contudo, o seu interesse pela filosofia não desapareceu e acabou mesmo por se inscrever no curso de filosofia, onde tinha colegas que já estudavam filosofia há mais tempo e que mostravam ter muitos conhecimentos que ele não tinha. Apesar disso, decidiu concorrer ao prestigiado prémio John Locke, cujo vencedor recebia uma recompensa monetária e muito prestígio. Para sua surpresa, ficou em primeiro lugar. Na sua autobiografia (intelectual) Colin McGinn explicou o sucedido do seguinte modo:

“Olhando para trás, julgo que o que aconteceu é que a minha inexperiência relativa funcionou a meu favor, pois tive de lutar para criar as minhas próprias respostas às perguntas, devido à falta de conhecimento sobre o que os outros tinham dito. Em vez de encher as minhas respostas com demasiado conhecimento em segunda mão retirado da bibliografia filosófica, fui forçado a prosseguir com uma linha de pensamento da minha autoria, mostrando assim uma capacidade para participar com pensamento filosófico original.” 

Colin McGinn, Como se faz um filósofo, Bizâncio, Lisboa, 2007, pág. 96 (tradução de Célia Teixiera).

Oxalá amanhã, no exame nacional de Filosofia, os alunos portugueses também consigam ir além dos conhecimentos adquiridos e acrescentem linhas de pensamento da sua autoria!

domingo, 21 de junho de 2020

A filosofia por vezes vai ao cinema


Muitas pessoas «acham que a vida não tem sentido sem Deus, e que a perspetiva de nada haver para além da morte torna a vida paralisantemente vazia. Esta visão é expressa numa cena de um filme de Bergman, O Sétimo Selo (1957), em que o cavaleiro medieval fala com a figura encapuzada da morte. [O cavaleiro joga uma partida de xadrez com a Morte para tentar adiar a sua morte.]

“Cavaleiro: Eu quero o conhecimento! Não a fé, nem presunções, quero o conhecimento! Quero que Deus me estenda a sua mão, que me mostre a sua face e fale comigo.
Morte: Mas Ele permanece em silêncio.
Cavaleiro: Eu chamo por Ele na Escuridão. Mas é como se não estivesse lá ninguém.
Morte: Se calhar é porque não está lá ninguém.
Cavaleiro: Então a vida é um tremendo absurdo. Ninguém pode viver confrontado com a morte se souber que tudo se resume a nada.”»
Dan O’ Brien, Introdução à Teoria do Conhecimento, Gradiva, Lisboa, 2013, pág. 349.

A filosofia por vezes vai ao cinema. Neste pequeno diálogo encontramos referências a diversos tópicos filosóficos:

- o problema do sentido da vida (e a perspetiva de que esta sem Deus é absurda);
- o chamado “argumento da ocultação divina”, contra a existência de Deus (“chamo por Ele na Escuridão. Mas é como se não estivesse lá ninguém”);
- a rejeição do fideísmo (“quero o conhecimento! Não a fé”);
e, talvez mais discutivelmente,
- a falácia do apelo às consequências (alegar que uma ideia é verdadeira ou falsa em função das suas consequências serem desejadas ou indesejadas – o cavaleiro sugere que Deus tem de existir senão “a vida é um tremendo absurdo”). 

terça-feira, 16 de junho de 2020

Recursos de Filosofia: Para terminar a Filosofia da religião com humor e sentido crítico


“Para terminar a Filosofia da religião com humor e sentido crítico”
Desta vez a proposta de trabalho que eu e a Sara Raposo elaborámos para a Aula Digital da Leya prende-se com a Filosofia da religião.
Como se depreende pelo título, a ideia é terminar a lecionação do capítulo com alguma leveza e boa disposição.
A proposta inclui um guião de análise de três vídeos: duas divertidas Mixórdias de Temáticas, de Ricardo Araújo Pereira, e o um excerto do célebre “Porque não sou cristão?”, de Bertrand Russell, onde este faz considerações críticas de perspetivas como a “aposta de Pascal”. Inclui também propostas de resolução.
Os sketches de RAP (intitulados “Deus visita indivíduo” e “Com vontade política tinha-se feito isto sem pó”) tocam - modo divertido e inteligente - diversos tópicos deste capítulo, com a vantagem adicional de mostrar que os assuntos filosóficos se podem encontrar no dia a dia.

Para aceder basta fazer uma rápida inscrição e depois visualizar o menu de recursos na Aula Digital.

Oxalá possa ser útil!

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Um baile de máscaras e a representação teatral de um diálogo filosófico


No âmbito da área de Cidadania e Desenvolvimento, na turma do 11º F, sob a orientação da professora Cristina Fernandes, os alunos Anna, Claúdia, Inês, Danielly, Marco, Mariana Gaspar, Nicoleta, Olga e Rafael organizaram e realizaram um baile de máscaras na escola.

As atividades de natureza interdisciplinar (com a colaboração dos professores das disciplinas de Português, Filosofia, Francês, Inglês e História) que foram feitas encontram-se descritas e ilustradas com fotos no PowerPoint que se segue.

O diálogo filosófico (da autoria dos alunos Nicoleta, Marco e Rafael), que foi representado para os participantes no baile, pode ser lido também neste post.

Agradeço a todos os meus colegas professores, e especialmente aos alunos da turma, o empenho, o interesse e o seu contributo para a concretização destas atividades, nas quais tive o prazer de participar, bem como a colaboração e a partilha.

Muito obrigada a todos!
Bem hajam.


O diálogo filosófico, a seguir apresentado, foi escrito e representado pelos alunos  Nicoleta, Marco e Rafael no dia do Baile de Máscaras.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Matriz do teste de filosofia da religião

Júpiter e Tétis, de Jean Auguste Dominique Ingres

Júpiter e Tétis, de Jean Auguste Dominique Ingres

Ano letivo: 2019-2020

Duração: 90 minutos

Objetivos:

1. Distinguir religiões monoteístas de religiões politeístas.
2. Explicar a conceção teísta de Deus.
3. Distinguir o ateísmo do agnosticismo.
4. Distinguir a abordagem racional do problema da existência de Deus da fé.
5. Enunciar o problema da existência de Deus.
6. Explicar o argumento cosmológico.
7. Explicar duas objeções ao argumento cosmológico.
8. Explicar o argumento teleológico.
9. Explicar duas objeções ao argumento teleológico.
10. Explicar o argumento ontológico.
11. Explicar duas objeções ao argumento ontológico.
12. Explicar o problema do mal. 
13. Explicar três respostas ao problema do mal.
14. Mostrar em que medida Pascal é fideísta. 
15. Explicar a “aposta de Pascal”. 
16. Explicar duas objeções à “aposta de Pascal”.
17. Comparar e avaliar os diversos argumentos e respetivas objeções acerca do problema da existência de Deus.
18. Justificar uma posição pessoal acerca do problema da existência de Deus.

Natureza das questões:

Escolha múltipla, questões de resposta curta e uma questão de resposta extensa.

Para estudar:

Documentos fornecidos aos alunos

Opcional:


O homem que foi visitado por Deus (vídeo humorístico)

O argumento ontológico (outra explicação)






sábado, 30 de maio de 2020

Recursos de Filosofia: o problema do mal


A existência de mal tornará improvável a existência de Deus?

A proposta de trabalho que esta semana eu e a Sara Raposo elaborámos para a Aula Digital da Leya visa a discussão do problema do mal. Inclui um guião com questões e um PowerPoint com breves possibilidades de resposta.

Apesar de no 11º ano as aulas já serem presenciais, a utilização de recursos digitais continua a ser essencial, pois os professores não podem distribuir fotocópias e os manuais do 11º não contemplam a filosofia da religião. Estes recursos podem ser projetados pelo professor durante as aulas ou acedidos pelos próprios alunos através dos seus dispositivos móveis.

Aceda AQUI

(A inscrição é rápida e fácil, caso ainda não esteja inscrito na plataforma.)

Votos de bom trabalho! 

domingo, 24 de maio de 2020

Mulheres na ciência (passado e presente): Marie Curie e Maria de Sousa

 

                       Marie Curie                                                        Maria de Sousa                                      
Em Cidadania e Desenvolvimento - no âmbito de uma DAC entre as disciplinas de Filosofia, Biologia e Física e Química - os alunos do 11º B realizaram vários trabalhos, subordinados ao tema “Mulheres na ciência: passado e presente”.
As alunas do 11º B, Mariana Aguiar e Filipa Silva, são as autoras do trabalho que se segue, finalizado nas duas últimas semanas de aulas em condições diferentes das previstas inicialmente.
Agradeço a ambas as alunas o empenho, a disponibilidade e o interesse manifestado. Muito obrigada!

Aos leitores: se querem descobrir o que terá a teoria de Kuhn a ver com o tema deste trabalho, é só espreitar e descobrirão a resposta

sábado, 23 de maio de 2020

O que é que o dinheiro não deve poder comprar?


«Há algumas coisas que o dinheiro não pode comprar, mas, hoje em dia, são cada vez menos. Atualmente, quase tudo está à venda. Eis alguns exemplos:
Uma cela de prisão mais cómoda: 82 dólares por noite. Em Santa Ana, na Califórnia, e noutras cidades, os delinquentes não violentos podem pagar por melhores instalações: uma cela limpa e sossegada, afastada das ocupadas pelos reclusos não pagantes. (…)
Barrigas de aluguer indianas: 6250 dólares. Os casais ocidentais que procuram barrigas de aluguer recorrem cada vez mais a esses serviços na Índia, onde o procedimento é legal e o preço é um terço inferior ao praticado nos Estados Unidos. (…)
O direito de abater um rinoceronte-negro em vias de extinção: 150 mil dólares. A África do Sul começou a permitir que os proprietários de herdades vendam aos caçadores o direito de matarem um número limitado de rinocerontes, por forma a incentivar os proprietários a criarem e a protegerem essa espécie em vias de extinção. (…)
O direito de emitir uma tonelada métrica de dióxido de carbono para a atmosfera: 13 euros. A União Europeia criou um mercado de emissões de dióxido de carbono que permite às empresas comprarem e venderem o direito de poluírem o ar.
A admissão do seu filho numa universidade prestigiada: montante desconhecido. Embora o preço não seja do domínio público, representantes de algumas das mais prestigiadas universidades relataram ao The Wall Street Journal que aceitam alunos que sendo tudo menos brilhantes e cujos abastados pais estejam dispostos a despender quantias substanciais de dinheiro. (…)
Hoje, a lógica de compra e venda já não se aplica apenas a bens materiais, mas domina cada vez mais todos os aspetos da vida. Está na altura de nos perguntarmos se queremos viver desta forma. (…)
Para lidar com esta situação, não nos basta protestar contra a ganância; precisamos de repensar o papel que os mercados devem desempenhar na nossa sociedade. Necessitamos de um debate público sobre o que significa manter os mercados no seu devido lugar. E, para que isso aconteça, precisamos de refletir sobre os limites morais dos mercados. Precisamos de nos perguntar se há algumas coisas que o dinheiro não deve comprar. (…)
[Nos últimos anos] passámos de uma situação em que tínhamos uma economia de mercado para uma situação em que somos uma sociedade de mercado. (…)
O grande debate ausente da política contemporânea tem que ver com o papel e o alcance dos mercados. Queremos uma economia de mercado ou uma sociedade de mercado? Que papel devem ter os mercados na vida pública e nas relações pessoais? Como podemos decidir que bens devem ser comprados e vendidos e quais devem ser regidos por valores não mercantis? Que domínios da vida o imperativo do dinheiro não deve reger?»

Michael J. Sandel, O que o dinheiro não pode comprar, Editorial Presença, Lisboa, 2015, pp. 13, 14, 16, 17 e 20.

sábado, 16 de maio de 2020

O argumento teleológico de Tomás de Aquino e uma objeção


«Na sua obra mais importante e mais conhecida, Tomás conclui teleologicamente que Deus existe:

Vemos que as coisas sem inteligência, como os corpos naturais, atuam tendo em vista uma finalidade, e isto é evidente a partir do facto de atuarem sempre, ou quase sempre, da mesma maneira, de modo a obter o melhor resultado. Assim, é óbvio que não é fortuitamente, mas antes com desígnio, que atingem as suas finalidades. Ora, o que não tem inteligência não pode direcionar-se a uma finalidade, a menos que seja direcionada por um ser dotado de conhecimento e inteligência, como a flecha é disparada para o alvo pelo arqueiro. Logo, existe um ser inteligente por meio do qual todas as coisas naturais são direcionadas para as suas finalidades; e é a este ser que chamamos Deus. 

(Tomás de Aquino, Suma Teológica, Ia. Q2. A3.)

O raciocínio de Tomás parte da observação de finalidades na natureza, em entidades que não são dotadas de inteligência. As raízes de uma árvore cumprem a finalidade de captar a água de que a árvore precisa, mas, tal como a própria árvore, não têm qualquer inteligência. Uma vez que nenhuma entidade sem inteligência atua com vista a uma finalidade, alguma outra entidade inteligente dirige as raízes da árvore. Essa entidade é Deus. Daí a analogia com a flecha: sem uma inteligência que a direcione para a sua finalidade, que é atingir o alvo, a seta não fará tal coisa, por si mesma, precisamente porque não tem qualquer inteligência.»

Desidério Murcho, A existência de Deus – O essencial, Plátano, 2020, pp. 17-18

(Trata-se de um Ebook, ainda sem edição em papel: 

Há várias objeções ao argumento teleológico. Uma delas alega que, mesmo que admitamos a necessidade de o mundo ter um criador inteligente, isso não implica a sua identificação com o Deus teísta (omnipotente, sumamente bom, etc.) nem sequer monoteísta – pois pode suceder, por exemplo, que tenha vários criadores imperfeitos.

David Hume formulou essa objeção do seguinte modo (não cito diretamente o livro de Hume - Diálogos sobre a Religião Natural -, mas um artigo da revista Crítica que inclui, além de excertos do filósofo, breves explicações).

«Em vez de ser a obra de um único Deus, o mundo pode ser a obra de muitos deuses, todos mais finitos e imperfeitos do que a sua própria obra.

“Mas, mesmo que este mundo fosse uma produção tão perfeita, continuaria a ser duvidoso que se pudesse corretamente atribuir ao artífice todas as perfeições da obra. Se examinarmos um navio, que ideia elevada não formaremos do engenho do carpinteiro que construiu uma máquina tão complicada, útil e bela? E que surpresa não deveremos sentir ao verificarmos que se trata de um estúpido mecânico que imitou outros e copiou uma arte que, durante uma longa sucessão de épocas, após múltiplas tentativas, enganos, correcções, deliberações e controvérsias, foi gradualmente melhorada? Muitos mundos podem ter sido atamancados e destruídos ao longo de uma eternidade, antes que este sistema tenha surgido; muito trabalho perdido; muitas tentativas infrutíferas feitas; e um lento, mas gradual aperfeiçoamento na arte de fazer mundos ter sido levado a cabo durante épocas sem fim”. (Diálogos, Parte V). (…)

Tem de se admitir todas as hipóteses imagináveis para explicar o mundo, desde uma divindade infantil a um deus senil passando por uma divindade inferior e subalterna.

“Por aquilo que se sabe, quando comparado com um padrão superior, este mundo é muito defeituoso e imperfeito; e foi apenas a primeira e grosseira tentativa de uma Deidade infantil, que a seguir o abandonou, envergonhada da sua defeituosa realização; é meramente a obra de uma Deidade inferior e subalterna e constitui o objecto de troça dos seus superiores; é a produção de velhice e de senilidade de uma Deidade aposentada e, desde a sua morte, continua, à aventura, devido ao primeiro impulso e à força activa que dela recebeu” (Diálogos, Parte V)

Álvaro Nunes, “Será que Deus existe?”, Crítica - https://criticanarede.com/anunesseraquedeusexiste.html

(Infelizmente desconheço o autor e a origem da imagem.)

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Recursos de Filosofia: objeções a Kant e Stuart Mill


A proposta de trabalho que esta semana eu e a Sara Raposo elaborámos para a Aula Digital da Leya visa a discussão de uma objeção a Kant e de uma objeção a Stuart Mill. Inclui textos, questões e propostas de resolução.

Em função da matéria que estiver a lecionar o professor pode optar por debater uma das objeções ou ambas. Pode também, obviamente, usar os textos com outro enquadramento e finalidade, uma vez que os documentos são editáveis.

Dado que as aulas presenciais do 11º vão ser retomadas na próxima semana foram apenas elaborados materiais para o 10º ano.

Para aceder basta fazer uma rápida inscrição e depois visualizar o menu de recursos na Aula Digital. (A apresentação do menu foi reorganizada e agora é mais fácil encontrar os recursos lá existentes.)

domingo, 10 de maio de 2020

Forma indiciária do problema do mal: um exemplo de sofrimento desnecessário e injustificado


William L. Rowe, no livro “Introdução à Filosofia da Religião”, ao discutir o problema do mal apresenta de exemplos de males alegadamente desnecessários e injustificados, nomeadamente o caso de um corço que durante cinco dias sofre dores terríveis provocadas por queimaduras até finalmente morrer num lugar isolado.

É de salientar que também apresenta e discute diversas maneiras de rejeitar o problema do mal.

«A forma indiciária do problema do mal baseiase em exemplos de sofrimento intenso, em seres humanos ou animais, que aparentemente não servem qualquer propósito benéfico. Desenvolvemos aqui o argumento centrandonos num exemplo de sofrimento animal: um corço que fica horrivelmente queimado durante um incêndio provocado pela descarga de um raio, sofrendo terrivelmente durante cinco dias antes de morrer. Ao contrário dos seres humanos, não se atribui livrearbítrio aos corços, pelo que não podemos imputar o terrível sofrimento do corço a um mau uso do livrearbítrio. Por que permitiria então Deus que isto acontecesse quando, se existe, podia têlo impedido com tanta facilidade? Admitese em geral que somos simplesmente incapazes de imaginar um bem superior cuja realização dependa, sob qualquer perspetiva razoável, de Deus permitir que aquele corço sofra terrivelmente. Tãopouco parece razoável supor que há um mal imenso que Deus seria incapaz de impedir se não permitisse que o corço sofresse durante cinco dias. Suponhase que por «mal sem sentido» entendemos um mal que Deus (se existe) poderia ter impedido sem com isso perder um bem superior ou sem ter de permitir um mal igualmente mau ou pior. Será que o sofrimento do corço é um mal sem sentido? Seguramente que o terrível sofrimento do animal durante esses cinco dias não parece do nosso ponto de vista fazer qualquer sentido. Quanto a isto, o consenso é, ao que parece, quase universal. Pois dada a omnisciência e o poder absoluto de Deus, serlheia extremamente fácil ter impedido o incêndio ou ter impedido que o corço fosse apanhado pelas chamas. Além disso, como vimos, é extraordinariamente difícil imaginar um bem superior cuja realização dependa, sob qualquer perspetiva razoável, de Deus permitir que aquele corço sofra terrivelmente. E é igualmente difícil imaginar um mal equivalente, ou até pior, que Deus se visse forçado a permitir caso impedisse o sofrimento do corço. Parece, portanto, perfeitamente razoável pensar que o sofrimento do corço é um mal sem sentido, um mal que Deus (se existe) podia impedir sem com isso perder um bem superior ou ter de permitir um mal equivalente ou pior.
À luz de tais exemplos de males horríveis, podese formular da seguinte maneira o argumento indiciário:

1. Provavelmente, há males sem sentido (por exemplo, o sofrimento do corço).
2. Se deus existe, não há males sem sentido.
Logo,
3. Provavelmente, Deus não existe.»

William L. Rowe, Introdução à Filosofia da Religião, Verbo, 2011, pp. 123-124.

(Tradução de Vítor Guerreiro e revisão científica de Desidério Murcho.)

Um diálogo, no céu, entre duas cientistas: Maria Mayer e Lise Meitner

A física Maria Goeppert Mayer, vencedora do Nobel de Física de 1963.

A física austríaca, Lise Meitner, e o químico alemão Otto Hahn.
“Ambos trabalharam na fissão nuclear (quebra de um núcleo em dois mais pequenos), mas o mérito da descoberta foi atribuído exclusivamente a Hahn, que ganhou (sozinho) o prémio Nobel da Química em 1944. E isto apesar de, entre 1901 e 1965, Lise Meitner ter sido nomeada 29 vezes para o Nobel da Física e 19 vezes para o Nobel da Química.” Fonte: jornal online “Observador
Em Cidadania e Desenvolvimento - no âmbito de uma DAC entre as disciplinas de Filosofia, Biologia e Física e Química - os alunos do 11º B realizaram vários trabalhos, subordinados ao tema “Mulheres na ciência: passado e presente”.
As alunas do 11º B, Beatriz André e Isabel Costa, são as autoras do trabalho que se segue, finalizado nas duas últimas semanas de aulas em condições diferentes das previstas inicialmente. Assim sendo, foi feita uma adaptação do projeto inicial e foi escrito um diálogo imaginário, que mistura humor e criatividade com informação científica e filosófica.
Agradeço a ambas as alunas o empenho, a disponibilidade e o interesse manifestado. Muito obrigada!

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Visita de estudo à Gulbenkian a propósito da Filosofia da arte



O trabalho que se segue foi realizado pela aluna Nicoleta Manoli, a quem agradeço a disponibilidade para partilhar a sua experiência.





No dia 21 de fevereiro de 2020 no período da tarde, a minha turma (11°F) e duas outras turmas do 11º ano (C e E) visitaram a Fundação Calouste Gulbenkian e fizeram visitas guiadas aos dois museus lá existentes, estas inseriram-se no âmbito da disciplina de Filosofia e do estudo do problema da definição de arte: como distinguir as obras de arte de outro tipo de objetos?
Nessa tarde, começamos por visitar uma exposição gratuita: “Downtime / Tempo de Respiração” de Manon de Boer enquanto esperávamos que a nossa visita guiada começasse. Essa exposição foi algo de diferente para mim e todos os meus colegas, pois exigia, tal como o nome indica, um tempo de respiração/uma pausa para absorver e perceber o sentido da mensagem que a artista queria passar através de vídeos.
Em seguida, realizámos uma visita guiada à Coleção Moderna acompanhados por uma guia, bastante interativa, que nos foi fazendo perguntas acerca das obras e explicando depois o que observámos, nomeadamente a mensagem que o artista pretendeu transmitir, as correntes artísticas em que estavam inseridas as obras e o contexto histórico em que foram produzidas, seguindo uma linha cronológica. A ideia era que, ao tentarmos interpretar as obras, desenvolvêssemos um pouco mais o nosso pensamento crítico e criativo e foi muito interessante conhecermos mais sobre artistas mais recentes que não costumamos estudar.
Nesta visita explorámos vários quadros, entre os quais destaco os de Amadeo de Souza-Cardoso, visto que foi um dos artistas de quem a nossa guia mais falou, destacando alguns aspetos das obras analisadas por vezes surpreendentes, como por exemplo: o quadro onde se retratam cães galgos ter sido pintado sobre uma pintura já existente.
No final, tivemos também a possibilidade de ver outras obras de arte pertencentes à coleção. Entre essas obras, algumas delas fizeram-nos pensar “Isto é arte?”, o que, coincidentemente, era o nome da visita orientada e a questão com a qual fomos confrontados pela nossa guia ao contemplar diferentes obras de arte.
Concluindo, gostei imenso de visitar o museu e ter a experiência de ver obras, que nunca tinha visto, da Coleção Moderna. É sempre curioso e diferente vê-las “ao vivo e a cores”, ao contrário do que acontece normalmente aquando do estudo de algumas obras artísticas.
Por fim, acrescento que a obra que mais me surpreendeu foi um quadro, pintado a óleo, de um pedaço de carne que, inicialmente, parecia uma fotografia. Este faz parte da corrente artística do hiper-realismo e foi-nos o último quadro apresentado na visita guiada.

Nicoleta Manoli, 11º F