sábado, 6 de setembro de 2014

O Dúvida Metódica no ano letivo 2014-15

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Este blogue existe como projeto curricular da Escola Secundária de Pinheiro e Rosa desde 2008. Os nossos principais destinatários foram, desde o início, os alunos. Disponibilizámos, sobretudo, recursos didáticos para o ensino da Filosofia no secundário. Também partilhámos outros materiais com interesse artístico, literário, científico e, por vezes (quando o tempo escasso permitia), opiniões acerca de assuntos filosóficos e educativos.

Foi um trabalho de equipa gratificante, a nível pessoal e profissional. A criação deste blogue (apesar das difíceis condições de trabalho que sempre tivemos) foi, utilizando uma analogia, uma grande janela que se abriu para fora da escola e da sala de aula: permitiu aprender muito, trocar e confrontar ideias, participar em discussões públicas com várias pessoas ligadas ao ensino da Filosofia (no país e fora dele). Tudo isso fez com que o esforço para manter o “Dúvida Metódica” ao longo destes anos tivesse valido a pena.

Se o sucesso de um blogue educativo se avaliar pelo número de visitantes, de visualizações de páginas ou de reconhecimentos públicos de alguns especialistas da área, podemos dizer que tivemos sucesso.

Mas se o sucesso de um blogue educativo for medido pelo feedback dos professores que utilizaram os recursos disponibilizados ou que o leram diariamente, o balanço já será diferente, pois esse feedback, na maior parte dos casos, não existiu. A maioria dos que passaram por aqui (880.210 visitantes) ou utilizaram os recursos (colocados no programa Scribd, ver AQUI e AQUI), e foram muitos milhares, não deixaram qualquer sugestão, crítica ou comentário.

A partilha dos recursos didáticos e o trabalho colaborativo - descritos nas teorias pedagógicas e nos documentos do ministério como desejáveis e uma forma de melhorar a qualidade do ensino - na prática acabam por ser, em muitos casos, uma miragem. Há várias razões para explicar isso, mas vou referir apenas uma delas: os professores que não estudam nem investem na preparação das aulas e que são incapazes de expor publicamente o seu trabalho não querem dialogar com os colegas que o fazem e encaram-nos como arrogantes e presunçosos, mesmo que se aproveitem do que estes partilham. Recentemente, uma professora de Filosofia apelidou-me a mim e ao Carlos de “arianos da Filosofia”. É compreensível que se reaja assim perante quem perturba a inatividade ou a pode tornar mais evidente aos olhos dos outros.

Este tipo de atitude é depois justificado através de uma ideia popular entre a classe docente: não há factos objetivos em educação e, portanto, a qualidade das aprendizagens dos alunos e o mérito da profissão não podem ser avaliados (nem pelo trabalho público desenvolvido, nem pelos resultados dos alunos na avaliação externa, nem por outro tipo de atividades que se realizem). Ou seja: a ideia de que não há nenhuma maneira imparcial e fidedigna de comparar e distinguir os professores, ao contrário do que acontece nas outras profissões. É irónico que assim se pense: os professores têm permanentemente de avaliar e distinguir o desempenho dos alunos, mas eles próprios não podem ser avaliados sem suspeição. Esta ideia é conveniente, pelo menos para alguns professores, pois ajuda a manter o status quo e a defender que a graduação profissional, cujo principal fator é a antiguidade, é o único critério aceitável.

Para que serve, então, um professor empenhar-se e tentar constantemente melhorar, se a antiguidade é considerada o critério decisivo em coisas tão importantes como a distribuição do serviço e a atribuição dos horários zero?

É o dever do professor para com os alunos. Contudo, em termos de carreira, não serve para nada. O excelente trabalho que o meu colega Carlos Pires fez neste blogue, nas suas aulas, na divulgação da escola e da Filosofia não lhe serviram para nada: foi-lhe atribuído horário zero e terá que ir para outra escola, onde provavelmente não terá turmas de Filosofia.

Assim, ainda que ele se mantenha como autor e esporadicamente volte a escrever aqui, este blogue passará por isso a ser diferente. Lamento muito que assim seja.

No presente ano letivo, este blogue só não deixou de ser um projeto curricular da escola porque me foram atribuídas turmas de Filosofia. Continuarei a divulgar no “Dúvida Metódica” o que faço nas minhas aulas por acreditar que os professores de Filosofia devem dar um contributo para melhorar a qualidade do ensino e a imagem pública da disciplina. Desempenharmos as nossas funções com profissionalismo e competência contribui para que a disciplina de Filosofia não desapareça do ensino secundário. Ao contrário do que muita gente parece pensar, este não é um dado adquirido e o futuro poderá ser ainda pior que o presente.

Sara Raposo

9 comentários:

Anónimo disse...

O 6.º parágrafo coloca o dedo na ferida. É aí que reside o problema de fundo do que se passa relativamente à desvalorização do mérito dos professores e à fraca qualidade do ensino em Portugal. A sociedade portuguesa e, em especial, o setor da Educação é dominada por uma ideologia de esquerda (basta ver que o sindicato Fenprof - dominado pelo PCP - é o mais representativo entre os docentes do ensino básico e secundário) abomina o mérito e usa os argumentos que descreve no parágrafo referido. De cada vez que se tenta introduzir no sistema fatores que pretendem medir e avaliar o mérito dos professores, há uma forte oposição, sobretudo por parte da Fenprof. Para a esquerda, o mérito e a qualidade são desprezados porque o que interessa é manter o status quo para continuar a beneficiar dos direitos adquiridos. Esta postura, para além de antinatural e injusta, tem consequências nefastas na qualidade do ensino e, consequentemente, no desempenho dos alunos.

Aires Almeida disse...

Pergunto apenas: será que quem está à frente da escola não podia ter evitado isso? Será que estão a pensar nos alunos (e pais) da escola que dirigem. Digo isto, porque quem dirige a escola tem a obrigação de saber que não se trata apenas de mais um professor.

Aires Almeida disse...

Pergunto apenas: será que quem dirige a escola desconhece que o Carlos não é um professor qualquer? Seria precisa muita distração. Será que não haveria maneira de o manter na escola, ou será que não se preocupam com os alunos da escola que dirigem? Custa entender não haver 6 horas para o manter na escola, para benefício da própria escola e dos seus alunos.

Manuel Silva disse...

Devo dizer que concordo com tudo o que se diz no post.
Já sobre o 1.º comentário lamento a distorção ao deslocar-se a questão para o terreno político-ideológico, meio caminho andado para a desconversa do costume.
Quem não conhece professores dedicados e competentes com opções pessoais de Direita e outros de Esquerda? E manifestamente incompetentes também nos dois sectores?
Quanto ao Mário Nogueira, estamos a falar de outra galáxia, não de Educação e Ensino, e eu não tenho nenhuma nave espacial.
Penso que o maior problema, que a Prof.ª Sara nos põe à reflexão, tem que ver com a cultura da profissão, de grande arrogância pessoal e de falta de espírito de colaboração de grande número de professores, que têm um umbigo demasiado volumoso para se porem ao nível dos outros e trabalharem colegialmente.
Têm muito medo de se expor.
A Prof.ª Sara acaba por falar disso muito bem no post.
Mas a cultura de trabalho colegial sistemático, de avaliação e de autoavaliação constrói-se, este blog é uma boa prova disso. Às vezes com grandes dificuldades, mas «o caminho faz-se caminhando» e, na maior parte das vezes, é íngreme e sinuoso.
Não vale a pena lamentos da esfera do «dever ser» fatalista e da atribuição de culpas, as coisas são o que são e são assim, não há nada a fazer.
As coisas só mudam se os actores (parte deles) as fizerem mudar. Não se esqueçam nunca que é a pequeníssima porção de fermento, comparada com a imensidão da massa, que leveda o pão.
Tirar fotografias estáticas da realidade na época dos vídeos pessoais nos telemóveis de cada um é um anacronismo.
Pretender que, de um momento para o outro tenhamos outro panorama (desejável) que nunca tivemos é ingenuidade ou ignorância.
Volto ao poeta António Machado: «o caminho faz-se caminhando».

Unknown disse...

Deixo apenas uma palavra de solidariedade e apreço pelo vosso trabalho. E força para este ano letivo... este país já cansa.

Ismael Carvalho disse...

O último comentário foi meu.

Maria do Rosário Lourenço disse...

Contrariamente ao que se advoga, antiguidade e mérito não tem de andar de mãos dadas.
O tempo pode trazer experiência ou estagnação, e infelizmente muitos professores por desalento, cansaço ou outro motivo qualquer, deixaram de ter como objetivo principal o ensino e passaram a estar desmotivados e até desinteressados.
Como em qualquer profissão existem bons e maus profissionais, sendo que esta é uma profissão que marca para a vida. Por isso ficam guardados na nossa memória como excelentes professores, exigentes mas interessados, no ensino e nos alunos como seres individuais.
O professor Carlos foi meu professor e eu incluo nessa categoria de professores que mais do que “despejar matéria” se preocupam em ensinar, exigente com os alunos, mas entregando-se dedicadamente ao que faz.
Um bem haja professor
Rosário Lourenço

Jorge Rocha disse...

Compreendo o tom de desalento da Sara Raposo. Será um desalento partilhado por muitos na Pinheiro e Rosa e no país. Todos os que seguem este blogue comungarão desse sentimento.
Gostava de dizer à Sara e ao Carlos que este blogue é do melhor que se fez em Portugal pelo ensino da Filosofia na última década. Claro que era desejável mais debate entre os professores que o seguem. Também eu gostaria de debater mais aqui. As razões para tal não acontecer são muitas, como a Sara bem reconheceu. Por isso, não vale a pena levar a análise para a parte amargurada referente aos que não debatem para se furtarem à exposição. A verdade é que os indicadores quantitativos são claríssimos sobre o interesse que o blogue tem despertado. Os professores visitam-no repetidamente e aconselham-no aos seus alunos, que passam a visitá-lo. Deste modo ele tem desempenhado um papel relevante no ensino da Filosofia. Parabéns por isso... e que a motivação não vos esmoreça, trabalhe o Carlos Pires na Pinheiro e Rosa ou noutro qualquer lugar.

Ana Morais disse...

Ana Morais
Tentando reforçar elogios dirigidos ao bom trabalho aqui partilhado, devo dizer-vos que também eu enquanto professora tenho recomendado a visita deste sítio aos meus alunos de Filosofia. Parabéns! Que apesar de tudo o entusiasmo possa permanecer...