domingo, 21 de abril de 2013

Números deste blogue

Nos dias que antecederam o teste intermédio de Filosofia, o número de visitantes e de páginas visualizadas deste blogue subiu significativamente. Os números mais elevados, atingidos num dos dias, foram 3.306 visitantes, 7.909 páginas visualizadas e, em certos momentos, cerca de 100 pessoas online. Se considerarmos que, em média, existem à volta de 1.000 visitantes diários, o aumento foi significativo.

Obrigado a todos!

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Nos dias que antecederam o teste intermédio de Filosofia, o número de visitantes e de páginas visualizadas deste blogue subiu significativamente. Os números mais elevados, atingidos num dos dias, foram 3.306 visitantes, 7.909 páginas visualizadas e quase 100 pessoas online. Se considerarmos que, em média, existem à volta de 1.000 visitantes diários, o aumento foi significativo.

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sábado, 20 de abril de 2013

O que é a tolerância?

intolerância

A palavra “tolerância” deriva de uma palavra latina que significa suportar e aguentar e isso influenciou o significado que atribuímos à palavra. Assim, dizer que uma pessoa tem uma grande tolerância à dor significa que é capaz de suportar muitas dores. Dizer que um professor revela grande tolerância face à indisciplina significa que ele suporta sem reagir comportamentos incorretos nas suas aulas. Aquilo que é objeto de tolerância é algo que é considerado negativo. Não se diz, por exemplo, uma pessoa tem uma grande tolerância ao prazer.

A pessoa que tolera faz um juízo negativo da coisa tolerada: considera que é uma ideia falsa ou uma ação incorreta, ou então que é algo de mau gosto ou perigoso, etc. Mas não tira consequências práticas desse juízo negativo: não age contra a coisa tolerada, não a reprime, não tenta impedir a sua expressão pública, se é uma ideia, nem impedir a sua realização, se é uma ação. A pessoa que tolera não tenta limitar a liberdade dos outros falarem e agirem como querem e procura coexistir pacificamente com eles, apesar de achar que não estão certos.

A tolerância é, portanto, diferente de aprovação. Tolerar não é o mesmo que concordar. A pessoa tolerante não aprova aquilo que tolera (podendo a desaprovação ter diversos graus), mas suporta a sua existência. Por exemplo: um seguidor da religião A considera que a religião B é falsa mas não tenta impedir ninguém de professar essa religião; um ateu considera que todas as religiões são falsas mas não tenta impedir ninguém de ser religioso.

A pessoa tolerante podia não ser tolerante e não suportar a existência daquilo que tolera, mas decide suportar porque tem razões para o fazer. A tolerância requer razões, motivos para justificar que se aceite algo que não se aprova. Por isso, a tolerância não é o mesmo que indiferença. A pessoa tolerante não é indiferente, não encolhe os ombros perante o assunto, ela considera que a coisa tolerada é errada, mas as razões que tem para a considerar errada pesam menos que as razões que a levam a não reprimir. Devido a essas razões seria errado não tolerar o que está errado.

Há diversos tipos de razões capazes de justificar a tolerância. Nomeadamente, razões morais, como por exemplo o respeito pela autonomia das pessoas; razões políticas, como a necessidade de assegurar a coexistência pacífica de grupos culturalmente distintos; e razões epistemológicas, como o facto de haver incerteza relativamente à verdade das opiniões em confronto.

A tolerância é, portanto, uma complacência com algo considerado errado baseada em razões consideradas mais importantes que esse erro. Por exemplo: uma pessoa acha errado recusar transfusões de sangue mas aceita que os crentes de certas religiões o façam pois considera que a autonomia individual e a liberdade religiosa são valores mais importantes que a saúde.

Se não há boas razões para ser complacente com algo que achamos errado, não há lugar para a tolerância. Se as razões para rejeitar uma certa prática são mais fortes do que as razões para a aceitar, então ela não deve ser tolerada. Ou seja: há coisas tão erradas, tão inaceitavelmente prejudiciais, que são intoleráveis e devem ser combatidas. Se não fosse assim a tolerância levar-nos-ia a aceitar práticas como roubo, o assassinato, a violação, etc. A tolerância tem de ter limites e é preciso distinguir o tolerável do intolerável.

Em resumo, a tolerância implica distinguir pelo menos estas três esferas: o que merece aprovação, o que é tolerável e o que é intolerável.

Quando se chega à esfera do intolerável, deixa de ser errado interferir. Não é, portanto, verdade que a tolerância seja sempre uma atitude correta perante a diversidade de costumes e práticas que existe no mundo. O que coloca, nomeadamente, o problema de saber quais são os meios de interferência adequados, de modo a que a interferência não faça um mal maior que a prática intolerável que se quer impedir.

Quando se diz que uma pessoa é intolerante isso significa que ela não tolera coisas que devia tolerar, por exemplo que os outros tenham crenças religiosas diferentes. Habitualmente não se chama intolerante a uma pessoa que não tolera algo que é intolerável, como por exemplo a pedofilia. (Mesmo que pareça, isto não é um jogo de palavras.)

Escusado será dizer que muitas vezes não é fácil distinguir com objetividade, e muitos menos de modo consensual, o que é tolerável do que é intolerável. Vejamos um exemplo bastante atual. Na comunidade cigana existe a tradição de as mulheres casarem muito novas, por vezes aos 12 ou 13 anos. Em Portugal, e muitos outros países, essa prática é ilegal, mas habitualmente as autoridades “fecham os olhos” e não intervêm. Essa atitude tolerante é apoiada por muitas pessoas, nomeadamente por sociólogos e outros cientistas sociais, mas é criticada por outras – que consideram que o casamento de raparigas tão novas é intolerável, ou seja, demasiado errado para ser permitido.

Leituras:

Gensler, Harry, “Ética e Relativismo Cultural”, Crítica: revista de Filosofia. Disponível em: http://criticanarede.com/fil_relatcultural.html

Fiala, Andrew, “Toleration”, Internet Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: http://www.iep.utm.edu/tolerati/

Forst, Rainer, “Toleration”, Stanford Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: http://plato.stanford.edu/entries/toleration/

Murcho, Desidério, “Ética e direitos humanos”, Crítica: revista de Filosofia. Disponível em: http://criticanarede.com/html/valoresrelativos.html

Murcho, Desidério, “Tolerância e ofensa”, Crítica: revista de Filosofia. Disponível em: http://criticanarede.com/html/ed_118.html

Rachels, James, Elementos Básicos de Filosofia, Lisboa, Gradiva, 2004.

Walzer, Michael, Da Tolerância, São Paulo, Martins Fontes Editora, 1999.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Olhar o teste intermédio de Filosofia 2013

 Henri Cartier-Bresson escada observatório

         Fotografia de Henri Cartier-Bresson.

Na minha opinião (e de muitos dos meus alunos), o teste intermédio de ontem constituiu uma melhoria em relação àquele que foi aplicado no ano passado. A formulação das questões, em geral, era mais clara. Estas remetiam para temas centrais do programa e avaliavam competências filosóficas contidas nas orientação do GAVE, ao contrário do que aconteceu no ano passado (ver AQUI).

Apesar do balanço global ser positivo, há aspetos que deveriam merecer a atenção dos professores do secundário. Eis alguns exemplos:

- No grupo I, questão 7, os critérios de correção apresentam como corretos (dos quatro) dois enunciados: “Apenas as crenças verdadeiras podem ser justificadas” e “Uma crença verdadeira, pode, sob certas condições, constituir conhecimento”. Ora, acontece que, como observaram muito bem alguns dos meus melhores alunos, a primeira das frases não é correta. De acordo com o manual adotado na escola - “A arte de pensar” (pág. 121) – e as explicações por mim fornecidas nas aulas, o enunciado “Apenas as crenças verdadeiras podem ser justificadas” é incorreto, uma vez que as crenças falsas também podem ser justificadas. Veja-se o exemplo, dado no manual, de que Ptolomeu tinha justificação (boas razões, considerando o estado cognitivo em que se encontrava) para defender o geocentrismo. Assim, as crenças falsas podem ser justificadas, embora não constituam conhecimento, de acordo com a definição tradicional ou platónica. Portanto, coloca-se a questão de saber como deverão proceder, na aplicação dos critérios a esta questão de escolha múltipla, os professores corretores. Neste tipo de questões, as indicações são que se deve assinalar apenas uma opção correta. Qual deve ser, então, o procedimento a adotar?

- No grupo I, nas questões 1 e 7  (da versão 2) existiam duas gralhas numa das alíneas, repetindo-se um dos número (na questão 1, alínea B, o 4. repete-se e o 1. é omitido) - embora não fossem as alternativas corretas - era um erro formal dispensável e que poderia gerar alguma confusão nos alunos. Ainda que errar seja humano, estas situações não deveriam ocorrer neste tipo de testes. O erro foi reconhecido pelo GAVE. Contudo, não foram dadas informações explicitas do procedimento a adotar pelos corretores que, tal como na situação anterior, deveria ser idêntico a nível nacional.

Muitos alunos consideraram o teste demasiado extenso, tendo em conta a duração de 90 minutos. Referiram também o facto da última questão (onde o aluno deveria discutir o tema em causa) ser acompanhada de um texto, numa linguagem não muito acessível, que eles já não tiveram tempo para interpretar em condições. Além disso, os critérios de correção desta questão atribuíam poucos pontos à apresentação de uma posição crítica e fundamentada do tema.

Ainda assim, julgo que os critérios de correção são globalmente corretos. Por exemplo: têm em consideração as diferentes abordagens e a terminologia filosófica utilizada pelos vários manuais. Naturalmente que as ideias indicadas nos cenários de resposta podem ser expressas por palavras diferentes. É bom não esquecer.

Um pormenor: nos critérios de correção - e também nas orientações do GAVE – referia-se “o antecedente” em vez de “a antecedente”. Como é que se escreve, afinal? – perguntava, com razão, uma das minhas alunas.

Há muito mais a dizer, mas eu não tenho tempo. Considero importante, para a melhoria da qualidade do ensino, que mais professores de Filosofia discutam publicamente este e outros assuntos de natureza pedagógica e científica.

Continuo a pensar que a avaliação externa bem feita (testes intermédios e exame nacional obrigatório) credibiliza o trabalho dos professores e dos alunos, é a única forma de melhorar o ensino e a aprendizagem da Filosofia. Para alcançar este fim, alguém têm outras sugestões?