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sexta-feira, 3 de abril de 2020

Humanos como nós


"Um líder de uma tribo protegida da Amazónia foi encontrado morto, o que constitui a quinta morte violenta nos últimos seis meses numa região assolada por conflitos entre madeireiros ilegais e as tribos da zona."

Leia a notícia inteira no jornal Público

Esta notícia triste fez-me lembrar um caso mais antigo, mas que na cabeça de algumas pessoas parece não estar ainda resolvido:

«Quando Espanha estava a colonizar o Novo Mundo no tempo de Filipe II (1527-1598) surgiu uma discordância amarga entre os conquistadores sedentos de lucro e os frades pios que, às ordens do rei, acompanhavam sempre as suas explorações. O objeto da discordância era o estatuto dos nativos locais, os povos indígenas das Américas. Eram eles - como os frades sustentavam - seres humanos com almas para salvar e vidas para serem integradas na comunidade da Igreja? Ou eram eles - como os conquistadores preferiam pensar - como alguns dos maiores hominídeos de África, mamíferos sofisticados disponíveis para trabalhar nas minas de ouro e prata, análogos aos camelos e bois que serviam de bestas de carga? Eram realmente seres humanos ou eram simplesmente de encarar como uma espécie de símios algo mais desenvolvidos?
Quando os frades que resistiam à exploração dos povos indígenas insistiram em defender a sua posição, Filipe II reenviou a questão para alguns dos melhores especialistas disponíveis daquele tempo - os melhores dos melhores entre os teólogos e estudiosos de Espanha. Reuniram-se em 1550-1551 para resolver a questão num debate escolástico na Universidade de Valladolid (...).
O frade dominicano Bartolomeu de las Casas (...) defendeu a posição dos frades com tal eloquência e cogência que os sábios reunidos, para seu crédito eterno, puseram-se do lado da humanidade. (Não que isto tenha feito assim tanta diferença para os homens sem escrúpulos que exerciam cargos de chefia nas Américas.)»

Nicholas Rescher, Uma viagem pela filosofia em 101 episódios, Gradiva, Lisboa, 2018, pp. 129-130.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Dois olhares sobre a presença dos portugueses no Japão

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Biombos Namban no Museu Nacional de Arte Antiga.

”A chegada dos portugueses ao Japão, em 1543, originou um intercâmbio comercial e cultural que ficou assinalado nestes dois pares de biombos: a curiosidade e o ambiente festivo pela chegada do barco negro dos namban jin (os bárbaros do sul, como eram designados os portugueses) ao porto de Nagasáqui.
A minúcia com que são representados os vários intervenientes, a descrição da nau e da sua valiosa carga e a presença dos missionários jesuítas determinante neste contexto, tornam estas peças num documento histórico e visual ímpar sobre as relações entre Portugal e o Japão.”
Informação retirada do site do museu. Para saber mais, ver o artigo do Observador: AQUI.
No filme “Silêncio” podemos observar exemplos que ilustram as diferenças culturais existentes entre os portugueses e os japoneses no século XVII. A história centra-se no confronto entre diferentes pontos de vista religiosos: a tradição budista e a religião cristã, que os missionários jesuítas levaram até estas longinquas paragens.
Como é possível viver a fé cristã num ambiente hostil e sanguinário? O que é a fé em Deus? Renunciar a Deus, publicamente, para salvar a vida de pessoas inocentes será pecado? Um crente deve ou não deve fazê-lo? E se o fizer isso coloca em causa a autenticidade da sua fé ou não?
Por último, a ausência de fé será justificável diante do martírio de inocentes e o silêncio de Deus perante um mal moral tão atroz? E se a morte dos martíres for em vão e não existir nada?
Vale a pena ver o filme.




quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A opinião dos alunos: as tradições serão todas respeitáveis?



No DIA MUNDIAL DA FILOSOFIA, lançámos aos alunos da escola e aos leitores deste blogue um desafio, ver AQUI:

A Filosofia está em todo o lado…dizem os alunos. Muitos explicaram como é que podemos responder aos problemas filosóficos propostos. Obrigada a todos!

Eis algumas das melhores opiniões: 


Devemos respeitar todas as tradições de sociedades com uma cultura diferente da nossa?

São notórias todas as diferenças que predominam entre os seres humanos. Desde traços físicos a psicológicos, há uma inúmera panóplia de nuances. Como tal gostos, ideais e culturas também divergem.

Cultura, definida por Edward B. Tylor, "é todo aquele complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade". Pelo mundo fora é certo que existe um imensurável número de culturas distintas. Como é óbvio, o respeito entre estas é o que vincula o equilíbrio no mundo. É, talvez, o fio condutor para a harmonia do homem com a natureza e dos homens entre si.
Mas como é possível aceitar tradições culturais em que se torturam e sacrificam outros seres?
Na cultura chinesa, por exemplo, é um costume cozinhar cães e gatos vivos, visto que desta forma a carne fica mais tenra e saborosa devido há intensa libertação da adrenalina provocada pelo stress dos animais. Na realidade, não é necessário chegar até ao outro extremo do planeta para encontrar atrocidades.
As touradas são um ínfimo paradigma destas brutalidades. Neste costume, muito praticado no nosso país, algo como perseguir um touro e espetar-lhe ferros e bandarilhas no dorso é uma pratica que cativa imensos portugueses pela diversão de ver o sofrimento do animal.
Porém não são só os animais sofredores de desumanos costumes. Basta um pequeno olhar atento pelo globo, para comprovar o desprezo a casais homossexuais, a albinos, ou até mesmo a mulheres.
Apesar de haver em determinados países leis que permitem a homossexuais casarem e constituirem família, não lhes é concedido liberdade de terem uma vida normal e digna, longe dos constantes assédios e perseguições de pessoas que não aceitam o amor para além de casais de sexos opostos.
Também é curioso, o facto de uma mutação genética, independente da vontade e opção de uma pessoa não ser aceite em algumas tribos africanas. Albinos que nascem em tribos são mutilados e sacrificados, por serem considerados em alguns casos uma maldição ou até mesmo uma dádiva que curará milagres.
Uma realidade que também se pretende encobrir é a inferioridade da mulher. Desde os primórdios, que a mulher teve que conquistar os seus direitos e não ser vista como um adorno e/ou pertence do homem. Infelizmente, em culturas como a islâmica esta vivência ainda é muito presente. Meninas são forçadas a casar com homens por vezes com uma idade muito superior à sua, são igualmente mutiladas genitalmente como um ritual.
Apesar de ser necessário haver harmonia e respeito no mundo. É óbvio, temos de ter um ponto de vista crítico, pois há muitos exemplos que demonstram não ser possível respeitar na íntegra as diferentes culturas, porque ao aceitá-las, sem reservas, estar-se-ia a permitir o atropelo dos direitos dos animais e dos seres humanos e, inclusivamente, apelar à morte de inocentes.

Inês Silva, nº 16, 11º 1

Outras opiniões dos alunos sobre problemas filosóficos:
Como deve ser uma sociedade justa?
Qual é o sentido da vida?

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Quem deve falar em nome de uma cultura?

                                               Raif Badawi Malala Yousafzay

Algumas pessoas pensam que nunca se deve criticar os valores e os costumes dos outros povos, pois os valores e os costumes são relativos: cada sociedade tem um certo conjunto de valores e costumes e os de uma sociedade não são melhores nem piores do que os de outra sociedade, são apenas diferentes. O critério do certo e do errado reside nas tradições populares e na aceitação social de que gozam. Como disse a antropóloga Ruth Benedict, “a moralidade varia em todas as sociedades, e é apenas um termo cómodo para os hábitos que uma sociedade aprova”1. Essa maneira de pensar costuma ser designada relativismo cultural, ou apenas relativismo.

É frequente encontrar pessoas a defendê-la (talvez por pensarem – erradamente – que ser relativista é a única maneira de não ser intolerante), mas muitas sem consciência das suas implicações. Se o relativismo cultural fosse verdadeiro, censurar costumes como o casamento de crianças ou a excisão seria uma atitude arrogante e intolerante; invocar os direitos humanos para justificar essas críticas não seria também legítimo, pois para essa doutrina os direitos humanos não exprimem valores universais, mas apenas ocidentais.

Felizmente, o relativismo cultural presta-se a várias objeções mais plausíveis que ele. Eis uma dessas objecções. Se uma certa sociedade não é homogénea e as pessoas têm estatutos, interesses e opiniões diferentes, quem deve falar em nome da sua cultura?2 Por exemplo: quem deve falar em nome dos ciganos – apenas os mais velhos, que impedem as raparigas adolescentes de irem à escola e impõem o seu casamento precoce, ou também essas raparigas? E numa sociedade esclavagista, como era a Roma imperial ou os Estados do Sul nos EUA antes da Guerra Civil, quem deve falar em nome da sua cultura – os donos dos escravos ou também os escravos?

Parece assim que o relativismo não exclui apenas as críticas dos estrangeiros mas também as críticas dos membros da sociedade em causa. A aceitação do relativismo leva, portanto, à suspensão do pensamento crítico e ao conformismo social.

Um relativista coerente não poderá, por exemplo, apoiar o cidadão saudita Raif Badawi (condenado a 10 anos de prisão e a mil chicotadas, 50 a cada sexta-feira durante 20 semanas, por supostamente “insultar o Islão” com os seus escritos num blogue) nem a jovem paquistanesa Malala Yousafzay (um dos vencedores do Nobel da Paz 2014), baleada na cabeça pelos talibãs como retaliação pela sua campanha em defesa do direito à educação das raparigas. Com efeito, as ideias e acções de Raif Badawi e de Malala Yousafzay são desviantes relativamente às tradições largamente maioritárias dos seus povos.

Como é implausível não poder defender Raif Badawi e Malala Yousafzay, resta rejeitar o relativismo cultural. Raif Badawi e Malala Yousafzay também podem falar em nome da sua cultura, mesmo que seja para rejeitar alguns dos seus costumes e valores. Mas se eles podem pensar criticamente acerca desses costumes e valores porque não poderão fazer o mesmo as pessoas de outras sociedades? 3

1 Citada por: James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, tradução de F. J. Azevedo Gonçalves, Lisboa, 2004, Colecção Filosofia Aberta, Edições Gradiva, pág.33.

2 James Rachels, Problemas da Filosofia, tradução de Pedro Galvão, Lisboa, 2009, Colecção Filosofia Aberta, Edições Gradiva, pp. 240-241.

3 Vários links para saber mais acerca do assunto: aqui.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Flor do deserto: guião de análise do filme


Título original do filme: Desert Flower
De: Sherry Horman
Com: Liya Kebede, Sally Hawkins, Anthony Mackie, Timothy Spall
Género: Drama
GB, 2009, Cores,
O filme, Flor do deserto, é baseado na história da modelo somali Waris Dirie.  Ela nasceu numa família nómada da Somália  e  foi submetida a uma prática vulgar no seu país e em vários outros, chamada mutilação genital feminina ou excisão. Mais tarde, quando se tornou conhecida internacionalmente, escreveu um livro e tornou-se uma activista contra essa tradição cultural.
Após o visionamento do filme, responda às seguintes questões:

1. Dê três exemplos que ilustrem as diferenças existentes entre a cultura inglesa e a da Somália.
2. Enuncie dois juízos morais, cujo valor de verdade seja diferente para uma pessoa que aceite o código moral dominante na sociedade inglesa e uma que aceite o código moral na sociedade somali.
3. Com base em que valores da cultura somali se justifica a prática da excisão?
4. De acordo com os valores morais dominantes nos países europeus, como é avaliada, do ponto de vista moral, a prática da excisão?
5. Na sua opinião, haverá ações que possam ser moralmente boas ou más, independentemente do contexto cultural? Porquê?
6. Indique duas passagens do filme que justifiquem a seguinte afirmação: a defesa das ideias do relativismo moral e cultural conduz ao conformismo.
7. Ao condenar a prática da excisão no seu país, a modelo somali admite que os valores morais dependem apenas da cultura? Porquê?
8. A defesa dos direitos humanos e do relativismo serão compatíveis? Justifique.
9. Explique o significado do título atribuído ao filme: "Flor do deserto".
10. Gostou do filme? Explique porquê.
A professora: Sara Raposo

domingo, 25 de maio de 2014

Os juízos de valor morais podem ou não ser objetivos?

Imagem do Filme O apedrejamento de Soraya M

Imagem do Filme O apedrejamento de Soraya M.

Num teste realizado em Fevereiro perguntei aos alunos qual é a teoria mais plausível relativamente ao problema da objetividade dos juízos morais. Duas das melhores respostas foram dadas pelo Leonard Sá, que defendeu o Objetivismo Moral, e pelo Xavier Diaz, que defendeu o Subjetivismo Moral. Ei-las.

O problema da objetividade dos juízos morais pode formular-se assim: há juízos de valor morais objetivos ou todos os juízos de valor morais são ou subjetivos ou culturalmente relativos?

Nas aulas estudámos três teorias: o Subjetivismo Moral (SM), o Relativismo Cultural (RC) e o Objetivismo Moral (OM).

O SM defende que todos os juízos de valor são subjetivos, pois são reflexos dos gostos e preferências de cada pessoa. Como isso depende do individuo, não há, segundo esta teoria, pessoas que estejam erradas (a menos que não sejam sinceras), e nenhuma pessoa tem mais razão que as outras.

O RC afirma que todos os juízos de valor são culturalmente relativos, pois são relativos às sociedades e não existe nenhuma sociedade mais correta ou errada que outra. Alguém só pode estar errado se os juízos de valor em que acredita forem diferentes daqueles que são aceites pela sociedade a que pertence.

Por último, o OM diz que alguns, não todos, juízos de valor são objetivos. Ou seja, se um juízo de valor verdadeiro for x e alguém afirmar y, então, independentemente da sua sociedade e/ou gostos, está errada, e só está correta, se e só se afirmar x.

Das três teorias a que me parece mais plausível é o OM.

Não acho que o SM esteja correto devido a várias razões:

Os Subjetivistas afirmam que não existem meios objetivos de resolver conflitos de valores, ou seja, quando alguém diz que um juízo de valor está correto e outro individuo diz que esse mesmo juízo de valor está errado, não parece haver uma maneira objetiva de dizer quem tem razão, ao contrário do conflito de juízos de facto em que basta estudar cuidadosamente os factos. Logo, o SM está correto.

Uma objeção a este argumento, é que existem maneiras objetivas de resolver os conflitos de valores (isto não quer dizer que se pode resolver objetivamente todos os conflitos, só alguns). Imaginemos a seguinte situação: iria ser votada uma lei que beneficiava os homens e prejudicava as mulheres. Se cada pessoa pensasse apenas nos seus interesses, os homens iriam votar a favor e as mulheres iriam votar contra, por as prejudicar. Partindo do princípio que existia o mesmo número de homens e mulheres, chegar-se-ia a um impasse. Os Subjetivistas pensam que é inevitável que isto aconteça: não há maneira objetiva de resolver este conflito. Mas, se os votantes atuassem sob um véu de ignorância, ou seja, se não soubessem se a seguir à votação seriam homens ou mulheres, para não arriscarem a serem prejudicados (ou seja, não iriam pensar nos seus gostos e preferências), iriam todos votar contra. Parece então que existem maneiras objetivas de resolver conflitos de valores. Logo este argumento baseia-se numa premissa falsa.

Outro argumento que os Subjetivistas invocam é que os juízos de valor são subjetivos porque existem discordâncias em relação a estes.

Ora, isto é claramente uma mentira pois há juízos de valor consensuais. Além disso, vejamos os juízos de facto. Embora também exista discordâncias em relação a estes tipos de juízo, sabe-se que um está certo e outro errado, embora, às vezes, não se saiba qual é que está correto. Então porque é que não pode acontecer o mesmo com os juízos de valor? Mesmo com discordâncias, pode haver um que esteja certo e outro errado, independentemente dos gostos de cada pessoa.

Como tal, penso que o SM está errado.

Passemos ao RC. Não concordo com esta teoria por vários motivos:

Os Relativistas afirmam que se não aceitarmos os costumes da outra sociedade, não estamos a aceitar o relativismo dos valores, e como tal, estaremos a ser etnocêntricos (ou seja, achar que a nossa sociedade é melhor que as outras) e intolerantes. Como não devemos ser intolerantes, dizem os Relativistas, devemos aceitar o relativismo dos valores e consequentemente aceitar o RC.

Mas será que devemos aceitar todos os costumes e práticas, simplesmente por serem de outra sociedade? E será que caso não o façamos, estaremos a ser intolerantes? Eu penso que não é certo aceitar práticas que tragam dor e sofrimento a outras pessoas, pois apesar de pertencerem a outras sociedades, continuam a ser humanos. Existem sociedades que têm práticas intolerantes. Será que devemos aceitar essas práticas? Os Relativistas dizem que sim, ou então seremos intolerantes. Mas, então estaremos a tolerar a intolerância, o que é contraditório e vai contra o que o RC afirma. Finalmente, não acho que o facto de questionarmos um costume signifique que estamos a afirmar que a nossa sociedade é superior às outras e que estamos a ser intolerantes. A crítica e discussão de costumes e práticas, se feita de forma civilizada, pode levar à compreensão, e a compreensão pode levar à tolerância. Ou seja, aquilo a que os Relativistas chamam de intolerância (e que não o é, na verdade), pode levar, afinal de contas, à tolerância.

Outra objeção ao RC está relacionada com o facto de as sociedades não serem homogéneas. Se dentro de uma sociedade existem práticas, costumes, crenças, etc. diferentes, como podemos afirmar que segundo esta sociedade isto ou aquilo está certo/errado, quando só parte dela (mesmo que seja a maioria) é que a defende? Além disso, se uma pessoa for criada em contacto com duas ou mais sociedades, como é que vai saber segundo qual é que deve viver e qual é a melhor sociedade? Só poderá saber se existirem juízos de valor objetivos.

Sobra-me então o OM, que eu penso que é o mais plausível.

Vejamos a seguinte pergunta: Será que a crença que os juízos de valor são subjetivos/relativos é subjetiva/relativa? Se a resposta for sim, então ambas teorias podem estar corretas para uns e erradas para outros, dependendo dos gostos (no caso do SM) ou da sociedade (no caso do RC), e isso não faz sentido, pois uma teoria ou está certa para todos ou para ninguém. Se a resposta for não, então esse juízo de valor é objetivo.

Anteriormente, referi que os Relativistas afirmam que não devemos ser intolerantes. Se o juízo de valor “devemos ser tolerantes” fosse relativo apenas às sociedades, seria aceitável que outras sociedades fossem intolerantes. É óbvio que isto é mentira, e é assim, porque este juízo de valor é objetivo, todos devemos ser tolerantes, independentemente da sociedade a que pertencemos (mas isto não quer dizer que caso questionemos um costume sejamos intolerantes ou que devemos aceitar tudo, como já referi previamente).

Parece então que existem juízos de valor objetivos e que o OM está correto.

Leonard Sá, 10º B.

Das três teses relativas à objetividade ou subjetividade dos juízos de valor morais, eu defendo a do Subjetivismo Moral pois penso que os juízos de valor morais variam de acordo com o individuo.

O Objetivismo Moral dita que estes juízos de valor são objetivos, mas, se assim for, como é que podemos diferenciar um determinado juízo de valor que é certo de outro que é errado? O que se discute na Ética são ideias e essas mesmas ideias vão variar de pessoa para pessoa e não vai haver um fundamento teórico-científico quando se diz, por exemplo, “Matar é certo” para sabermos se, de facto, este juízo de valor está correto ou errado, contrariamente ao que sucede quando se afirma “A água é composta por H2O”. Com efeito, o facto de ser certo ou errado matar vai depender nas nossas próprias emoções e convicções e não de um facto ou de uma fórmula matemática qualquer, ou seja, não vai haver um “critério” que nos diga com certeza absoluta que determinado juízo de valor seja certo.

Outro argumento possível seria: Como se resolvem os conflitos de valor se estes são objetivos? Porque se fossem verdadeiramente objetivos não deveria haver tanta contrariedade ao solucioná-los. É verdade que certos conflitos podem ser resolvidos fazendo um simples exercício mental nas condições em estejamos num véu de ignorância e em que sejamos imparciais; no entanto, estes exercícios mentais geralmente resultam apenas em conflitos de valor razoavelmente simples e na maior parte dos casos as situações não são assim tão fáceis e lineares. Um bom exemplo disso é o problema do aborto: será este moralmente correto? Mesmo fazendo um exercício mental que nos faça estar sob um véu de ignorância e ser imparciais, como diz o Objetivismo Moral, ainda assim há discordâncias ao resolver este problema. Portanto, se os juízos de valor são mesmo objetivos, porque não sabemos que escolha estará certa neste caso?

Outro problema com o Objetivismo Moral é que este alega que os juízos de valores são objetivos na medida em que são imparciais. Daí os exercícios mentais como forma para resolver os conflitos de valores, visto que estes requerem que sejamos imparciais. Mas quão imparcial pode uma pessoa ser? Porque todas as pessoas são influenciadas por determinados fatores nos quais não possuem qualquer controlo, tal como por exemplo: fatores genéticos, psicológicos, sociais, entre muitos outros. E estes fatores influenciam como um individuo age, pensa e interage, tanto conscientemente como inconscientemente, e isso vai tornar esse mesmo individuo parcial. Ora, isso acontece com todos nós, ou seja, ninguém é verdadeiramente imparcial, ou pelo menos cem por cento imparcial. Um exemplo real poderiam ser os juízes que trabalham num tribunal, em vários casos diferentes mas do mesmo género (exemplo: abusos infantis): certos juízes dão uma sentença mais severa do que outros pois estes são afetados inconscientemente pelo caso, o que os vai levar a deliberar uma sentença mais severa ou mais benevolente. Se as pessoas que supostamente devem ser cem por cento imparciais para que haja justiça são incapazes de tal, então muito menos será um cidadão regular. Logo, se as pessoas não são capazes de serem totalmente imparciais, então como podem os seus juízos de valor serem objetivos?

Devido aos argumentos apresentados penso que o Objetivismo Moral é uma tese defeituosa e considero o Subjetivismo Moral a tese mais correta e mais apropriada à realidade.

Xavier Diaz, 10º B.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Criatividade, amanhã nas Pinheiríadas

Nas Pinheiríadas de amanhã, a prova de criatividade terá um tema obrigatório: "Algarve - identidade regional". Os alunos poderão recorrer à música, dança, expressão plástica, teatro entre outros.

Sobre o tema, escolhido para este ano, os alunos dos curso profissionais do TGPSI 2 e do TAS 2, depois de recolherem informações nas visitas de estudo que realizaram aos museus etnográfico e municipal de Faro, realizaram trabalhos. Seguem-se dois deles, há outros que podem ser lidos  AQUI e AQUI.

Trabalho dos alunos André Guerreiro e Nina Chicu, TGPSI, 2º ano, disciplina de Área de integração. by Dúvida Metódica

 

Trabalho de AI dos alunos Carina Vieira, Flávio André e João Moreira..pdf by Dúvida Metódica

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Matriz do 3º teste de Filosofia: turmas B e C do 10º ano

relativismo cultural

Objetivos:

1. Discutir o problema do livre-arbítrio e justificar a opinião própria sobre o assunto.

2. Explicar o que é a Ética.

3. Distinguir Metaética, Ética Normativa e Ética Aplicada.

4. Explicar o que são valores.

5. Distinguir juízos de facto e juízos de valor.

6. Perceber o problema da objetividade dos juízos de valor morais.

7. Explicar a tese defendida pelo Subjetivismo moral.

8. Explicar os argumentos a favor do Subjetivismo moral.

9. Explicar as objeções ao Subjetivismo moral.

10. Explicar os conceitos de cultura, diversidade cultural e etnocentrismo.

11. Explicar a tese defendida pelo Relativismo cultural.

12. Explicar os argumentos a favor do Relativismo cultural.

13. Explicar as objeções ao Relativismo cultural.

14. Explicar a tese defendida pelo Objetivismo moral.

15. Explicar os argumentos a favor do Objetivismo moral.

16. Explicar as objeções ao Objetivismo moral.

17. Comparar e discutir as três teorias.

18. Justificar a opinião própria sobre o problema da objetividade dos juízos de valor morais.

19. Construir argumentos válidos a partir de ideias apresentadas.

20. Conhecer exemplos ilustrativos das ideias referidas.

Duração: 90 minutos.

Leituras:

Páginas indicadas do manual 50 Lições de Filosofia e do Caderno do Estudante.

Problema do livre-arbítrio: Matriz do 3º mini teste: turmas B e C do 10º ano 

Subjetivismo moral:

Onde está o mal?
Subjetivismo moral: a moralidade é algo muito pessoal

Relativismo cultural:

O que é a cultura?

A diversidade do vestuário

Capacidade de adaptação

O que vamos almoçar: larvas ou sardinhas?

Nós…
O bem e o mal dizem apenas respeito à sociedade e à cultura?
Enterrar viva uma pessoa é errado ou isso é relativo?
Uma tradição admissível, segundo os relativistas culturais
A tolerância não implica o relativismo
A ideia de que todas as ideias são preconceituosas não será também preconceituosa?
Qual é, afinal, a tradição?

Se há progresso moral, o relativismo é falso

Algumas regras morais são universais

Objetivismo moral:

A divergência de opiniões é incompatível com a objetividade?
Tem razão quem se apoiar nas melhores razões
Objectivismo Moral
relativismo cultural no tribunal

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Se há progresso moral, o relativismo é falso

Se o relativismo cultural fosse verdadeiro, não faria sentido falar de progresso moral.

Por exemplo: o facto de as mulheres há décadas atrás não poderem votar e hoje já poderem (em muitos países) é habitualmente visto como um mudança positiva, como um progresso. Ver essa mudança como um progresso parece ser algo muito plausível e sensato. Mas isso implica uma comparação entre os padrões culturais atuais e os padrões culturais de épocas anteriores (que eram aceites pela grande maioria das pessoas) e a afirmação de que, pelo menos nesse aspeto, as sociedades atuais são melhores que as sociedades do passado. Ora, segundo o relativismo cultural, esses juízos transculturais não são – supostamente - possíveis (pois quando tentamos fazê-los limitamo-nos a exprimir a nossa própria cultura) 1.

Há vários outros exemplos semelhantes: a escravatura, os direitos das crianças, etc.

Como esses exemplos mostram, temos boas razões para falar da existência de progresso moral. Por isso, o relativismo cultural muito provavelmente não é verdadeiro.

cartoon crítico ds sufragists

Harry Grant Dart, "Why Not Go the Limit?", na revista Puck, em 1908.

O cartoon é uma paródia do movimento sufragista, ou seja, das pessoas que defendiam o direito das mulheres votarem2. O desenho é bom, mas incorre claramente na falácia da derrapagem (também conhecida por bola de neve ou declive escorregadio).

1 James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, tradução de F. J. Azevedo Gonçalves, Lisboa, 2004, Colecção Filosofia Aberta, Edições Gradiva, pp.41-42.

2 The Appendix.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O ponto de vista do senso comum sobre a ética é relativista ou objetivista?

«Quando julgamos algo como um bem ou um mal não pensamos que estamos apenas a dar livre expressão às nossas emoções — se fosse essa a nossa vontade, bastava apenas dizer se gostamos disso ou não. Nem nos vemos simplesmente a aplicar os padrões da nossa sociedade — apesar de tudo, sabemos que os padrões da nossa sociedade podem estar errados. Em vez disso, queremos afirmar algo que seja objetivamente verdadeiro, independente dos nossos sentimentos ou dos padrões da nossa sociedade. (...) Pensamos, por exemplo, que a escravatura é uma injustiça e que quem pensa o contrário tem de estar enganado. Mas não é fácil defender este ponto de vista do senso comum.»

James Rachels, “A questão da objetividade em ética”, Crítica - http://criticanarede.com/fil_objectietica.html

James Rachels considera que esta concepção objetivista da ética é “a nossa compreensão comum da ética”, o “ponto de vista do senso comum” que se opõe ao subjetivismo e ao relativismo cultural  (ele tenta defender filosoficamente o objetivismo).

Contudo, pelo que tenho observado ao longo de anos nas aulas, os alunos – antes de estudarem filosofia e alguns até depois – defendem espontaneamente o subjetivismo e o relativismo cultural e resistem ao objetivismo. Aliás, não são só os alunos que parecem pensar assim: o “isso é subjetivo” e o “aquilo é relativo” estão muitas vezes na ponta da língua de muito boa gente. Afinal, o ponto de vista do senso comum sobre a ética é relativista ou objetivista? Como é óbvio, qualquer um desses pontos de vista  pode ser – e tem sido – defendido filosoficamente. Mas qual será o mais próximo do senso comum?

escravatura

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Algumas regras morais são universais

Há «valores que têm de ser mais ou menos universais. Imagine-se o que seria uma sociedade que não valorizasse a verdade. Quando uma pessoa falasse com outra, não poderia partir-se do princípio de que estaria a dizer a verdade, pois poderia facilmente estar a mentir. Nessa sociedade não haveria qualquer motivo para dar atenção ao que os outros dizem. (Pergunto que horas são e alguém responde “quatro horas”. Mas não posso presumir que a pessoa está a dizer a verdade; poderia facilmente ter dito a primeira coisa que lhe tivesse passado pela cabeça. Não tenho, pois, qualquer razão para dar atenção à sua resposta. De facto, não faz qualquer sentido ter-lhe sequer perguntado.) A comunicação seria então extremamente difícil, senão mesmo impossível. E uma vez que as sociedades complexas não podem existir sem comunicação entre os seus membros, a vida em sociedade tornar-se-ia impossível. Daqui se conclui que em qualquer sociedade complexa tem de haver uma presunção em favor da boa-fé. Pode haver exceções a esta regra: pode haver situações nas quais se considere permissível mentir. No entanto, estas serão exceções a uma regra que está em vigor na sociedade. (…)

Há aqui uma conclusão teórica geral, a saber, há algumas regras morais que todas sociedades têm em comum, pois essas regras são necessárias para a sociedade poder existir. As regras contra a mentira e o homicídio são dois exemplos disso, pois, de facto, encontramos estas regras instituídas em todas as culturas viáveis. As culturas podem diferir relativamente ao que encaram como exceções legítimas às regras, mas esta discordância existe contra um acordo de fundo nas questões fundamentais. Logo, é um erro sobrestimar as diferenças entre culturas. Nem todas as regras morais podem variar de sociedade para sociedade.»

James Rachels, Elementos de Filosofia Moral, Gradiva, Lisboa, 2004, pp. 46-47.

Elementos de Filosofia Moral de James Rachels

sábado, 13 de julho de 2013

Malala: “Um aluno, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo”

O jornal Público publicou o vídeo do discurso que a jovem paquistanesa Malala - vítima de um ataque talibã por defender o direito das raparigas a frequentarem a escola - fez na sede da ONU. O secretário-geral referiu que mais de 57 milhões de crianças em todo o mundo não têm acesso à escola primária, a maioria são raparigas.

«Hoje não é o dia de Malala, é o dia de todas as mulheres, de todos os rapazes e de todas as raparigas que levantaram a voz para defender os seus direitos”, disse ela perante centenas de estudantes de muitas origens numa Assembleia de Jovens e no mesmo dia em que celebrou o 16.º aniversário.

“Não estou aqui para falar de vingança pessoal contra os taliban, (...) estou aqui para defender o direito à educação para todas as crianças”, disse.

“Um aluno, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo. A educação é a única solução. Educação primeiro.”

Reclamando a herança de Gandhi, Nelson Mandela e de Martin Luther King, afirmou ainda que os “extremistas fazem um mau uso do islão (...) para seu benefício pessoal, ao passo que o islão é uma religião de paz e de fraternidade”.

Malala falou ainda da importância de se combater o analfabetismo, pobreza e o terrorismo, acrescentando que “os nossos livros e os nossos lápis são as nossas [das crianças] melhores armas”, apelando ainda aos “dirigentes mundiais para mudarem de estratégia política, para promoverem a paz e a prosperidade.»

Ouçam e vejam o vídeo porque vale mesmo, mesmo a pena: AQUI

Moralidade sem religião?

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Neste pequeno vídeo (podem ser ativadas as legendas em português), o professor holandês,  Frans de Waal da universidade de Emory, constata que em vários países vivemos em sociedades onde a maioria das pessoas não é crente. A religião deixou de ter um papel dominante, mas não é por isso que as pessoas deixaram de agir moralmente.

Vale a pena ouvir e reflectir nas questões filosóficas, que se podem colocar a propósito da relação entre a moralidade e a religião.

Uma entrevista com o autor do vídeo, um especialista no estudo dos primatas, pode ser lida AQUI.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Como persuadir as mulheres a não trabalharem

Abdullah Mohammad Al Dawood, um escritor, popular, na Arábia Saudita.

São populares, e politicamente correctas, ideias como o respeito pelas tradições dos diferentes povos. Contudo, não é frequente os defensores do relativismo cultural analisarem e divulgarem, além das práticas inócuas, aquelas que constituem grosseiras violações de direitos humanos fundamentais, neste caso - e para não variar - das mulheres. 

É defensável que uma forma de persuadir uma mulher a não trabalhar, em locais públicos, seja molestá-la sexualmente?

Não. Mas na Arábia Saudita é.

Segundo a revista Visão:

"O escritor do Médio Oriente provocou um intenso debate entre os seus 97 mil seguidores da rede social Twitter ao pedir a todos que molestassem sexualmente as mulheres contratadas para trabalhar como caixas em supermercados.

Abdullah Mohammad al-Dawood criou uma hashtag que incentivava o abuso das funcionárias com o objetivo de pressioná-las a ficar em casa. Esta atitude provocou o descontentamento de vários utilizadores da rede social.

Outras opiniões vieram à tona, considerando Abdullah um defensor dos costumes (...).

O saudita justificou a sua campanha ao dizer que se inspirou na história do guerreiro al-Zubair. Segundo al-Dawood, o guerreiro não queria que a mulher saísse de casa para rezar na mesquita. Numa noite, escondeu-se e atacou a mulher na rua, onde a molestou. Depois disto, a mulher decidiu nunca mais sair de casa.

Abdullah escreve livros de auto-ajuda (...)."

Pode continuar a ler AQUI.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A tolerância não implica o relativismo

muçulmanos e católicos

Na sequência do post O que é a tolerância?, vou agora defender que sermos tolerantes não nos obriga a ser relativistas.

O relativismo cultural

Segundo o relativismo cultural, o bem e o mal são relativos a cada cultura: o bem é aquilo que é socialmente aprovado e o mal é aquilo que é socialmente reprovado[i]. Assim, se uma ação for aprovada pela maioria das pessoas da sociedade X, essa ação é moralmente correta – para as pessoas da sociedade X. Se essa mesma ação for reprovada pela maioria das pessoas da sociedade Y, essa ação é moralmente incorreta – para as pessoas da sociedade Y. Essa ação não é correta ou correta em si mesma, a sua correção ou incorreção depende da perspetiva cultural dos agentes. Na moralidade não existe o “em si mesmo”.

A verdade ou falsidade dos juízos morais não é, portanto, objetiva, mas sim culturalmente relativa. Uma afirmação como “O casamento de crianças é moralmente errado” não é simplesmente verdadeira ou falsa: é verdadeira nas sociedades que aprovam essa prática e é falsa nas sociedades que a desaprovam.

De acordo com o relativismo cultural, não há diferença entre as pessoas de uma certa sociedade acreditarem que algo é certo ou errado e isso ser realmente certo ou errado, pois é essa crença coletiva que estabelece o que é moralmente certo e o que é moralmente errado.

Os costumes de uma sociedade não são melhores nem piores do que os de outra sociedade, são apenas diferentes. E isso não sucede apenas a alguns costumes, mas sim a todos. Considerar que uns são melhores que outros implicaria um critério neutro de avaliação, um critério transcultural válido para as várias culturas, mas esse critério – segundo o relativismo cultural - não existe [ii].

Por isso, segundo o relativismo cultural criticar os costumes de outra sociedade é uma atitude arrogante e intolerante. E etnocêntrica. Etnocentrismo é o nome que nas ciências sociais se dá à valorização excessiva da própria cultura e ao desprezo pelas outras culturas. Assim, quem hoje critica a lapidação ou a excisão faz algo que é equivalente ao comportamento dos europeus que, há séculos atrás, chamavam “selvagens” aos africanos e aos índios, reprimiam os seus costumes e impunham-lhes os costumes europeus.

Fazer essas críticas em nome dos direitos humanos não permite, segundo o relativismo cultural, escapar ao etnocentrismo, pois os direitos humanos não exprimem valores universais, mas sim ocidentais. Por exemplo, a igualdade de direitos entre homens e mulheres não é uma ideia que faça, ou possa vir a fazer, sentido em qualquer sociedade. Motivada por essas ideias relativistas, a Associação Antropológica Americana criticou a Declaração Universal dos Direitos do Homem, ainda antes da sua aprovação pela ONU em 1948, acusando-a de conter um etnocentrismo “subtil” [iii].

O sociólogo americano William Graham Sumner resumiu as ideias do relativismo cultural de modo muito claro e revelador:

A maneira “certa” é a maneira que os antepassados utilizavam e nos foi transmitida. A tradição é a sua própria garantia. (…) A noção do que está certo está nos hábitos do povo. Não reside além deles, não provém de origem independente, para os pôr à prova. O que estiver nos hábitos populares, seja o que for, está certo. (…) Quando abordamos os hábitos populares a nossa análise chega ao fim. [iv]

A tolerância não implica o relativismo

As ideias relativistas são defendidas nalguns meios académicos, nomeadamente na área das ciências sociais, mas também fora dos meios académicos, por vezes por pessoas que não sabem bem o que é o relativismo, mas que acreditam que todas as opiniões – nomeadamente no campo da moral - valem o mesmo. Para essas pessoas tolerar parece consistir em não achar nada falso ou errado. Identificam a tolerância com o “respeito” por todas as opiniões e abdicam de avaliar se são verdadeiras ou falsas. Consideram que avaliar as opiniões dos outros e exprimir as próprias opiniões com convicção revela arrogância e intolerância. A ideia de que não se deve criticar os costumes alheios, pois isso seria uma falta de respeito, parece-lhes uma enorme evidência.

Contudo, ser tolerante não implica ser relativista. Por várias razões, das quais vou apresentar três.

1. A tolerância não nos impede de ter convicções e de, eventualmente, achar erradas as convicções das outras pessoas, apenas nos impede de impor pela força física ou psicológica as nossas convicções. Por isso, a tolerância não nos impede de comparar os costumes das diferentes sociedades nem de considerar que, eventualmente, alguns são melhores que outros. Ou seja: a tolerância não nos impede de pensar.

Convém acrescentar que o resultado da comparação não é necessariamente favorável aos nossos próprios costumes: pode perfeitamente suceder que alguém descubra que um certo costume da sua sociedade é pior, por exemplo em termos morais, que um costume estrangeiro alternativo.

A tolerância não só não nos impede de considerar que as pessoas cujos costumes toleramos estão erradas, como, pelo contrário, pressupõe isso – pois consiste precisamente em aceitar que os outros digam e façam coisas que achamos erradas. Sendo assim, o relativismo esvazia de sentido a tolerância, pois diz que no fundo ninguém está errado e que, do seu próprio ponto de vista, todos têm razão, não sendo nenhum ponto de vista melhor que outro. Ora, a tolerância consiste em aceitar a existência de algo que consideramos errado e não em deixar de pensar que isso é errado. Se o relativismo fosse verdadeiro não haveria propriamente nada para tolerar [v].

Quero sublinhar um aspeto. Dizer que na moralidade nem tudo é relativo não é sinal de arrogância intelectual. Defender essa ideia não consiste em dizer “nós estamos certos e eles estão errados”, mas sim que é possível alguém estar objetivamente certo e alguém estar objetivamente errado – nós ou eles. Ou seja: não se trata de defender que nós é que temos a verdade no bolso e que nós é que sabemos tudo, mas sim de recusar a ideia de que nenhum dos lados pode estar errado.

2. A tolerância pressupõe que discordamos das pessoas cujas ideias ou ações toleramos, mas será intolerante dar expressão pública a esse desacordo? Quando toleremos um certo costume deveremos abster-nos de o criticar publicamente? A tolerância será incompatível com a crítica? Vimos que a tolerância nos deixa pensar – mas deixar-nos-á falar? Por exemplo: se um português disser a um saudita que a poligamia é errada pois implica uma desigualdade de direitos entre homens e mulheres, estará a ser intolerante? Penso que não. Contrariamente ao que defende o relativismo cultural, a tolerância não é incompatível com a crítica.

Se a tolerância fosse incompatível com a crítica seria também incompatível com a liberdade de expressão, o que é muito pouco plausível, para não dizer absurdo, pois isso significaria que concedíamos liberdade e direitos aos outros à custa da nossa própria liberdade e direitos.

Quando toleramos abstemo-nos de impor e reprimir, abdicamos de interferir negativamente. Mas criticar uma certa ideia e defender uma ideia alternativa não pode ser visto como repressão nem como imposição, a menos que se recorra à violência física ou psicológica. Caso não seja acompanhada de agressões, ameaças ou chantagens, a argumentação não pode ser vista como uma forma de força. A argumentação racional é, pelo contrário, um diálogo: discordamos de uma pessoa e damos-lhe simultaneamente a possibilidade de discordar de nós, tentamos convencê-la e permitimos que ela nos tente convencer a nós. Criticar, no contexto da argumentação racional, não é ofensivo nem desrespeitoso e não deve fazer parte das coisas que uma pessoa se abstém de fazer por ser tolerante. A crítica não conta como interferência. Criticar não é, portanto, um ato intolerante. Assim, se um português disser a um saudita que discorda da poligamia e tente civilizadamente convencê-lo a mudar de opinião não estará a agir contra a tolerância.

A ideia, muito comum, de que a tolerância consiste em “respeitar as opiniões das pessoas” presta-se a equívocos. O que deve ser respeitado não são as opiniões em si mesmas (ou seja, o seu conteúdo cognitivo), mas sim a sua existência e livre expressão. Respeitar o conteúdo das opiniões que consideramos falsas seria impedirmo-nos de pensar, ou pelo menos de dizer, que essas opiniões são falsas – o que seria uma forma de autocensura e impediria o livre exercício do pensamento. Criticar uma opinião que consideramos falsa não nos impede de a tolerar nem constitui um desrespeito para com os seus defensores, com quem nos disponibilizamos para debater. Desidério Murcho exprimiu essa ideia deste modo: “tolerar é tolerar humanamente, não é tolerar epistemicamente” [vi]. Neste contexto, vale também a pena recordar a célebre afirmação atribuída a Voltaire: “Discordo do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo”.

3. O relativismo cultural não distingue entre costumes com relevância moral e costumes sem relevância moral, uma vez que o que importa é a aprovação social. Desde que esta exista, a excisão tem tanta legitimidade como as regras relativas ao horário das refeições ou aos talheres usados durante as mesmas. Como disse William Sumner, “O que estiver nos hábitos populares, seja o que for, está certo”. Sublinho o “seja o que for”. Se concordarmos com o relativismo cultural ficamos intelectualmente paralisados e impedidos de pensar sobre os costumes sociais, pois estes são vistos como dogmas, como algo que não pode ser analisado nem questionado. E, mais uma vez, as palavras de William Sumner são reveladoras: “Quando abordamos os hábitos populares a nossa análise chega ao fim.

Essa maneira de pensar não permite perceber bem a tolerância. Como mostrei no post O que é a tolerância?, esta supõe diversas distinções. É preciso distinguir entre aquilo que consideramos moralmente correto e o que consideramos moralmente incorreto mas tolerável. Depois é preciso distinguir entre o tolerável e o intolerável. Por exemplo: A obrigação, existente nalgumas sociedades e grupos islâmicos, das mulheres taparem rosto com um véu é correta, incorreta mas tolerável ou intoleravelmente errada? E, para continuar com exemplos atuais, tem sentido fazer as mesmas perguntas acerca de práticas como a excisão e a lapidação.

A atitude acrítica promovida pelo relativismo cultural não permite analisar e discutir esses casos, pois para essa teoria tudo o que há a dizer é que são práticas aprovadas nalgumas comunidades pelo que, para elas, são corretas. O relativismo cultural, ao considerar a mera aprovação social como critério do bem moral, faz essas distinções desaparecerem e impede-nos portanto de distinguir entre casos que, independentemente do modo como os julgarmos moralmente, se apresentam à partida como muito diferentes e com um impacto muito diferente na vida das pessoas. As consequências de usar um véu que tapa apenas os cabelos e o pescoço são diferentes das consequências de usar um véu integral que só deixa à vista os olhos e são ainda mais diferentes das consequências da excisão, que por sua vez são menos drásticas que as consequências da lapidação. No entanto, para o relativismo cultural todos esses costumes estão em pé de igualdade em termos de legitimidade nas comunidades em que a maioria das pessoas os aprova. Identificar a tolerância com essa aceitação indiscriminada e acrítica das diferenças culturais impede-nos de perceber as próprias diferenças culturais e impede qualquer debate sobre elas. O que, no mínimo, não é nada tolerante.

Por isso, a tolerância não só não implica o relativismo cultural, como, pelo contrário, parece ser incompatível com ele.

Notas:

[i] Gensler, Harry, “Ética e Relativismo Cultural”, Crítica: revista de Filosofia. Disponível em: http://criticanarede.com/fil_relatcultural.html

[ii] Rachels, James, Elementos Básicos de Filosofia, Lisboa, Gradiva, 2004, pág. 35 e ss.

[iii] Pojman, Louis, Terrorismo, Direitos Humanos e a Apologia do Governo Mundial, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2007, pág. 148.

[iv] Rachels, James, Ibid., pág. 36.

[v] Murcho, Desidério, “Ética e direitos humanos”, Crítica: revista de Filosofia. Disponível em: http://criticanarede.com/html/valoresrelativos.html.

[vi] Murcho, Desidério, “Tolerância e ofensa”, Crítica: revista de Filosofia. Disponível em: http://criticanarede.com/html/ed_118.html

Uma viagem no tempo através da figuração humana

A propósito da visita de estudo realizada ao Museu Gulbenkian, no dia 26 de fevereiro, os alunos realizaram trabalhos. Eis alguns deles:

      

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Egipto, princípio da época ptolomaica (305-200 a.C.). Mais informações no site do museu,  AQUI.

“Quem não sabe prestar contas de três milénios permanece nas trevas ignorante, e vive o dia que passa.”

                                                                                                                                                                         Goethe

Depois de ter visitado a exposição “Diferentes retratos, diferentes culturas”, no Museu Gulbenkian, lembrei-me da citação acima referida, que tinha lido no livro “O Mundo da Sofia”. Sempre que entro num museu apercebo-me da possibilidade que estes dão (pelo menos alguns e o da Gulbenkian é um deles) às pessoas de recuar no tempo e conhecer sociedades diferentes. Na verdade, como refere Goethe, sem o conhecimento do passado não podemos compreender corretamente factos históricos e acontecimentos do presente. O museu Gulbenkian permite, a quem quiser saber mais, fazer esta viagem no tempo.

Nesta visita tivemos a oportunidade de “contactar”, por exemplo, com obras de arte do antigo Egipto, ficámos a conhecer um pouco melhor a  sociedade, a escrita, a economia e  a religião.

Descobrimos também várias curiosidades sobre o islão, desde o tipo de decoração das mesquitas até à forma de higiene antes das orações.

Através da observação e interpretação de algumas pinturas em vasos e num biombo, conseguimos recolher informação acerca da sociedade chinesa, nomeadamente a hierarquia social vigente na época. É curioso como um olhar, mais atento e esclarecido (pela guia da visita), para um simples vaso, nos pode fornecer tanta informação…

Tivemos também acesso a quadros valiosos e realmente magníficos. Ao observá-los, podemos constar  como acontecimentos idênticos (do dia a dia e da religião, por exemplo) são vivenciados e representados de forma diferente, consoante a época histórica, a sociedade e a cultura de cada povo. Por outro lado, o olhar do artista não pode deixar de ser condicionado pela época em que viveu: pelos conhecimentos do seu tempo (científicos) e pelas ideias e valores, vários quadros observados mostraram-nos isso mesmo.

Concluindo, em 60 minutos, posso afirmar que fizemos uma viagem no tempo. Descobrimos como foi entendida a ideia de retrato em épocas diferentes, desde um período histórico em que a representação da figura humana não estava associada à ideia de individualidade (como no antigo Egipto e na Grécia antiga) até à atualidade.

Vale a pena fazer esta viagem no Museu Gulbenkian!

Maria Bumbuk, 12º E

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um quadro de Rembrandt Harmensz van Rijn (1606-1669). Mais informações sobre o quadro no site do museu, AQUI.

No prestigiado Museu Gulbenkian, fizemos uma visita guiada à exposição que mostrava a coleção privada de Calouste Gulbenkian. O museu encontra-se dividido em várias áreas e salas que ilustram diversos períodos históricos e correntes artísticas. Vimos obras de arte de diferentes países: do antigo Egipto, da Grécia antiga, da China e dos países baixos, entre outros. Observamos pinturas, por exemplo, do período medieval, renascentista e romântico. Em cada sala, a guia escolheu uma obra de arte e explicou como era entendida, nessa época histórica, a figuração humana. Fez-nos perguntas relacionadas com a época histórica dos quadros e esculturas, os valores estéticos, religiosos, que nós podemos descobrir analisando cada uma das diferente obras de arte.

A guia explicou-nos, detalhadamente, o que distinguia algumas correntes artísticas, esta foi uma das partes mais interessantes da visita. Referiu que nos templos religiosos dos muçulmanos era representado um arco propositadamente imperfeito e não se representava a figura humana por motivos religiosos: a perfeição era considerada uma característica apenas atribuível ao divino. Ficamos também a saber que um dos aspetos que permite diferenciar a pintura clássica da pintura romântica, é que esta última foca-se no ser humano e nos seus sentimentos.

Marco Fidalgo, Patrícia Pacheco, Joana Viegas, Rafael Fonseca e Fábio Gonçalves, 11º D

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Lágrimas iguais

«Quando um chinês ou um africano choram, essa lágrima é sempre a mesma, não é antropológica ou sociológica, não tem lá dentro um certo tipo de cultura, religião ou costume, não tem nada, excepto a humanidade que todos partilhamos.»

Antonio Tabucchi

menina chorando

(Citação encontra aqui.)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013