
“As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar, senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento.” John Stuart Mill
quarta-feira, 11 de janeiro de 2017
Para que a história não se repita

quinta-feira, 28 de abril de 2016
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
“Aprender e intervir”: blogue de Psicologia, Sociologia, Área de Integração e Filosofia
A professora Sara Raposo (coautora do Dúvida Metódica) disponibiliza no blogue “Aprender e intervir” alguns dos recursos didáticos que utiliza nas aulas de Psicologia, Sociologia e Área de Integração, além das atividades e trabalhos realizados pelos alunos (das turmas PMEC/PEAC 3, PAL/PIE 3, PMEC/PEAC 1, PREC 2 e PIDC/PSEC 1). Pretende-se deste modo, além da partilha com professores e alunos (e outros eventuais interessados), contribuir para a formação cultural dos alunos, fomentar a capacidade argumentativa e a atitude crítica.
No blogue foram criadas páginas para cada uma das disciplinas, onde se podem encontrar links dos posts publicados (tal como nas etiquetas da barra lateral). Eis alguns exemplos de recursos e atividades (clicar nos links para aceder):
Deve haver limites à liberdade de expressão por motivos religiosos?
Houve ou não violação da liberdade de expressão?
Peddy paper no Museu Etnográfico de Faro
O filme "A casa encantada" e a psicanálise
O racismo é imoral
Área de integração 3: Fichas de trabalho nº 1 e 2
PORDATA: para crianças e adultos
terça-feira, 23 de setembro de 2014
sábado, 30 de março de 2013
Se no mundo existissem apenas 100 pessoas…
33 seriam cristãs.
22 seriam muçulmanas.
14 seriam hindus.
7 seriam budistas.
12 teriam outras religiões.
12 não seriam religiosas.
Fonte: 100 PEOPLE: A WORLD PORTRAIT.
(Descobri este sítio aqui.)
terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Maria Filomena Mónica sobre Boaventura Sousa Santos
A socióloga Maria Filomena Mónica escreveu um artigo de opinião, publicado no jornal Público de 07/12/2012, intitulado: "O evangelizador de Coimbra".
O interesse, parece-me, prende-se com o facto de em Portugal abundarem "intelectuais" como este que ela critica. Destacam-se por exibirem, entre outras "qualidades", um discurso palavroso que ninguém percebe porque é vazio de ideias. Mas muita gente em Portugal faz de conta que percebe, desculpando-se com a forma, quando na realidade se trata do vazio de ideias, ideias erradas ou deturpadas (e que não são neutras ideologicamente, apesar de serem apresentadas como se fossem). As citações que ela faz falam por si e frontalidade com que expõe casos concretos também.
Vale mesmo, mesmo a pena ler!
«Para evitar polémicas inúteis, começo por uma declaração. Os meus adversários naturais, os poderosos, não suscitam em mim a fúria que dedico a certas franjas da esquerda. Tendo sido educada numa faculdade dominada pela ideologia salazarista e conhecido, no estrangeiro, uma instituição onde a discussão era livre, não suporto a ideia de poder vir a ser obrigada a aturar novas ortodoxias. Nas Humanidades, o risco de se confundir política e ciência é elevado.
Relembro o que anda esquecido. O fim da Universidade não consiste em formar meninos não racistas, não sexistas e não imperialistas, mas em transmitir o saber da forma mais objectiva possível. Jamais poderemos libertar-nos de todos os preconceitos, mas devemos tentar. Há uns anos, visitei a catedral de Christ"s Church em Oxford, onde se encontra um memorial em honra de J. Locke. Eis o que lá está escrito: "Sei que a verdade, por oposição à falsidade, existe e que, se as pessoas quiserem e se pensarem que a busca vale o esforço, pode ser encontrada." É por partilhar esta visão que julgo que, nas salas de aula, os docentes não podem difundir ideais políticos. A instituição académica não é um cantinho de Hyde Park onde cada um monta a sua banca. Claro que, cá fora, podemos falar de política: mas não devemos fazê-lo diante de alunos. Estes não são hereges a converter, mas jovens a quem devemos inculcar a paixão pelo saber.
Tudo isto vem a propósito de uma entrevista que Boaventura Sousa Santos, o evangelizador de Coimbra, deu à Análise Social, nº204. Dirigida por João Pina-Cabral, esta publicação pertence ao meu instituto, o ICS. Fundada por Adérito Sedas Nunes em 1963, tem um passado notável. Mesmo depois do 25 de Abril, quando as suas páginas correram o risco de ser inundadas por escrita panfletária, manteve-se fora da política.
O facto de que hoje me ocupo - a conversa conduzida por Helena Mateus Jerónimo e José Neves, directores adjuntos da revista - é revelador de mudanças profundas na instituição. Tudo começa com a primeira a recordar, em tom reverencial, a autodefinição de Sousa Santos como "um optimista trágico que procura ser um rebelde competente". Depois desta reminiscência nietzscheana, seguem-se uma análise primária sobre os malefícios das "sociedades capitalistas" e a resposta aos que o têm acusado de confundir o papel de sociólogo e o de político. Segundo ele, quem tal escreveu alimentaria no espírito "uma crença serôdia no positivismo", opção que serviria para esconderem a sua "viragem nas convicções políticas, da esquerda para a direita". Tais pessoas, argumenta, revelariam ainda "uma grande ignorância dos debates epistemológicos contemporâneos, sobretudo das epistemologias feministas e pós coloniais". Ser-me-á isto dirigido? Serei eu anti-femininista e pró-imperialista? Ou, pior ainda, de direita? Deixemos este desvio narcísico, para nos concentrarmos no que ele defende, as "epistemologias do sul". De início, imaginei que se estava a referir ao Sul geográfico, que acompanha o sal e o sol, mas não: o seu "sul" é uma entidade etérea localizada algures no firmamento da contracultura.
Passo por cima do seu desprezo pela tradição ocidental e da sua proposta para a criação - imagino que com sede no Equador - de uma Universidade Popular dos Movimentos Sociais, onde a discussão intelectual estaria canalizada para "a eficácia política das lutas sociais". O mais chocante surge quando menciona os actuais governantes portugueses, aos quais nada me liga. Para Sousa Santos, dentro do conceito de povo não cabem pessoas como Vítor Gaspar ou António Borges: "À luz deste conceito, não são parte do "povo" pessoas que têm passaporte português mas nada os vincula a Portugal senão aquilo que lhes é ditado pelos seus patrões internacionais." Será que, nas minhas costas, o Estado criou um SEF ideológico em Coimbra?
À medida que me aproximava do fim, o meu espanto crescia: "O Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, tem passaporte português, mas não tem mais do que isso." A razão é clara: "Realmente, ele está ao serviço do capital financeiro alemão em cujos bancos se educou." E vai por aí fora: "E o mesmo se pode dizer de António Borges, que se tiver oportunidade e poder causará graves danos ao país. Entre ele, Mário Draghi, Mário Monti ou Lucas Papademos não há grandes diferenças. Têm passaportes diferentes, mas a sua lealdade última, o seu verdadeiro país, é a companhia majestático-colonial Goldman Sachs a que todos pertenceram ou pertencem." O objectivo do Governo de Passos Coelho consistiria, por conseguinte, em aproveitar a crise para conseguir que Portugal volte ao 24 de Abril. Os dislates não ficam por aqui: na sua opinião, a rua é a nova esfera pública, os cientistas sociais devem escrever "com" e não "sobre" os oprimidos e é urgente elaborar-se "uma teoria geral sobre a impossibilidade de uma teoria geral". Alguém entende esta última frase?
Desde há alguns anos que uma parte significativa do poder académico tem vindo a ser ocupada por antigos revolucionários. Os novos mandarins não são melhores do que os antigos. A sua obsessão é igualmente com o recrutamento de colaboradores obedientes, com a arregimentação ideológica dos pupilos e, novidade decorrente da globalização, com o uso de redes internacionais de financiamento. É por saber isto que li, sem espanto, as benesses que Sousa Santos foi acumulando, a última das quais um subsídio de 2,42 milhões de euros atribuído pelo European Research Council, para um projecto intitulado "ALICE - Espelhos estranhos, lições imprevistas: definindo para a Europa um novo modo de partilhar as experiências do mundo", a ser executado no seu Centro de Estudos Sociais, onde trabalham 223 investigadores, subsidiados pelo Estado. O novo estudo centrar-se-á em quatro áreas, entre as quais "a democratização da democracia".
Sousa Santos não entende que a liberdade académica não é compatível com a transformação das aulas em comícios. Imagino que tenha lido Max Weber, mas o seu cérebro não integrou o que o nosso famoso antepassado disse sobre a diferença entre a vocação do político e do cientista. Vale ainda a pena reparar como estes advogados da sociedade sem classes estão atentos a questões ligadas ao seu status social. Quem não acredite veja a pose de Sousa Santos na fotografia publicada na revista. Finalmente, a sua defesa de que se deve pensar "com" e não "sobre" as massas populares é meramente retórica, uma vez que não faz a mínima tenção de viver entre os pobres - o seu trabalho de campo sobre as favelas do Rio de Janeiro apenas durou três meses -, aproveitando-se antes da "causa" para a obtenção de confortos materiais. Termino com uma citação de Voltaire, alguém que sabia do que falava: "Aqueles que conseguem fazer com que acrediteis em teses absurdas conseguirão mais tarde que façais atrocidades." Convém estar atento ao que se passa nos meios académicos.»
Maria Filomena Mónica
segunda-feira, 4 de julho de 2011
A morte e a vida, segundo Maria Filomena Mónica
“Tendo em conta o custo das tecnologias médicas, podem surgir situações causadas pela escassez de recursos médicos. Se apenas houver um ventilador disponível e se um doente de 90 anos e um de 20 entrarem ao mesmo tempo nas Urgências, o que deve fazer um médico? Neste caso, o gesto de não ligação da máquina a um deles não significa intenção de matar. Como classificar então a sua acção?
A vida dos médicos está a torna-se insuportável, uma vez que tão depressa se vêem diante de famílias pretendendo, a todo o custo, manter o parente vivo, como diante de outras que, pelo contrário, o querem deixar morrer de forma tranquila. Deve o médico aceder, no caso de o doente estar inconsciente, aos desejos expressos pelas famílias?”
Li num ápice o pequeno livro A Morte da socióloga e historiadora Maria Filomena Mónica e recomendo-o. Independentemente da formação e dos interesses de cada um, é uma leitura estimulante por vários motivos. Destaco a frontalidade e a clareza com que o tema – complexo e polémico – é abordado. É feita uma análise lúcida – despojada de sentimentalismos – da finitude humana. O ponto de partida é a descrição das vivências pessoais da autora, mas estas são apenas o pretexto para uma reflexão onde se articulam dados históricos, sociológicos, literários e filosóficos.
Como foi encarada a morte ao longo de diferentes épocas históricas? Quais são as circunstâncias concretas da nossa época que nos devem fazer repensar o direito de morrer? Que argumentos religiosos se podem evocar contra a eutanásia? Como argumentar filosoficamente a favor ou contra esta prática?
A autora assume, do ponto de vista moral, uma posição favorável a esta prática: «Vejamos como reagiríamos ao hipotético “dilema do polícia”. Imagine um condutor de camiões encurralado, depois de um acidente, no seu veículo, em chamas. O polícia, os bombeiros e os serviços de ambulância já chegaram ao local, mas perceberam que não poderão de lá tirar o homem. A sua agonia é evidente. A certa altura, o condutor do camião pede ao polícia – armado – que o mate. Que deverá este fazer? Eu puxaria o gatilho.»
A historiadora considera que a legislação acerca da eutanásia deve ser precedida de um amplo debate na sociedade portuguesa, já ocorrido em países como a Holanda ou a Espanha, por exemplo. Discutir os valores subjacentes aos argumentos religiosos e as principais ideias filosóficas a favor e contra a eutanásia é, na sua perspectiva, a única forma de conseguir clarificar alguns dos complexos problemas morais envolvidos. Só depois de preenchida esta condição será possível legislar de forma adequada. Este livro pretende ser também um contributo para essa discussão.
O discurso da autora tem a virtude de conjugar a aparente simplicidade com que as ideias são apresentadas com a capacidade de interpelar o leitor e levá-lo a encarar a ideia angustiante - e para algumas pessoas tenebrosa - da morte. Com uma vantagem: pensar e conhecer as reflexões de outros permite-nos, provavelmente, repensar o modo como vivemos. Caso esse balanço seja negativo, podemos sempre corrigir o tiro e direccioná-lo para alvos que justifiquem o nosso dispêndio de energia e de tempo. Em suma, aprender a viver melhor.
Encarar, sem contemplações, a velhice e a decadência física e mental que esta acarreta pode conduzir-nos a tomar algumas decisões quanto à nossa própria vida: uma delas é se devemos ter ou não a possibilidade de escolher pôr-lhe fim.
O direito de o fazer, ou não, é discutível. Por isso mesmo devemos discuti-lo. Até porque convém, antes do Estado legislar, cada um de nós tentar ter ideias claras sobre este problema. Como é inevitável, mais tarde ou mais cedo, ele surgirá – directa ou indirectamente – no nosso caminho.
Nota: As citações foram retiradas das págs. 37 e 42.
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Cinema em tempo de lazer (1)
É verdade que alguns filmes franceses têm pretensões “intelectuais” ridículas e, tal como os textos de muitos filósofos franceses, nem sempre primam pela clareza das ideias que pretendem transmitir ao espectador.
O excelente filme “O SEGREDO DE UM CUSCUZ“, do realizador ABDELLATIF KECHICHE, permite contrariar este preconceito. Se quiserem perceber melhor o sentido das minhas palavras, vejam o filme. Vale mesmo a pena!
Para mais informações sobre o filme, ver aqui.
Já agora: as etiquetas que coloquei neste post referem-se a alguns dos problemas abordados no filme.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Pordata: Base de Dados online
A “Pordata, Base de Dados de Portugal Contemporâneo” é um site em que o leitor poderá encontrar uma imensa base de dados online na área das Ciências Sociais. Eis alguns dos principais temas: População, Educação, Saúde, Justiça, Protecção Social, Emprego, Empresas, Cultura, etc.
A Pordata foi organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, cujo Presidente do Conselho de Administração é o sociólogo António Barreto.
Clique aqui para aceder.
terça-feira, 16 de fevereiro de 2010
Aprender implica ensinar
“Para que se aprenda é necessário, obviamente, ensinar” afirma Helena Damião no post “A óbvia necessidade de ensinar e de aprender”, no blogue De Rerum Natura. Como é sabido, algumas pessoas defendem que as crianças entregues a si próprias e pesquisando livremente conseguem aprender o que é importante aprender.
O post inclui um texto interessante do filósofo e pedagogo norte-americano John Dewey (1859-1952), que justifica essa necessidade com um argumento sociológico: quando nascemos não sabemos aquilo que é necessário saber para fazermos parte da sociedade e termos uma vida produtiva e satisfatória.
domingo, 4 de outubro de 2009
Equívocos acerca do senso comum
A caracterização do senso comum como sendo um conhecimento prático é frequente. Consta de muitos livros de Filosofia (e de Sociologia). Contudo, essa caracterização não é rigorosa.
Um conhecimento prático é um saber-fazer, consiste no conhecimento de uma actividade. É verdade que o senso comum inclui inúmeros conhecimentos práticos, tais como saber cozinhar ou saber andar de bicicleta. No entanto, inclui também conhecimentos proposicionais, conhecimentos por contacto, superstições e outras crenças, que não são saberes práticos.
O conhecimento proposicional é, tal como o nome indica, o conhecimento de proposições. Também é conhecido por “saber que”. Por exemplo: saber que a lixívia debota a roupa, saber que (em Portugal) a pena máxima é 25 anos de prisão, saber que a cor do luto (em Portugal) é o preto, etc. O senso comum inclui inúmeros conhecimentos desse género, que não têm manifestamente um carácter prático.
O conhecimento por contacto é o conhecimento que temos de coisas, lugares, pessoas, etc. É um conhecimento directo e presencial. Por exemplo: conhecer as divisões de uma casa, conhecer pessoalmente um indivíduo, etc. O senso comum inclui inúmeros conhecimentos desse género, que não têm manifestamente um carácter prático.
Uma superstição é uma crença falsa e sem justificação plausível. Por exemplo: acreditar que as doenças são provocadas por espíritos malignos, acreditar que ver gatos pretos traz infelicidade, etc. O senso comum de muitas pessoas (mas talvez não de todas) inclui superstições. Tais crenças supersticiosas não têm obviamente carácter prático.
Por outro lado, o senso comum inclui também crenças que seria errado considerar superstições (convicções morais, políticas, sociais, etc., tais como: acreditar que se deve pagar as dívidas, acreditar que não se deve matar pessoas inocentes, etc.). Todavia, tais crenças também não são saberes práticos.
Por isso, o conhecimento prático é apenas uma parte do senso comum.
É igualmente frequente chamar-se conhecimento vulgar ao senso comum. Todavia, essa denominação não é rigorosa.
Os conhecimentos práticos, proposicionais e por contacto que fazem parte do senso comum podem ser designados de vulgares, uma vez que a sua aquisição não implica aprendizagens formais e elaboradas. Contudo, as superstições que fazem parte do senso comum não constituem conhecimentos vulgares. Não por não serem “vulgares” e implicarem aprendizagens formais e elaboradas, mas porque, sendo crenças falsas e injustificadas, não são sequer conhecimentos.
É duvidoso que muitas crenças do senso comum que não são supersticiosas constituam, ainda assim, conhecimentos, pois, embora não sejam falsas, a sua justificação adequada não se faz no âmbito do senso comum – mas sim da Filosofia e de ciências como a Psicologia ou a Economia.
A teoria filosófica que define o conhecimento como sendo uma crença verdadeira justificada presta-se a algumas objecções, pois provavelmente essas três condições não são suficientes para haver conhecimento e é necessário acrescentar uma ou mais condições para haver conhecimento. No entanto, não parece haver dúvidas que são condições necessárias. Pelo que as crenças do senso comum que são falsas ou injustificadas não são conhecimentos.
(Se as crenças do senso comum que são falsas ou injustificadas não fossem falsas nem injustificadas e pudessem ser consideradas conhecimentos, não seriam conhecimentos práticos, mas sim conhecimentos proposicionais.)
Por isso, apenas uma parte do senso comum constitui conhecimento.
Na imagem: A Leiteira (1658-60), de Johannes Vermeer.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Problemas filosóficos e problemas não filosóficos
Um certo fenómeno pode ser estudado simultaneamente por diferentes disciplinas. A religião, por exemplo, interessa nomeadamente à Sociologia, à Psicologia, à História e à Filosofia. Todavia, isso não significa que estudem a mesma coisa. Os problemas de que se ocupa a Filosofia da Religião são muito diferentes dos problemas de que se ocupam os estudos sociológicos (ver o post Estudo da religião: a parte da Sociologia e a parte da Filosofia), históricos e psicológicos da religião. Contrariamente à Filosofia, nenhuma dessas disciplinas procura determinar se, por exemplo, a afirmação “Deus existe” é verdadeira ou falsa.
Outro exemplo possível é a pena de morte.
«Vamos considerar como as diferentes Ciências Sociais podem abordar o tema polémico da pena de morte. Os historiadores estariam interessados no desenvolvimento [nos EUA] da pena capital do período colonial até ao presente. Os economistas poderiam fazer uma pesquisa para comparar os custos das pessoas encarceradas durante toda a vida com as despesas dos recursos que ocorrem nos casos de pena de morte. Os psicólogos observariam os casos individuais e avaliariam o impacto da pena de morte na família da vítima e na do preso executado. Os cientistas políticos estudariam as diferentes posições assumidas pelos políticos eleitos e as implicações dessas posições nas suas campanhas para a reeleição.
E qual seria a abordagem dos sociólogos? Eles poderiam verificar [entre outros aspectos] como a raça e a etnia afectam o resultado dos casos de pena de morte. De acordo com um estudo publicado em 2003, 80% dos casos de pena de morte nos Estados Unidos envolvem vítimas de cor branca, apesar de apenas 50% de todas as vítimas de assassinato serem brancas. Parece que a raça da vítima influencia a decisão sobre se o réu será condenado à pena capital (...). Assim, o sistema de justiça criminal parece tender a impor penas mais pesadas quando as vítimas são brancas do que quando elas pertencem a uma das minorias.”
Richard T. Schaefer, Sociologia, 6ª edição, McGraw-Hill, São Paulo, 2006, pp. 6-7.
Por seu turno, os filósofos discutem se a pena de morte é justa ou injusta, ou seja, se é certa ou errada em termos morais.
Mas porque é que problemas como “será que Deus existe?” ou “a pena de morte é justa ou injusta” são filosóficos e, por exemplo, a relação entre a raça das vítimas e a aplicação da pena de morte não é um problema filosófico?
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Estudo da religião: a parte da Sociologia e a parte da Filosofia
O 1º e o 2º parágrafos do texto apresentam alguns dos aspectos que, no estudo da religião, interessam à Sociologia. O 3º parágrafo refere alguns dos aspectos que, nesse estudo, interessam à Filosofia.
«Em 2002, o Pew Center, uma empresa de opinião pública (…), perguntou a pessoas de 44 países em que medida a religião era importante para elas. Nos EUA 59 % disseram que a religião desempenhava um papel “muito importante” na sua vida. Esta percentagem é invulgarmente alta. Em Inglaterra, apenas 33 por cento disseram que a religião era importante. Noutros países, as percentagens foram as seguintes: 27% em Itália, 21 % na Alemanha, 12% no Japão e 11 % na França. No entanto, as percentagens relativamente à Bolívia, à Venezuela e ao México foram semelhantes à dos EUA, o que levou os analistas a concluir, de forma pouco generosa, que as atitudes norte-americanas “estão mais próximas das atitudes das pessoas das nações em vias de desenvolvimento do que das pessoas das nações desenvolvidas”.
Entretanto, na sondagem Gallup International Millenium Survey, perguntou-se a pessoas de 60 países se acreditavam em Deus. Apenas 45 % disseram acreditar num Deus “pessoal”, ao passo que outros 30 % disseram acreditar “numa espécie de espírito ou força vital”. A sondagem Gallup mostrou não só que a crença religiosa é mais forte nos mais velhos e nos que têm menos educação, mas também que o índice de crença é mais elevado na África Ocidental, onde predomina o Islão. Aí, 99 % acreditam num Deus pessoal. Nos EUA, 86 % têm essa crença, enquanto os europeus, conclui a sondagem, “são os mais agnósticos”. (…)
No entanto, não queremos apenas saber no que acreditam as pessoas – queremos saber se as crenças religiosas são verdadeiras. (…) Existirá alguma boa razão para acreditar que o mundo foi criado por uma divindade todo-poderosa? (…) Será possível apresentar boas razões que apoiem a crença em Deus?»
James Rachels, Problemas da Filosofia, tradução de Pedro Galvão, Gradiva, Lisboa, 2009, pp.27-29.
Se clicar no nome do livro e na imagem, poderá ler informações úteis sobre o mesmo.
domingo, 16 de agosto de 2009
Apologia dos exames e da exigência
Recentemente foram publicados no blogue De Rerum Natura três textos imprescindíveis acerca da importância dos exames e da exigência no ensino:
Sobre os exames, de Miguel Galrinho.
Exames e igualdade, de Helena Damião (com extensa citação de D. Schwanitz, que analisa a situação na Alemanha).
O difícil exame para corrermos o risco do futuro, do sociólogo italiano Francesco Alberoni.
Um dos aspectos presentes nesses três textos é a refutação da ideia absurda (mas muito cara ao “eduquês”) de que os exames promovem a desigualdade social.
Eis algumas linhas do texto de Alberoni, para abrir o apetite:
“A vida, na sua essência, na sua estrutura, é projecto e risco. Há sempre um momento em que ficamos suspensos à espera (...). Não compreendo os pedagogos que pretendem acabar com os exames nas escolas. O exame é parte integrante da educação. Não compreendo os pais que pretendem evitar esse stress aos filhos. Viver significa prever, calcular, dominar o stress.”
quinta-feira, 23 de julho de 2009
A verdadeira vocação da escola
«As escolas secundárias, e o ensino em geral, burocratizaram-se. Esse foi o efeito infeliz de uma medida feliz: a massificação do ensino. Hoje as escolas são parte de uma máquina burocrática, gerida por burocratas que tudo o que procuram é a sua promoção pessoal e continuar a ganhar bem sem fazer nada. E para conseguirem isto têm de apresentar números felizes de sucesso escolar inventado. É assim que chumbar alunos é proibido, mesmo que mal saibam escrever. Aliás, agora já estamos na situação em que os próprios professores mal sabem escrever – os produtos do “sucesso” escolar já estão nas escolas a perpetuar o atraso nacional.
Mas as escolas não devem ser máquinas burocráticas. Devem ser centros vivos de estudo, centros de vida cultural, centros de transmissão e produção de conhecimento. As escolas devem assumir-se como pólos culturais fundamentais, e mostrar uma alternativa à cultura de realejo e do foguete, ao discurso para a televisão e sobre a televisão, e mostrar alternativas: a discussão das grandes ideias filosóficas, científicas, artísticas, históricas e religiosas. Mostrar que discutir ideias, expandir o nosso conhecimento, alargar a nossa compreensão, são não apenas actividades compensadoras em si, mas também elementos fundamentais para que uma sociedade seja capaz de vencer desafios com ideias novas e criativas, com soluções imaginativas e inteligentes. Este é o papel original das escolas.
Compete ao professor devolver às escolas a sua verdadeira vocação, e tirar das garras dos burocratas do Ministério e dos políticos cinzentos de discurso televisivo o destino das escolas. São essas pessoas que querem escolas passivas porque querem cidadãos passivos, que querem a cultura afastada das escolas porque o mote é dividir para conquistar. Mas a escola não pode nem deve dissociar-se da vida cultural e política de um país. A escola é o lugar onde se devia discutir ideias a um outro nível que não o da todo-poderosa televisão (…). Mas terão de ser os professores a reivindicar a autoridade nas escolas; terão de ser eles a dizer que quem manda são os professores, e não o contrário, e que os professores existem para servir os estudantes e a sociedade.
A escola tem de pugnar pela qualidade. Essa qualidade começa na sala de aula.»
Desidério Murcho, A Natureza da Filosofia e o seu Ensino, Plátano Editora, Lisboa, 2002, pp. 14-15.
A data de edição do livro é Julho de 2002. E hoje? Será a situação actual diferente? A resposta parece ser óbvia, mas fica ao critério do leitor.
Se clicar na capa do livro poderá obter mais informações acerca dele.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Tudo pela nação e nada contra a nação???
«O nacionalismo é um mal. Provoca guerras e tem as suas raízes na xenofobia e no racismo. (…) Disfarçado de patriotismo e amor pelo país, tira partido da sem-razão da psicologia de massas para fazer parecer aceitável, e mesmo honroso, vários horrores. Por exemplo, se alguém lhe dissesse: ‘Vou mandar o teu filho matar o filho dos teus vizinhos’, com certeza protestaria veementemente. Mas deixe seduzir-se com os seus gritos de ‘Rainha e Nação!’, ‘A Pátria!’, ‘O meu país, com razão ou sem ela!’ e vai dar consigo a permitir que ele mande todos os seus filhos matar não apenas os filhos de outras pessoas, como outras pessoas indiscriminadamente – que é o que fazem as bombas e as balas.
Os demagogos sabem muito bem o que fazem quando pregam o nacionalismo. Hitler disse: ‘A eficácia do chefe verdadeiramente nacionalista está em evitar que o seu povo disperse a atenção, mantendo-a assestada num inimigo comum’. E ele sabia a quem apelar: Goethe observara há muito que os sentimentos nacionalistas ‘conhecem a sua maior força e violência junto das pessoas com menor grau de cultura’. (…)
A ideia de nacionalismo depende da ideia de ‘nação’. A palavra não tem sentido: todas as ‘nações’ são híbridas, no sentido em que mais não são que uma mistura de imigrações e miscigenação de povos ao longo do tempo. Assim, a ideia de etnia é sobretudo cómica, excepto nos locais onde se pretende que a comunidade permaneceu tão remota e isolada (…) durante a maior parte da história, que conseguiu manter a sua reserva genética ‘pura’ (um cínico diria ‘consanguínea’).
Diz-se muitos disparates sobre as nações enquanto entidades: Emerson referiu o ‘génio’ de uma nação como algo independente dos seus cidadãos numéricos; Giraudoux descreveu o ‘espírito da nação’ como ‘a expressão dos seus olhos’; e abundam as afirmações sem sentido deste género.
As nações são construções artificiais cujas fronteiras foram traçadas no sangue das últimas guerras. E não se deve confundir cultura e nacionalidade: não existe país no mundo que não albergue mais do que uma cultura diferente mas geralmente coexistente. Património cultural não é a mesma coisa que identidade nacional.»
A. C. Grayling, O significado das coisas, Lisboa, 2002, Edições Gradiva, pp. 99-101.
Nota: “Tudo pela nação, nada contra a nação” era um slogan do Estado Novo, da autoria de Salazar (inspirado, creio, em Mussolini).
segunda-feira, 18 de maio de 2009
domingo, 8 de março de 2009
8 de Março: Haverá neste assunto algum aspecto filosófico ou é apenas mais um fenómeno sociológico?

Sophie Grillet, "Não sou feminista, mas…"
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
A origem da censura
Os actos de censura motivados por acusações de obscenidade ou de pornografia fazem-me sempre lembrar uma história que li ou ouvi já não sei onde.
Ontem, a apreensão de alguns livros por terem na capa uma reprodução do quadro “A origem do mundo”, de Courbet, trouxe-me a história à memória. Infelizmente, hoje recordei-a também, pois li esta coisa hilariante: o Comando da PSP de Braga justificou a apreensão dos livros com o “perigo de alteração da ordem pública” que a exposição pública da obra supostamente estava a provocar.
A interpretação da história fica a cargo do caro leitor, pois, embora a Filosofia tenha muito a dizer acerca da liberdade de expressão, os motivos que levam alguém a armar-se em censor enquadram-se sobretudo na Psicologia e na Sociologia.
Eis a história.
Um dia uma senhora telefonou à Polícia queixando-se que, exactamente em frente à sua casa, um homem se banhava nu no rio. Depois de um polícia falar com ele o homem foi embora.
Pouco depois a senhora voltou a telefonar queixando-se que o homem continuava a banhar-se nu no rio, tendo-se limitado a afastar-se um pouco. Mais uma vez foi um polícia falar com o homem e ele foi embora.
Mas, ao fim de alguns minutos, senhora telefonou outra vez à Polícia e com a mesma queixa. O homem tinha-se afastado um bom bocado, mas continuava a banhar-se nu no rio.
O polícia, um pouco impaciente, disse-lhe:
- Minha senhora, é verdade que o homem continua a banhar-se no rio. Contudo, da sua casa já não é possível vê-lo, por isso...
A senhora interrompeu o polícia:
- Está enganado. Com uns binóculos ainda consigo vê-lo!
