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domingo, 3 de janeiro de 2016

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O que é o conhecimento?

Entrevista com o filósofo brasileiro Alexandre Meyer Luz, em que este analisa o problema da definição do conhecimento e outros tópicos relacionados.

O discurso de Alexandre Meyer Luz é muito claro e fácil de seguir. É, portanto, uma boa maneira de os alunos que estão a estudar para o exame nacional de Filosofia reverem parte da matéria de Epistemologia, embora – claro - não dispense algumas leituras.

Esta entrevista pode ser encontrada – juntamente com várias outras, igualmente interessantes – No Jardim da Filosofia, um projeto de Aires Almeida. 

domingo, 4 de outubro de 2009

Equívocos acerca do senso comum

A caracterização do senso comum como sendo um conhecimento prático é frequente. Consta de muitos livros de Filosofia (e de Sociologia). Contudo, essa caracterização não é rigorosa.

Vermeer a laiteira milkmaid Um conhecimento prático é um saber-fazer, consiste no conhecimento de uma actividade. É verdade que o senso comum inclui inúmeros conhecimentos práticos, tais como saber cozinhar ou saber andar de bicicleta. No entanto, inclui também conhecimentos proposicionais, conhecimentos por contacto, superstições e outras crenças, que não são saberes práticos.

O conhecimento proposicional é, tal como o nome indica, o conhecimento de proposições. Também é conhecido por “saber que”. Por exemplo: saber que a lixívia debota a roupa, saber que (em Portugal) a pena máxima é 25 anos de prisão, saber que a cor do luto (em Portugal) é o preto, etc. O senso comum inclui inúmeros conhecimentos desse género, que não têm manifestamente um carácter prático.

O conhecimento por contacto é o conhecimento que temos de coisas, lugares, pessoas, etc. É um conhecimento directo e presencial. Por exemplo: conhecer as divisões de uma casa, conhecer pessoalmente um indivíduo, etc. O senso comum inclui inúmeros conhecimentos desse género, que não têm manifestamente um carácter prático.

Uma superstição é uma crença falsa e sem justificação plausível. Por exemplo: acreditar que as doenças são provocadas por espíritos malignos, acreditar que ver gatos pretos traz infelicidade, etc. O senso comum de muitas pessoas (mas talvez não de todas) inclui superstições. Tais crenças supersticiosas não têm obviamente carácter prático.

Por outro lado, o senso comum inclui também crenças que seria errado considerar superstições (convicções morais, políticas, sociais, etc., tais como: acreditar que se deve pagar as dívidas, acreditar que não se deve matar pessoas inocentes, etc.). Todavia, tais crenças também não são saberes práticos.

Por isso, o conhecimento prático é apenas uma parte do senso comum.

É igualmente frequente chamar-se conhecimento vulgar ao senso comum. Todavia, essa denominação não é rigorosa.

Os conhecimentos práticos, proposicionais e por contacto que fazem parte do senso comum podem ser designados de vulgares, uma vez que a sua aquisição não implica aprendizagens formais e elaboradas. Contudo, as superstições que fazem parte do senso comum não constituem conhecimentos vulgares. Não por não serem “vulgares” e implicarem aprendizagens formais e elaboradas, mas porque, sendo crenças falsas e injustificadas, não são sequer conhecimentos.

É duvidoso que muitas crenças do senso comum que não são supersticiosas constituam, ainda assim, conhecimentos, pois, embora não sejam falsas, a sua justificação adequada não se faz no âmbito do senso comum – mas sim da Filosofia e de ciências como a Psicologia ou a Economia.

A teoria filosófica que define o conhecimento como sendo uma crença verdadeira justificada presta-se a algumas objecções, pois provavelmente essas três condições não são suficientes para haver conhecimento e é necessário acrescentar uma ou mais condições para haver conhecimento. No entanto, não parece haver dúvidas que são condições necessárias. Pelo que as crenças do senso comum que são falsas ou injustificadas não são conhecimentos.

(Se as crenças do senso comum que são falsas ou injustificadas não fossem falsas nem injustificadas e pudessem ser consideradas conhecimentos, não seriam conhecimentos práticos, mas sim conhecimentos proposicionais.)

Por isso, apenas uma parte do senso comum constitui conhecimento.

Na imagem: A Leiteira (1658-60), de Johannes Vermeer.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

O conhecimento por contacto facilita as cunhas


O conhecimento por contacto consiste no conhecimento directo e presencial do objecto em causa: pessoas, coisas, lugares, etc.
Por exemplo: se dissermos "O Sr. César B. conhece pessoalmente o Presidente da Câmara de Florença" ou "O Sr. César B. conhece Florença como a palma das suas mãos" estaremos a referir casos de conhecimento por contacto.
Como é natural, "meter uma cunha" será uma acção com mais probabilidades de sucesso se existir entre os intervenientes esse tipo de conhecimento. Porém, o cartoon é obviamente irónico. Com efeito, quando se fala de "sociedade do conhecimento" o conhecimento referido é de outros dois tipos: o "saber fazer" (ou conhecimento prático) e o "saber que" (o conhecimento de proposições).

(Vou colocar uma etiqueta dizendo "Portugal". Contudo, isto é como se diz no final dos filmes: qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.)

Cartoon de Bandeira, Diário de Notícias

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Matriz do 3º teste de Filosofia do 11º ano (turmas B, D, E e F)

Temas: Argumentos cogentes. Argumentação e liberdade de expressão. Tipos de conhecimento. Conhecimento como crença verdadeira justificada.

O que se passa quando vemos qualquer coisa?

O conhecimento por contacto tem um nome apropriado. Quando vemos, ouvimos, cheiramos, etc., há literalmente um contacto físico entre uma parte do nosso corpo e algo exterior.
A explicação do conhecimento por contacto e a distinção entre os vários tipos de conhecimento feitas nas aulas de Filosofia do 11º ano não requerem o aprofundamento dos detalhes biológicos e físicos desse contacto.
Mas, se tiver curiosidade, pode perceber como se passam as coisas no caso da visão, vendo o vídeo "Como é que a luz entra nos olhos?", no blogue Quarks e Gluões. Dura pouco mais de 2 minutos e é fácil de entender.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Algumas relações entre os vários tipos de conhecimento

Ao considerar os nossos conhecimentos podemos distinguir:
  • O conhecimento por contacto (conhecer por experiência ou contacto sensorial pessoas, objectos, lugares, etc.).
  • O saber-fazer (conhecimento prático, saber efectuar actividades).
  • O “saber que” (ou conhecimento proposicional, e que consiste naturalmente no conhecimento de proposições).

Nalgumas situações essas formas de conhecimento podem relacionar-se umas com as outras de diversos modos. Noutras situações pode não haver relação.

Existem muitos problemas cuja resolução implica o recurso aos vários tipos de conhecimento.
Por exemplo: um cirurgião precisa de ter conhecimentos práticos relativos ao manuseamento dos instrumentos cirúrgicos, mas também precisa de ter numerosos conhecimentos proposicionais acerca da anatomia e fisiologia do corpo humano, das doenças e das melhores estratégias para executar as intervenções cirúrgicas; e precisa também de algum conhecimento por contacto de cada paciente.
Passa-se o mesmo com um mecânico ou com um engenheiro agrónomo. Teste a sua compreensão explicando porquê.

O saber-fazer e o conhecimento por contacto podem muitas vezes dar origem a conhecimentos proposicionais.
No caso do saber-fazer, isso sucede principalmente quando as pessoas tentam descrever o que sabem fazer e explicam verbalmente como se faz.
No caso do conhecimento por contacto, isso sucede principalmente quando as pessoas tentam descrever algo que aprenderam por experiência, quando tentam pôr em palavras algo conhecido através do contacto sensorial.
Por exemplo:
Uma pessoa que sabe andar de bicicleta pode (se quiser ajudar uma criança a aprender, se quiser escrever um livro sobre o assunto, etc.) exprimir o que sabe através de frases como “Para andar de bicicleta é preciso manter o equilíbrio” ou “Para andar de bicicleta e não cair não se deve inclinar o corpo para um dos lados”.
Uma pessoa que conheceu pessoalmente uma personalidade famosa, por exemplo o realizador cinematográfico Woody Allen, pode depois tentar exprimir as suas impressões através de frases como “O Woody Allen é uma pessoa tímida e reservada” ou “O Woody Allen mexe muito as mãos e tem uma dicção peculiar”, etc.
Essas frases exprimem proposições. Já não se trata apenas de saber-fazer ou de conhecimento por contacto, mas de conhecimento proposicional.
Teste a sua compreensão imaginando outros exemplos.

Podemos ter um conhecimento meramente proposicional relativamente a certas coisas, mas depois desenvolver em relação a elas conhecimentos práticos e por contacto, numa tentativa de aplicar e concretizar esse conhecimento proposicional.
Por exemplo:
Uma pessoa (eventualmente um preso, numa cadeia) pode recolher muitas informações sobre informática sem saber realmente trabalhar com um computador e só depois experimentar fazê-lo. Ao fazer isso estará a desenvolver um saber-fazer, já não se limitando o seu saber informático à mera posse de informações e teorias.
Essa mesma pessoa poderá recolher muitas informações sobre a cidade de Florença (ficando a conhecer muitos aspectos geográficos, económicos, artísticos, etc.) sem nunca lá ter ido. Mas se depois visitar Florença e for ver os lugares, monumentos, etc., acerca dos quais recolhera informações estará a complementar o conhecimento proposicional que já tinha com conhecimento por contacto.
Teste a sua compreensão imaginando outros exemplos.

No entanto, essas relações entre os diferentes tipos de conhecimento não ocorrem sempre. Há muitas situações em que essas modalidades de conhecimento se desenvolvem de modo independente.
Por exemplo:
Uma pessoa pode saber andar de bicicleta e nunca formular quaisquer proposições sobre o assunto. Nesse caso, o seu conhecimento é apenas um saber-fazer (que não poderia existir se a pessoa não tivesse conhecimento por contacto de bicicletas, mas que é diferente deste – como se comprova pelo facto de muitas pessoas que já viram e tocaram em bicicletas não saberem andar de bicicleta).
Uma pessoa pode conhecer pessoalmente o Woody Allen e nunca fazer quaisquer declarações acerca dele ou sequer pensar nele. Nesse caso, o seu conhecimento é apenas um conhecimento por contacto.
Uma pessoa pode saber imensas coisas acerca da cidade de Florença e morrer sem a visitar. Nesse caso, o seu conhecimento de Florença terá sido sempre proposicional.
Teste a sua compreensão imaginando outros exemplos.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Ficha de trabalho: identificação dos diferentes tipos de conhecimento

1. Leia os exemplos com atenção e diga qual é o tipo de conhecimento referido em cada um deles: saber-fazer, conhecimento por contacto ou conhecimento proposicional.
2. Justifique de modo breve as suas respostas.

A. Há anos atrás, a Maria Francisca Botão esteve apenas meia hora na Capela Sistina, mas ainda não esqueceu o deslumbramento que sentiu perante a grandiosa beleza do local, nem as cores e as formas que viu, nem sequer os aromas que cheirou.
B. A Maria Francisca Botão sabe que a inteligência emocional (nomeadamente a auto-motivação) influencia o desempenho escolar e profissional.
C. A Maria Francisca Botão sabe muito bem disparar uma pistola.
D. A Maria Francisca Botão sabe definir conhecimento por contacto.
E. A Maria Francisca Botão nunca foi a Florença, mas recolheu imensas informações sobre essa cidade e consegue falar dela horas a fio.
F. A Maria Francisca Botão é capaz de preparar óptimas sopas.
G. A Maria Francisca Botão conhece o Centro Comercial como a palma das suas mãos.
H. A Maria Francisca Botão sabe que o saber-fazer se pode também chamar conhecimento prático.

I. A Maria Francisca Botão sabe cantarolar a canção "Jardim dos Prodígios".
J. A Maria Francisca Botão sabe que a canção "Jardim dos Prodígios" é da autoria de Jorge Palma.

K. A Maria Francisca Botão conhece a canção "Jardim dos Prodígios".