A morte de Sócrates, de Giambettino Cignaroli, 1759.
“As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar, senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento.” John Stuart Mill
sexta-feira, 27 de março de 2015
terça-feira, 25 de novembro de 2014
A postura filosófica de Sócrates: um esclarecimento aos leitores
Esta escultura representa o filósofo grego Sócrates (470-399 a.C). É da época romana e foi feita a partir de um original grego do séc. IV a.C (atribuída ao escultor Lisipo). Pode ser visitada no Museu do Vaticano, na sala dos filósofos, em Itália.
Num diálogo intitulado Críton, Platão relata a forma como Sócrates (condenado à morte pelo tribunal em 399 a.C por, entre outras acusações, corromper a juventude) responde à proposta que alguns dos seus discípulos lhe fazem: fugir em vez de aceitar a sentença fatal.
“Críton: (…) Mas, caro Sócrates, uma vez mais te peço, obedece-me e salva-te. É que, se morreres não será para mim uma desgraça só, além de ficar privado de um amigo como não tornarei a achar outro, ainda farei aos olhos da maioria, que não nos conhece bem, nem a mim nem a ti, o papel de alguém que podendo salvar-te, se quisesse gastar dinheiro, não esteve para se incomodar. E que fama pode haver mais vergonhosa que parecer ter em maior conta o dinheiro do que os amigos? A maioria das pessoas nunca acreditará que foste tu que não quiseste sair daqui, apesar da insistência dos nossos pedidos.
Sócrates: Portanto, meu caro, não devemos preocupar-nos muito com as afirmações da maioria, mas sim (…) com a verdade. Não é, por isso, boa a tua sugestão inicial de que devemos preocupar-nos com a opinião da maioria sobre a justiça e a bondade (…). Em todo o caso, poderá alguém observar: a maioria é muito capaz de nos mandar matar.
Críton: Evidentemente, poderia muito bem dizer-se isso, ó Sócrates.
Sócrates: Mas, meu caro, a lógica seguida parece-me ser a mesma de há pouco. E repara de novo se este princípio permanece ou não: o que mais importa não é viver, mas viver bem.”
Platão, Êutifron, Apologia de Sócrates, Críton, Edição Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1990.
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
Porque não se entendem os filósofos?
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Uma imagem diz mais que mil palavras
A imagem foi encontrada aqui no blogue "Origem da comédia" e sendo cómica revela também algo de trágico... A questão formulada pode dizer-se que é, talvez, demasiado abrangente e a resposta do aluno demasiado criativa :)
Para os alunos do 10º ano, que ainda não realizaram o primeiro teste, fica uma sugestão: procurem antes inspirar-se no estudo e na reflexão.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
sábado, 28 de agosto de 2010
Sócrates a desfazer-se!?
A fotografia foi tirada pelo meu filho mais velho.
É mesmo verdade! Devido à acção do vento e da chuva a solidez desta escultura de areia poderá vir a ser seriamente afectada.
Este fenómeno pode ser observado em Portugal, mais precisamente no Fiesa 2010.
domingo, 25 de abril de 2010
Salgueiro Maia e Sócrates
Salgueiro Maia
Aquele que na hora da vitória
respeitou o vencidoAquele que deu tudo e não pediu a paga
Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetiteAquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vícioAquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
como antes dele mas também por ele
Pessoa disseSophia de Mello Breyner Andresen, Musa, 3ª edição, Editorial Caminho, Lisboa, 1994, pág. 17.
“Aquele que amou os outros e por isso / Não colaborou com a sua ignorância ou vício”… Estas palavras de Sophia de Mello Breyner Andresen acerca de Salgueiro Maia, um dos protagonistas do 25 de Abril, aplicar-se-iam igualmente bem ao filósofo grego Sócrates e a qualquer outra pessoa interessada na verdade e no conhecimento – filósofos, cientistas, artistas, etc.
Dizê-lo não diminui a grandeza de Salgueiro Maia. Antes pelo contrário. Com efeito, se Salgueiro Maia é - em Portugal - um símbolo da conquista da democracia e da liberdade política, Sócrates é um símbolo universal do pensamento crítico e da liberdade de pensamento.
Outra semelhança entre ambos, embora muito menos importante, é o facto de o reconhecimento do seu valor ter sido principalmente póstumo. Sócrates morreu vítima de uma acusação falsa e de um julgamento injusto. Salgueiro Maia morreu quase na miséria e sem as honras que os seus feitos justificavam.
A democracia é um regime político imperfeito e incapaz de impedir totalmente a ocorrência de injustiças. Por exemplo: quando Sócrates foi condenado à morte e executado existia um regime democrático em Atenas; Salgueiro Maia contribuiu para a implementação da democracia em Portugal e essa mesma democracia ignorou-o e não reconheceu o seu valor. Mesmo assim, as injustiças numa democracia são muito menos frequentes do que noutros regimes políticos. Acresce que numa democracia existem mecanismos para corrigir as injustiças que não existem noutros regimes políticos. Por isso, vale a pena celebrar o 25 de Abril.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Examinar a vida: valerá a pena o esforço?
"Uma vida não examinada pode não valer a pena ser vivida, mas examinar a minha é esgotante."
Este e outros cartoons da autora podem encontrar-se aqui.
Sócrates, um dos mais conhecidos filósofos gregos, foi condenado à morte em 399 (a.C.). Não escreveu nenhum livro. O que sabemos sobre ele deve-se, entre outros, ao testemunho do seu discípulo Platão. Nos diálogos que este escreveu Sócrates é uma figura central.
Na Apologia de Sócrates, Platão apresenta o discurso proferido em tribunal pelo seu mestre. Acusado, entre outras coisas, de “fazer do argumento fraco o argumento forte, ensinando os outros a fazerem como ele”, e corrompendo assim a juventude, Sócrates defendeu-se dizendo que nada mais fazia do que examinar-se a si próprio e aos outros com o objectivo de descobrir alguém mais sábio do que ele (que reconhecia nada saber sobre o bom, a virtude e o belo, por exemplo). Eis as suas palavras:
“Nada mais faço do que andar pelas ruas a persuadir-vos, jovens ou velhos, a cuidardes mais da alma que do corpo e das riquezas, de modo a que vos torneis homens excelentes.
Se, ao dizer isto, estou a corromper os jovens, mal vão as coisas. Mas, se alguém afirmar que eu digo mais do que isto, afirma falsidades (…).
Pois, se me matardes, sendo eu como sou, fareis mais mal a vós próprios do que a mim. Poderiam talvez matar-me, banir-me ou privar-me de direitos, pensando como outros que são estas coisas grandes males. Mas eu não penso assim. O que penso é que quem o fizer está a fazer a si próprio muito pior, por tentar matar injustamente um homem. Por isso, preciso muito mais de vos defender a vós do que de me defender a mim (…). Isto porque, se me matardes, não encontrareis com facilidade outro como eu que – para falar gracejando – se agarre à cidade como um moscardo a um cavalo forte e de bom sangue que, por causa do tamanho, precisa de ser despertado por um aguilhão (…).
E se eu disser que o maior bem que pode haver para um homem é, todos os dias, discorrer sobre a excelência e sobre outros temas acerca dos quais me ouvíeis dialogar, investigando-me a mim e aos outros. E se eu vos disser que uma vida sem pensar não é digna de ser vivida por um homem, ainda menos vos terei persuadido. É como digo, homens, não sois fáceis de convencer!”
Platão, A apologia de Sócrates, tradução de José Trindade Santos, 2ª Edição, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1990, pág. 85-87 e 94.
Terá Sócrates razão ao defender que uma vida sem pensar não é digna de ser vivida? Porquê?
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
A origem dos problemas filosóficos
Sócrates, um filósofo grego que viveu entre 470 e 399 a. C., foi condenado à morte. Horas antes deste ingerir o veneno vários amigos foram ter com ele à prisão. Estavam tristes e revoltados, pois consideravam Sócrates o homem mais justo e sensato que conheciam e entendiam que as acusações contra ele eram falsas. Platão (discípulo e amigo de Sócrates) descreveu as últimas horas de vida de Sócrates num livro chamado Fédon.
Enquanto conversavam, é referido o problema da alma ser ou não imortal: será que a morte é o fim de tudo ou, pelo contrário, depois dela existe uma outra vida? Os amigos de Sócrates insistem para saber o que pensa ele sobre isso.
Sócrates aceita examinar o problema e diz: "...talvez nada seja tão apropriado para aquele que vai partir para o Além como reflectir e discorrer sobre o significado desta viagem e o que imaginamos que seja". (Platão, Fédon, 5ª edição, Lisboa Editora, 1997, pág. 45.)
Sócrates, tal como outros filósofos, foi algumas vezes acusado de andar com a cabeça nas nuvens e de se interessar por assuntos inúteis e desligados da vida. Assim, ao dizer que, uma vez que vai morrer, reflectir acerca da morte e do sentido da vida é “apropriado” está a dizer que esse assunto não é exterior à vida humana.
Ora, tal como Sócrates, nós também somos mortais. Também vamos morrer um dia. Por isso, faz sentido – é “apropriado” – que reflictamos acerca da morte e do significado da vida. Para nós, a morte não é um assunto inútil e desligado da vida. É um assunto que se impõe a partir da nossa experiência.
Esse raciocínio pode estender-se a outros problemas filosóficos. Os problemas filosóficos são problemas que se impõem a partir da nossa experiência e não assuntos demasiado abstractos, inúteis e desligados da vida. Por isso, é apropriado reflectirmos acerca deles.
Eis alguns exemplos.
Temos amigos, por isso é apropriado reflectir acerca da amizade.
Queremos ser felizes, por isso é apropriado reflectir acerca da felicidade.
Dizemos muitas vezes que certas coisas são belas e outras feias, por isso é apropriado reflectir acerca da beleza.
Argumentamos, por isso é apropriado reflectir acerca dos argumentos e daquilo que os torna correctos ou incorrectos.
Utilizamos diariamente palavras como “verdadeiro”, “falso”, “justo” e “injusto”, por isso é apropriado reflectir acerca da verdade e da justiça.
Etc.
Sendo assim, estudar filosofia e reflectir acerca dos problemas filosóficos não é perder tempo com assuntos demasiado abstractos, inúteis e desligados da vida, mas sim tentar esclarecer problemas que, pelo contrário, fazem parte da nossa vida. Ao estudar filosofia e ao reflectirmos sobre esses problemas tornamo-nos conscientes de coisas que, sem sabermos, já existiam na nossa vida.
À entrada do templo de Delfos, na Grécia, estava escrito um conselho que Sócrates considerava fundamental: “Conhece-te a ti mesmo”. Filosofar é uma forma de o pôr em prática.
*-*-*-*
No Dúvida Metódica existem vários posts com a etiqueta “Sócrates”, dos quais o mais útil para alunos do 10º ano é este: Conselho de Sócrates: pensem bem antes de me darem razão.
Na imagem: quadro de Jacques Louis David - "A morte de Sócrates", de 1787.
domingo, 9 de agosto de 2009
Sofista ou surfista?
A Surfista, fotografia de Gustavo Moreira Tavares (tirada daqui).
Os sofistas - pensadores gregos, cujos nomes mais conhecidos são Górgias e Protágoras – foram os primeiros a reflectir sobre o poder persuasivo da palavra. Foram também educadores: ensinavam aos cidadãos gregos a retórica, preparando-os assim para participar na vida política da polis.
No Fédon, Platão atribui, por intermédio de Sócrates, as seguintes características aos sofistas: “(…) é mesmo o filósofo que vos fala, aquele que ama o saber, e não um desses homens sem sombra de cultura, que amam apenas o triunfo das suas teses! Refiro-me aos que, em qualquer tipo de discussão, relegam para segundo plano a natureza real das questões a tratar, e se empenham exclusivamente em convencer os seus ouvintes das opiniões que eles mesmos sustentam (…).”
Destes pensadores, além das referências efectuadas por filósofos posteriores, não chegaram até nós mais do que fragmentos dos escritos originais. Como por exemplo este, da autoria de Górgias (séc. V a. C): “Nunca me falta assunto num discurso”.
A má fama, talvez injusta, que a palavra “sofista” adquiriu – sinónimo de manipulador, daquele que, numa discussão, não olha a meios para alcançar os seus fins – tem em Platão um dos seus principais responsáveis.
Do ponto de vista platónico, o sofista é, por oposição ao filósofo, aquele que pretende convencer o auditório, independentemente da verdade. Assim, em vez de procurar persuadir de forma racional e lógica, recorre a todo e qualquer tipo de subterfúgios. Se necessário utiliza argumentos intelectualmente desonestos, que nada têm a ver com a discussão do assunto em causa, como por exemplo o ataque às características pessoais do interlocutor, o apelo aos sentimentos do auditório, o uso de ameaças, a utilização da autoridade de forma ilegítima, entre muitos outros (designados em Filosofia por falácias informais).
Uma das principais objecções de Platão às ideias dos sofistas prende-se com o facto destes defenderem o relativismo (Protágoras afirmou “o homem é a medida de todas as coisas”). A ideia que a verdade depende do ponto de vista de cada um e, por isso, não existe uma verdade objectiva que possa ser partilhada por todos.
Platão, no diálogo intitulado Górgias, levanta algumas objecções à perspectiva relativista. Se fosse correcta, como se poderia distinguir o verdadeiro do falso? Que sentido faria as pessoas discutirem, se nenhuma opinião poderia ser considerada errada, por mais absurda que fosse? Se cada um possui a sua verdade para quê trocar argumentos? Que valor teria a procura do conhecimento?
Platão conclui que a troca de argumentos só faz sentido no pressuposto de que não estamos condenados ao domínio da subjectividade - não vivemos no reino das opiniões, argumentamos racionalmente para nos tentarmos aproximar da verdade.
Estas considerações vêm a propósito de notícias recentes relativas à vida política portuguesa: a apresentação das listas e dos programas eleitorais dos vários partidos. Percebi, de súbito, devido a este estímulo exterior, o significado de um erro cometido por alguns dos meus alunos ao escreverem surfista em vez de sofista.
Como é que se pode confundir a arte de bem falar com a arte de usar a prancha?
Uma forma possível de explicar este equívoco linguístico é: os sofistas ao abdicarem da procura da verdade e ao recorrem a qualquer meio para alcançar as suas conveniências pessoais – como frequentemente observamos entre os políticos – estão, tal como os surfistas, a cavalgar a onda.
Existem afinidades que nem sempre são evidentes…
Nota: A citação de Platão foi retirada do seu livro Fédon, Lisboa Editora, 1997, pág. 87.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Sócrates na praia
É pouco frequente ver alguém ler um livro na praia. Por isso, foi com surpresa que ontem vi - na praia da Altura - uma mulher a ler o Fédon, de Platão.
Era uma senhora dos seus quarenta e poucos anos. Com a cabeça entre as mãos e a cara enfiada no livro, parecia pertencer a uma espécie animal diferente da dos outros banhistas, entretidos a apanhar conquilhas e absorvidos em conversas cujo assunto menos pessoal era – a avaliar por algumas amostras recolhidas ao acaso – uma alarmante notícia televisiva sobre o cancro da pele. Quando os filhos vinham a correr mostrar-lhe uma concha especialmente bonita, a mulher levantava os olhos do livro e sorria com doçura, mas de modo breve e regressava logo à leitura. (Procedia do mesmo modo, excepto no que diz respeito ao sorriso, quando o marido lhe tentava desviar a atenção para uma colorida revista de automóveis.)
E o que ela lia era a descrição das últimas horas de vida de Sócrates. Este tinha sido condenado à morte e, apesar de se considerar inocente, recusou fugir quando teve oportunidade para isso, pois na sua opinião a fuga seria ainda mais errada que a condenação. Ao conversar com alguns amigos que se tinham ido despedir dele à prisão, Sócrates afirmou que não há razão para um homem justo temer a morte, pois a alma é imortal e após a morte do corpo vai para um lugar melhor que esta vida. Os amigos pediram-lhe para justificar essa crença na imortalidade da alma, o que levou Sócrates a apresentar e discutir com os amigos diversos argumentos. Nessa discussão foram ainda analisados outros assuntos, como por exemplo o suicídio, a natureza da filosofia e o sentido da vida.
Excelentes tópicos, não há dúvida nenhuma, para ocupar o pensamento num domingo de manhã numa praia do Algarve!
Por vezes, a mulher fechava o livro durante alguns momentos e olhava pensativamente para o mar – muito recuado, devido à maré-vazia. Estaria ela a pensar em objecções aos frágeis argumentos de Sócrates a favor da imortalidade da alma? Ou estaria a pensar como era admirável um homem que, a poucas horas de ser morto, não só aceita discutir um problema filosófico como incentiva os seus interlocutores a criticar tudo o que ele dissesse de menos sólido e que – face à admiração respeitosa destes – lhes diz “preocupem-se pouco com Sócrates e muito mais com a verdade”? Ou talvez pensasse apenas que, caso ela estivesse no lugar de Sócrates, ficaria inquieta e amedrontada e não serena como ele… Ela e a grande maioria das pessoas!
No final da conversa, quando se aproximava a hora da execução, Sócrates disse aos amigos que ia tomar banho para “poupar às mulheres o incómodo de lavarem um cadáver”. O que pensará aquela mulher dessas palavras? Julgará que foram apenas uma observação casual de um homem educado numa sociedade onde as mulheres eram consideradas muito inferiores aos homens? Ou acreditará, pelo contrário, que exprimiam respeito e consideração ética (comoventes, em alguém que sabe que vai morrer) por outras pessoas, ainda que socialmente desfavorecidas?
O receio de ser indelicado e o calor do meio-dia (que obrigou a uma retirada precoce da praia), impediram-me de procurar junto da senhora respostas para essas perguntas. Mas não faz mal, pois Sócrates tornou-se um símbolo do pensamento crítico e da Filosofia precisamente porque incentivava as pessoas a pensar pela própria cabeça, em vez de ficarem à espera que alguém encontrasse as respostas por elas. Não falei com a senhora tal como não falei com Sócrates – mas, como disse o Professor Mário Jorge de Carvalho, numa distante aula de uma disciplina de opção cujo nome já nem recordo, “o que importa é sermos o nosso próprio Sócrates”.
Acho que vou reler o Fédon…
As afirmações citadas foram retiradas de: Platão, Fédon, (91c e 115b), Lisboa Editora, 1997, pp. 88 e 119.
Fotografia de António Carlos Moreira, retirada daqui.
sábado, 25 de julho de 2009
O que é pior: sofrer a injustiça ou cometê-la?
Chegou apressado ao pé dos amigos, sentados na esplanada a beber cerveja e a falar de futebol. Pediu desculpa pelo atraso e explicou que, ao estacionar, se tinha distraído e batido no carro do lado. “Ficou um bocado amolgado… Por sorte ninguém me viu! Fui pôr o meu carro noutra rua, pois tem um risquinho à frente e se o tivesse deixado lá as pessoas iriam provavelmente relacionar as coisas.” Quando lhe perguntaram se conhecia o proprietário disse que sim e perguntou: “Acham que lhe devo dizer que fui eu e pagar o prejuízo?” Os outros riram-se e disseram em coro: “Estás maluco ou quê?”
Pediram mais cervejas e regozijaram-se todos com a sorte do amigo não ter sido apanhado. De repente, perceberem que estavam a falar demasiado alto e que podiam ser escutados e calaram-se, atrapalhados. Apesar das mesas mais próximas estarem vazias e eu ter a cabeça enterrada num livro, a conversa foi retomada com as peripécias das transferências de jogadores de futebol.
O livro não era o Górgias de Platão, mas não pude deixar de recordar as palavras de Sócrates, que depois fui reler:
“Não desejo nem uma nem outra; mas se fosse preciso escolher entre sofrer a injustiça e cometê-la, preferiria sofrê-la.”
“O homem culpado, tal como o injusto, é infeliz em qualquer caso, mas é-o sobretudo se não pagar as suas faltas e não sofrer o respectivo castigo; é-o menos, pelo contrário, se as pagar e se for castigado pelos deuses e pelos homens.”
Se aqueles bebedores de cerveja fizessem parte do grupo de pessoas que – segundo conta Platão no diálogo Górgias - ouviu Sócrates tentar persuadir Polo acerca da verdade dessas afirmações, certamente bradariam: “Estás maluco ou quê?”
(As afirmações citadas foram retiradas de: Platão, Górgias, (469c e 472e), Lisboa Editora, 1995, pp. 78 e 83.)
quinta-feira, 21 de maio de 2009
Pensar sobre o sentido da vida será uma perda de tempo?
Temos consciência do carácter finito da nossa existência e, por isso, do facto de não ser indiferente o modo como utilizamos o nosso tempo de vida.
Contudo, pensar acerca de um problema como o sentido da vida, suscita uma certa repulsa à maior parte das pessoas: é uma questão vaga, aparentemente, desligada do quotidiano, demasiado abstracta e não produz resultados imediatos. Em suma, uma enorme perda de tempo destinada a gente ociosa e com pretensões “intelectuais”…
Mas será mesmo assim?
Perguntarmos pelo rumo atribuído ou a atribuir à nossa existência não será antes uma tarefa decisiva que cada um de nós deve levar a cabo, se quiser viver de um modo consciente e livre?
A. C. Grayling, no livro O significado das coisas, dá uma resposta interessante a essa pergunta:
«Sócrates disse, celebremente, que uma vida sem reflexão não merece a pena ser vivida. Queria ele dizer que uma vida vivida sem ponderação nem princípio é uma vida tão vulnerável ao acaso e tão dependente das escolhas e acções de terceiros que pouco valor real tem para a pessoa que a vive. Queria ainda dizer que uma vida bem vivida é aquela que possui objectivos e integridade, que é escolhida e orientada pelo que a vive, tanto quanto é possível a um agente humano enredado nas teias da sociedade e da História.
Como a expressão sugere, a “vida com reflexão” é uma vida enriquecida pelo pensamento acerca das coisas relevantes: valores, objectivos, sociedade, as vicissitudes características da condição humana, aspirações tanto pessoais como públicas (…). Não é necessário chegar a teorias apuradas sobre todos estes assuntos, mas é preciso conceder-lhes pelo menos um nadinha de reflexão (…). Pensar sobre estes assuntos é como examinar um mapa antes de começar a viagem (…). Uma pessoa que não pense na vida é como um forasteiro sem mapa numa terra estrangeira: para alguém assim, perdido e desorientado, um desvio no caminho é tão bom como qualquer outro e, se o rumo tomado conduzir a um local que vale a pena, terá sido meramente por acaso.»
A. C. Grayling, O significado das coisas, Lisboa, 2002, Edições Gradiva, pp. 11-12.
domingo, 17 de maio de 2009
O Sócrates é prepotente e mentiroso!
- Erixímaco – perguntou Alcíbiades, «meu excelente amigo, acreditas de verdade naquilo que Sócrates disse há pouco? Sabes que o que se passa é exactamente o contrário daquilo que ele afirmou? Este indivíduo, se me ponho a elogiar alguém na sua presença – trate-se de um deus ou de um homem qualquer, contando que não seja ele – não passa sem chegar a vias de facto…
- Não terás tento nessa língua? – interrompeu Sócrates.
- Por Posídon! – exclamou Alcíbiades. – Não te zangues, nem eu seria capaz de louvar fosse quem fosse diante de ti!
- Se assim queres – conciliou Erixímaco – faz isso mesmo: um elogio de Sócrates.»
Platão, O Banquete, 214d, tradução de Mª T. Schiapa de Azevedo, Edições 70, Lisboa, 1991, pág. 88.
Chamo a atenção dos leitores menos atentos que, embora a etiqueta “Portugal” exista no Dúvida Metódica, ela não foi colocada neste post.
(Gostava de ter sido eu o autor da ideia, mas infelizmente este post é um mero plágio de um post que li há meses noutro blogue – talvez o Câmara dos Lordes, mas não tenho a certeza.)
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
O que mais importa não é viver, mas viver bem
“Críton: (…) Mas, caro Sócrates, uma vez mais te peço, obedece-me e salva-te. É que, se morreres não será para mim uma desgraça só, além de ficar privado de um amigo como não tornarei a achar outro, ainda farei aos olhos da maioria, que não nos conhece bem, nem a mim nem a ti, o papel de alguém que podendo salvar-te, se quisesse gastar dinheiro, não esteve para se incomodar. E que fama pode haver mais vergonhosa que parecer ter em maior conta o dinheiro do que os amigos? A maioria das pessoas nunca acreditará que foste tu que não quiseste sair daqui, apesar da insistência dos nossos pedidos.
Sócrates: Portanto, meu caro, não devemos preocupar-nos muito com as afirmações da maioria, mas sim (…) com a verdade. Não é, por isso, boa a tua sugestão inicial de que devemos preocupar-nos com a opinião da maioria sobre a justiça e a bondade (…). Em todo o caso, poderá alguém observar: a maioria é muito capaz de nos mandar matar.
Críton: Evidentemente, poderia muito bem dizer-se isso, ó Sócrates.
Platão, Êutifron, Apologia de Sócrates,Críton, Edição Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, 1990.
sábado, 10 de janeiro de 2009
Para Sócrates perguntar não custava muito
"Se a ideia era mostrar como a filosofia é acessível e interessante para a vida quotidiana das pessoas, então o resultado parece muito bem conseguido. Este é, de facto, um daqueles livros que se oferece bem a qualquer um e que é facilmente lido por qualquer espécie de gente."
Clique aqui para ler mais e se convencer que é um livro que vale a pena ler.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
Conselho de Sócrates: pensem bem antes de me darem razão

Se for verdadeiro aquilo que Platão conta no Fédon, Sócrates passou as últimas horas da sua vida a filosofar. Ele e alguns amigos discutiram se a alma é ou não imortal e se poderá ou não existir vida depois da morte. Pelo meio, reflectiram acerca do sentido da existência. Sócrates estava na prisão aguardando a hora da sua execução, uma vez que tinha sido condenado à morte. Consta que Sócrates teve oportunidade de fugir mas não o fez, pois não queria desobedecer à lei – apesar de considerar injusta a sua condenação. Sócrates estava calmo e sereno e por diversas vezes tranquilizou os seus comovidos e chorosos amigos. Ao longo do debate Sócrates incentivou várias vezes os amigos a apresentarem-lhes dificuldades e objecções e aconselhou-os a não se apressarem a concordar com ele.
A certa altura disse-lhes o seguinte:“Se querem um conselho, preocupem-se pouco com Sócrates e muito mais com a verdade! Se vos parecer que o que eu digo é verdadeiro, pois dêem-me razão; caso contrário, apresentem-me tudo o que têm a objectar. E vejam lá, não vá eu, no meu excesso de zelo, iludir-me a mim e a vós também, para logo me escapar como a abelha, depois de ter cravado o ferrão!”
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
Podemos compreender um livro de Filosofia sem o ler até ao fim?
Foi Sócrates quem iniciou na filosofia a reflexão acerca da questão: Como é que devemos viver?
Este livro aborda com enorme clareza alguns dos problemas e das respostas dadas por teorias fundamentais da Filosofia moral a esta questão. É recomendado a todos aqueles que gostam de reflectir e argumentar acerca de problemas que dizem respeito não apenas aos filósofos, mas a todos os homens.
Destaco o interesse, em especial para os alunos do 10º ano, dos capítulos seguintes:
2. O desafio do relativismo cultural.
7. e 8. A abordagem utilitarista e o debate sobre o utilitarismo.
9. Haverá regras morais absolutas?
10. Kant e o respeito pelas pessoas.
11. A ideia de contrato social.
Como o próprio autor diz, no prefácio, acerca dos objectivos com que escreveu este livro:
“Fui guiado pelo seguinte pensamento: Imagine-se alguém que nada sabe a respeito do tema, mas deseja perder uma modesta porção de tempo a aprender. Quais são as primeiras coisas, e as mais importantes, que essa pessoa precisa de aprender? Este livro é a minha resposta a essa pergunta. Não tento abranger todos os temas desta área; nem mesmo tento dizer tudo quanto poderia ser dito sobre os temas tratados. Tento, isso sim, discutir as ideias mais importantes que um principiante deve enfrentar.” (pág. 9)
Os capítulos deste livro são autónomos, cada um deles pode ser lido independentemente dos outros, pois contém os dados necessários à compreensão do assunto em causa, sem que seja necessário ao leitor possuir o conhecimento dos capítulos anteriores.
Um desejo formulado, no prefácio, pelo autor é: “Se este livro for bem sucedido, o leitor ou a leitora aprenderá o suficiente para poder começar a avaliar, por si, para que lado pende a balança da razão”, isto porque “a filosofia, como a própria moralidade, é primeiro que tudo um exercício de racionalidade – as ideias que devem prevalecer são as que tiverem as melhores razões do seu lado.” (pág. 10)
A título de exemplo, cito uma passagem relativa à filosofia política, com uma questão final, colocada pelo autor, para os leitores reflectirem:
“Hobbes (um importante filósofo inglês do século XVII) começa por perguntar como seria se não houvesse regras sociais e nenhum mecanismo comummente aceite para as impor. Imaginemos, se quisermos, que não havia governos – nem leis, polícias ou tribunais. Nesta situação, cada um de nós seria livre de fazer o que quisesse. Hobbes chamou a isto estado de natureza. Como seria isto?
O resultado é, nas palavras de Hobbes, um «estado de guerra constante de um contra todos» (…).
Hobbes não pensava que fosse mera especulação. Sublinhou que isto é o que acontece de facto quando os governos caem, como durante uma insurreição civil. As pessoas começam desesperadamente a armazenar comida, a armar-se e a afastar-se dos vizinhos. O que faria o leitor se amanhã de manhã ao acordar descobrisse que por causa de uma catástrofe o governo tinha caído, não havendo leis, polícia ou tribunais em funcionamento?” (págs. 204 e 206)